{"id":56163,"date":"2026-04-22T09:00:00","date_gmt":"2026-04-22T12:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/latinoamerica21.com\/?p=56163"},"modified":"2026-04-22T11:06:35","modified_gmt":"2026-04-22T14:06:35","slug":"a-guerra-no-oriente-medio-a-destruicao-de-uma-ficcao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/a-guerra-no-oriente-medio-a-destruicao-de-uma-ficcao\/","title":{"rendered":"A guerra no Oriente M\u00e9dio: a destrui\u00e7\u00e3o de uma fic\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"\n<p>Cada \u00e9poca tem sua fic\u00e7\u00e3o de estabilidade. Antes da pandemia, o trabalho presencial era a norma. A rigidez n\u00e3o era tecnol\u00f3gica, mas estrat\u00e9gica, j\u00e1 que ser o primeiro a mudar acarretava riscos. Um <em>shock<\/em> externo fez com que, em quest\u00e3o de meses, algumas op\u00e7\u00f5es virtuais que j\u00e1 estavam dispon\u00edveis h\u00e1 anos se tornassem parte da nossa rotina. As tecnologias j\u00e1 existiam; o que era novo era o aumento do custo de n\u00e3o adot\u00e1-las.<\/p>\n\n\n\n<p>Hoje, diante da guerra no Oriente M\u00e9dio, outra fic\u00e7\u00e3o come\u00e7a a ruir: a de uma economia global sustentada indefinidamente por energia barata, rotas seguras e cadeias de abastecimento otimizadas quase exclusivamente pelo custo.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Da efici\u00eancia \u00e0 resili\u00eancia<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Durante d\u00e9cadas, o princ\u00edpio organizador do com\u00e9rcio foi a efici\u00eancia, o \u201cmodelo Shein\u201d: produzir barato, transportar o mais r\u00e1pido poss\u00edvel e reduzir <em>stocks <\/em>ao m\u00ednimo. Esse modelo tinha uma suposi\u00e7\u00e3o impl\u00edcita: um contexto geopol\u00edtico relativamente est\u00e1vel para garantir rotas comerciais abertas e energia acess\u00edvel. Essa base permitiu sustentar um consumo intensivo, cadeias de abastecimento e fornecedores altamente concentrados (semicondutores em Taiwan, terras raras na China, g\u00e1s russo na Europa), fornecedores \u00fanicos, especializa\u00e7\u00e3o m\u00e1xima \u2014 tudo com grandes custos ambientais. J\u00e1 durante a pandemia, o colapso da log\u00edstica mar\u00edtima, com valores de frete que se multiplicaram por dez e portos saturados, mostrou o custo real das cadeias sobreotimizadas. Foi a\u00ed que come\u00e7ou de verdade a busca por redund\u00e2ncia: <em>safety stocks<\/em>, <em>nearshoring<\/em>, m\u00faltiplos fornecedores.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma ordem sustentada por normas, com os Estados Unidos como garante, est\u00e1 perdendo vig\u00eancia. Caminhamos para uma bipolaridade diferente da cl\u00e1ssica, uma \u201cbipolaridade complexa\u201d: uma fragmenta\u00e7\u00e3o em blocos com pot\u00eancias intermedi\u00e1rias ativas, ou uma bipolaridade com interdepend\u00eancia. Nessa transi\u00e7\u00e3o, a in\u00e9rcia do sistema e o pre\u00e7o da convers\u00e3o retardaram a adapta\u00e7\u00e3o tanto das ind\u00fastrias quanto das pol\u00edticas p\u00fablicas. O que o conflito no Oriente M\u00e9dio exp\u00f5e com brutalidade (e realismo pol\u00edtico) \u00e9 que o custo de n\u00e3o mudar est\u00e1 aumentando.<\/p>\n\n\n\n<p>O princ\u00edpio organizador do com\u00e9rcio mundial passa de uma globaliza\u00e7\u00e3o otimizada por custo para uma globaliza\u00e7\u00e3o otimizada por resili\u00eancia. O com\u00e9rcio passa a ser mais redundante, mais regionalizado e mais caro, priorizando a disponibilidade em detrimento do pre\u00e7o. \u00c9 aqui que a Am\u00e9rica Latina, com recursos minerais e energ\u00e9ticos e uma posi\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica que conecta mercados, aparece no mapa daqueles que buscam diversificar.