{"id":57873,"date":"2026-07-23T09:00:00","date_gmt":"2026-07-23T12:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/latinoamerica21.com\/?p=57873"},"modified":"2026-07-23T22:31:18","modified_gmt":"2026-07-24T01:31:18","slug":"a-nova-promessa-eleitoral-na-america-latina-conectar-ja-nao-basta","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/a-nova-promessa-eleitoral-na-america-latina-conectar-ja-nao-basta\/","title":{"rendered":"A nova promessa eleitoral na Am\u00e9rica Latina: conectar j\u00e1 n\u00e3o basta"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A conectividade tornou-se uma promessa transversal na pol\u00edtica latino-americana. No entanto, a regi\u00e3o n\u00e3o parte do zero: acumula pol\u00edticas, investimentos e aprendizados verific\u00e1veis que permitem distinguir entre an\u00fancios, capacidades de implementa\u00e7\u00e3o e resultados mensur\u00e1veis. A cada ciclo eleitoral, voltam a ser apresentados temas como internet via sat\u00e9lite, escolas conectadas, fibra \u00f3ptica e infraestrutura 5G. Essa coincid\u00eancia revela que a conectividade deixou de ser uma quest\u00e3o setorial para se integrar ao repert\u00f3rio b\u00e1sico do desenvolvimento. Por isso, o debate n\u00e3o deve ser organizado como uma oposi\u00e7\u00e3o entre um passado estagnado e novas promessas. A quest\u00e3o pertinente \u00e9 outra: quais pol\u00edticas geraram avan\u00e7os, onde persistem as lacunas e quais capacidades permitem transformar a conex\u00e3o em valor social e produtivo?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>O que mostram os dados comparativos<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><a href=\"https:\/\/www.emerald.com\/dprg\/article-abstract\/27\/5\/588\/1249040\/Broadband-disparities-and-policy-responses-in\">A pesquisa<\/a> sobre 33 pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina e do Caribe demonstra que as disparidades na banda larga est\u00e3o intimamente associadas ao desenvolvimento socioecon\u00f4mico. A rela\u00e7\u00e3o entre o uso da internet e o \u00edndice de desenvolvimento humano \u00e9 particularmente elevada, e o acesso das fam\u00edlias e a cobertura m\u00f3vel ajudam a explicar diferen\u00e7as importantes entre os pa\u00edses. Esses resultados n\u00e3o permitem atribuir o desempenho a uma \u00fanica tecnologia nem a uma \u00fanica decis\u00e3o governamental; no entanto, mostram que infraestrutura, acessibilidade, capacidades e continuidade institucional atuam de forma conjunta.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A compara\u00e7\u00e3o regional aconselha evitar rankings constru\u00eddos com s\u00f3 um indicador. Um pa\u00eds pode mostrar velocidades elevadas nas principais cidades mantendo atrasos nas \u00e1reas rurais; outro pode ampliar a cobertura de telefonia m\u00f3vel sem resolver a quest\u00e3o da acessibilidade; um terceiro pode conectar escolas sem integrar a tecnologia ao processo pedag\u00f3gico. <strong>A exclus\u00e3o digital tem, ao menos, tr\u00eas dimens\u00f5es<\/strong>: disponibilidade de infraestrutura, acesso e ado\u00e7\u00e3o efetiva, e capacidade de obter benef\u00edcios educacionais, econ\u00f4micos e institucionais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Quatro trajet\u00f3rias que realmente importam<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O Uruguai \u00e9 o caso pioneiro. O Plano Ceibal (2007) combinou dispositivos, conectividade, capacita\u00e7\u00e3o de professores e acompanhamento em escala nacional. Sua li\u00e7\u00e3o mais valiosa n\u00e3o foi distribuir computadores, mas criar uma institui\u00e7\u00e3o capaz de sustentar e adaptar a pol\u00edtica por quase duas d\u00e9cadas \u2014 embora a tecnologia n\u00e3o tenha produzido melhorias uniformes em todos os processos de aprendizagem.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O Chile acumula regulamenta\u00e7\u00e3o, concorr\u00eancia e expans\u00e3o da fibra \u00f3ptica. Sua experi\u00eancia demonstra que a ampla cobertura n\u00e3o elimina as disparidades de qualidade, pre\u00e7o e uso produtivo. O cabo Humboldt, desenvolvido em parceria com o Google, coloca a infraestrutura digital no campo da resili\u00eancia e da geopol\u00edtica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A Argentina, por meio do ARSAT e do Conectar Igualdad, ilustra a utilidade da infraestrutura p\u00fablica e, simultaneamente, o custo das interrup\u00e7\u00f5es: a dificuldade de transformar uma rede troncal em conex\u00f5es acess\u00edveis para todo o territ\u00f3rio nacional persiste como um desafio institucional.