{"id":55927,"date":"2026-04-05T09:00:00","date_gmt":"2026-04-05T12:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/latinoamerica21.com\/?p=55927"},"modified":"2026-04-06T10:47:29","modified_gmt":"2026-04-06T13:47:29","slug":"as-remessas-sustentam-economias-mas-esvaziam-lares","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/as-remessas-sustentam-economias-mas-esvaziam-lares\/","title":{"rendered":"As remessas sustentam economias, mas esvaziam lares"},"content":{"rendered":"\n<p>Segundo as Na\u00e7\u00f5es Unidas, mais de 43 milh\u00f5es de latino-americanos vivem fora de seu pa\u00eds de origem, quase o dobro do n\u00famero registrado no in\u00edcio dos anos 90. Isso significa que quase um em cada sete migrantes do mundo vem da Am\u00e9rica Latina e do Caribe. Milh\u00f5es de pessoas abandonam seus pa\u00edses em busca de oportunidades que suas economias n\u00e3o conseguem oferecer. Dos Estados Unidos \u00e0 Europa, aqueles que conseguem se estabelecer no exterior enviam dinheiro para casa e sustentam suas fam\u00edlias. Em termos econ\u00f4micos, o fen\u00f4meno parece at\u00e9 virtuoso, pois as remessas se tornaram um dos fluxos financeiros mais importantes para a regi\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo o Banco Mundial, a Am\u00e9rica Latina e o Caribe receberam mais de 155 bilh\u00f5es de d\u00f3lares em remessas em 2023, um valor recorde que continua crescendo a cada ano. Em alguns casos, as remessas representam mais de 20% do PIB nacional. No entanto, medir a migra\u00e7\u00e3o apenas em termos de dinheiro \u00e9 uma forma incompleta de entender o fen\u00f4meno. As transfer\u00eancias financeiras sustentam o consumo familiar, mas n\u00e3o substituem a presen\u00e7a daqueles que partiram. Em muitos lares latino-americanos, o dinheiro chega pontualmente a cada m\u00eas, mas a vida cotidiana se reorganiza em torno de uma aus\u00eancia permanente.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa transforma\u00e7\u00e3o deu origem ao que <a href=\"https:\/\/investigacion.ubu.es\/documentos\/5db18063299952477238abe5\">os soci\u00f3logos chamam de <em>fam\u00edlias transnacionais<\/em><\/a>, ou seja, n\u00facleos familiares espalhados por v\u00e1rios pa\u00edses que mant\u00eam seus la\u00e7os por meio da tecnologia e de contatos espor\u00e1dicos. Pais que trabalham em outro continente enquanto seus filhos crescem com av\u00f3s ou tios, casais que passam anos separados, crian\u00e7as que veem seus pais apenas nas f\u00e9rias. Um relat\u00f3rio da UNICEF sobre crian\u00e7as que permanecem em seus pa\u00edses enquanto seus pais migram aponta que, em v\u00e1rios pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina e do Caribe, entre 7% e 21% dos menores vivem com pelo menos um dos pais no exterior. A migra\u00e7\u00e3o pode melhorar a renda familiar, mas estudos sobre seus efeitos sociais mostram uma realidade mais complexa. A UNICEF alerta que, embora o aumento da renda possa melhorar as condi\u00e7\u00f5es materiais do lar, a separa\u00e7\u00e3o prolongada costuma gerar efeitos psicol\u00f3gicos negativos associados \u00e0 aus\u00eancia dos pais, como ansiedade, sentimentos de abandono ou inseguran\u00e7a emocional.