{"id":57928,"date":"2026-07-25T09:00:00","date_gmt":"2026-07-25T12:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/latinoamerica21.com\/?p=57928"},"modified":"2026-07-26T16:53:14","modified_gmt":"2026-07-26T19:53:14","slug":"a-politica-do-declinio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/a-politica-do-declinio\/","title":{"rendered":"A pol\u00edtica do decl\u00ednio"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A Am\u00e9rica Latina enfrenta um paradoxo que ajuda a explicar boa parte de suas tens\u00f5es pol\u00edticas atuais. Nunca antes tantos cidad\u00e3os haviam conseguido sair da pobreza e ter acesso a n\u00edveis de consumo, educa\u00e7\u00e3o e oportunidades que, durante d\u00e9cadas, estiveram fora de seu alcance. No entanto, raramente a regi\u00e3o havia apresentado n\u00edveis t\u00e3o elevados de volatilidade eleitoral, frustra\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e desconfian\u00e7a em rela\u00e7\u00e3o aos seus l\u00edderes.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Durante as primeiras d\u00e9cadas do s\u00e9culo XXI, a expans\u00e3o da classe m\u00e9dia foi apresentada como uma das grandes conquistas latino-americanas. Milh\u00f5es de fam\u00edlias tiveram acesso, pela primeira vez, ao ensino superior, ao cr\u00e9dito, \u00e0 casa pr\u00f3pria e a uma expectativa de mobilidade social que parecia reservada para outras \u00e9pocas. A promessa era simples: cada gera\u00e7\u00e3o viveria melhor do que a anterior.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa transforma\u00e7\u00e3o foi real. Mas produziu uma consequ\u00eancia menos prevista. A mobilidade social transformou os eleitores mais rapidamente do que os sistemas pol\u00edticos conseguiram se adaptar a eles.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa transforma\u00e7\u00e3o ajuda a compreender o que poder\u00edamos chamar de pol\u00edtica do decl\u00ednio: uma forma de comportamento pol\u00edtico marcada menos pela expectativa de ascens\u00e3o do que pelo medo de perder o que foi conquistado. N\u00e3o se trata de uma explica\u00e7\u00e3o completa da pol\u00edtica latino-americana, mas de uma chave de interpreta\u00e7\u00e3o que ajuda a compreender fen\u00f4menos observ\u00e1veis em diferentes pa\u00edses da regi\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Durante grande parte do s\u00e9culo XX, amplos setores sociais desenvolveram identidades pol\u00edticas est\u00e1veis. Ser de esquerda, de direita, peronista, social-democrata ou nacionalista implicava uma rela\u00e7\u00e3o duradoura com determinadas organiza\u00e7\u00f5es e projetos. Esse v\u00ednculo n\u00e3o desapareceu. Mas as ideologias perderam parte de sua capacidade de reter eleitores quando as expectativas econ\u00f4micas entram em conflito.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A pol\u00edtica latino-americana parece estar passando de uma pol\u00edtica de pertencimento para uma pol\u00edtica de expectativa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A primeira etapa dessa transforma\u00e7\u00e3o foi marcada pela ascens\u00e3o social. A redu\u00e7\u00e3o da pobreza, o acesso ao cr\u00e9dito, a expans\u00e3o da educa\u00e7\u00e3o e o crescimento econ\u00f4mico permitiram que milh\u00f5es de pessoas melhorassem suas condi\u00e7\u00f5es de vida. Mas uma segunda etapa come\u00e7ou a surgir quando o crescimento perdeu dinamismo, a informalidade persistiu e amplos setores descobriram que ascender socialmente n\u00e3o era o mesmo que se sentir seguro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Milh\u00f5es de latino-americanos j\u00e1 n\u00e3o se sentem exclu\u00eddos, mas tamb\u00e9m n\u00e3o se sentem completamente protegidos. Subiram alguns degraus, mas percebem que uma crise econ\u00f4mica, a perda do emprego ou o aumento do custo de vida poderiam faz\u00ea-los retroceder. N\u00e3o vivem necessariamente a experi\u00eancia da pobreza. Vivem a experi\u00eancia da vulnerabilidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A pobreza teme o presente. A classe m\u00e9dia teme o futuro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quem teme o presente busca sobreviver; quem teme o futuro busca preservar, e da\u00ed surgem demandas pol\u00edticas distintas: a primeira impulsiona a inclus\u00e3o, a segunda, a estabilidade. Dessa tens\u00e3o surge a pol\u00edtica do decl\u00ednio. Trata-se de uma rea\u00e7\u00e3o social diante da percep\u00e7\u00e3o de fragilidade que surge quando a principal preocupa\u00e7\u00e3o deixa de ser como avan\u00e7ar e passa a ser como evitar retroceder.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O que milh\u00f5es de cidad\u00e3os buscam n\u00e3o \u00e9 necessariamente um salto espetacular em suas condi\u00e7\u00f5es de vida, mas a possibilidade de conservar o que conquistaram: manter o emprego, conservar a moradia, garantir oportunidades para os filhos e proteger uma posi\u00e7\u00e3o social que levou anos para ser constru\u00edda.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os n\u00fameros ajudam a entender por que essa ansiedade tem fundamento. Segundo dados do Banco Mundial, a classe m\u00e9dia regional passou de 35,2% da popula\u00e7\u00e3o em 2015 para 42,3% em 2024, enquanto a pobreza caiu de 32,8% para 25,5% durante o mesmo per\u00edodo. S\u00e3o esses n\u00fameros que sustentam a narrativa do progresso.