{"id":56165,"date":"2026-04-23T09:00:00","date_gmt":"2026-04-23T12:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/latinoamerica21.com\/?p=56165"},"modified":"2026-04-22T11:09:27","modified_gmt":"2026-04-22T14:09:27","slug":"o-eixo-do-sul-como-a-america-latina-e-a-africa-poderiam-redefinir-o-comercio-global","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/o-eixo-do-sul-como-a-america-latina-e-a-africa-poderiam-redefinir-o-comercio-global\/","title":{"rendered":"O eixo do Sul: como a Am\u00e9rica Latina e a \u00c1frica poderiam redefinir o com\u00e9rcio global"},"content":{"rendered":"\n<p>Em Yaound\u00e9, no Camar\u00f5es, longe do centro das aten\u00e7\u00f5es da 14\u00aa Confer\u00eancia Ministerial da Organiza\u00e7\u00e3o Mundial do Com\u00e9rcio (MC14), come\u00e7ou a tomar forma silenciosamente um realinhamento sutil, mas transformador. A \u00c1frica e a Am\u00e9rica Latina, consideradas por muito tempo atores perif\u00e9ricos na economia global, est\u00e3o emergindo como motores capazes de reconfigurar os padr\u00f5es comerciais nas pr\u00f3ximas d\u00e9cadas.<\/p>\n\n\n\n<p>Isso n\u00e3o \u00e9 mera ret\u00f3rica. Os debates na MC14 refletiram um reconhecimento crescente de que o Sul Global j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 um observador passivo do com\u00e9rcio internacional. A \u00c1frica e a regi\u00e3o da Am\u00e9rica Latina e do Caribe est\u00e3o se afirmando cada vez mais como for\u00e7as din\u00e2micas que influenciam a produ\u00e7\u00e3o, o investimento e os fluxos comerciais. As sinergias econ\u00f4micas, as afinidades culturais e as l\u00f3gicas empresariais compartilhadas de suas comunidades de neg\u00f3cios revelam um vasto reservat\u00f3rio de oportunidades pronto para transformar o panorama econ\u00f4mico global.<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo a OMC, o com\u00e9rcio Sul-Sul cresceu de aproximadamente 10% do com\u00e9rcio mundial em meados da d\u00e9cada de 1990 para cerca de 25% atualmente. Com cerca de 90 pa\u00edses, mais de 2 bilh\u00f5es de pessoas e mais de 10 trilh\u00f5es de d\u00f3lares em PIB combinado, a \u00c1frica, a Am\u00e9rica Latina e o Caribe t\u00eam o potencial de deixar de ser postos perif\u00e9ricos para se tornarem centros-chave que moldam o com\u00e9rcio global.<\/p>\n\n\n\n<p>No entanto, o com\u00e9rcio entre essas duas regi\u00f5es continua sendo m\u00ednimo. As exporta\u00e7\u00f5es dos 33 membros da Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (CELAC) para a \u00c1frica representam apenas 0,3% do com\u00e9rcio mundial, enquanto os fluxos na dire\u00e7\u00e3o oposta s\u00e3o ainda menores. As remessas latino-americanas consistem principalmente em produtos agroalimentares processados e bens manufaturados leves \u2014dominados pelo Brasil\u2014, enquanto as exporta\u00e7\u00f5es africanas s\u00e3o principalmente mat\u00e9rias-primas e produtos agr\u00edcolas com baixo grau de processamento. Esse desequil\u00edbrio destaca a oportunidade de construir rela\u00e7\u00f5es comerciais mais diversificadas e mutuamente ben\u00e9ficas.<\/p>\n\n\n\n<p>O impulso pol\u00edtico est\u00e1 em ascens\u00e3o. V\u00e1rios pa\u00edses latino-americanos est\u00e3o aprofundando seus la\u00e7os com parceiros africanos, enquanto se multiplicam as iniciativas destinadas a fortalecer a conectividade inter-regional. Novas rotas mar\u00edtimas \u2014 como o acordo de transporte mar\u00edtimo assinado pelos ministros das Rela\u00e7\u00f5es Exteriores de Gana e da Col\u00f4mbia \u2014 sinalizam um esfor\u00e7o decidido para aproximar ambas as regi\u00f5es por meio do com\u00e9rcio.<\/p>\n\n\n\n<p>Minha pesquisa, <em>Conectando os Sul: Identifica\u00e7\u00e3o de setores estrat\u00e9gicos para o com\u00e9rcio, a coopera\u00e7\u00e3o industrial e as cadeias de valor entre a \u00c1frica e a Am\u00e9rica Latina<\/em>, realizada em conjunto com Sebastian Galindo Cantor, da C\u00e2mara de Com\u00e9rcio Latino-Africana, identifica oportunidades de colabora\u00e7\u00e3o entre comunidades empresariais, investidores e atores industriais em ambas as regi\u00f5es. Ela tamb\u00e9m aborda um ponto cego cr\u00edtico nas an\u00e1lises convencionais do com\u00e9rcio entre a \u00c1frica e a Am\u00e9rica Latina: a conectividade.