{"id":5839,"date":"2021-05-31T09:20:00","date_gmt":"2021-05-31T12:20:00","guid":{"rendered":"http:\/\/latinoamerica21.com\/?p=5839"},"modified":"2021-05-31T09:16:54","modified_gmt":"2021-05-31T12:16:54","slug":"portunhol-o-reflexo-de-nossas-identidades-hibridas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/portunhol-o-reflexo-de-nossas-identidades-hibridas\/","title":{"rendered":"Portunhol: o reflexo de nossas identidades h\u00edbridas"},"content":{"rendered":"\n<p>Idioma fronteiri\u00e7o, o portunhol \u00e9 tanto um meio de hibridiza\u00e7\u00e3o de culturas e identidades, quanto de integra\u00e7\u00e3o social e econ\u00f4mica. Sua heran\u00e7a milenar e seu potencial de vanguarda fazem do portunhol um reflexo fiel de nosso lugar no mundo. No tempo e no espa\u00e7o.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Se pode definir o portunhol como uma mescla informal de elementos lingu\u00edsticos tanto do portugu\u00eas quanto do espanhol. Uma composi\u00e7\u00e3o que proporciona um ambiente comunicativo amplo e male\u00e1vel, e n\u00e3o um quadro unificado, munido de regras claras e definitivas. Idioma vivo e em constante muta\u00e7\u00e3o, seus falantes alternam os registros lexicais e regras sint\u00e1ticas em fun\u00e7\u00e3o do contexto social vivido e o conte\u00fado a ser transmitido ou debatido.<\/p>\n\n\n\n<p>A rigor, n\u00e3o se deveria falar em um \u201cportunhol\u201d singular e padronizado, mas antes, numa pluralidade de \u201cportunholes\u201d, diversos, regionais, contextuais e circunstanciais. A pron\u00fancia, as express\u00f5es, met\u00e1foras e outras figuras de linguagem podem mudar consideravelmente em fun\u00e7\u00e3o da origem nacional, \u00e9tnica e regional dos interlocutores, seu conhecimento relativo dos dois idiomas originais e da frequ\u00eancia de sua pr\u00e1tica do falar h\u00edbrido.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Um c\u00f3digo comum<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Um idioma \u00e9 um sistema de signos lingu\u00edsticos que permite representar a realidade e codificar &#8211;ou decodificar&#8211; os dados informativos desta mesma realidade. A sua principal finalidade \u00e9 a troca de informa\u00e7\u00f5es, por meio de sinais gr\u00e1ficos ou vocais, entre indiv\u00edduos do mesmo grupo humano num contexto social e hist\u00f3rico determinado. Ou seja, n\u00e3o h\u00e1 como descrever o mundo que nos cerca e comunicar suas caracter\u00edsticas, de modo compreens\u00edvel, sem o uso de um c\u00f3digo lingu\u00edstico comum.<\/p>\n\n\n\n<p>A linguagem, no entanto, n\u00e3o se limita a transmitir informa\u00e7\u00f5es de modo neutro, autom\u00e1tico ou impessoal. Uma l\u00edngua cont\u00e9m e reflete a vis\u00e3o de mundo, as expectativas e os temores do povo que a utiliza. Express\u00f5es metaf\u00f3ricas como \u201ca coisa est\u00e1 preta\u201d para demonstrar pessimismo ou \u201cisso \u00e9 coisa de \u00edndio\u201d para descrever algo desordenado, por exemplo, oferecem ind\u00edcios simb\u00f3licos de origem cultural e psicol\u00f3gica das bases euroc\u00eantricas e racistas do discurso social que rege a mente colonial brasileira.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m disso, toda l\u00edngua se adapta e evolui em fun\u00e7\u00e3o do ambiente natural, social, cultural e pol\u00edtico no qual ela surge e se desenvolve. A l\u00edngua tem uma hist\u00f3ria e uma origem que atestam as transforma\u00e7\u00f5es morfol\u00f3gicas e sint\u00e1ticas por ela experimentadas. O espanhol e o portugu\u00eas, por exemplo, compartilharam durante milhares de anos ra\u00edzes comuns antes de bifurcar, h\u00e1 poucos s\u00e9culos, em duas linhagens diferentes, mas ainda muito pr\u00f3ximas.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>L\u00ednguas e fronteiras<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Existe, hoje, algo em torno de 7.000 l\u00ednguas faladas no mundo: apenas 230 na Europa, contra mais de 2.000 na \u00c1frica, igualmente mais de 2.000 na \u00c1sia e mais de 1.300 na Oceania. Nas Am\u00e9ricas s\u00e3o faladas mais de 1.000 l\u00ednguas; eram 1.700 nos anos 1950. Trata-se, aqui, da totalidade dos idiomas falados, n\u00e3o necessariamente escritos ou reconhecidos como l\u00ednguas oficiais.