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A geopol\u00edtica entra no Excel<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O encarecimento da energia pode atuar como um disciplinador econ\u00f4mico, levando empresas e Estados a revisar inefici\u00eancias, acelerar a ado\u00e7\u00e3o de energias renov\u00e1veis e da eletrifica\u00e7\u00e3o seletiva, diversificar fornecedores e manter estoques estrat\u00e9gicos para evitar a escassez. O modelo <em>just-in-time<\/em> cede lugar ao <em>just-in-case<\/em>. A efici\u00eancia, que era uma virtude em um mundo unipolar, torna-se uma fragilidade em um mundo organizado sob a bipolaridade.<\/p>\n\n\n\n<p>O conflito tamb\u00e9m acelera a internaliza\u00e7\u00e3o do risco geopol\u00edtico como vari\u00e1vel de neg\u00f3cios. A geopol\u00edtica ultrapassa as chancelarias ou os \u00edndices de <em>think tanks<\/em> e se incorpora \u00e0s planilhas do Excel das empresas, levando em conta sua exposi\u00e7\u00e3o a gargalos, san\u00e7\u00f5es, pr\u00eamios de guerra nos seguros e fragilidade log\u00edstica.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao mesmo tempo, a seguran\u00e7a energ\u00e9tica ganha novo valor como quest\u00e3o de seguran\u00e7a nacional, ou mesmo regional (por exemplo, na Europa), n\u00e3o apenas como vari\u00e1vel de pre\u00e7o ou de ciclo clim\u00e1tico. E, como aconteceu com a pandemia, o <em>shock<\/em> tamb\u00e9m catalisa uma mudan\u00e7a na demanda em atitudes mais privadas, como a aten\u00e7\u00e3o aos pre\u00e7os dos combust\u00edveis, a conscientiza\u00e7\u00e3o sobre o n\u00edvel de consumo e o aumento do teletrabalho.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Uma gera\u00e7\u00e3o que j\u00e1 consome de forma diferente<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Esse processo de reorganiza\u00e7\u00e3o dos recursos ocorre em concomit\u00e2ncia com uma mudan\u00e7a geracional que redefine a fisionomia econ\u00f4mica a partir da base. As novas gera\u00e7\u00f5es est\u00e3o consolidando h\u00e1bitos mais compat\u00edveis com um mundo fragmentado, h\u00edbrido e vol\u00e1til. A Gera\u00e7\u00e3o Z e os millennials priorizam o equil\u00edbrio, o aprendizado, o bem-estar e o prop\u00f3sito, n\u00e3o apenas o sal\u00e1rio, e, na hora de gastar, buscam experi\u00eancia e identidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Juntamente com o reajuste dos incentivos geopol\u00edticos, essa seletividade no comportamento de consumo que surge com a renova\u00e7\u00e3o geracional pode se tornar estrutural e ser um fator decisivo, como o pre\u00e7o do petr\u00f3leo, com implica\u00e7\u00f5es profundas para empresas e pol\u00edticas p\u00fablicas.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Am\u00e9rica Latina: oportunidade ou espectadora?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Nessa reordena\u00e7\u00e3o, a Am\u00e9rica Latina ocupa uma posi\u00e7\u00e3o que raramente teve: a de regi\u00e3o com ativos estrat\u00e9gicos em um momento em que o mundo precisa deles. A Argentina tem Vaca Muerta e completa, junto com o Chile e a Bol\u00edvia, o tri\u00e2ngulo do l\u00edtio, um mineral fundamental para a transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica. A Guiana surge como um importante exportador de petr\u00f3leo com uma velocidade que surpreende at\u00e9 mesmo os otimistas. O Brasil combina agroind\u00fastria, hidrocarbonetos <em>offshore<\/em> e uma ind\u00fastria manufatureira de escala regional. E toda a regi\u00e3o oferece portos com acesso simult\u00e2neo ao Atl\u00e2ntico e ao Pac\u00edfico, proximidade com os mercados norte-americanos e europeus, e uma localiza\u00e7\u00e3o que a torna candidata natural para o <em>nearshoring<\/em> em um mundo que busca cadeias de suprimentos mais confi\u00e1veis e menos expostas politicamente.