<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar de seu potencial econ\u00f4mico, os continentes continuam mal conectados. As rotas mar\u00edtimas diretas s\u00e3o escassas, as redes a\u00e9reas limitadas e a infraestrutura digital fragmentada. O com\u00e9rcio tem dificuldade para crescer, n\u00e3o por causa da dist\u00e2ncia geogr\u00e1fica, mas porque os la\u00e7os de transporte e digitais que conectam essas regi\u00f5es s\u00e3o fracos, caros e pouco confi\u00e1veis. Economicamente, a dist\u00e2ncia n\u00e3o se mede em quil\u00f4metros; ela \u00e9 definida pela solidez \u2014 ou fragilidade \u2014 das conex\u00f5es que unem uma regi\u00e3o \u00e0 outra. Mesmo as parcerias mais promissoras n\u00e3o conseguem se expandir sem uma log\u00edstica eficiente, corredores de transporte confi\u00e1veis e sistemas digitais integrados.<\/p>\n\n\n\n<p>No entanto, as semelhan\u00e7as s\u00e3o abundantes. A vida econ\u00f4mica na \u00c1frica e na Am\u00e9rica Latina \u00e9 relacional, adapt\u00e1vel e profundamente enraizada em redes informais que coexistem com mercados formais. As trocas comerciais costumam ser determinadas tanto pela confian\u00e7a, afinidade cultural e pr\u00e1ticas compartilhadas quanto por contratos formais. Essas afinidades subjacentes proporcionam uma base s\u00f3lida para uma coopera\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica estruturada.<\/p>\n\n\n\n<p>As oportunidades setoriais de colabora\u00e7\u00e3o s\u00e3o substanciais. Os sistemas agroalimentares oferecem vias para construir cadeias de valor resilientes que melhorem a seguran\u00e7a alimentar e diversifiquem as exporta\u00e7\u00f5es, passando de mat\u00e9rias-primas para produtos processados de maior valor. Os recursos energ\u00e9ticos \u2014 incluindo energias renov\u00e1veis e bioenergia \u2014 apresentam oportunidades para a industrializa\u00e7\u00e3o conjunta e uma maior autossufici\u00eancia energ\u00e9tica. A manufatura leve, como t\u00eaxteis, confec\u00e7\u00e3o e ind\u00fastrias de montagem, pode impulsionar a moderniza\u00e7\u00e3o industrial e a cria\u00e7\u00e3o de empregos. Os servi\u00e7os digitais e as plataformas log\u00edsticas permitem que as empresas melhorem sua produtividade, ampliem o acesso aos mercados e se integrem a cadeias de valor Sul-Sul mais amplas. Com pol\u00edticas espec\u00edficas e alian\u00e7as inter-regionais, esses pontos fortes podem se transformar em uma coopera\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica sustent\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p>Por isso, as propostas surgidas da MC14 s\u00e3o t\u00e3o importantes. Novos corredores mar\u00edtimos, redes a\u00e9reas ampliadas e plataformas digitais integradas n\u00e3o s\u00e3o simples melhorias; s\u00e3o os futuros canais atrav\u00e9s dos quais o com\u00e9rcio Sul-Sul ser\u00e1 acelerado. No entanto, a infraestrutura por si s\u00f3 n\u00e3o \u00e9 suficiente. Para gerar um impacto significativo, esses corredores devem basear-se em projetos colaborativos conjuntos que conectem os sistemas produtivos da \u00c1frica e da Am\u00e9rica Latina. Ao alinhar as cadeias de valor na agricultura, agroind\u00fastria, energia e manufatura leve, os pa\u00edses de ambas as regi\u00f5es podem transformar as sinergias latentes em coopera\u00e7\u00e3o industrial concreta.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse sentido, a conectividade se torna uma estrat\u00e9gia para reorganizar a produ\u00e7\u00e3o entre os continentes. Os fluxos comerciais fragmentados podem evoluir para ecossistemas econ\u00f4micos integrados e que se refor\u00e7am mutuamente. Se implementadas com sucesso, essas iniciativas poderiam fazer mais do que ampliar os volumes de com\u00e9rcio: poderiam catalisar novas cadeias de valor impulsionadas pelas prioridades do Sul, em vez da demanda das economias do Norte. Durante d\u00e9cadas, a \u00c1frica e a Am\u00e9rica Latina ocuparam posi\u00e7\u00f5es semelhantes na economia global: como exportadoras de mat\u00e9rias-primas e atores perif\u00e9ricos nas cadeias de valor globais, dependentes de mercados externos. Esse paradigma est\u00e1 mudando \u00e0 medida que os la\u00e7os Sul-Sul se aprofundam e se diversificam.