{"id":56921,"date":"2026-06-04T15:00:00","date_gmt":"2026-06-04T18:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/latinoamerica21.com\/?p=56921"},"modified":"2026-06-05T17:40:58","modified_gmt":"2026-06-05T20:40:58","slug":"uma-menina-uma-serpente-e-o-direito-a-cuidar-da-floresta","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/uma-menina-uma-serpente-e-o-direito-a-cuidar-da-floresta\/","title":{"rendered":"Uma menina, uma serpente e o direito a cuidar da floresta"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em 2009, uma menina ind\u00edgena do povo Yepamahs\u00e3, tamb\u00e9m conhecido como tukano, sofreu uma picada de cobra perto de sua comunidade no Territ\u00f3rio Ind\u00edgena do Alto Rio Negro, no noroeste da Amaz\u00f4nia brasileira. Seu caso poderia ter se reduzido a um prontu\u00e1rio m\u00e9dico, mas acabou levantando uma quest\u00e3o muito mais ampla: o que significa garantir o direito \u00e0 sa\u00fade quando a vida, a doen\u00e7a e a cura s\u00e3o entendidos a partir de uma cultura distinta da ocidental?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A menina, identificada como L.T.B., foi atendida em um contexto onde a medicina tradicional ind\u00edgena e a medicina ocidental nem sempre dialogam em p\u00e9 de igualdade. Para o povo Yepamahs\u00e3, a pr\u00e1tica do bahsese faz parte de seu pr\u00f3prio sistema de conhecimento sobre o corpo, a doen\u00e7a, o territ\u00f3rio e a rela\u00e7\u00e3o com outros seres. \u00c9 um conceito que alude a f\u00f3rmulas verbais sagradas ou c\u00e2nticos que os curandeiros tradicionais usam para ativar a cura, proteger as comunidades e purificar os alimentos. N\u00e3o se trata de um acr\u00e9scimo folcl\u00f3rico ou uma cren\u00e7a secund\u00e1ria, mas de uma forma de cuidado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A reclama\u00e7\u00e3o de fundo \u00e9 que o Estado brasileiro garanta o direito \u00e0 sa\u00fade sem preconceitos ou pr\u00e1ticas discriminat\u00f3rias. Isso implica reconhecer que os povos ind\u00edgenas t\u00eam sistemas pr\u00f3prios de cuidado e pr\u00e1ticas tradicionais de cura que n\u00e3o podem ser ignorados pelas pol\u00edticas p\u00fablicas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Quando cuidar das pessoas tamb\u00e9m significa cuidar do territ\u00f3rio<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em muitas comunidades amaz\u00f4nicas, cuidar de uma pessoa n\u00e3o pode ser separado do rio, da floresta, dos animais, dos ciclos ecol\u00f3gicos ou das rela\u00e7\u00f5es espirituais que organizam a vida coletiva. A sa\u00fade n\u00e3o se limita ao atendimento hospitalar ou \u00e0 disponibilidade de medicamentos. Tamb\u00e9m depende do territ\u00f3rio continuar vivo e de respeitar os saberes locais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa perspectiva pode ficar fora das pol\u00edticas p\u00fablicas e resume uma tens\u00e3o hist\u00f3rica na regi\u00e3o: a dificuldade dos Estados latino-americanos em reconhecer as formas ind\u00edgenas de cuidado que n\u00e3o separam o corpo da terra. Mesmo quando existem sistemas voltados \u00e0 sa\u00fade ind\u00edgena, como no Brasil, a lacuna entre os marcos normativos e a pr\u00e1tica cotidiana permanece significativa. O problema n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 de recursos, mas tamb\u00e9m de reconhecimento. Muitas vezes, o Estado oferece assist\u00eancia sem compreender o contexto cultural no qual essa assist\u00eancia deveria ser significativa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>De Manaus \u00e0 Corte Interamericana<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A <a href=\"https:\/\/www.clinicadhda.org\/\">Cl\u00ednica de Direitos Humanos e Direito Ambiental da Universidade Estadual do Amazonas<\/a> decidiu levar essa discuss\u00e3o ao Sistema Interamericano de Direitos Humanos. De Manaus, preparou observa\u00e7\u00f5es escritas e participou da audi\u00eancia p\u00fablica da Corte Interamericana de Direitos Humanos sobre o conte\u00fado e o alcance do direito ao cuidado, solicitada pela Argentina. Sua contribui\u00e7\u00e3o foi incorporar uma perspectiva amaz\u00f4nica e intercultural e demonstrar que, para os povos ind\u00edgenas, o cuidado n\u00e3o pode ser dissociado do territ\u00f3rio, da sa\u00fade coletiva e do saber tradicional.