{"id":5688,"date":"2021-05-24T08:45:00","date_gmt":"2021-05-24T11:45:00","guid":{"rendered":"http:\/\/latinoamerica21.com\/?p=5688"},"modified":"2021-05-24T09:38:33","modified_gmt":"2021-05-24T12:38:33","slug":"um-encontro-bananeiro-na-posse-de-lasso","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/um-encontro-bananeiro-na-posse-de-lasso\/","title":{"rendered":"Um encontro bananeiro na posse de Lasso"},"content":{"rendered":"\n<p><em>Presidente do Brasil passou sua inf\u00e2ncia na principal regi\u00e3o produtora de banana do Brasil. Hoje ele visita o Equador, principal exportador mundial do produto.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>A express\u00e3o Rep\u00fablica das Bananas faz parte da hist\u00f3ria e do imagin\u00e1rio pol\u00edtico latino-americano. Ap\u00f3s o produto passar a ser de interesse da estadunidense United Fruit Co, na virada para o s\u00e9culo XX, a banana esteve no centro de v\u00e1rias interven\u00e7\u00f5es militares e golpes de Estado na regi\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Gabriel Garc\u00eda M\u00e1rquez eternizou em vers\u00e3o ficcional o massacre das bananeiras de Aracataca (Col\u00f4mbia) de 1928 em Cem Anos de Solid\u00e3o. Os trabalhadores da empresa fizeram greve por melhores condi\u00e7\u00f5es de trabalho, os EUA amea\u00e7aram invadir a Col\u00f4mbia caso o movimento n\u00e3o fosse reprimido. O governo colombiano, com apoio dos funcion\u00e1rios da empresa estrangeira, matou seus pr\u00f3prios cidad\u00e3os acusando-os de comunistas e deixou feridas at\u00e9 hoje n\u00e3o cicatrizadas.<\/p>\n\n\n\n<p>Mario Vargas Llosa mostrou no recente Tempos \u00c1speros o papel da mesma empresa no golpe de estado patrocinado pelos EUA na Guatemala em 1954. Nesse caso, com o apoio de outros pa\u00edses da regi\u00e3o onde a empresa tamb\u00e9m atuava.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 2014, a decadente United Fruit Co., que desde os anos setenta opera com o nome de Chiquita Brands International, foi comprada por dois grupos brasileiros e \u00e9 dirigida hoje a partir da Su\u00ed\u00e7a. No mesmo ano, em 6 de agosto, Jair Bolsonaro subiu \u00e0 tribuna da C\u00e2mara dos Deputados para acusar uma famigerada articula\u00e7\u00e3o de partidos pol\u00edticos de esquerda de estar por tr\u00e1s da abertura do mercado brasileiro para a importa\u00e7\u00e3o de bananas.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Protecionismo bananeiro<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O ent\u00e3o parlamentar reagia a uma instru\u00e7\u00e3o normativa do minist\u00e9rio da agricultura do Brasil que permitia a importa\u00e7\u00e3o de bananas do Equador com certificados sanit\u00e1rios emitidos por este pr\u00f3prio pa\u00eds. Na pr\u00e1tica, a medida abria o mercado brasileiro de bananas, um dos mais fechados do mundo. Bolsonaro alegou que a ideia \u201ccom toda a certeza foi da companheira Dilma Rousseff porque o Equador faz parte do Foro de S\u00e3o Paulo\u201d (<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=kHE30PG5Zhs\">https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=kHE30PG5Zhs<\/a>). No in\u00edcio do governo Bolsonaro, a regra foi revogada.<\/p>\n\n\n\n<p>O atual presidente do Brasil passou a inf\u00e2ncia em duas pequenas cidades do Vale do Ribeira, regi\u00e3o mais pobre do estado mais rico do Brasil. A maior parte de sua fam\u00edlia segue vivendo na \u00fanica \u00e1rea do Brasil que tem na produ\u00e7\u00e3o bananeira sua principal atividade econ\u00f4mica. Argumenta que concorr\u00eancia equatoriana \u201cbeira o terrorismo\u201d e traria pragas que n\u00e3o existem no Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p>Hoje (24 de maio), pela primeira vez, Bolsonaro visita um pa\u00eds onde a banana \u00e9 t\u00e3o importante quanto na regi\u00e3o onde ele cresceu. As din\u00e2micas produtivas desse produto no Brasil e no Equador, por\u00e9m, s\u00e3o bastante diferentes. O Equador \u00e9 o principal exportador mundial de bananas. Em 2020, exportou 3,3 bilh\u00f5es de d\u00f3lares do produto, enquanto o Brasil vendeu apenas 25 milh\u00f5es, 44% menos que havia exportado em 2010 e menos de um cent\u00e9simo das vendas equatorianas.