{"id":56976,"date":"2026-06-10T09:00:00","date_gmt":"2026-06-10T12:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/latinoamerica21.com\/?p=56976"},"modified":"2026-06-09T11:39:34","modified_gmt":"2026-06-09T14:39:34","slug":"a-ira-e-o-odio-como-mobilizadores-do-voto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/a-ira-e-o-odio-como-mobilizadores-do-voto\/","title":{"rendered":"A ira e o \u00f3dio como mobilizadores do voto"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Entre os presidentes latino-americanos, predomina a rejei\u00e7\u00e3o popular. Esquerda ou direita, novos ou antigos, mulheres ou homens: a constante s\u00e3o eleitores que est\u00e3o irritados, insatisfeitos e decepcionados. Evidentemente, h\u00e1 casos que quebram o padr\u00e3o: a mexicana Claudia Sheinbaum e o salvadorenho Nayib Bukele t\u00eam uma imagem positiva que oscila em torno de 70 pontos. No entanto, o panorama geral \u00e9 decepcionante. Dos 18 presidentes da regi\u00e3o pesquisados pela empresa argentina CB, quase 60% t\u00eam uma imagem negativa superior \u00e0 positiva. Em metade desses 18 mandat\u00e1rios, a imagem negativa \u201cmuito ruim\u201d \u00e9 superior a 30%. Portanto, n\u00e3o h\u00e1 apenas rejei\u00e7\u00e3o, mas, em uma porcentagem mais do que significativa, trata-se de uma rejei\u00e7\u00e3o extrema.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Costuma ser uma pergunta frequente por que os presidentes perdem t\u00e3o rapidamente sua imagem positiva, por que logo ap\u00f3s vencerem as elei\u00e7\u00f5es apresentam n\u00edveis de rejei\u00e7\u00e3o t\u00e3o altos e, sobretudo, por que isso n\u00e3o acontecia antes. A pergunta original que ajuda a entender parte dessa tend\u00eancia \u00e9 por que, em primeiro lugar, um presidente venceu: amavam-no ou odiavam mais seu advers\u00e1rio? Em muitos casos, uma resposta poss\u00edvel \u00e9 que o que mobilizou eleitoralmente os eleitores n\u00e3o foi o amor, a esperan\u00e7a ou a felicidade, mas a raiva, o \u00f3dio e o medo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Atualmente, a Bol\u00edvia enfrenta um cen\u00e1rio de m\u00e1xima instabilidade. O presidente Paz alcan\u00e7ou apenas 32 pontos nas elei\u00e7\u00f5es gerais. Sete meses ap\u00f3s assumir o cargo, a tens\u00e3o pol\u00edtica e uma opini\u00e3o p\u00fablica com quase 30 pontos de imagem \u201cmuito ruim\u201d e 44 de rejei\u00e7\u00e3o exp\u00f5em a fragilidade de sua gest\u00e3o. A ascens\u00e3o de Kast no Chile, que obteve apenas 23,9% dos votos nas elei\u00e7\u00f5es gerais, \u00e9 melhor entendida como um voto de protesto contra o governo de Boric, que para muitos se mostrou decepcionante. O caso peruano dispensa maiores explica\u00e7\u00f5es: em abril, Keiko Fujimori obteve apenas 17 pontos, seguida por quatro candidatos que oscilaram em torno de 10 pontos cada um, reflexo de um pa\u00eds fragmentado que, nos \u00faltimos dez anos, teve oito mandat\u00e1rios. Em alguns casos, s\u00e3o presidentes que se enfraquecem, mas em muitos outros s\u00e3o presidentes que vencem com pouca vantagem.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O que se observa em termos gerais \u00e9 que \u00e9 cada vez menos prov\u00e1vel que um candidato obtenha confortavelmente mais de 40% dos votos em elei\u00e7\u00f5es gerais. Isso pode acontecer, dependendo do pa\u00eds e de contextos espec\u00edficos, mas o certo \u00e9 que se trata de cen\u00e1rios de outra \u00e9poca. Se analisarmos 137 elei\u00e7\u00f5es presidenciais gerais em 15 pa\u00edses latino-americanos, o dado \u00e9 evidente: o candidato mais votado em 1980 obtinha, em m\u00e9dia, 49 pontos; na d\u00e9cada de 1990 e, de forma semelhante, na d\u00e9cada de 2000, esse valor caiu para 43 pontos; na d\u00e9cada de 2010, caiu para 40 pontos; e, finalmente, na d\u00e9cada de 2020, reduziu-se para 38 pontos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O recente processo eleitoral colombiano mostra uma nuance nessa an\u00e1lise, expondo ainda mais a din\u00e2mica observada nos demais pa\u00edses: das \u00faltimas nove elei\u00e7\u00f5es presidenciais, apenas em duas os candidatos mais votados obtiveram menos de 40% dos votos; nas demais elei\u00e7\u00f5es \u2014 incluindo a de domingo, 31 de maio (43,7%) \u2014 os resultados superaram esse valor e, juntamente com os 40 pontos alcan\u00e7ados por Cepeda, continua o processo de crescente polariza\u00e7\u00e3o eleitoral que o pa\u00eds vive desde 2014.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Apesar desse caso, em termos gerais, um candidato presidencial vencedor m\u00e9dio na Am\u00e9rica Latina obt\u00e9m hoje 10 pontos percentuais a menos do que obtinha na d\u00e9cada de 1980. As maiorias enfraqueceram, se fragmentaram. O que as unia, lhes dava for\u00e7a e as alimentava, parece ter diminu\u00eddo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Cada vez \u00e9 mais dif\u00edcil mobilizar o eleitor com base na felicidade ou na esperan\u00e7a. Vivemos em sociedades frustradas, com priva\u00e7\u00f5es herdadas e futuros sinuosos. Infelizmente, n\u00e3o abundam as satisfa\u00e7\u00f5es nem a perspectiva de uma vida melhor. A chave em muitas estrat\u00e9gias pol\u00edticas atuais reside em dinamizar o comportamento eleitoral apenas a partir da orienta\u00e7\u00e3o da rejei\u00e7\u00e3o em dire\u00e7\u00e3o a um antagonista.