{"id":58114,"date":"2026-08-05T09:00:00","date_gmt":"2026-08-05T12:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/latinoamerica21.com\/?p=58114"},"modified":"2026-08-04T23:01:27","modified_gmt":"2026-08-05T02:01:27","slug":"lavar-as-maos-culpando-a-china","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/lavar-as-maos-culpando-a-china\/","title":{"rendered":"Lavar as m\u00e3os culpando a China"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O \u00eaxito das exporta\u00e7\u00f5es e o r\u00e1pido crescimento da economia chinesa normalmente seriam motivo de elogios e admira\u00e7\u00e3o, e a estrat\u00e9gia de desenvolvimento que tornou isso poss\u00edvel faria parte dos pacotes de pol\u00edticas cuja ado\u00e7\u00e3o o Banco Mundial, o FMI e os pa\u00edses ricos exigiriam como condi\u00e7\u00e3o para conceder assist\u00eancia financeira aos pa\u00edses pobres. Hist\u00f3rias de sucesso anteriores \u2014 ali\u00e1s, tamb\u00e9m asi\u00e1ticas \u2014 foram apresentadas como exemplos a serem seguidos e batizadas com conceitos inspiradores. Assim, o r\u00e1pido crescimento econ\u00f4mico do Jap\u00e3o do p\u00f3s-guerra foi denominado <em>Milagre Japon\u00eas<\/em>, enquanto Cingapura, a Ilha de Taiwan, Hong Kong e a Rep\u00fablica da Coreia foram celebrados como os <em>Tigres Asi\u00e1ticos<\/em>, devido aos seus sucessos econ\u00f4micos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No entanto, os resultados chineses t\u00eam sido frequentemente descritos no Ocidente com termos negativos, como o <em>Choque Chin\u00eas<\/em> (embora n\u00e3o no artigo acad\u00eamico publicado na <em>American Economic Review<\/em> em 2013, que deu origem ao termo), conceito que posteriormente evoluiu para o <em>Novo Choque Chin\u00eas<\/em> (ou Choque Chin\u00eas 2.0), em decorr\u00eancia de seus recentes sucessos nos mercados mundiais de ve\u00edculos el\u00e9tricos, intelig\u00eancia artificial, baterias, biotecnologia, energias renov\u00e1veis, rob\u00f3tica, semicondutores e outras tecnologias do futuro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em vez de elogios, o <em>China Shock<\/em> costuma ser menosprezado como <em>superprodu\u00e7\u00e3o<\/em>, <em>sobrecapacidade<\/em> e <em>sobreoferta<\/em>, situa\u00e7\u00e3o atribu\u00edda \u00e0s pol\u00edticas industriais (interven\u00e7\u00e3o do Estado na economia) e \u00e0 sele\u00e7\u00e3o de vencedores (<em>champions<\/em>). Isso, esquecendo deliberadamente que essa mesma estrat\u00e9gia tamb\u00e9m esteve na base do Milagre Japon\u00eas e dos sucessos dos Tigres Asi\u00e1ticos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Do ponto de vista da oferta e da demanda, haveria superprodu\u00e7\u00e3o se fossem fixados pre\u00e7os m\u00ednimos (por alguma hipot\u00e9tica autoridade mundial de com\u00e9rcio?), o que, evidentemente, n\u00e3o \u00e9 o caso. A realidade \u00e9 que as empresas chinesas, devido \u00e0 sua elevada produtividade e \u00e0s pol\u00edticas governamentais, deslocaram a curva de oferta para a direita e para baixo, pressionando para baixo os pre\u00e7os nos quais o mercado se equilibra para in\u00fameros produtos industriais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa situa\u00e7\u00e3o traz tr\u00eas consequ\u00eancias socioecon\u00f4micas. Em primeiro lugar, milh\u00f5es de consumidores de baixa e m\u00e9dia renda em todo o mundo puderam adquirir autom\u00f3veis e outros bens industriais a pre\u00e7os acess\u00edveis. Em segundo lugar, o combate \u00e0s mudan\u00e7as clim\u00e1ticas tem sido mais eficaz gra\u00e7as ao acesso a equipamentos de energia renov\u00e1vel de alta tecnologia e baixo custo. E, em terceiro lugar, ind\u00fastrias ocidentais de baixa produtividade e altos custos n\u00e3o conseguiram sobreviver.