<\/p>\n\n\n\n<p>A produtividade bananeira m\u00e9dia do Equador \u00e9 de 36 toneladas por hectare (t\/ha), mais do que o dobro da brasileira. Em Miracatu-SP, onde um irm\u00e3o de Bolsonaro \u00e9 o chefe de gabinete do prefeito, a produtividade \u00e9 de 15 t\/ha e em Registro-SP, onde a irm\u00e3 do presidente est\u00e1 internada em decorr\u00eancia da Covid-19, a mesma \u00e1rea produz 17 toneladas em m\u00e9dia.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Outras frutas<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Em 2000, o Brasil exportava o mesmo valor em bananas e uvas. Nos anos seguintes o mercado de bananas seguiu fechado e o de uvas foi aberto. A qualidade das uvas brasileiras melhorou mais do que a das bananas. Vinte anos depois n\u00e3o houve mudan\u00e7a significativa na quantidade de bananas exportadas e a de uvas mais do que triplicou. Ainda que o Brasil importe muito mais uvas do que bananas, o super\u00e1vit na balan\u00e7a de uvas \u00e9 mais do que o dobro do que o de bananas.<\/p>\n\n\n\n<p>Em rela\u00e7\u00e3o a outras frutas, como mangas e mel\u00f5es, os resultados comerciais do Brasil s\u00e3o ainda mais evidentes. Em 2000, o Brasil n\u00e3o exportou mangas e exportou 25 milh\u00f5es de d\u00f3lares em mel\u00f5es. Vinte anos depois, o Brasil exportou 247 milh\u00f5es de d\u00f3lares em mangas e 147 milh\u00f5es de d\u00f3lares em mel\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Diplomacia presidencial<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A partir de 2000 o Brasil liderou a integra\u00e7\u00e3o regional utilizando-se largamente da diplomacia presidencial. A primeira reuni\u00e3o com os doze presidentes da hist\u00f3ria da Am\u00e9rica do Sul foi em Bras\u00edlia no ano de 2000, reunindo presidentes politicamente antag\u00f4nicos como o peruano Alberto Fujimori e o venezuelano Hugo Ch\u00e1vez em torno de uma agenda comum.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"alignright size-large is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/latinoamerica21.com\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/226-H-2-1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-5689\" width=\"349\" height=\"407\" srcset=\"https:\/\/latinoamerica21.com\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/226-H-2-1.jpg 706w, https:\/\/latinoamerica21.com\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/226-H-2-1-257x300.jpg 257w\" sizes=\"auto, (max-width: 349px) 100vw, 349px\" \/><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>Na d\u00e9cada de 2000, houve 12 encontros entre os mandat\u00e1rios de Brasil e Equador. Nesse per\u00edodo, a corrente de com\u00e9rcio entre os dois pa\u00edses cresceu de 151 milh\u00f5es para mais de 1 bilh\u00e3o de d\u00f3lares. Em contraste, nos \u00faltimos 10 anos foram apenas dois encontros presidenciais bilaterais, um em 2013 e outro em 2016. Em 2019, a corrente de com\u00e9rcio entre Brasil e Equador havia retrocedido para 915 milh\u00f5es e em 2020 caiu para 686 milh\u00f5es de d\u00f3lares.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 15 anos era padr\u00e3o que o presidente brasileiro viajasse acompanhado de ministros da \u00e1rea econ\u00f4mica e de empres\u00e1rios de diferentes setores. Em contraste, na delega\u00e7\u00e3o brasileira em Quito hoje se destacam os deputados ideol\u00f3gicos, como Eduardo Bolsonaro e o pastor Marcos Feliciano.<\/p>\n\n\n\n<p>Embora tenha participado da posse de Lacalle Pou no Uruguai, Jair Bolsonaro n\u00e3o esteve na cerim\u00f4nia de in\u00edcio de mandato de outros cinco presidentes da Am\u00e9rica do Sul nos \u00faltimos dois anos (Argentina, Bol\u00edvia, Guiana, Suriname e Venezuela; no \u00faltimo caso, reelei\u00e7\u00e3o).