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A Costa Rica, com o Fundo Nacional de Telecomunica\u00e7\u00f5es e um quadro institucional setorial est\u00e1vel, lembra que o servi\u00e7o universal exige identificar benefici\u00e1rios, definir subs\u00eddios, supervisionar operadoras e avaliar a qualidade: a capacidade regulat\u00f3ria \u00e9, portanto, parte da infraestrutura.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Brasil: a infraestrutura que n\u00e3o se v\u00ea<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O Brasil deve ser analisado simultaneamente como um grande mercado interno e como um n\u00f3 internacional. Uma parte essencial de sua posi\u00e7\u00e3o digital encontra-se sob o oceano. Fortaleza, juntamente com outros pontos de aterramento, concentra cabos que conectam a Am\u00e9rica do Sul \u00e0 Am\u00e9rica do Norte, \u00e0 Europa e a outros mercados. <a href=\"https:\/\/theconversation.com\/el-sabotaje-de-cables-submarinos-salta-al-tablero-de-la-guerra-hibrida-283531\">Os cabos submarinos transportam a maior parte do tr\u00e1fego internacional de dados<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A conex\u00e3o EllaLink entre Fortaleza e Sines (em opera\u00e7\u00e3o desde 2021) criou uma rota direta entre a Am\u00e9rica do Sul e a Europa, sem passar necessariamente pelos Estados Unidos. Essa diversifica\u00e7\u00e3o reduz a lat\u00eancia, melhora a redund\u00e2ncia e amplia as op\u00e7\u00f5es comerciais, mas levanta quest\u00f5es sobre a depend\u00eancia de grandes plataformas, a seguran\u00e7a de infraestruturas cr\u00edticas e a soberania digital. <strong>A conectividade funciona como um sistema<\/strong>: redes troncal internacionais, centros de dados, pontos de interc\u00e2mbio, fibra \u00f3ptica nacional, redes m\u00f3veis e solu\u00e7\u00f5es de \u00faltima milha. Uma pol\u00edtica que atenda apenas a um desses n\u00edveis ser\u00e1 necessariamente incompleta.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Starlink: fun\u00e7\u00e3o complementar, n\u00e3o substitutiva<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O Starlink vem adquirindo influ\u00eancia crescente sobre a infraestrutura digital latino-americana. \u00c9 preciso, no entanto, ter cautela estat\u00edstica: em julho de 2024, a Anatel registrava apenas 224.700 acessos no Brasil (cerca de 0,5% da banda larga fixa). Seu valor real \u00e9 complementar \u2014 \u00e1reas remotas, escolas, sa\u00fade, log\u00edstica, emerg\u00eancias \u2014, embora depender de um \u00fanico provedor privado acarrete riscos relacionados a pre\u00e7o, jurisdi\u00e7\u00e3o e soberania.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A conveni\u00eancia t\u00e9cnica dos sat\u00e9lites de \u00f3rbita baixa n\u00e3o \u00e9 ideol\u00f3gica. Um consenso eleitoral transversal confirma isso: Brasil, Costa Rica, Peru e Col\u00f4mbia incorporam o sat\u00e9lite em arquiteturas h\u00edbridas. O teste decisivo ser\u00e1 transformar essas promessas em planos neutros, sustent\u00e1veis e articulados com capacidades reais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A agenda pendente<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A agenda j\u00e1 n\u00e3o consiste apenas em conectar territ\u00f3rios, mas em garantir que a conectividade gere capacidades, produtividade e desenvolvimento. A Am\u00e9rica Latina deve completar a cobertura em \u00e1reas rurais, amaz\u00f4nicas, insulares e de baixa densidade por meio de solu\u00e7\u00f5es h\u00edbridas que combinem fibra \u00f3ptica, redes m\u00f3veis, liga\u00e7\u00f5es comunit\u00e1rias e sat\u00e9lites. Mas uma conex\u00e3o cara, lenta ou inst\u00e1vel n\u00e3o representa inclus\u00e3o digital real.