{"id":58173,"date":"2026-08-09T09:00:00","date_gmt":"2026-08-09T12:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/latinoamerica21.com\/?p=58173"},"modified":"2026-08-07T18:22:25","modified_gmt":"2026-08-07T21:22:25","slug":"uma-copa-do-mundo-uma-velha-ferida-o-branqueamento-na-america-latina","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/uma-copa-do-mundo-uma-velha-ferida-o-branqueamento-na-america-latina\/","title":{"rendered":"Uma Copa do Mundo, uma velha ferida: o branqueamento na Am\u00e9rica Latina"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O branqueamento, entendido como a tentativa sistem\u00e1tica de \u201cbranquear\u201d a sociedade por meio da imigra\u00e7\u00e3o europeia, da hierarquia racial e da marginaliza\u00e7\u00e3o das identidades ind\u00edgenas e africanas, voltou ao debate internacional este ano. Durante a Copa do Mundo da FIFA de 2026, os insultos racistas contra Kylian Mbapp\u00e9 \u2014 <a href=\"https:\/\/elpais.com\/deportes\/mundial-futbol\/2026-07-07\/polemica-por-unas-declaraciones-racistas-a-mbappe-de-una-senadora-paraguaya-que-le-dijo-que-en-vez-de-leche-materna-chupaba-cocos.html\">incluindo os da senadora paraguaia Celeste Amarilla, que o chamou de \u201ccolonizado camaron\u00eas que se faz passar por franc\u00eas\u201d<\/a> \u2014, as pol\u00eamicas com torcedores e jogadores argentinos, e o voto de Javier Milei, ao lado dos Estados Unidos e de Israel, contra uma resolu\u00e7\u00e3o da ONU sobre o tr\u00e1fico transatl\u00e2ntico, reacenderam uma velha quest\u00e3o: por que a Argentina continua se imaginando como uma na\u00e7\u00e3o essencialmente europeia?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A resposta vai al\u00e9m da Argentina. Do M\u00e9xico ao Cone Sul, as rep\u00fablicas latino-americanas herdaram ideias coloniais que identificavam a branquitude com a civiliza\u00e7\u00e3o e o progresso, traduzidas em pol\u00edticas migrat\u00f3rias, campanhas militares e narrativas nacionais que redefiniram a identidade dos novos Estados. A Argentina foi a express\u00e3o mais completa desse projeto, mas n\u00e3o a \u00fanica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A Argentina e a constru\u00e7\u00e3o de uma na\u00e7\u00e3o europeia<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Esse rumo n\u00e3o era inevit\u00e1vel. No Congresso de Tucum\u00e1n de 1816, coexistiam projetos distintos: Belgrano prop\u00f4s uma monarquia constitucional com um descendente dos incas \u2014 o Plano Inca \u2014, apoiada por San Mart\u00edn e G\u00fcemes, mas rejeitada pela elite de Buenos Aires. A Declara\u00e7\u00e3o de Independ\u00eancia tamb\u00e9m foi publicada em qu\u00edchua e aimar\u00e1. \u00c0 medida que o s\u00e9culo XIX avan\u00e7ava, no entanto, essas possibilidades deram lugar a um projeto que identificava o progresso com a europeiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os fundamentos intelectuais ficaram registrados em duas obras fundamentais. Em <em>Facundo<\/em> (1845), <a href=\"https:\/\/www.cervantesvirtual.com\/obra-visor\/ricardo-rojas-lector-del-facundo-hacia-la-construccion-de-la-cultura-nacional\/html\/96d29dc6-6045-11e0-b667-00163ebf5e63_4.html\">Sarmiento transformou a oposi\u00e7\u00e3o \u201cciviliza\u00e7\u00e3o e barb\u00e1rie\u201d no eixo de sua interpreta\u00e7\u00e3o do pa\u00eds<\/a>: a imigra\u00e7\u00e3o europeia representava a civiliza\u00e7\u00e3o; as sociedades ind\u00edgenas, o atraso. Alberdi sintetizou essa vis\u00e3o na frase \u201cgovernar \u00e9 povoar\u201d (atrair imigrantes europeus para transformar a demografia nacional). O positivismo refor\u00e7ou posteriormente, em grande parte da Am\u00e9rica Latina, essa associa\u00e7\u00e3o entre europeiza\u00e7\u00e3o e modernidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A Argentina levou esse projeto mais longe do que quase qualquer outro pa\u00eds da regi\u00e3o. Houve escravid\u00e3o sob o dom\u00ednio espanhol \u2014 entre 100 mil e 150 mil africanos escravizados, um n\u00famero