{"id":5633,"date":"2021-05-20T08:45:00","date_gmt":"2021-05-20T11:45:00","guid":{"rendered":"http:\/\/latinoamerica21.com\/?p=5633"},"modified":"2021-05-20T07:31:06","modified_gmt":"2021-05-20T10:31:06","slug":"o-dragao-e-o-capitao-brasileiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/o-dragao-e-o-capitao-brasileiro\/","title":{"rendered":"O Drag\u00e3o e o Capit\u00e3o brasileiro"},"content":{"rendered":"\n<p>Jair Bolsonaro \u00e9 o primeiro presidente brasileiro a criticar a China desde 1974, quando o Brasil e a Rep\u00fablica Popular estabeleceram rela\u00e7\u00f5es diplom\u00e1ticas. A vis\u00e3o hostil a Pequim estremece uma parceria central para a pol\u00edtica externa brasileira. A China \u00e9 o maior s\u00f3cio comercial do Brasil, destino de 1\/3 das exporta\u00e7\u00f5es nacionais e uma investidora de peso, sobretudo em energia el\u00e9trica. De onde v\u00eam e quais s\u00e3o os impactos internacionais das manifesta\u00e7\u00f5es de Bolsonaro?<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"http:\/\/latinoamerica21.com\/br\/e-se-todos-nos-formos-para-a-china\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">As rela\u00e7\u00f5es sino-brasileiras continuam fortes em termos econ\u00f4micos. <\/a>Apesar das cr\u00edticas do presidente do Brasil, o com\u00e9rcio cresceu e as perspectivas de investimento seguem promissoras. Contudo, a ascens\u00e3o pol\u00edtica de uma nova direita nacionalista que busca distanciamento de Pequim introduziu tens\u00f5es na parceria, complicando a formula\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica externa e causando problemas, em particular no contexto da pandemia do novo coronav\u00edrus, que refor\u00e7ou a depend\u00eancia brasileira de aux\u00edlio m\u00e9dico chin\u00eas.<\/p>\n\n\n\n<p>As cr\u00edticas de Bolsonaro e de seus aliados \u00e0 China podem ser sintetizadas em tr\u00eas grandes correntes: 1) Econ\u00f4mica, na qual acusa as empresas chinesas de concorr\u00eancia desleal com suas rivais brasileiras; 2) Seguran\u00e7a nacional, em que se preocupa com o controle chin\u00eas de infraestrutura-chave para o desenvolvimento do pa\u00eds, em especial nas \u00e1reas de energia e de telecomunica\u00e7\u00f5es; 3) Cultural, na qual v\u00ea na aproxima\u00e7\u00e3o com a China uma amea\u00e7a \u00e0 identidade nacional brasileira, que apontaria para a vincula\u00e7\u00e3o com os Estados Unidos e a Europa, entendidos como parte de uma heran\u00e7a ocidental comum, baseada no cristianismo. Nos tr\u00eas casos h\u00e1 uma forte rejei\u00e7\u00e3o ao sistema pol\u00edtico da Rep\u00fablica Popular.<\/p>\n\n\n\n<p>Muitos atores pol\u00edticos de destaque expressam essas manifesta\u00e7\u00f5es contra a China. Al\u00e9m do pr\u00f3prio presidente h\u00e1 seus filhos, militares de alta patente, empres\u00e1rios e alguns ministros e ex-titulares das pastas de Educa\u00e7\u00e3o e de Rela\u00e7\u00f5es Exteriores. Tais cr\u00edticas ganharam expressiva difus\u00e3o entre a base de apoiadores de Bolsonaro, com as redes sociais se constituindo um campo fundamental para a veicula\u00e7\u00e3o dessa narrativa.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Bases Sociais da Ret\u00f3rica anti-China<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O Brasil j\u00e1 havia tido um forte discurso anti-China nas d\u00e9cadas iniciais da Guerra Fria, quando o pa\u00eds n\u00e3o reconhecia a Rep\u00fablica Popular e preferia manter rela\u00e7\u00f5es diplom\u00e1ticas com Taiwan. Essas vis\u00f5es pareciam ter desaparecido para as franjas da vida p\u00fablica brasileira a partir das reformas econ\u00f4micas chinesas que transformaram o pa\u00eds em consumidor voraz das commodities exportadas pelo Brasil, como soja, min\u00e9rio de ferro e petr\u00f3leo.<\/p>\n\n\n\n<p>Contudo, o cen\u00e1rio internacional e brasileiro mudou ao longo da d\u00e9cada de 2010, abrindo espa\u00e7o para movimentos pol\u00edticos refrat\u00e1rios \u00e0 China. O boom global de commodities que havia beneficiado o Brasil entrou em decl\u00ednio, em meio \u00e0 recess\u00e3o de 2014-16, da qual at\u00e9 hoje o pa\u00eds n\u00e3o se recuperou. A maior depend\u00eancia econ\u00f4mica do com\u00e9rcio e dos investimentos chineses provocou rea\u00e7\u00f5es negativas de grupos de interesse prejudicados por essa influ\u00eancia, como setores da ind\u00fastria nacional (cal\u00e7ados, brinquedos, t\u00eaxteis).<\/p>\n\n\n\n<p>O recrudescimento de uma cr\u00edtica mais contundente \u00e0 China no Ocidente, em particular nos Estados Unidos, tamb\u00e9m teve consequ\u00eancias no Brasil, pelos fortes la\u00e7os culturais que unem os dois pa\u00edses. A nova direita nacionalista brasileira se inspira em movimentos conservadores e populistas americanos e reproduziu muito do discurso anti-chin\u00eas que esteve no centro da presid\u00eancia de Donald Trump e que tamb\u00e9m est\u00e1 presente, em diferentes graus e nuances, em outros segmentos da sociedade americana.