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O desafio \u00e9 simultaneamente tecnol\u00f3gico, econ\u00f4mico e institucional: reduzir custos, melhorar a qualidade do servi\u00e7o, formar capacidades digitais, proteger dados, supervisionar provedores e vincular a infraestrutura \u00e0 educa\u00e7\u00e3o, \u00e0 sa\u00fade, aos servi\u00e7os p\u00fablicos e ao empreendedorismo. Essa lacuna \u00e9 especialmente cr\u00edtica para micro, pequenas e m\u00e9dias empresas: dispor de internet n\u00e3o significa poder adotar o com\u00e9rcio eletr\u00f4nico, a an\u00e1lise de dados ou a intelig\u00eancia artificial quando persistem defici\u00eancias em termos de talento, financiamento, seguran\u00e7a cibern\u00e9tica e conformidade regulat\u00f3ria.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Da promessa \u00e0 capacidade de execu\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A conectividade tornou-se um m\u00ednimo pol\u00edtico regional. Justamente por haver precedentes, \u00e9 poss\u00edvel comparar cada nova proposta com pol\u00edticas que deram certo, institui\u00e7\u00f5es que perduraram e erros que n\u00e3o devem se repetir. O Uruguai demonstrou o valor da continuidade institucional; o Chile, a Argentina e a Costa Rica evidenciam a import\u00e2ncia de combinar regulamenta\u00e7\u00e3o, investimento e objetivos de servi\u00e7o universal; o Brasil mostra que a conectividade depende de infraestruturas internacionais invis\u00edveis.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A verdadeira nova promessa n\u00e3o \u00e9 simplesmente conectar quem ainda n\u00e3o est\u00e1 conectado, mas construir institui\u00e7\u00f5es capazes de medir resultados e transformar a conectividade em aprendizado, produtividade, confian\u00e7a, inova\u00e7\u00e3o e desenvolvimento territorial, como faz a funda\u00e7\u00e3o <a href=\"https:\/\/tech4peace.co\/\">tech4peace<\/a> na Col\u00f4mbia. Essa promessa \u00e9 menos espetacular do que uma antena de sat\u00e9lite, mas muito mais dif\u00edcil de cumprir.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A transforma\u00e7\u00e3o digital s\u00f3 gera valor quando institui\u00e7\u00f5es, empresas e comunidades desenvolvem capacidades para governar a tecnologia, gerenciar riscos, formar talentos e impulsionar empreendimentos. O Starlink e outros sistemas de sat\u00e9lite podem preencher as lacunas, mas n\u00e3o substituem a fibra \u00f3ptica, as redes m\u00f3veis, a concorr\u00eancia nem o Estado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Agora que a regi\u00e3o parece ter chegado a um consenso sobre a necessidade de conectar todos os seus territ\u00f3rios, come\u00e7a a discuss\u00e3o realmente importante: como transformar esse acesso digital universal em prosperidade compartilhada.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Duas d\u00e9cadas de pol\u00edticas p\u00fablicas mostram que o desafio \u00e9 completar a cobertura e converter o acesso em capacidades.<\/p>\n","protected":false},"author":431,"featured_media":57826,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"episode_type":"","audio_file":"","podmotor_file_id":"","podmotor_episode_id":"","cover_image":"","cover_image_id":"","duration":"","filesize":"","filesize_raw":"","date_recorded":"","explicit":"","block":"","itunes_episode_number":"","itunes_title":"","itunes_season_number":"","itunes_episode_type":"","footnotes":""},"categories":[16947,16890],"tags":[17187],"gps":[],"class_list":["post-57873","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","category-internet-es-pt-br","category-tecnologia-es-pt-br","tag-debates-2"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/57873","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/431"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=57873"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/57873\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":57881,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/57873\/revisions\/57881"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/57826"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=57873"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=57873"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=57873"},{"taxonomy":"gps","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/gps?post=57873"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}