{"id":57314,"date":"2026-06-26T09:00:00","date_gmt":"2026-06-26T12:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/latinoamerica21.com\/?p=57314"},"modified":"2026-06-25T15:34:34","modified_gmt":"2026-06-25T18:34:34","slug":"o-custo-geopolitico-de-ter-subestimado-a-america-latina","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/o-custo-geopolitico-de-ter-subestimado-a-america-latina\/","title":{"rendered":"O custo geopol\u00edtico de ter subestimado a Am\u00e9rica Latina"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A retomada e a concretiza\u00e7\u00e3o do acordo UE-Mercosul devem ser interpretadas hoje como um ato de conten\u00e7\u00e3o de danos geopol\u00edticos, mais do que como um tratado de livre com\u00e9rcio convencional. N\u00e3o se trata simplesmente de reduzir as tarifas sobre produtos prim\u00e1rios, mas de reconstruir uma ponte transatl\u00e2ntica que sirva de contrapeso \u00e0 hegemonia de um ator autocr\u00e1tico na regi\u00e3o, como \u00e9 o caso da China<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para a Europa e a Am\u00e9rica Latina, este momento n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 uma encruzilhada geopol\u00edtica, mas o despertar de uma mem\u00f3ria compartilhada. Assim como nas antigas cr\u00f4nicas de Tolkien, quando a sombra se alonga e as for\u00e7as das trevas parecem dominar o tabuleiro do mundo, a salva\u00e7\u00e3o n\u00e3o reside em novas estrat\u00e9gias individuais, mas no despertar daquela antiga amizade que nunca deixou de existir.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O adiamento sistem\u00e1tico do acordo entre a Uni\u00e3o Europeia e o Mercosul n\u00e3o representou apenas uma oportunidade comercial desperdi\u00e7ada; constituiu, fundamentalmente, um dos maiores erros de c\u00e1lculo estrat\u00e9gico da Europa do p\u00f3s-guerra. Ao tratar a Am\u00e9rica Latina como uma periferia previs\u00edvel \u2014 um dep\u00f3sito de mat\u00e9rias-primas com o qual negociar a partir de uma condescend\u00eancia burocr\u00e1tica e pretens\u00f5es assim\u00e9tricas \u2014, Bruxelas agiu sob a ilus\u00e3o de que o tempo era um recurso infinito e de que a regi\u00e3o esperaria indefinidamente em sua antec\u00e2mara.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa indiferen\u00e7a das \u00faltimas d\u00e9cadas representa uma anomalia tr\u00e1gica e uma ren\u00fancia ao seu pr\u00f3prio patrim\u00f4nio como civiliza\u00e7\u00e3o. Ao contr\u00e1rio de outras regi\u00f5es do mundo, onde as rela\u00e7\u00f5es entre as pot\u00eancias globais s\u00e3o frequentemente mediadas por profundas divis\u00f5es de idioma, tradi\u00e7\u00e3o e vis\u00e3o de mundo, o v\u00ednculo transatl\u00e2ntico se baseia em uma matriz compartilhada. Quando a Uni\u00e3o Europeia virou as costas para o Mercosul, n\u00e3o estava ignorando um ator distante, mas sim sua pr\u00f3pria extens\u00e3o institucional e cultural no hemisf\u00e9rio ocidental.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 crucial compreender que essa miopia n\u00e3o diz respeito exclusivamente \u00e0 din\u00e2mica interna do Mercosul; ela reflete, na verdade, uma crise mais profunda e estrutural em toda a rela\u00e7\u00e3o entre a Europa e a Am\u00e9rica Latina. O Mercosul \u00e9 a ponta de lan\u00e7a de um v\u00ednculo continental que o Cone Sul concretizou historicamente por meio das correntes do pensamento iluminista, dos debates sobre o constitucionalismo republicano, dos limites ao poder e dos fluxos migrat\u00f3rios que transformaram suas principais cidades em espelhos transatl\u00e2nticos das metr\u00f3poles europeias.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As institui\u00e7\u00f5es, a tradi\u00e7\u00e3o jur\u00eddica, a organiza\u00e7\u00e3o universit\u00e1ria e a pr\u00f3pria concep\u00e7\u00e3o de cidad\u00e3o em toda a regi\u00e3o n\u00e3o s\u00e3o elementos estranhos, mas cap\u00edtulos de uma mesma hist\u00f3ria intelectual. Ao subestimar essa afinidade continental, a diplomacia da UE esqueceu que os valores que hoje tenta defender em escala global \u2014 o Estado de Direito, a democracia representativa e as liberdades individuais \u2014 j\u00e1 encontravam um terreno f\u00e9rtil e natural na Am\u00e9rica Latina. Longe das narrativas que tentam encaixotar a regi\u00e3o em categorias coletivas e imprecisas, o bloco compartilha um destino comum com o Ocidente, fundamentado em princ\u00edpios pol\u00edticos compartilhados.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa subestima\u00e7\u00e3o da autonomia e do potencial da regi\u00e3o gerou um v\u00e1cuo de poder que o pragmatismo de Pequim n\u00e3o hesitou em capitalizar. Enquanto a Uni\u00e3o Europeia se enredava em debates internos, protecionismos agr\u00edcolas disfar\u00e7ados de normas ambientais e uma profissionaliza\u00e7\u00e3o excessiva da desconfian\u00e7a, a China desdobrou uma estrat\u00e9gia de penetra\u00e7\u00e3o silenciosa, mas voraz.