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os pol\u00edticos ocidentais, em vez de se alegrarem com o aumento do padr\u00e3o de vida de seus consumidores e com as melhores perspectivas na luta contra o aquecimento global decorrentes da integra\u00e7\u00e3o da China na economia mundial, optaram por se alinhar aos interesses de grandes empresas pouco produtivas, com seus conglomerados monopolistas e oligopolistas, e aos financiadores de suas dispendiosas campanhas pol\u00edticas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em vez de defender esses interesses e atribuir a culpa \u00e0 China, os pa\u00edses ocidentais fariam bem em identificar os fatores que explicam a competitividade das empresas desse pa\u00eds. Entre eles, merecem aten\u00e7\u00e3o especial os seguintes: primeiro, um amplo mercado interno, que permite alcan\u00e7ar economias de escala e uma intensa concorr\u00eancia dom\u00e9stica; segundo, altas taxas de poupan\u00e7a e investimento, que impulsionam a acumula\u00e7\u00e3o de capital; terceiro, a continuidade e a previsibilidade da pol\u00edtica econ\u00f4mica, juntamente com a estabilidade pol\u00edtica; quarto, fortes investimentos em educa\u00e7\u00e3o, infraestrutura, energia e pesquisa e desenvolvimento; e, em quinto lugar, uma estrat\u00e9gia de desenvolvimento baseada em uma gest\u00e3o macroecon\u00f4mica s\u00f3lida, planejamento e pol\u00edticas industriais de longo prazo, combinadas com um papel importante do mercado e da iniciativa privada.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Todos esses fatores podem ser replicados no Ocidente. Grande parte da Europa, economicamente integrada sob os acordos da Uni\u00e3o Europeia, e os Estados Unidos, devido ao tamanho de seu mercado, compartilham com a China as vantagens descritas no primeiro ponto.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As altas taxas de poupan\u00e7a e investimento da China resultam de decis\u00f5es pol\u00edticas e de dificuldades hist\u00f3ricas que privilegiam a acumula\u00e7\u00e3o de riqueza e a cultura da precau\u00e7\u00e3o. As sociedades ocidentais optaram por um modelo de crescimento que depende do consumismo como ferramenta para dinamizar a demanda, para que esta, por sua vez, supostamente estimule o investimento e o crescimento econ\u00f4mico. No entanto, as baixas taxas de poupan\u00e7a resultantes dessa abordagem levam a taxas de juros relativamente elevadas, o que, em \u00faltima inst\u00e2ncia, afeta negativamente o investimento, a acumula\u00e7\u00e3o de capital e o crescimento do PIB. Existem ferramentas fiscais, monet\u00e1rias e banc\u00e1rias que permitiriam aumentar as taxas de poupan\u00e7a em qualquer pa\u00eds ocidental. Os obst\u00e1culos para adot\u00e1-las s\u00e3o mais pol\u00edticos do que tecnol\u00f3gicos; trata-se de uma decis\u00e3o nacional, evidentemente n\u00e3o atribu\u00edvel \u00e0 China.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quanto ao terceiro ponto, estabelecer um regime de partido \u00fanico que garanta a continuidade e a previsibilidade do caminho do desenvolvimento n\u00e3o seria uma alternativa realista nem conveniente. No entanto, chegar a acordos que garantam a continuidade das pol\u00edticas econ\u00f4micas estrat\u00e9gicas dentro de sistemas multipartid\u00e1rios \u00e9, sim, uma op\u00e7\u00e3o. Os pol\u00edticos das democracias ocidentais t\u00eam preferido a polariza\u00e7\u00e3o, as conquistas que podem ser apresentadas como resultados a curto prazo, os triunfos eleitorais e as vit\u00f3rias p\u00edrricas, em detrimento de acordos que deem prioridade aos interesses estrat\u00e9gicos nacionais. Mas isso, \u00e9 claro, n\u00e3o \u00e9 culpa da China.