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Segundo a teoria da Intelig\u00eancia Afetiva, desenvolvida por Marcus, Neuman e MacKuen em seu c\u00e9lebre livro de 2000, <em>Affective Intelligence and Political Judgment<\/em>, algumas emo\u00e7\u00f5es combinam doses adicionais de energia ps\u00edquica e de estado de alerta que resultam na mobiliza\u00e7\u00e3o dos eleitores. Trabalhos como o do polit\u00f3logo Valentino identificaram que, dentre todas as emo\u00e7\u00f5es, a raiva e o \u00f3dio s\u00e3o as que apresentam melhor desempenho nessa tarefa. A atribui\u00e7\u00e3o de culpa, a percep\u00e7\u00e3o de que uma pessoa ou grupo \u00e9 o causador do meu mal-estar e a ideia de que, ao votar em X, estou punindo Y s\u00e3o alguns dos motores eleitorais mais relevantes atualmente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Esses comportamentos, por si s\u00f3s, n\u00e3o explicam o resultado eleitoral, mas, em contextos de fragmenta\u00e7\u00e3o partid\u00e1ria, mal-estar econ\u00f4mico e crise de representa\u00e7\u00e3o, tornam-se recursos especialmente eficazes para mobilizar eleitores. Todo esse mal-estar que as pessoas vivem \u00e9 traduzido \u2014 e, em muitos casos, intensificado \u2014 pela pol\u00edtica como raiva contra um candidato ou grupo. E se essa raiva ultrapassa o contexto eleitoral, transforma-se em \u00f3dio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em tempos em que as maiorias se enfraquecem, as minorias intensas s\u00e3o a chave eleitoral. Mas \u00e9 somente quando essa intensidade se direciona para um antagonista que a magia eleitoral acontece. Onde havia pessoas isoladas, poucos pontos em comum e uma dire\u00e7\u00e3o err\u00e1tica, surgem a ordem, a dire\u00e7\u00e3o e a for\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A Am\u00e9rica Latina n\u00e3o \u00e9 um caso isolado. Em grande parte do Ocidente, o que prevalece n\u00e3o \u00e9 o amor pelos pr\u00f3prios, a representa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e a conex\u00e3o com um partido ou candidato. O que ganhou maior relev\u00e2ncia \u00e9 a rejei\u00e7\u00e3o, e o que muitas vezes os eleitores buscam \u00e9 em quem votar para prejudicar quem mais detestam. Como diria o polit\u00f3logo Giuliano da Empoli, a f\u00f3rmula destes tempos \u00e9 raiva mais algoritmo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Alimentar as campanhas eleitorais com emo\u00e7\u00f5es como a raiva, o medo e o \u00f3dio parece ter-se tornado um dos ant\u00eddotos eleitorais mais eficazes para sociedades fragmentadas, exauridas e desiludidas com a pol\u00edtica. Embora haja um ganho eleitoral, o custo manifesta-se em presidentes fracos e apoios ef\u00e9meros da opini\u00e3o p\u00fablica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O conflito \u00e9 inerente \u00e0 pol\u00edtica; quando se expressa em paix\u00f5es, pode ser um instrumento poderoso para vencer, mas acaba sendo insuficiente \u2014 e perigoso \u2014 para governar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em><sub>Tradu\u00e7\u00e3o autom\u00e1tica revisada por Isabel Lima<\/sub><\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em uma Am\u00e9rica Latina marcada pelo desencanto, a raiva, o medo e a rejei\u00e7\u00e3o tornaram-se fatores decisivos para mobilizar os eleitores, embora \u00e0 custa de governos mais fracos e apoios inst\u00e1veis.<\/p>\n","protected":false},"author":724,"featured_media":56969,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"episode_type":"","audio_file":"","podmotor_file_id":"","podmotor_episode_id":"","cover_image":"","cover_image_id":"","duration":"","filesize":"","filesize_raw":"","date_recorded":"","explicit":"","block":"","itunes_episode_number":"","itunes_title":"","itunes_season_number":"","itunes_episode_type":"","footnotes":""},"categories":[16711,16797],"tags":[17187],"gps":[],"class_list":["post-56976","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","category-elecciones-pt-br","category-polarizacion-pt-br","tag-debates-2"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/56976","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/724"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=56976"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/56976\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":56978,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/56976\/revisions\/56978"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/56969"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=56976"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=56976"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=56976"},{"taxonomy":"gps","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/gps?post=56976"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}