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O contraste com a irrup\u00e7\u00e3o de Pequim torna esse ponto implac\u00e1vel: a China entra na regi\u00e3o desprovida de qualquer pretens\u00e3o de afinidade cultural ou comunh\u00e3o de valores; sua abordagem \u00e9 estritamente transacional, guiada por um pragmatismo frio, voltado para a extra\u00e7\u00e3o e a infraestrutura. Ela n\u00e3o busca convencer nem apelar para valores compartilhados, mas sim condicionar. Quando a Europa redescobriu o valor estrat\u00e9gico da regi\u00e3o \u2014 for\u00e7ada pela necessidade de diversificar as cadeias de abastecimento e garantir o acesso a minerais cr\u00edticos \u2014, deparou-se com um mapa regional em que os principais portos, as redes ferrovi\u00e1rias, as usinas hidrel\u00e9tricas e os contratos de l\u00edtio j\u00e1 est\u00e3o em mandarim.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O avan\u00e7o chin\u00eas no Cone Sul exp\u00f5e a miopia da diplomacia normativa europeia. Pequim n\u00e3o chegou exigindo reformas institucionais ou padr\u00f5es ocidentais de governan\u00e7a; apresentou-se com financiamento imediato, infraestruturas prontas para uso e uma pol\u00edtica de captura das elites (elite capture) que neutralizou as resist\u00eancias pol\u00edticas. Essa penetra\u00e7\u00e3o n\u00e3o apenas deslocou a Europa em termos de volume comercial, mas tamb\u00e9m come\u00e7ou a alterar o equil\u00edbrio geopol\u00edtico, tirando do Ocidente um aliado natural que compartilha ra\u00edzes culturais, valores hist\u00f3ricos e vis\u00f5es convergentes da ordem global.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Diante do fosso cavado pela arrog\u00e2ncia de uma Europa que preferia dar serm\u00f5es em vez de cooperar, as capitais do Mercosul viram-se for\u00e7adas a aceitar o abra\u00e7o do gigante asi\u00e1tico. O pragmatismo material acabou preenchendo o vazio deixado pela deser\u00e7\u00e3o pol\u00edtica do velho continente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Portanto, a reativa\u00e7\u00e3o e a concretiza\u00e7\u00e3o do acordo UE-Mercosul n\u00e3o devem ser interpretadas como uma transa\u00e7\u00e3o comercial, mas como uma comunidade de destino unida por ra\u00edzes profundas. Se soubermos olhar al\u00e9m das amarras do protecionismo setorial, redescobriremos que o Atl\u00e2ntico n\u00e3o \u00e9 uma dist\u00e2ncia que separa, mas uma ponte que une. Ainda existe espa\u00e7o pol\u00edtico e estrat\u00e9gico para remendar cada ruptura, recuperar o tempo perdido e reavivar uma alian\u00e7a natural.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A coopera\u00e7\u00e3o transatl\u00e2ntica pode e deve ser o eixo de um novo equil\u00edbrio global: nossa Nova Alian\u00e7a para redefinir a governan\u00e7a do Atl\u00e2ntico Sul, fundamentada em institui\u00e7\u00f5es s\u00f3lidas e valores de liberdade que o tempo n\u00e3o conseguiu desgastar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Enquanto a Europa adiava sua aproxima\u00e7\u00e3o com a Am\u00e9rica Latina, a China avan\u00e7ou silenciosamente at\u00e9 se tornar um ator central na regi\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"author":888,"featured_media":57306,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"episode_type":"","audio_file":"","podmotor_file_id":"","podmotor_episode_id":"","cover_image":"","cover_image_id":"","duration":"","filesize":"","filesize_raw":"","date_recorded":"","explicit":"","block":"","itunes_episode_number":"","itunes_title":"","itunes_season_number":"","itunes_episode_type":"","footnotes":""},"categories":[16832,16762],"tags":[15839],"gps":[],"class_list":["post-57314","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","category-union-europea-es-pt-br","category-relaiciones-internacionales-pt-br","tag-ideias-pt-br"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/57314","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/888"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=57314"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/57314\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":57316,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/57314\/revisions\/57316"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/57306"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=57314"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=57314"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=57314"},{"taxonomy":"gps","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/gps?post=57314"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}