{"id":56929,"date":"2026-06-07T07:00:00","date_gmt":"2026-06-07T10:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/latinoamerica21.com\/?p=56929"},"modified":"2026-06-05T17:48:06","modified_gmt":"2026-06-05T20:48:06","slug":"crise-resiliencia-ou-inercia-do-regionalismo-latino-americano","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/crise-resiliencia-ou-inercia-do-regionalismo-latino-americano\/","title":{"rendered":"Crise, resili\u00eancia ou in\u00e9rcia do regionalismo latino-americano?"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O estado atual do regionalismo latino-americano j\u00e1 n\u00e3o pode ser adequadamente interpretado em termos de \u201ccrise\u201d. Esse conceito pressup\u00f5e ao menos dois elementos: um car\u00e1ter conjuntural e uma situa\u00e7\u00e3o de urg\u00eancia. Nenhuma dessas condi\u00e7\u00f5es parece descrever o atual estado do regionalismo na Am\u00e9rica Latina. O que se observa n\u00e3o \u00e9 mais um epis\u00f3dio cr\u00edtico excepcional ou transit\u00f3rio, mas uma condi\u00e7\u00e3o mais prolongada de baixa capacidade de atua\u00e7\u00e3o diante de crises internas e fragmenta\u00e7\u00e3o pol\u00edtica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As formas limitadas e adaptativas de regionalismo que conseguiram se consolidar na regi\u00e3o n\u00e3o desconsideram os valiosos, embora t\u00edmidos, esfor\u00e7os para dar continuidade \u00e0 coopera\u00e7\u00e3o regional em \u00e1reas espec\u00edficas, como os impulsionados pelo Consenso de Bras\u00edlia. No entanto, acreditamos que a discuss\u00e3o atual exige deslocar o eixo anal\u00edtico a partir da ideia de \u201ccrise\u201d para outros dilemas, como o dilema entre resili\u00eancia e in\u00e9rcia. Essas duas no\u00e7\u00f5es podem ser confundidas, mas referem-se a fen\u00f4menos distintos. In\u00e9rcia implica mera persist\u00eancia passiva, continuidade sem transforma\u00e7\u00e3o significativa e sobreviv\u00eancia institucional com pouco potencial para produzir resultados substanciais. A resili\u00eancia, por outro lado, implica a capacidade de adapta\u00e7\u00e3o mediante mecanismos de ajuste institucional diante de contextos adversos. \u00c9 mais do que mera sobreviv\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O que emerge \u00e9 um regionalismo essencialmente adaptativo. Talvez o termo n\u00e3o seja grandioso, mas captura uma caracter\u00edstica central do momento atual: organiza\u00e7\u00f5es que buscam preservar n\u00edveis m\u00ednimos de coordena\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e operacionalidade institucional diante de tend\u00eancias crescentes de fragmenta\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica e unilateralismo, moldadas por alinhamentos geopol\u00edticos externos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O caso do Sistema de Integra\u00e7\u00e3o Centro-Americana (SICA) \u00e9 ilustrativo. A reforma do \u201c<a href=\"https:\/\/www.sica.int\/documentos\/reglamento-cmre-01-2026-reglamento-relativo-a-la-integracion-quorum-y-adopcion-de-decisiones-de-los-organos-e-instancias-regionales-del-sica_1_138884.html\">Regulamento Relativo \u00e0 Integra\u00e7\u00e3o, Qu\u00f3rum e Tomada de Decis\u00f5es dos \u00d3rg\u00e3os e Inst\u00e2ncias Regionais do SICA<\/a>\u201d, aprovada em abril de 2026 sem a participa\u00e7\u00e3o da Nicar\u00e1gua, foi apresentada como uma medida destinada a romper a paralisia institucional causada pelo <a href=\"https:\/\/www.swissinfo.ch\/spa\/nicaragua-no-logra-que-su-candidato-sea-elegido-como-nuevo-secretario-general-del-sica\/87455941\">veto permanente de Man\u00e1gua \u00e0 nomea\u00e7\u00e3o do secret\u00e1rio-geral<\/a>. O cargo permanece vago desde 2023 devido \u00e0 rejei\u00e7\u00e3o de v\u00e1rios pa\u00edses aos candidatos indicados pela Nicar\u00e1gua, estreitamente ligados aos regimes de Daniel Ortega e Rosario Murillo. A Nicar\u00e1gua <a href=\"https:\/\/confidencial.digital\/politica\/nicaragua-se-retira-temporalmente-del-sica-por-la-falta-de-eleccion-del-secretario-general\/\">retirou-se temporariamente da SICA em 2024<\/a> pelo conflito em torno da secretaria-geral. Contudo, a SICA continua funcionando mediante mecanismos de