{"id":56262,"date":"2026-05-02T09:00:00","date_gmt":"2026-05-02T12:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/latinoamerica21.com\/?p=56262"},"modified":"2026-04-30T14:42:32","modified_gmt":"2026-04-30T17:42:32","slug":"duas-venezuelas-uma-reconciliacao-pendente","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/duas-venezuelas-uma-reconciliacao-pendente\/","title":{"rendered":"Duas Venezuelas: uma reconcilia\u00e7\u00e3o pendente"},"content":{"rendered":"\n<p>Ap\u00f3s anos de crise pol\u00edtica, migra\u00e7\u00e3o em massa e fragmenta\u00e7\u00e3o social, a Venezuela n\u00e3o se dividiu apenas geograficamente. O pa\u00eds desenvolveu duas experi\u00eancias que coexistem em paralelo: a daqueles que permanecem no territ\u00f3rio e a daqueles que o apoiam \u00e0 dist\u00e2ncia.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa separa\u00e7\u00e3o deixou de ser s\u00f3 uma consequ\u00eancia da crise. Hoje, ela funciona como um obst\u00e1culo estrutural para qualquer processo de reconstru\u00e7\u00e3o nacional. N\u00e3o se trata de dois pa\u00edses distintos, mas de duas experi\u00eancias do mesmo pa\u00eds que n\u00e3o conseguiram se reconhecer mutuamente.<\/p>\n\n\n\n<p>A ideia de duas Venezuelas tem moldado a compreens\u00e3o do pa\u00eds nos \u00faltimos anos. No entanto, um olhar mais amplo, como ocorre em outros processos migrat\u00f3rios na Am\u00e9rica Latina, evidencia que a experi\u00eancia est\u00e1 fragmentada, mas a ferida \u00e9 compartilhada. Essa desconex\u00e3o n\u00e3o descreve s\u00f3 o presente: condiciona a viabilidade de qualquer cen\u00e1rio de reconstru\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Quem permanece no pa\u00eds carrega o desgaste cotidiano, a incerteza e uma resili\u00eancia pouco reconhecida. Quem emigrou enfrenta a culpa, a nostalgia e a experi\u00eancia de viver entre dois lugares. Ambas as perspectivas s\u00e3o parciais, mas indispens\u00e1veis para compreender o pa\u00eds. O problema n\u00e3o \u00e9 a sua exist\u00eancia, mas a falta de reconhecimento entre elas.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa falta de reconhecimento n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 simb\u00f3lica. Tem efeitos diretos sobre a pol\u00edtica. Isso dificulta a constru\u00e7\u00e3o de agendas comuns, fragmenta as prioridades e debilita a possibilidade de articular lideran\u00e7as com legitimidade transversal. Enquanto uma parte do pa\u00eds age a partir da urg\u00eancia cotidiana e outra a partir da dist\u00e2ncia, a coordena\u00e7\u00e3o entre os atores torna-se fr\u00e1gil e dependente de conjuntura, mais do que de estruturas sustent\u00e1veis, o que limita a possibilidade de manter formas de a\u00e7\u00e3o coletiva ao longo do tempo.<\/p>\n\n\n\n<p>Epis\u00f3dios recentes, como os gritos racistas no ato protagonizado por Mar\u00eda Corina Machado na Plaza del Sol, em Madri, evidenciam at\u00e9 que ponto a polariza\u00e7\u00e3o se reproduz fora do pa\u00eds. Em espa\u00e7os de mobiliza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica no exterior, a linguagem de confronto tende a replicar as mesmas l\u00f3gicas de exclus\u00e3o que marcaram a din\u00e2mica interna do pa\u00eds, o que dificulta a constru\u00e7\u00e3o de marcos m\u00ednimos de reconhecimento entre os atores. Esse tipo de linguagem n\u00e3o s\u00f3 reflete a polariza\u00e7\u00e3o: ela a reproduz e normaliza como forma de a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica.<\/p>\n\n\n\n<p>A rea\u00e7\u00e3o posterior, que incluiu retrata\u00e7\u00f5es p\u00fablicas, estabelece um limite. Ela n\u00e3o corrige o problema, mas confirma que, mesmo em contextos de alto confronto, persiste a necessidade de conten\u00e7\u00e3o. Esse ponto de atrito exp\u00f5e que a reconcilia\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 um gesto simb\u00f3lico, mas uma condi\u00e7\u00e3o ainda n\u00e3o resolvida.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse contexto, a reconcilia\u00e7\u00e3o deixa de ser um slogan e se torna uma condi\u00e7\u00e3o operacional. Sem reconcilia\u00e7\u00e3o entre a Venezuela interna e a externa, qualquer tentativa de reconstru\u00e7\u00e3o institucional ser\u00e1 incompleta e fr\u00e1gil. Sem esse reconhecimento, a fratura n\u00e3o s\u00f3 persiste: se torna um mecanismo que reproduz a desconfian\u00e7a, limita a coordena\u00e7\u00e3o entre os atores e enfraquece a capacidade de construir acordos m\u00ednimos sustent\u00e1veis.<\/p>\n\n\n\n<p>A experi\u00eancia comparada na Am\u00e9rica Latina mostra que os processos de transi\u00e7\u00e3o n\u00e3o se sustentam apenas em acordos entre elites pol\u00edticas, mas na capacidade de integrar atores que operam fora do territ\u00f3rio imediato do Estado. Na Col\u00f4mbia, por exemplo, a di\u00e1spora foi incorporada em mecanismos de participa\u00e7\u00e3o por meio de consultas e espa\u00e7os deliberativos vinculados ao processo de paz. Em El Salvador, o reconhecimento do voto no exterior e do peso estrutural das remessas obrigou a redefinir a rela\u00e7\u00e3o entre o Estado e seus cidad\u00e3os fora do territ\u00f3rio.