<\/p>\n\n\n\n<p>Esses efeitos nem sempre aparecem nas estat\u00edsticas macroecon\u00f4micas, mas influenciam o desenvolvimento cotidiano de crian\u00e7as e adolescentes. A supervis\u00e3o familiar diminui, o acompanhamento escolar torna-se irregular e a autoridade afetiva do lar enfraquece. A escola perde, assim, um de seus principais aliados: a fam\u00edlia. Diversos estudos regionais mostram, ent\u00e3o, que os lares com migra\u00e7\u00e3o parental apresentam com maior frequ\u00eancia dificuldades de acompanhamento escolar, especialmente em contextos de baixa renda. O problema n\u00e3o \u00e9 apenas acad\u00eamico; ele tamb\u00e9m altera o horizonte de expectativas dos jovens. Em muitas comunidades latino-americanas, a mensagem impl\u00edcita j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 \u201cestude para progredir aqui\u201d, mas algo mais pragm\u00e1tico: \u201cEstude o suficiente para poder ir embora\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa mudan\u00e7a cultural reflete uma profunda diferen\u00e7a geracional. As gera\u00e7\u00f5es anteriores cresceram com a expectativa de construir sua vida dentro de seu pr\u00f3prio pa\u00eds. Especialmente em contextos de crise econ\u00f4mica, o progresso era concebido como um processo local, que consistia em estudar, trabalhar, formar uma fam\u00edlia e melhorar as condi\u00e7\u00f5es de vida no mesmo territ\u00f3rio. Hoje, para milh\u00f5es de jovens latino-americanos, o sucesso est\u00e1 cada vez mais associado \u00e0 possibilidade de emigrar. A migra\u00e7\u00e3o deixou de ser uma exce\u00e7\u00e3o e se tornou uma estrat\u00e9gia familiar coletiva.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma consequ\u00eancia \u00e9 o impacto na sa\u00fade mental dos jovens. <a href=\"https:\/\/www.unicef.org\/lac\/media\/40961\/file\/Ninos-afectados-por-la-migracion%20.pdf\">Segundo a UNICEF<\/a>, os transtornos mentais entre os jovens geram perdas econ\u00f4micas superiores a 30 bilh\u00f5es de d\u00f3lares por ano na Am\u00e9rica Latina e no Caribe, devido \u00e0 diminui\u00e7\u00e3o da produtividade e ao abandono escolar. Embora esses problemas tenham m\u00faltiplas causas, a fragmenta\u00e7\u00e3o familiar surge cada vez mais como um fator relevante no bem-estar emocional de crian\u00e7as e adolescentes. A aus\u00eancia prolongada de figuras parentais afeta n\u00e3o apenas o desenvolvimento emocional, mas tamb\u00e9m a capacidade dos jovens de construir redes de apoio est\u00e1veis. Em contextos onde a pobreza, a desigualdade e a viol\u00eancia j\u00e1 s\u00e3o problemas estruturais, essa fragilidade pode gerar novas vulnerabilidades sociais. A rela\u00e7\u00e3o entre migra\u00e7\u00e3o e delinqu\u00eancia juvenil n\u00e3o \u00e9 direta, mas diversos estudos concordam que a aus\u00eancia prolongada de supervis\u00e3o familiar pode aumentar os fatores de risco, especialmente em bairros onde o Estado tem uma presen\u00e7a fraca e as economias ilegais oferecem oportunidades imediatas de renda.<\/p>\n\n\n\n<p>A regi\u00e3o registra algumas das taxas de homic\u00eddio mais altas do mundo. Dados do Banco Interamericano de Desenvolvimento e das Na\u00e7\u00f5es Unidas mostram que a Am\u00e9rica Latina e o Caribe apresentam uma taxa de homic\u00eddios pr\u00f3xima a 18 por 100.000 habitantes, aproximadamente tr\u00eas vezes a m\u00e9dia global. Al\u00e9m disso, cerca de metade dos homic\u00eddios na regi\u00e3o est\u00e1 ligada ao crime organizado, uma propor\u00e7\u00e3o muito superior \u00e0 m\u00e9dia mundial. Nesse contexto, as organiza\u00e7\u00f5es criminosas desenvolveram uma not\u00e1vel capacidade de recrutar jovens em comunidades vulner\u00e1veis. Pesquisas da UNICEF sobre viol\u00eancia urbana mostram que gangues e redes de tr\u00e1fico de drogas incorporam menores em tarefas de vigil\u00e2ncia, transporte de drogas, mensageiro e at\u00e9 mesmo assassinato por encomenda.