{"id":5619,"date":"2021-05-23T06:00:00","date_gmt":"2021-05-23T09:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/latinoamerica21.com\/?p=5619"},"modified":"2021-05-20T06:16:09","modified_gmt":"2021-05-20T09:16:09","slug":"a-argentina-e-os-efeitos-indesejados-da-privatizacao-autoritaria","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/a-argentina-e-os-efeitos-indesejados-da-privatizacao-autoritaria\/","title":{"rendered":"A Argentina e os efeitos indesejados da privatiza\u00e7\u00e3o autorit\u00e1ria"},"content":{"rendered":"\n<p><strong><em>Co-autor Ezequiel Raimondo <\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Historicamente, as sociedades t\u00eam oscilado entre se agitar no mundo p\u00fablico ou se entregar ao mundo privado como elei\u00e7\u00f5es para corrigir suas frustra\u00e7\u00f5es e se aproximar da realiza\u00e7\u00e3o de seus interesses e valores. Este p\u00eandulo, ilustrado exemplarmente pelo economista Albert Hirschmann, geralmente explica \u2013 de forma gen\u00e9rica \u2013 o que nos leva em alguns momentos a hiperpolitizar tudo e ganhar as ruas para imediatamente depois nos concentrar em nossas fam\u00edlias, hobbies, vida profissional ou regozijos consumistas com indiferen\u00e7a para com o p\u00fablico.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas o que acontece com a insatisfa\u00e7\u00e3o social e frustra\u00e7\u00e3o individual quando o espa\u00e7o p\u00fablico \u00e9 fechado por raz\u00f5es de emerg\u00eancia sanit\u00e1ria? O que acontece quando as restri\u00e7\u00f5es deixam o mundo privado desidratado a ponto de as pr\u00e1ticas de crescimento individual, de frui\u00e7\u00e3o familiar, de imers\u00e3o no trabalho ou de gratifica\u00e7\u00e3o serem minadas devido \u00e0 evapora\u00e7\u00e3o da renda? O que acontece quando, neste contexto, grande parte dos espa\u00e7os residenciais s\u00e3o insuficientes? Em resumo: Para onde e como se canalizam as frustra\u00e7\u00f5es quando o \u00e2mbito p\u00fablico e o espa\u00e7o privado se confundem ou deixam de existir?<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Restri\u00e7\u00f5es sem v\u00e1lvula de escape<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A abordagem peculiar da Argentina \u00e0 pandemia afundou a esfera privada e seu car\u00e1ter de \u00faltima trincheira para se proteger da ofusca\u00e7\u00e3o com a oferta do mundo p\u00fablico-pol\u00edtico. O governo estigmatizou a ocupa\u00e7\u00e3o desse \u00e2mbito para expressar decep\u00e7\u00f5es coletivas em termos de trai\u00e7\u00e3o social negacionista ou monopoliza\u00e7\u00e3o sect\u00e1ria.<\/p>\n\n\n\n<p>Mediante um severo controle social, restri\u00e7\u00e3o das liberdades, amplia\u00e7\u00e3o de restri\u00e7\u00f5es e o recurso \u00e0 publicidade do medo, a pol\u00edtica oficial de quarentena esvaziou e aumentou o custo de canalizar os protestos.<\/p>\n\n\n\n<p>Como em outras latitudes, sob o r\u00f3tulo de proteger o interesse p\u00fablico, a quarentena for\u00e7ou a privatiza\u00e7\u00e3o da vida. Tudo isso, enquadrado em relatos virtuosos sobre a bondade do claustro e a instrumentaliza\u00e7\u00e3o de medidas econ\u00f4micas paliativas insuficientes e perversas, j\u00e1 que \u2013 por causa de suas consequ\u00eancias inflacion\u00e1rias \u2013 acabaram minando ainda mais as bases do ref\u00fagio privado dos argentinos.