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A Cl\u00ednica n\u00e3o entrou nesse debate por acaso. Criada em 2010, ela forma estudantes de direito utilizando casos reais e trabalha com comunidades cujos direitos costumam ser amea\u00e7ados pela degrada\u00e7\u00e3o ambiental. Com o tempo, integrou-se a redes nacionais e internacionais, incluindo a <a href=\"https:\/\/alianzadeclinicasambientales.com\/\">Alian\u00e7a de Cl\u00ednicas de Direito Ambiental da Am\u00e9rica Latina e do Caribe<\/a>, criada em 2019 para fortalecer a educa\u00e7\u00e3o jur\u00eddica ambiental e a defesa do meio ambiente e dos direitos humanos na regi\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em mar\u00e7o de 2024, duas estudantes de direito da universidade, Isabella Benchaya da Silva e Luciana Valois Coelho da Silva, viajaram de Manaus para San Jos\u00e9, na Costa Rica, para falar perante a Corte Interamericana de Direitos Humanos. Elas estavam acompanhadas por Yupuri Jo\u00e3o Paulo Lima Barreto, um antrop\u00f3logo ind\u00edgena do povo Yepamahs\u00e3. A apresenta\u00e7\u00e3o despertou o interesse da ju\u00edza Ver\u00f3nica G\u00f3mez, que solicitou mais detalhes sobre as pr\u00e1ticas de cuidado dos povos tukano.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A cena tinha um claro valor simb\u00f3lico. Uma universidade p\u00fablica na Amaz\u00f4nia estava levando a um tribunal regional uma quest\u00e3o nascida na floresta tropical: como proteger direitos quando as categorias jur\u00eddicas tradicionais s\u00e3o insuficientes para descrever a vida dos povos ind\u00edgenas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>O direito ao cuidado n\u00e3o \u00e9 neutro<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O parecer consultivo sobre o direito ao cuidado surgiu de um amplo debate. Mas, como costumam ocorrer, o risco era a discuss\u00e3o se concentrar nas experi\u00eancias das sociedades urbanas e majorit\u00e1rias. Quem cuida? Quem recebe os recebe? Quais s\u00e3o as obriga\u00e7\u00f5es dos Estados? Essas s\u00e3o quest\u00f5es necess\u00e1rias, mas insuficientes se n\u00e3o incorporarem as realidades ind\u00edgenas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A Cl\u00ednica prop\u00f4s ampliar a estrutura. O cuidado n\u00e3o pode ser entendido s\u00f3 como uma rela\u00e7\u00e3o entre pessoas. Em contextos ind\u00edgenas, ele tamb\u00e9m inclui a rela\u00e7\u00e3o com o entorno. Essa ideia tem consequ\u00eancias pr\u00e1ticas. Se um rio \u00e9 polu\u00eddo, se uma floresta \u00e9 destru\u00edda ou se uma pol\u00edtica de sa\u00fade desconsidera o conhecimento tradicional, o direito ao cuidado \u00e9 enfraquecido. N\u00e3o porque falte uma palavra na lei, mas porque o pr\u00f3prio tecido que sustenta a vida cotidiana \u00e9 rompido.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A floresta tropical tamb\u00e9m gera direitos<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em 2025, a Corte Interamericana de Direitos Humanos emitiu o Parecer Consultivo OC-31\/25. Nele, reconheceu que os Estados devem adotar medidas para proteger, mitigar e remediar os danos ambientais, n\u00e3o s\u00f3 como um objetivo ambiental, mas tamb\u00e9m como condi\u00e7\u00e3o para garantir outros direitos, incluindo o direito ao cuidado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A Corte tamb\u00e9m observou que as pol\u00edticas p\u00fablicas devem reconhecer diferentes modelos de organiza\u00e7\u00e3o do cuidado e valorizar saberes tradicionais, locais e ind\u00edgenas. Em particular, destacou aqueles que vinculam o cuidado com as pessoas ao cuidado com