coopera\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica em \u00e1reas como sa\u00fade, agricultura, digitaliza\u00e7\u00e3o e gest\u00e3o de riscos, demonstrando que, mesmo em contextos de forte fragmenta\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, os espa\u00e7os funcionais para a coopera\u00e7\u00e3o regional conseguem manter-se relativamente operacionais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A reforma, que flexibiliza as regras de qu\u00f3rum e vota\u00e7\u00e3o, constitui uma importante inova\u00e7\u00e3o numa regi\u00e3o historicamente ligada ao consenso e \u00e0 unanimidade. No entanto, reflete um paradoxo: pode ser vista como um sinal de resili\u00eancia institucional ao evitar bloqueios permanentes e limitar vetos paralisantes, embora n\u00e3o responda a uma l\u00f3gica de aprofundamento da integra\u00e7\u00e3o supranacional, mas sim a uma adapta\u00e7\u00e3o face \u00e0 incapacidade dos mecanismos tradicionais de lidar com conflitos pol\u00edticos persistentes.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A situa\u00e7\u00e3o andina revela outra dimens\u00e3o cr\u00edtica do problema: mesmo sistemas considerados relativamente institucionalizados demonstram dificuldades em disciplinar o comportamento estatal. A Comunidade Andina (CAN) ordenou recentemente ao Equador e \u00e0 Col\u00f4mbia que <a href=\"https:\/\/elpais.com\/america-colombia\/2026-05-08\/la-comunidad-andina-da-10-dias-a-ecuador-y-colombia-para-retirar-los-aranceles-reciprocos.html\">desmantelassem as medidas tarif\u00e1rias e restri\u00e7\u00f5es comerciais rec\u00edprocas<\/a> implementadas desde dezembro de 2025. No entanto, ambos os governos apresentaram recursos contra as resolu\u00e7\u00f5es andinas, prolongando assim a disputa. Atualmente, <a href=\"https:\/\/www.infobae.com\/colombia\/2026\/05\/25\/comunidad-andina-tramitara-recursos-de-ecuador-y-reclamos-de-colombia-en-medio-de-la-disputa-arancelaria-y-fronteriza\/\">a Secretaria-Geral da CAN est\u00e1 analisando os recursos<\/a> decorrentes do conflito sobre as tarifas e as limita\u00e7\u00f5es ao com\u00e9rcio bilateral adotadas pelos dois pa\u00edses.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Embora a CAN tenha conseguido intervir formalmente para fazer cumprir a normativa andina, o conflito testou os limites dessa institucionalidade: o Equador e a Col\u00f4mbia priorizaram agendas nacionais e disputas pessoais que refletem os alinhamentos da regi\u00e3o. A decis\u00e3o equatoriana e colombiana de, primeiro, obstruir o com\u00e9rcio bilateral com medidas restritivas e, em seguida, recorrer das resolu\u00e7\u00f5es andinas, demonstra as dificuldades que os \u00f3rg\u00e3os regionais enfrentam para garantir a implementa\u00e7\u00e3o efetiva de suas decis\u00f5es, mesmo em quest\u00f5es de livre com\u00e9rcio intrarregional.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Al\u00e9m disso, o presidente colombiano Gustavo Petro chegou a sugerir a possibilidade de <a href=\"https:\/\/www.resumenlatinoamericano.org\/2026\/04\/10\/colombia-petro-anuncia-retiro-de-su-pais-de-la-comunidad-andina-por-aranceles-de-ecuador\/\">abandonar a CAN e reorientar as prioridades estrat\u00e9gicas da Col\u00f4mbia para outros espa\u00e7os regionais<\/a>, particularmente o MERCOSUL. Embora a declara\u00e7\u00e3o tenha um claro componente pol\u00edtico decorrente de eventos atuais, ela revela que, mesmo dentro de uma das estruturas regionais mais historicamente institucionalizadas, o exerc\u00edcio da autoridade coletiva depende da exist\u00eancia e da articula\u00e7\u00e3o de interesses comuns e \u00e9 dificultado por divis\u00f5es ideol\u00f3gicas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O regionalismo latino-americano parece operar hoje em um contexto menos orientado para grandes projetos de integra\u00e7\u00e3o profunda e mais focado em fortalecer as capacidades de gest\u00e3o pol\u00edtica, a resolu\u00e7\u00e3o de conflitos e a preserva\u00e7\u00e3o de espa\u00e7os para a coordena\u00e7\u00e3o regional. Nesse contexto, a reforma da SICA pode ser interpretada como um sinal de adapta\u00e7\u00e3o institucional diante de per\u00edodos prolongados de impasse. O relaxamento das regras permitiria romper a paralisia que amea\u00e7a o funcionamento da organiza\u00e7\u00e3o, abrindo caminho para a elei\u00e7\u00e3o de um novo secret\u00e1rio-geral.