muito inferior ao do Brasil ou de Cuba \u2014, mas a aboli\u00e7\u00e3o precoce n\u00e3o resultou em uma sociedade inclusiva. As elites impulsionaram o \u201cembranquecimento\u201d por meio da expans\u00e3o militar sobre territ\u00f3rios ind\u00edgenas, da imigra\u00e7\u00e3o europeia em massa e de uma mem\u00f3ria nacional que foi relegando os ind\u00edgenas e os afro-argentinos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O epis\u00f3dio mais revelador foi a Conquista do Deserto (1878-1885), liderada por Julio Argentino Roca. Apresentada como uma miss\u00e3o civilizadora em territ\u00f3rios supostamente \u201cvazios\u201d, <a href=\"https:\/\/elhistoriador.com.ar\/una-guerra-infame-la-verdadera-historia-de-la-conquista-del-desierto-por-andres-bonatti-y-javier-valdez\/\">causou milhares de mortes e o deslocamento de mapuches, tehuelches, ranqueles e outros povos<\/a>, al\u00e9m de incorporar cerca de quinze milh\u00f5es de hectares, posteriormente distribu\u00eddos entre grandes propriet\u00e1rios.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A Lei de Imigra\u00e7\u00e3o e Coloniza\u00e7\u00e3o de 1876 complementou a conquista militar. Entre 1857 e 1940, a Argentina recebeu mais de 6,6 milh\u00f5es de imigrantes, principalmente italianos e espanh\u00f3is. Em 1914, quase 30% de seus habitantes haviam nascido no exterior, e cerca de 80% da popula\u00e7\u00e3o de Buenos Aires era composta por imigrantes ou filhos de imigrantes.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tamb\u00e9m foi decisiva uma mem\u00f3ria seletiva. No final do s\u00e9culo XVIII, os afro-argentinos representavam entre 25% e 30% da popula\u00e7\u00e3o de Buenos Aires e tiveram um papel central na economia colonial e nas guerras de independ\u00eancia. A mortalidade em conflitos b\u00e9licos, as epidemias, o mesti\u00e7agem e as mudan\u00e7as nos censos contribu\u00edram para seu desaparecimento do relato oficial. Os povos ind\u00edgenas foram relegados a um passado remoto, apesar de sua presen\u00e7a cont\u00ednua. A Argentina foi assim celebrada como \u201ca Europa da Am\u00e9rica do Sul\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Um projeto compartilhado por toda a Am\u00e9rica Latina<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A Argentina foi o caso de maior sucesso, mas n\u00e3o isolado. O Uruguai cultivou a imagem de \u201ca Su\u00ed\u00e7a da Am\u00e9rica\u201d. O Paraguai, ap\u00f3s a Guerra da Tr\u00edplice Alian\u00e7a (1864-1870), tamb\u00e9m promoveu a imigra\u00e7\u00e3o europeia como forma de \u201cregenera\u00e7\u00e3o nacional\u201d; as palavras de Amarilla mostram a persist\u00eancia desse imagin\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O Brasil oferece o contraste mais revelador. Recebeu cerca de 4,9 milh\u00f5es de africanos escravizados, quase 40% de todo o tr\u00e1fico transatl\u00e2ntico. Ap\u00f3s a aboli\u00e7\u00e3o de 1888, intelectuais como Jo\u00e3o Batista de Lacerda defenderam que a mesti\u00e7agem, somada \u00e0 imigra\u00e7\u00e3o europeia, \u201cbranquearia\u201d a popula\u00e7\u00e3o em poucas gera\u00e7\u00f5es. O decreto de 1890 restringiu a imigra\u00e7\u00e3o asi\u00e1tica e africana e incentivou a europeia; entre 1884 e 1939, chegaram mais de quatro milh\u00f5es de imigrantes europeus. Mesmo assim, hoje os brasileiros negros e pardos s\u00e3o maioria, e estudos do IBGE e do IPEA continuam mostrando profundas desigualdades raciais em renda, educa\u00e7\u00e3o e expectativa de vida: <a href=\"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/sempre-fomos-racistas-no-brasil\/\">o ideal da branquitude sobreviveu mesmo onde n\u00e3o se concretizou demograficamente<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Cuba \u00e9 outro contraponto. A Revolu\u00e7\u00e3o de 1959 aboliu a segrega\u00e7\u00e3o legal e proclamou o racismo incompat\u00edvel com o socialismo, mas a lideran\u00e7a continuou sendo desproporcionalmente branca e, ap\u00f3s 1991, o Per\u00edodo Especial beneficiou frequentemente