<\/p>\n\n\n\n<p>Esses processos n\u00e3o podem ser explicados apenas pela fragmenta\u00e7\u00e3o familiar, mas tamb\u00e9m n\u00e3o podem ser analisados ignorando esse fator. O crime organizado prospera em contextos onde coexistem tr\u00eas condi\u00e7\u00f5es: a falta de oportunidades econ\u00f4micas, a fragilidade institucional e os ambientes sociais vulner\u00e1veis. Quando a estrutura familiar se enfraquece, uma das barreiras mais importantes contra esses riscos desaparece. A gangue oferece algo que muitos adolescentes buscam desesperadamente, como pertencimento, reconhecimento e uma fonte imediata de renda. Por isso, a discuss\u00e3o sobre migra\u00e7\u00e3o na Am\u00e9rica Latina precisa ser ampliada. Durante anos, o debate p\u00fablico centrou-se nas fronteiras, na regulariza\u00e7\u00e3o ou no impacto econ\u00f4mico das remessas.<\/p>\n\n\n\n<p>Em muitas comunidades rurais e bairros urbanos, uma gera\u00e7\u00e3o inteira est\u00e1 crescendo em lares onde a presen\u00e7a dos pais \u00e9 intermitente ou distante. O resultado \u00e9 uma inf\u00e2ncia diferente daquela que as gera\u00e7\u00f5es anteriores conheceram. A regi\u00e3o enfrenta, assim, um dilema complexo: por um lado, a migra\u00e7\u00e3o continuar\u00e1 sendo uma v\u00e1lvula de escape diante de economias incapazes de absorver toda a sua for\u00e7a de trabalho; por outro, o custo social dessa mobilidade come\u00e7a a se refletir na coes\u00e3o familiar, na educa\u00e7\u00e3o, na sa\u00fade mental e, em alguns casos, na seguran\u00e7a. A Am\u00e9rica Latina precisa come\u00e7ar a medir a migra\u00e7\u00e3o n\u00e3o apenas em d\u00f3lares enviados, mas tamb\u00e9m em la\u00e7os perdidos, lares fragmentados e gera\u00e7\u00f5es que crescem aprendendo a viver com a aus\u00eancia. As remessas sustentam economias, mas as fam\u00edlias sustentam sociedades, e quando estas \u00faltimas se enfraquecem, o impacto acaba se estendendo muito al\u00e9m das estat\u00edsticas econ\u00f4micas.<\/p>\n\n\n\n<p><em><sub>Tradu\u00e7\u00e3o autom\u00e1tica revisada por Isabel Lima<\/sub><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Enquanto as remessas batem recordes e aliviam a situa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica de muitos pa\u00edses da regi\u00e3o, milh\u00f5es de fam\u00edlias latino-americanas se reorganizam em torno de uma aus\u00eancia que deixa marcas sociais, educacionais e emocionais.<\/p>\n","protected":false},"author":96,"featured_media":55913,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"episode_type":"","audio_file":"","cover_image":"","cover_image_id":"","duration":"","filesize":"","filesize_raw":"","date_recorded":"","explicit":"","block":"","itunes_episode_number":"","itunes_title":"","itunes_season_number":"","itunes_episode_type":"","footnotes":""},"categories":[16764,16750],"tags":[15839],"gps":[],"class_list":{"0":"post-55927","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-migracion-pt-br","8":"category-economia-pt-br","9":"tag-ideias-pt-br"},"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/55927","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/96"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=55927"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/55927\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":55928,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/55927\/revisions\/55928"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/55913"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=55927"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=55927"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=55927"},{"taxonomy":"gps","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/gps?post=55927"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}