<\/p>\n\n\n\n<p>Em nosso pa\u00eds, o esvaziamento punitivo da esfera p\u00fablica foi instrumentalizado paralelamente \u00e0 desprote\u00e7\u00e3o e sufocamento durante quase um ano do espa\u00e7o da vida privada. As expectativas de realiza\u00e7\u00e3o \u00edntima ou individual foram comprimidas com a vigil\u00e2ncia, a busca de disciplina e a profus\u00e3o do medo. O resultado foi que os argentinos ficaram sem uma v\u00e1lvula de escape para canalizar suas frustra\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>Com efeito, o empobrecimento da esfera privada completa sua defici\u00eancia como lugar de realiza\u00e7\u00e3o pessoal, demolindo as bases que permitiriam o autodesenvolvimento. Seja comercial ou profissional, ou em torno do consumo de bens, experi\u00eancias ou sensa\u00e7\u00f5es como a arte, a pr\u00e1tica de dogmas religiosos, tribais ou est\u00e9ticos, entre outros.<\/p>\n\n\n\n<p>Em mais de um sentido, os argentinos est\u00e3o voltando ao seu passado pr\u00e9-democr\u00e1tico, sujeitos a uma privatiza\u00e7\u00e3o autorit\u00e1ria que torna a experi\u00eancia cotidiana insatisfat\u00f3ria. A \u201cordem\u201d de \u201cfechar\u201d o p\u00fablico confina as pessoas, restringe seus espa\u00e7os de sociabilidade e, de fato, as privatiza.<\/p>\n\n\n\n<p>Seu mundo fica cada vez menor e a conectividade \u2013 para aqueles que podem pagar \u2013torna-se um fator chave, mas distorce os la\u00e7os sociais. Uma aula presencial n\u00e3o \u00e9 o mesmo que uma virtual. Uma sess\u00e3o parlamentar presencial n\u00e3o \u00e9 o mesmo que uma sess\u00e3o remota. Visitar um parente n\u00e3o \u00e9 o mesmo que v\u00ea-lo em uma tela.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O que est\u00e1 por vir<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Como extrapolar esta exaspera\u00e7\u00e3o e sentimentos de fracasso quando as esferas privada e p\u00fablica est\u00e3o simultaneamente fechadas? Hirschmann, pensando no indiv\u00edduo, deu tr\u00eas alternativas: a sa\u00edda, a voz e a lealdade. A voz consiste em reivindicar e participar publicamente, uma op\u00e7\u00e3o bloqueada por medidas restritivas que a reduzem a potes e panelas isoladas, participa\u00e7\u00e3o em redes sociais e marchas cada vez menos convocadas.<\/p>\n\n\n\n<p>A sa\u00edda consiste na fuga para a vida \u00edntima ou privada, cada vez mais esvaziada pela escassez. Haveria tamb\u00e9m a sa\u00edda como identifica\u00e7\u00e3o com outro tipo de oferta \u2013 seja ela pol\u00edtica, de mercado ou espiritual \u2013 um cen\u00e1rio atualmente enfraquecido devido \u00e0 falta de lideran\u00e7a. Por \u00faltimo, Hirschmann reconheceu a lealdade, que \u00e9 seguida \u00e0 risca por um ter\u00e7o da popula\u00e7\u00e3o alinhada ao governo como eleitor ou como clientela e expressado por uma esp\u00e9cie de in\u00e9rcia acr\u00edtica. Este triplo enquadramento hoje fica insuficiente para dar conta das experi\u00eancias da sociedade argentina.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando a vida p\u00fablica e privada desencantam e os protestos c\u00edvicos convencionais, a deser\u00e7\u00e3o ou o sil\u00eancio leal geram mais descontentamento do que compensa\u00e7\u00e3o, surgem duas outras op\u00e7\u00f5es. Uma delas \u00e9 a implos\u00e3o emocional do sujeito, representada internamente por v\u00edcios e desvios comportamentais. Alcoolismo, obesidade e depress\u00e3o, depend\u00eancia da PlayStation, Netflixmania, viol\u00eancia dom\u00e9stica, dissolu\u00e7\u00e3o familiar e suic\u00eddios abundam.<\/p>\n\n\n\n<p>Esta resposta torna a privatiza\u00e7\u00e3o uma op\u00e7\u00e3o perversa porque, em vez de canalizar essa energia de mobiliza\u00e7\u00e3o p\u00fablica para esferas privadas cl\u00e1ssicas, ela se transforma em uma esp\u00e9cie de implos\u00e3o negativa interna dessa energia. Coletivamente, esta resposta \u00e9 projetada em uma anomia an\u00e1rquica na qual ningu\u00e9m segue as regras e todos perdem tentando maximizar seus lucros \u00e0s custas dos outros.