<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Agenda econ\u00f4mica Brasil-Equador<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O com\u00e9rcio bilateral Brasil-Equador \u00e9 marcado por forte assimetria e protecionismo brasileiro. O Brasil vende oito vezes para o Equador do que compra do pa\u00eds. As vendas brasileiras para o Equador, assim como para os outros pa\u00edses da Am\u00e9rica do Sul, s\u00e3o diversificadas e mais intensivas em produtos industrializados. Embora o Equador s\u00f3 responda por 0,5% das vendas totais do Brasil, o pa\u00eds compra mais de 1% dos produtos industrializados que o Brasil vende.<\/p>\n\n\n\n<p>A recupera\u00e7\u00e3o do com\u00e9rcio bilateral e a diminui\u00e7\u00e3o do d\u00e9ficit equatoriano poderia ser vi\u00e1vel com melhoras na infraestrutura e a diminui\u00e7\u00e3o de barreiras n\u00e3o tarif\u00e1rias. Aparentemente, a visita do presidente brasileiro ao Equador ser\u00e1 meramente pol\u00edtica e n\u00e3o apresentar\u00e1 avan\u00e7os na agenda econ\u00f4mica. A estrutura\u00e7\u00e3o da rota multimodal entre o porto de Manta no Pac\u00edfico e Manaus ou a abertura do Brasil para a importa\u00e7\u00e3o de produtos que o Equador \u00e9 muito competitivo, como banana e camar\u00e3o, ficar\u00e3o para outra oportunidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Nos \u00faltimos anos, o Brasil abriu m\u00e3o unilateralmente de seus dois dos dois principais instrumentos que tinha para fomentar suas exporta\u00e7\u00f5es para a regi\u00e3o: o financiamento p\u00f3s-embarque do BNDES e o Conv\u00eanio de Pagamentos e Cr\u00e9ditos Rec\u00edprocos (CCR) da ALADI. Ao n\u00e3o apresentar pol\u00edtica comercial para a Am\u00e9rica do Sul, o Brasil v\u00ea suas exporta\u00e7\u00f5es industriais despencarem.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Guillermo Lasso<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"http:\/\/latinoamerica21.com\/br\/lasso-rompe-a-tendencia-dos-ultimos-14-anos-no-equador\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">O novo presidente equatoriano<\/a> foi eleito ap\u00f3s ter menos de 20% dos votos no primeiro turno e derrotar o novato Andr\u00e9s Arauz no segundo turno por estreita margem. Politicamente de direita e nascido em Guayaquil, principal cidade da costa equatoriana, pr\u00f3xima das \u00e1reas de produ\u00e7\u00e3o de banana e camar\u00e3o, Guillermo Lasso se identifica mais com outros milion\u00e1rios autodeclarados liberais que governaram recentemente na Am\u00e9rica do Sul, como Mauricio Macri ou Sebasti\u00e1n Pi\u00f1era do que com Bolsonaro.<\/p>\n\n\n\n<p>O que poderia ser um encontro de l\u00edderes pol\u00edticos regionais para retomar a diplomacia presidencial e fortalecer a integra\u00e7\u00e3o em temas como sa\u00fade p\u00fablica e recupera\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, parece que se limitar\u00e1 a mais uma express\u00e3o da fragmenta\u00e7\u00e3o pol\u00edtica da Am\u00e9rica do Sul. Nos \u00faltimos dias os presidentes do Chile, Col\u00f4mbia, Paraguai e Uruguai desistiram de comparecer. Os presidentes da Argentina, Bol\u00edvia e Peru n\u00e3o manifestaram interesse em ir a Quito. O presidente da Venezuela nem foi convidado e o Equador tem poucas rela\u00e7\u00f5es com Guiana e Suriname.<\/p>\n\n\n\n<p>Dos onze mandat\u00e1rios da Am\u00e9rica do Sul que poderiam ir \u00e0 posse de Lasso, apenas Bolsonaro est\u00e1 em Quito. A presen\u00e7a do presidente do maior pa\u00eds da regi\u00e3o n\u00e3o atraiu nenhum mandat\u00e1rio vizinho, refletindo uma falta de lideran\u00e7a e isolamento sem precedentes. Nenhuma agenda positiva ser\u00e1 apresentada. Chove em Macondo e nem sobre bananas ir\u00e3o conversar.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p><em><sub>Foto de Chris B Richmond no Foter.com<\/sub><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O presidente brasileiro Jair Bolsonaro passou sua inf\u00e2ncia na principal regi\u00e3o produtora de banana do Brasil. 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