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O mesmo pode ser dito sobre o quarto fator. N\u00e3o existem impossibilidades estruturais que impe\u00e7am os pol\u00edticos ocidentais de destinar recursos suficientes \u00e0 educa\u00e7\u00e3o, \u00e0 infraestrutura e \u00e0 pesquisa cient\u00edfica. Na verdade, eles j\u00e1 fizeram isso em outras \u00e9pocas. No entanto, concretizar esse caminho hoje exige redu\u00e7\u00f5es nos gastos militares, aumento dos impostos para os multimilion\u00e1rios e interfer\u00eancia nos interesses dos financiadores de suas dispendiosas campanhas pol\u00edticas, todas decis\u00f5es dif\u00edceis do ponto de vista de seus objetivos imediatistas no campo eleitoral, objetivos que tamb\u00e9m n\u00e3o lhes foram impostos pela China.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quanto ao quinto ponto, os pa\u00edses ocidentais ricos tamb\u00e9m chegaram l\u00e1 n\u00e3o seguindo os dogmas do mercado, mas com solu\u00e7\u00f5es ecl\u00e9ticas (embora a propaganda tente nos convencer do contr\u00e1rio). No entanto, se a estrat\u00e9gia chinesa, aberta e explicitamente intervencionista, explica boa parte de seu sucesso, como costuma-se argumentar no Ocidente, nada impede que abordagens semelhantes sejam implementadas. \u00c9 claro que isso implicaria abandonar as narrativas ideol\u00f3gicas utilizadas h\u00e1 d\u00e9cadas para justificar imposi\u00e7\u00f5es ao Sul Global e renunciar a um dos argumentos mais utilizados para desacreditar a China. Mas se o orgulho ou os objetivos geopol\u00edticos s\u00e3o os obst\u00e1culos, isso jamais pode ser atribu\u00eddo \u00e0 China.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em vez de considerar seriamente alternativas, o Ocidente optou pelo jogo da culpa e das guerras econ\u00f4micas. Tudo isso enquanto a paz mundial \u00e9 amea\u00e7ada por uma ret\u00f3rica antichinesa cada vez mais intensa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o seria melhor para o mundo, e certamente para o Ocidente, examinar com aten\u00e7\u00e3o os fatores que explicam o sucesso chin\u00eas, os mesmos que explicam seu pr\u00f3prio sucesso para, assim, sem dogmas nem amea\u00e7as \u00e0 paz, construir as estrat\u00e9gias para o futuro?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Ocidente culpa a China por suas fraquezas industriais, mas deveria aprender com seus investimentos, seu planejamento e suas pol\u00edticas de longo prazo, li\u00e7\u00f5es mais \u00fateis do que as guerras comerciais e a ret\u00f3rica antichinesa.<\/p>\n","protected":false},"author":451,"featured_media":58101,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"episode_type":"","audio_file":"","podmotor_file_id":"","podmotor_episode_id":"","cover_image":"","cover_image_id":"","duration":"","filesize":"","filesize_raw":"","date_recorded":"","explicit":"","block":"","itunes_episode_number":"","itunes_title":"","itunes_season_number":"","itunes_episode_type":"","footnotes":""},"categories":[16761,16986,16750],"tags":[15839],"gps":[],"class_list":["post-58114","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","category-china-es-pt-br","category-occidente-pt-br","category-economia-pt-br","tag-ideias-pt-br"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/58114","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/451"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=58114"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/58114\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":58116,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/58114\/revisions\/58116"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/58101"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=58114"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=58114"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=58114"},{"taxonomy":"gps","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/gps?post=58114"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}