os cubanos brancos, que tiveram maior acesso a remessas e ao turismo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Variantes semelhantes surgiram em toda a regi\u00e3o: na Bol\u00edvia e no Peru, as elites crioulas mantiveram o poder apesar das maiorias ind\u00edgenas; No M\u00e9xico, o mesti\u00e7agem foi a base da identidade, mas implicou mais assimila\u00e7\u00e3o do que autonomia ind\u00edgena; na Guatemala, a exclus\u00e3o culminou em campanhas qualificadas pela ONU como genoc\u00eddio; e na Rep\u00fablica Dominicana, Trujillo levou o nacionalismo antinegro a um extremo violento com o Massacre do Perejil, em 1937.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Um legado colonial que perdura<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As consequ\u00eancias foram al\u00e9m da demografia. A educa\u00e7\u00e3o e as institui\u00e7\u00f5es estatais foram organizadas segundo modelos europeus, o espanhol e o portugu\u00eas se consolidaram como l\u00ednguas do poder, e dezenas de l\u00ednguas ind\u00edgenas foram marginalizadas. A independ\u00eancia pol\u00edtica n\u00e3o significou descoloniza\u00e7\u00e3o cultural.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A Guerra Fria refor\u00e7ou essas estruturas: as ditaduras da Argentina, do Brasil, do Chile e do Uruguai se apresentaram como defensoras da civiliza\u00e7\u00e3o ocidental, enquanto as reivindica\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas ou agr\u00e1rias eram vistas como amea\u00e7as \u00e0 seguran\u00e7a. Com a democracia e as reformas do final do s\u00e9culo XX, as institui\u00e7\u00f5es mudaram mais rapidamente do que as hierarquias sociais: a riqueza e o poder continuaram concentrados nas elites de origem europeia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As pol\u00eamicas da Copa do Mundo n\u00e3o revelaram nada de novo. Elas lembraram que, mais de dois s\u00e9culos ap\u00f3s a independ\u00eancia, a Am\u00e9rica Latina continua debatendo quem pertence plenamente \u00e0 na\u00e7\u00e3o. Como afirmou An\u00edbal Quijano, a colonialidade n\u00e3o terminou com o colonialismo: ela sobreviveu \u00e0 independ\u00eancia e continua organizando as rela\u00e7\u00f5es de poder. Esse \u00e9 o legado mais duradouro do branqueamento.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As pol\u00eamicas racistas da Copa do Mundo reacenderam um antigo debate: como o ideal de \u201cbranqueamento\u201d moldou a identidade nacional na Argentina e em boa parte da Am\u00e9rica Latina e continua condicionando suas desigualdades.<\/p>\n","protected":false},"author":407,"featured_media":58197,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"episode_type":"","audio_file":"","podmotor_file_id":"","podmotor_episode_id":"","cover_image":"","cover_image_id":"","duration":"","filesize":"","filesize_raw":"","date_recorded":"","explicit":"","block":"","itunes_episode_number":"","itunes_title":"","itunes_season_number":"","itunes_episode_type":"","footnotes":""},"categories":[16786,16724,16871,16734],"tags":[17187],"gps":[],"class_list":["post-58173","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","category-racismo-pt-br","category-historia-pt-br","category-futbol-pt-br","category-argentina-pt-br","tag-debates-2"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/58173","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/407"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=58173"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/58173\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":58175,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/58173\/revisions\/58175"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/58197"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=58173"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=58173"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=58173"},{"taxonomy":"gps","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/gps?post=58173"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}