<\/p>\n\n\n\n<p>O auge do com\u00e9rcio Sul-Sul est\u00e1 reconfigurando a geografia econ\u00f4mica global. \u00c0 medida que a produ\u00e7\u00e3o, o consumo e a inova\u00e7\u00e3o se descentralizam, a \u00c1frica e a Am\u00e9rica Latina t\u00eam a oportunidade de emergir como centros resilientes e diversificados de uma nova ordem econ\u00f4mica. Para concretizar esse potencial, s\u00e3o necess\u00e1rias tr\u00eas mudan\u00e7as fundamentais:<\/p>\n\n\n\n<p>Primeiro, a infraestrutura como base. Portos, rotas mar\u00edtimas, conex\u00f5es a\u00e9reas e plataformas digitais s\u00e3o pr\u00e9-requisitos para o com\u00e9rcio, n\u00e3o facilitadores opcionais.<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo, os acordos comerciais e a harmoniza\u00e7\u00e3o regulat\u00f3ria s\u00e3o importantes, mas as pol\u00edticas tamb\u00e9m devem envolver o tecido relacional dessas economias: apoiar as PMEs, aproveitar as redes da di\u00e1spora e construir confian\u00e7a entre as comunidades empresariais.<\/p>\n\n\n\n<p>Terceiro, as lacunas de conectividade \u2014 f\u00edsicas, digitais e relacionais \u2014 devem ser reconhecidas como restri\u00e7\u00f5es decisivas que determinam se o potencial econ\u00f4mico pode se tornar realidade.<\/p>\n\n\n\n<p>As implica\u00e7\u00f5es v\u00e3o muito al\u00e9m do com\u00e9rcio bilateral. Preencher as lacunas de conectividade e promover um desenvolvimento coordenado nos setores agroalimentar, energ\u00e9tico, manufatureiro e digital pode criar novos clusters industriais e cadeias de valor regionais. Isso reduziria a depend\u00eancia dos mercados tradicionais do Norte, fortaleceria a resili\u00eancia, fomentaria a inova\u00e7\u00e3o e geraria empregos. Al\u00e9m disso, uma maior integra\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica amplificaria a voz coletiva da \u00c1frica e da Am\u00e9rica Latina na governan\u00e7a do com\u00e9rcio global, permitindo-lhes negociar a partir de posi\u00e7\u00f5es de maior for\u00e7a e moldar as regras internacionais em conson\u00e2ncia com as prioridades do Sul.<\/p>\n\n\n\n<p>A coopera\u00e7\u00e3o Sul-Sul n\u00e3o \u00e9 mais uma possibilidade te\u00f3rica: \u00e9 uma oportunidade hist\u00f3rica. Ao combinar o desenvolvimento de infraestruturas, a integra\u00e7\u00e3o de cadeias de valor e a colabora\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica, a \u00c1frica e a Am\u00e9rica Latina podem n\u00e3o apenas expandir o com\u00e9rcio, mas tamb\u00e9m redefinir a arquitetura do com\u00e9rcio global, colocando as prioridades lideradas pelo Sul no centro da ordem econ\u00f4mica do s\u00e9culo XXI.<\/p>\n\n\n\n<p><em><sub>Tradu\u00e7\u00e3o autom\u00e1tica revisada por Isabel Lima<\/sub><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A \u00c1frica e a Am\u00e9rica Latina caminham rumo a uma alian\u00e7a estrat\u00e9gica que, apesar da fraca conectividade atual, poderia transformar o com\u00e9rcio global a partir do Sul.<\/p>\n","protected":false},"author":895,"featured_media":56158,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"episode_type":"","audio_file":"","cover_image":"","cover_image_id":"","duration":"","filesize":"","filesize_raw":"","date_recorded":"","explicit":"","block":"","itunes_episode_number":"","itunes_title":"","itunes_season_number":"","itunes_episode_type":"","footnotes":""},"categories":[16742,16957],"tags":[17187],"gps":[],"class_list":{"0":"post-56165","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-comercio-pt-br","8":"category-sur-global-pt-br","9":"tag-debates-2"},"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/56165","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/895"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=56165"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/56165\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":56166,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/56165\/revisions\/56166"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/56158"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=56165"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=56165"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=56165"},{"taxonomy":"gps","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/gps?post=56165"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}