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas o pr\u00f3prio Banco Mundial registra, ao lado desses avan\u00e7os, um dado que raramente \u00e9 destacado: a propor\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o vulner\u00e1vel \u2014 com renda acima da linha da pobreza, mas abaixo da classe m\u00e9dia, exposta ao risco de cair para a pobreza diante de qualquer choque econ\u00f4mico \u2014 praticamente n\u00e3o se alterou em uma d\u00e9cada. Em 2015, representava 32,0% da popula\u00e7\u00e3o regional; em 2024, 32,2%. Enquanto a pobreza recuava sete pontos e a classe m\u00e9dia avan\u00e7ava outros sete, essa faixa intermedi\u00e1ria permaneceu estagnada.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Milh\u00f5es de fam\u00edlias ultrapassaram o limiar de renda sem ultrapassar o limiar da seguran\u00e7a. Essa \u00e9, em n\u00fameros, a origem exata da pol\u00edtica do decl\u00ednio: n\u00e3o a aus\u00eancia de progresso, mas um progresso constru\u00eddo sobre uma base que milh\u00f5es de cidad\u00e3os percebem \u2014 com raz\u00e3o estat\u00edstica \u2014 como fr\u00e1gil.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A ansiedade que surge dessa fragilidade ajuda a explicar fen\u00f4menos que, \u00e0 primeira vista, parecem desconexos. A irrup\u00e7\u00e3o de lideran\u00e7as antisistema, a crescente volatilidade eleitoral, o enfraquecimento das lealdades partid\u00e1rias tradicionais e a disposi\u00e7\u00e3o de amplos setores em experimentar op\u00e7\u00f5es pol\u00edticas muito distintas entre si s\u00e3o express\u00f5es diversas de uma mesma preocupa\u00e7\u00e3o: a incerteza sobre o futuro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Algo similar pode ser observado, com nuances pr\u00f3prias, em Argentina, Brasil, Col\u00f4mbia, Peru ou Bol\u00edvia. As respostas pol\u00edticas s\u00e3o diferentes. A ansiedade subjacente costuma ser similar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Isso n\u00e3o significa que as identidades ideol\u00f3gicas tenham desaparecido. Em muitos pa\u00edses, elas continuam a moldar boa parte da disputa pol\u00edtica. Mas parecem coexistir cada vez mais com uma l\u00f3gica baseada em expectativas econ\u00f4micas, percep\u00e7\u00f5es de seguran\u00e7a e capacidade de preservar o que j\u00e1 foi conquistado. A pol\u00edtica da ascens\u00e3o premia as promessas. A pol\u00edtica da perman\u00eancia premia as garantias.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quando as sociedades percebem que est\u00e3o avan\u00e7ando, os cidad\u00e3os costumam demonstrar maior disposi\u00e7\u00e3o para aceitar sacrif\u00edcios tempor\u00e1rios e projetos de longo prazo. Quando surge o medo de um retrocesso, as prioridades mudam. Os eleitores se tornam menos pacientes, mais exigentes e mais dispostos a mudar de op\u00e7\u00e3o pol\u00edtica se considerarem que outra alternativa pode proteger melhor o que j\u00e1 foi conquistado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Se essa \u00e9 a ansiedade dominante de uma parcela crescente da sociedade latino-americana, o desafio para governos, partidos e institui\u00e7\u00f5es ser\u00e1 diferente do das d\u00e9cadas anteriores. N\u00e3o bastar\u00e1 criar oportunidades de mobilidade social. Tamb\u00e9m ser\u00e1 necess\u00e1rio oferecer a seguran\u00e7a necess\u00e1ria para que essa mobilidade possa se sustentar ao longo do tempo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Durante d\u00e9cadas, a quest\u00e3o central foi como ascender. Para uma parcela crescente da Am\u00e9rica Latina, a quest\u00e3o agora parece ser outra: como permanecer. A resposta a essa pergunta n\u00e3o definir\u00e1 apenas os pr\u00f3ximos ciclos eleitorais. Ela tamb\u00e9m ajudar\u00e1 a determinar o tipo de contrato social que a regi\u00e3o ser\u00e1 capaz de construir nas pr\u00f3ximas d\u00e9cadas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O maior medo da nova classe m\u00e9dia latino-americana j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 deixar de subir na vida, mas sim perder o que lhe custou tanto conquistar.<\/p>\n","protected":false},"author":897,"featured_media":57891,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"episode_type":"","audio_file":"","podmotor_file_id":"","podmotor_episode_id":"","cover_image":"","cover_image_id":"","duration":"","filesize":"","filesize_raw":"","date_recorded":"","explicit":"","block":"","itunes_episode_number":"","itunes_title":"","itunes_season_number":"","itunes_episode_type":"","footnotes":""},"categories":[16716,16750],"tags":[15839],"gps":[],"class_list":["post-57928","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","category-desigualdad-es-pt-br","category-economia-pt-br","tag-ideias-pt-br"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/57928","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/897"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=57928"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/57928\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":57930,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/57928\/revisions\/57930"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/57891"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=57928"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=57928"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=57928"},{"taxonomy":"gps","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/gps?post=57928"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}