<\/p>\n\n\n\n<p>Outra resposta que est\u00e1 come\u00e7ando a ser vislumbrada de forma desordenada e fragmentada consiste na autoconvoca\u00e7\u00e3o auto-organizada que n\u00e3o \u00e9 convencionalmente p\u00fablica (partid\u00e1ria) nem exclusivamente privada (individualista), mas uma mistura de ambas. Isto, a partir de la\u00e7os e redes horizontais aut\u00f4nomas, aglomerando coletivos antes inexistentes, tais como ONGs n\u00e3o partid\u00e1rias, corpora\u00e7\u00f5es com fins sociais e uma infinidade de pequenos agentes articulados como os grupos de pais mobilizados para a reabertura das escolas.<\/p>\n\n\n\n<p>Nestas circunst\u00e2ncias, ser\u00e1 que apenas os indiv\u00edduos e seu equil\u00edbrio psicossocial prec\u00e1rio perdem? Nem um pouco. As perdas s\u00e3o coletivas. O desencanto maci\u00e7o com o mundo privado e pol\u00edtico e a desocupa\u00e7\u00e3o for\u00e7ada da cena p\u00fablica s\u00e3o a receita ideal para desgastar o apoio \u00e0 democracia, a radicaliza\u00e7\u00e3o das opini\u00f5es, a entroniza\u00e7\u00e3o dos l\u00edderes messi\u00e2nicos e a propens\u00e3o \u00e0 ruptura atrav\u00e9s da naturaliza\u00e7\u00e3o do desconhecimento \u00e0s normas legais e de conduta p\u00fablica mais elementares.<\/p>\n\n\n\n<p>A privatiza\u00e7\u00e3o autorit\u00e1ria nos dessensibiliza para as conquistas civilizat\u00f3rias da Argentina, como a democracia pluralista, o esp\u00edrito c\u00edvico, a prosperidade baseada no esfor\u00e7o e no m\u00e9rito, e a aspira\u00e7\u00e3o \u00e0 auto-realiza\u00e7\u00e3o junto com uma sociedade mais integrada. A priva\u00e7\u00e3o de canalizar as frustra\u00e7\u00f5es, mediante a participa\u00e7\u00e3o respons\u00e1vel na vida privada ou p\u00fablica, nos torna indiferentes aos valores e institui\u00e7\u00f5es vinculadas ao progresso individual e coletivo. E, acima de tudo, alimenta o dem\u00f4nio que pode acabar superando os arquitetos da privatiza\u00e7\u00e3o autorit\u00e1ria.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Fabi\u00e1n Echegaray e Ezequiel Raimondoi s\u00e3o autores do livro &#8220;Desencanto Pol\u00edtico Transici\u00f3n y Democracia&#8221;. Colecci\u00f3n Biblioteca Pol\u00edtica Argentina N\u00b0 177. Centro Editor de Am\u00e9rica Latina, 1987.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Co-autor Ezequiel Raimondo<br \/>\nHistoricamente, as sociedades oscilam entre a agita\u00e7\u00e3o no mundo p\u00fablico ou a rendi\u00e7\u00e3o ao mundo privado como escolhas para corrigir suas frustra\u00e7\u00f5es e se aproximar da realiza\u00e7\u00e3o de seus interesses e valores. <\/p>\n","protected":false},"author":90,"featured_media":5615,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"episode_type":"","audio_file":"","cover_image":"","cover_image_id":"","duration":"","filesize":"","filesize_raw":"","date_recorded":"","explicit":"","block":"","itunes_episode_number":"","itunes_title":"","itunes_season_number":"","itunes_episode_type":"","footnotes":""},"categories":[16548,16789,16503,16489,16747,16734],"tags":[],"gps":[],"class_list":{"0":"post-5619","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-pandemia","8":"category-pandemia-pt-br","9":"category-ideologia","10":"category-argentina","11":"category-ideologia-pt-br","12":"category-argentina-pt-br"},"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5619","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/90"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5619"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5619\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/5615"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5619"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5619"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5619"},{"taxonomy":"gps","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/gps?post=5619"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}