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"alignright size-large is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/latinoamerica21.com\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/225-G-2-4.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-5634\" width=\"388\" height=\"490\" srcset=\"https:\/\/latinoamerica21.com\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/225-G-2-4.jpg 532w, https:\/\/latinoamerica21.com\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/225-G-2-4-238x300.jpg 238w\" sizes=\"auto, (max-width: 388px) 100vw, 388px\" \/><figcaption><sub>Foto do Pal\u00e1cio do Planalto em Foter.com<\/sub><\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>Por fim, o retorno dos militares brasileiros a uma posi\u00e7\u00e3o central na pol\u00edtica brasileira, a partir da elei\u00e7\u00e3o de Bolsonaro \u00e0 presid\u00eancia, tamb\u00e9m teve forte impacto. As For\u00e7as Armadas sempre foram mais cautelosas \u00e0s aproxima\u00e7\u00f5es com a China, reconhecendo a import\u00e2ncia diplom\u00e1tica do pa\u00eds, mas procurando manter reservas.<\/p>\n\n\n\n<p>O capit\u00e3o reformado Bolsonaro \u00e9 um caso extremo dessas posi\u00e7\u00f5es. Em seus tempos de cadete no Ex\u00e9rcito, na d\u00e9cada de 1970, a na\u00e7\u00e3o asi\u00e1tica passava pela revolu\u00e7\u00e3o cultural de Mao Ts\u00e9-Tung e era um dos pa\u00edses mais pobres do mundo. Contudo, mesmo militares moderados veem com preocupa\u00e7\u00e3o a presen\u00e7a chinesa no setor el\u00e9trico brasileiro, controlando distribuidoras-chave como a Companhia Paulista de For\u00e7a e Luz e a linha de transmiss\u00e3o que conecta a usina de Belo Monte, na Amaz\u00f4nia, ao Sudeste. Eles tamb\u00e9m n\u00e3o gostam da perspectiva da empresa chinesa Huawei vencer o leil\u00e3o para implementar o padr\u00e3o 5G no Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A pandemia como catalisadora das tens\u00f5es entre Brasil e China<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/internacional-52388066\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">A pandemia do novo coronav\u00edrus tem funcionado como um catalisador para as rela\u00e7\u00f5es sino-brasileiras.<\/a> A depend\u00eancia econ\u00f4mica do Brasil com a China se aprofundou, com as exporta\u00e7\u00f5es aumentando 7% em 2020, quando o PIB chin\u00eas foi um dos poucos a conseguir crescer. Em compara\u00e7\u00e3o, as vendas brasileiras para os Estados Unidos, seu segundo maior parceiro comercial, ca\u00edram 27,7% no mesmo per\u00edodo.<\/p>\n\n\n\n<p>A urg\u00eancia em obter insumos m\u00e9dicos \u2013 vacinas, respiradores, m\u00e1scaras \u2013 tamb\u00e9m ressaltou o quanto o Brasil depende dos chineses para suprir as necessidades de seu sistema de sa\u00fade. Isso se tornou uma controv\u00e9rsia pol\u00edtico-partid\u00e1ria no pa\u00eds, com l\u00edderes locais de oposi\u00e7\u00e3o como os governadores de S\u00e3o Paulo e do Maranh\u00e3o, buscando parcerias com Pequim. As autoridades paulistas firmaram um acordo para produzir uma vacina em conjunto entre o Instituto Butantan e a empresa chinesa Sinovac.<\/p>\n\n\n\n<p>Em contraponto, o presidente e muitos de seus aliados aprofundaram o discurso cr\u00edtico \u00e0 China, culpando o pa\u00eds pela pandemia, questionando a efic\u00e1cia de sua vacina e at\u00e9 alegando que o Partido Comunista chin\u00eas produziu o coronav\u00edrus em laborat\u00f3rio. Foi uma ret\u00f3rica semelhante \u00e0 que Trump adotou nos Estados Unidos, mas o Brasil \u00e9 muito mais vulner\u00e1vel \u00e0s press\u00f5es chinesas.<\/p>\n\n\n\n<p>Elas se fizeram sentir e em grande medida o governo brasileiro recuou de atos contr\u00e1rios \u00e0 China. Autorizou a Huawei a participar do leil\u00e3o do 5G, encerrando um impasse que durava dois anos. O ministro do Exterior foi substitu\u00eddo por um diplomata que abandonou o discurso cr\u00edtico a Pequim (ainda que tenham pesado tamb\u00e9m outras raz\u00f5es para a troca, como seu mau relacionamento com Estados Unidos e Europa).<\/p>\n\n\n\n<p>\u00a0Por\u00e9m, tais mudan\u00e7as de curso n\u00e3o resolveram o problema de acesso a recursos m\u00e9dicos do Brasil. Na melhor das hip\u00f3teses, o governo brasileiro falhou em se colocar como prioridade para a diplomacia da China. Na pior, suas a\u00e7\u00f5es expuseram o pa\u00eds a sofrer retalia\u00e7\u00f5es em atrasos de vacinas e outros insumos fundamentais para o combate \u00e0 pandemia.<\/p>\n\n\n\n<p><em><sub>Foto do Pal\u00e1cio do Planalto em Foter.com<\/sub><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jair Bolsonaro \u00e9 o primeiro presidente brasileiro a criticar a China desde 1974, quando o Brasil e a Rep\u00fablica Popular estabeleceram rela\u00e7\u00f5es diplom\u00e1ticas. 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