<\/p>\n\n\n\n<p>A isso se soma um ciclo pol\u00edtico que, com nuances importantes de acordo com o pa\u00eds, vem produzindo governos mais pragm\u00e1ticos e voltados para a abertura: da Argentina de Milei ao Chile de Boric em sua segunda metade mais moderada, passando pelo Uruguai, Equador, Panam\u00e1 ou Rep\u00fablica Dominicana. N\u00e3o se trata de converg\u00eancia ideol\u00f3gica: \u00e9 a l\u00f3gica do momento. Um mundo que migra para parceiros previs\u00edveis precisa de interlocutores com regras claras, n\u00e3o com ret\u00f3rica soberanista.<\/p>\n\n\n\n<p>At\u00e9 mesmo a Venezuela, por anos fonte de instabilidade regional, passa por uma normaliza\u00e7\u00e3o cautelosa que, se se consolidar, elimina um dos principais focos de tens\u00e3o do continente.<\/p>\n\n\n\n<p>A regi\u00e3o se beneficiaria de um alinhamento pragm\u00e1tico das chancelarias entre o Oriente e o Ocidente, sem ultrapassar limites inaceit\u00e1veis, de previsibilidade pol\u00edtica e macroecon\u00f4mica, sobretudo por meio de marcos regulat\u00f3rios que atraiam capital e empresas com experi\u00eancia internacional. A janela de oportunidade existe; veremos se h\u00e1 vontade e rapidez suficientes para abri-la antes que outros o fa\u00e7am primeiro.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Um mundo menos ing\u00eanuo<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Nada disso significa negar o \u00f3bvio: as guerras destroem riqueza, geram sofrimento e amplificam as desigualdades. Os efeitos s\u00e3o assim\u00e9tricos e atingem com mais for\u00e7a aqueles que t\u00eam menos margem de adapta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>A guerra no Oriente M\u00e9dio faz parte do ru\u00eddo de um mundo diferente. Um mundo mais caro, provavelmente, mas tamb\u00e9m mais consciente de que a efici\u00eancia sem resili\u00eancia era, no fundo, outra forma de fragilidade. Assim como a pandemia n\u00e3o inventou a digitaliza\u00e7\u00e3o, mas a acelerou, a guerra n\u00e3o est\u00e1 criando do zero um novo modelo econ\u00f4mico: est\u00e1 for\u00e7ando a transi\u00e7\u00e3o para um que j\u00e1 estava em gesta\u00e7\u00e3o. As fic\u00e7\u00f5es se desfazem. O que vier a seguir para a Am\u00e9rica Latina depender\u00e1 do que estivermos construindo hoje com base na leitura do mundo que se aproxima.<\/p>\n\n\n\n<p><em><sub>Tradu\u00e7\u00e3o autom\u00e1tica revisada por Isabel Lima<\/sub><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O conflito p\u00f5e em evid\u00eancia o esgotamento de um modelo global baseado na estabilidade, na energia barata e em cadeias de abastecimento otimizadas em termos de custo.<\/p>\n","protected":false},"author":487,"featured_media":56149,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"episode_type":"","audio_file":"","cover_image":"","cover_image_id":"","duration":"","filesize":"","filesize_raw":"","date_recorded":"","explicit":"","block":"","itunes_episode_number":"","itunes_title":"","itunes_season_number":"","itunes_episode_type":"","footnotes":""},"categories":[17150],"tags":[15839],"gps":[],"class_list":{"0":"post-56163","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-guerra-pt-br","8":"tag-ideias-pt-br"},"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/56163","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/487"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=56163"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/56163\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":56164,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/56163\/revisions\/56164"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/56149"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=56163"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=56163"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=56163"},{"taxonomy":"gps","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/gps?post=56163"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}