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">De forma similar, a interven\u00e7\u00e3o da CAN frente ao conflito tarif\u00e1rio entre Equador e Col\u00f4mbia demonstra que os mecanismos regionais ainda mant\u00eam alguma capacidade de media\u00e7\u00e3o em disputas interestatais. Contudo, as dificuldades em obter o cumprimento das resolu\u00e7\u00f5es andinas tamb\u00e9m mostram que essa capacidade permanece limitada e altamente dependente da vontade pol\u00edtica dos governos envolvidos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os la\u00e7os estreitos entre governos como os de Bukele, Noboa, Laura Fern\u00e1ndez e Mulino, e o segundo governo Trump, junto \u00e0s tens\u00f5es cada vez mais vis\u00edveis com l\u00edderes de oposi\u00e7\u00e3o \u2014 como o conflito entre Noboa e Petro \u2014 sugerem que essas prefer\u00eancias ideol\u00f3gicas tamb\u00e9m se projetam no regionalismo latino-americano. Mais do que uma simples diferen\u00e7a de orienta\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, isso tende a aprofundar a fragmenta\u00e7\u00e3o regional e favorecer formas de coopera\u00e7\u00e3o cada vez mais moldadas por alinhamentos geopol\u00edticos externos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em \u00faltima an\u00e1lise, tanto a reforma do SICA quanto as a\u00e7\u00f5es da CAN sugerem que o regionalismo latino-americano contempor\u00e2neo n\u00e3o pode ser entendidas em termos de crise. Embora a regi\u00e3o pare\u00e7a ter se afastado \u2014 pelo menos por ora \u2014 de metas ambiciosas de integra\u00e7\u00e3o, o regionalismo continua demonstrando capacidades de adapta\u00e7\u00e3o e resili\u00eancia. Esses esquemas parecem se reconfigurar para modalidades de coopera\u00e7\u00e3o mais flex\u00edveis e pragm\u00e1ticas, orientadas a preservar a governan\u00e7a regional em contextos pol\u00edticos fragmentados e polarizados. A quest\u00e3o central, portanto, n\u00e3o \u00e9 se essas institui\u00e7\u00f5es sobreviver\u00e3o, mas se essa resili\u00eancia adaptativa poder\u00e1 eventualmente se tornar uma base para a reconstru\u00e7\u00e3o de formas mais robustas e eficazes de governan\u00e7a regional.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em><sub>Tradu\u00e7\u00e3o autom\u00e1tica revisada por Isabel Lima<\/sub><\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Longe de desaparecer, os mecanismos de integra\u00e7\u00e3o da regi\u00e3o buscam se adaptar \u00e0 fragmenta\u00e7\u00e3o pol\u00edtica por meio de f\u00f3rmulas mais flex\u00edveis que preservem espa\u00e7os m\u00ednimos de coopera\u00e7\u00e3o e governan\u00e7a.<\/p>\n","protected":false},"author":463,"featured_media":56944,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"episode_type":"","audio_file":"","podmotor_file_id":"","podmotor_episode_id":"","cover_image":"","cover_image_id":"","duration":"","filesize":"","filesize_raw":"","date_recorded":"","explicit":"","block":"","itunes_episode_number":"","itunes_title":"","itunes_season_number":"","itunes_episode_type":"","footnotes":""},"categories":[16809,16868],"tags":[15839],"gps":[],"class_list":["post-56929","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","category-integracion-regional-en","category-relaiciones-internacionales-en","tag-ideias-pt-br"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/56929","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/463"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=56929"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/56929\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":56931,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/56929\/revisions\/56931"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/56944"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=56929"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=56929"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=56929"},{"taxonomy":"gps","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/gps?post=56929"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}