o meio ambiente. O que j\u00e1 vinha sendo defendido h\u00e1 anos em territ\u00f3rios como o Alto Rio Negro passou a fazer parte do l\u00e9xico jur\u00eddico regional: cuidar das pessoas tamb\u00e9m pode significar cuidar de rios, florestas, animais e outros seres n\u00e3o humanos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A experi\u00eancia da Cl\u00ednica Jur\u00eddica da Universidade Estadual do Amazonas demonstra algo a que a Am\u00e9rica Latina deveria prestar mais aten\u00e7\u00e3o: o direito n\u00e3o \u00e9 produzido s\u00f3 nas capitais ou nos principais tribunais. Ele tamb\u00e9m \u00e9 constru\u00eddo em universidades p\u00fablicas em \u00e1reas remotas e por comunidades ind\u00edgenas, for\u00e7ando uma reavalia\u00e7\u00e3o de categorias aparentemente fechadas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A interven\u00e7\u00e3o perante a Corte Interamericana de Direitos Humanos foi uma forma de levar as vozes amaz\u00f4nicas a um espa\u00e7o onde se definem padr\u00f5es para todo o continente. Foi tamb\u00e9m uma experi\u00eancia formativa para os estudantes, que viram que uma cl\u00ednica jur\u00eddica pode influenciar discuss\u00f5es regionais de alto n\u00edvel sem perder sua conex\u00e3o com a terra.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em tempos de crise ambiental, essa conex\u00e3o \u00e9 fundamental. Os direitos humanos n\u00e3o podem mais ser tratados como se flutuassem acima dos ecossistemas. Na Amaz\u00f4nia, a sa\u00fade depende da terra. O cuidado depende da floresta. E a justi\u00e7a come\u00e7a por ouvir aqueles que sustentam seus modos de vida h\u00e1 gera\u00e7\u00f5es, modos que o direito s\u00f3 agora come\u00e7a a reconhecer.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><sub>Este artigo faz parte da colet\u00e2nea \u201c<a href=\"https:\/\/spda.org.pe\/publicacion\/clinicas-juridicas-ambientales-en-america-latina-y-el-caribe-formacion-territorio-y-justicia-ambiental\/\">Cl\u00ednicas de Direito Ambiental na Am\u00e9rica Latina e no Caribe: Forma\u00e7\u00e3o, Territ\u00f3rio e Justi\u00e7a Ambiental<\/a>\u201d, publicada em maio de 2026 pela Sociedade Peruana de Direito Ambiental, pela Alian\u00e7a de Cl\u00ednicas de Direito Ambiental da Am\u00e9rica Latina e do Caribe e pela Latinoam\u00e9rica21.<\/sub><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O caso de uma menina ind\u00edgena levou \u00e0 Corte Interamericana um debate fundamental: reconhecer que a sa\u00fade e os cuidados tamb\u00e9m dependem dos conhecimentos ancestrais e do territ\u00f3rio.<\/p>\n","protected":false},"author":911,"featured_media":56872,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"episode_type":"","audio_file":"","podmotor_file_id":"","podmotor_episode_id":"","cover_image":"","cover_image_id":"","duration":"","filesize":"","filesize_raw":"","date_recorded":"","explicit":"","block":"","itunes_episode_number":"","itunes_title":"","itunes_season_number":"","itunes_episode_type":"","footnotes":""},"categories":[16897,16751],"tags":[17187],"gps":[],"class_list":["post-56921","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","category-cambio-climatico-pt-br","category-medioambiente-pt-br","tag-debates-2"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/56921","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/911"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=56921"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/56921\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":56923,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/56921\/revisions\/56923"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/56872"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=56921"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=56921"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=56921"},{"taxonomy":"gps","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/gps?post=56921"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}