<\/p>\n\n\n\n<p>Esses mecanismos n\u00e3o resolveram por si s\u00f3s as tens\u00f5es internas, mas permitiram integrar uma dimens\u00e3o que, de outra forma, teria permanecido desconectada do processo pol\u00edtico. A diferen\u00e7a em rela\u00e7\u00e3o ao caso venezuelano \u00e9 que essa integra\u00e7\u00e3o ainda n\u00e3o faz parte de sua arquitetura pol\u00edtica.<\/p>\n\n\n\n<p>No caso venezuelano, a di\u00e1spora n\u00e3o \u00e9 um ator perif\u00e9rico: \u00e9 um componente estrutural do pa\u00eds contempor\u00e2neo. Sua exclus\u00e3o dos mecanismos de delibera\u00e7\u00e3o pol\u00edtica n\u00e3o s\u00f3 reduz a representatividade de qualquer acordo, mas introduz uma forma de legitimidade pol\u00edtica fragmentada que limita sua viabilidade ao longo do tempo.<\/p>\n\n\n\n<p>A disputa pela legitimidade \u2014 quem entende melhor o pa\u00eds, quem sofre mais com ele \u2014 n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 simb\u00f3lica. Ela tem efeitos concretos na capacidade de coordena\u00e7\u00e3o entre atores pol\u00edticos, na defini\u00e7\u00e3o de agendas comuns e na constru\u00e7\u00e3o de acordos sustent\u00e1veis. Quando essa disputa permanece em aberto, a fragmenta\u00e7\u00e3o deixa de ser um diagn\u00f3stico e se torna um obst\u00e1culo operacional.<\/p>\n\n\n\n<p>A reconcilia\u00e7\u00e3o, nesse contexto, n\u00e3o pode ficar no n\u00edvel de um apelo abstrato. Ela requer formas concretas de articula\u00e7\u00e3o entre ambas as experi\u00eancias do pa\u00eds. Isso implica abrir mecanismos de participa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica transnacional, reconhecer a representa\u00e7\u00e3o da di\u00e1spora em processos deliberativos e construir espa\u00e7os institucionais onde essas duas experi\u00eancias possam se encontrar sem que uma invalide a outra. Isso ganha maior relev\u00e2ncia em um contexto em que o retorno em massa n\u00e3o \u00e9 uma possibilidade imediata, o que torna a participa\u00e7\u00e3o transnacional uma via operacional para integrar essa dupla experi\u00eancia do pa\u00eds. Sem esses mecanismos, a di\u00e1spora continua sendo um ator relevante, mas politicamente incompleto.<\/p>\n\n\n\n<p>Em \u00faltima inst\u00e2ncia, a reconcilia\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 apenas um acordo entre atores, mas uma redefini\u00e7\u00e3o da comunidade pol\u00edtica: quem faz parte dela, de onde e sob quais condi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>A capacidade de uma sociedade de se reconciliar consigo mesma define sua possibilidade de avan\u00e7ar. Sem esse passo, qualquer mudan\u00e7a pol\u00edtica continuar\u00e1 operando sobre uma fratura n\u00e3o resolvida, uma din\u00e2mica que tamb\u00e9m se observa em outras sociedades latino-americanas marcadas por processos migrat\u00f3rios prolongados.<\/p>\n\n\n\n<p>A reconcilia\u00e7\u00e3o entre a Venezuela interna e a externa n\u00e3o \u00e9 um resultado autom\u00e1tico da mudan\u00e7a pol\u00edtica. \u00c9 uma condi\u00e7\u00e3o pr\u00e9via para que essa mudan\u00e7a seja sustent\u00e1vel. Sem esse reconhecimento m\u00fatuo, qualquer processo de transi\u00e7\u00e3o partir\u00e1 de uma legitimidade incompleta e de uma capacidade limitada de manter acordos ao longo do tempo. A quest\u00e3o, portanto, n\u00e3o \u00e9 se a reconcilia\u00e7\u00e3o \u00e9 desej\u00e1vel, mas se o pa\u00eds est\u00e1 disposto a arcar com o custo pol\u00edtico de constru\u00ed-la.<\/p>\n\n\n\n<p><em><sub>Tradu\u00e7\u00e3o autom\u00e1tica revisada por Isabel Lima<\/sub><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sem uma reconcilia\u00e7\u00e3o entre a Venezuela interna e a externa, a divis\u00e3o social continuar\u00e1 a limitar qualquer tentativa de reconstru\u00e7\u00e3o nacional sustent\u00e1vel.<\/p>\n","protected":false},"author":897,"featured_media":56255,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"episode_type":"","audio_file":"","cover_image":"","cover_image_id":"","duration":"","filesize":"","filesize_raw":"","date_recorded":"","explicit":"","block":"","itunes_episode_number":"","itunes_title":"","itunes_season_number":"","itunes_episode_type":"","footnotes":""},"categories":[16721,16764],"tags":[17187],"gps":[],"class_list":{"0":"post-56262","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-venezuela-pt-br","8":"category-migracion-pt-br","9":"tag-debates-2"},"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/56262","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/897"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=56262"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/56262\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":56263,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/56262\/revisions\/56263"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/56255"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=56262"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=56262"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=56262"},{"taxonomy":"gps","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/gps?post=56262"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}