<\/p>\n\n\n\n<p>Nas Am\u00e9ricas, a maioria absoluta dessas l\u00ednguas pertence aos povos ind\u00edgenas, contra cinco l\u00ednguas europeias (espanhol, ingl\u00eas, portugu\u00eas, franc\u00eas e neerland\u00eas) e uma dezena de <em>creoles<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>Os 440 milh\u00f5es habitantes da Am\u00e9rica do Sul se dividem, em partes quase iguais, entre o portugu\u00eas (no Brasil) e o espanhol (nos demais pa\u00edses). O que n\u00e3o significa que as \u00e1reas de influ\u00eancia e uso de cada uma das duas l\u00ednguas sejam delimitadas seguindo as divisas administrativas e seu tra\u00e7ado nos mapas escolares.<\/p>\n\n\n\n<p>Pelo contr\u00e1rio: quando se trata de pr\u00e1ticas culturais, como \u00e9 o caso da l\u00edngua, as fronteiras n\u00e3o se revelam apenas mais porosas do que se imagina, mas demonstram todo seu potencial de veicular subjetividades, imagin\u00e1rios e vis\u00f5es de mundo. <a href=\"http:\/\/latinoamerica21.com\/br\/a-estrutura-racial-das-sociedades-latino-americanas\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Um ecossistema social, cultural e econ\u00f4mico que s\u00f3 podia favorecer a mesti\u00e7agem das l\u00ednguas faladas <\/a>e a consolida\u00e7\u00e3o da pr\u00e1tica di\u00e1ria do portunhol.<\/p>\n\n\n\n<p>Lembremos que as fronteiras terrestres do Brasil t\u00eam uma extens\u00e3o de quase 17.000 km, que o conectam a todos os pa\u00edses da Am\u00e9rica do Sul \u2013 menos o Equador e o Chile. Dos 5.565 munic\u00edpios que comp\u00f5em o territ\u00f3rio brasileiro, 588 (mais de 10%) s\u00e3o fronteiri\u00e7os e 33 s\u00e3o classificados como cidades g\u00eameas. Ou seja, s\u00e3o munic\u00edpios atravessados por uma ou mais linhas de fronteira, onde geralmente podem ser observadas uma forte mobilidade humana, trocas e din\u00e2micas integrativas.<\/p>\n\n\n\n<p>Em termos populacionais, esse espa\u00e7o transfronteiri\u00e7o totaliza mais de 2 milh\u00f5es de pessoas \u2013 apenas do lado brasileiro. Se somarmos essa quantidade \u00e0 popula\u00e7\u00e3o do outro lado das fronteiras, junto com os fluxos mercantis, tur\u00edsticos, migrat\u00f3rios e estudantis, talvez o conjunto dos falantes do portunhol na regi\u00e3o se aproxime dos tr\u00eas milh\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O idioma que reaproxima<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Numa perspectiva propriamente lingu\u00edstica, o portunhol pode constituir uma \u201cinterl\u00edngua\u201d (um est\u00e1gio intermedi\u00e1rio no processo de aprendizagem de uma nova l\u00edngua), um dialeto (como \u00e9 o caso da variante riverense decorrente da antiga presen\u00e7a luso-brasileira em territ\u00f3rio uruguaio) ou, ainda, uma simples \u201cl\u00edngua de contato\u201d destinada a remediar a falta de dom\u00ednio do mesmo idioma por ambos os interlocutores.<\/p>\n\n\n\n<p>O portunhol, nesse sentido, n\u00e3o \u00e9 nem \u00fanico nem in\u00e9dito na paisagem lingu\u00edstica mundial. O contato entre l\u00ednguas diferentes, sua influ\u00eancia m\u00fatua e o surgimento de uma configura\u00e7\u00e3o que possibilita a intercompreens\u00e3o dos povos que compartilham o mesmo espa\u00e7o social parece ter sido recorrente no passado distante e pr\u00f3ximo da Humanidade e continua sendo at\u00e9 hoje. O sua\u00edli ou o malt\u00eas, por exemplo, constituem uma ilustra\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica da forma\u00e7\u00e3o de novas l\u00ednguas a partir de origens diferentes. J\u00e1 o <em>spanglish<\/em> norte-americano e o <em>yanito<\/em>, seu equivalente europeu falado em Gibraltar, s\u00e3o concorrentes contempor\u00e2neos de nosso portunhol regional.<\/p>\n\n\n\n<p>A grande diferen\u00e7a, todavia, \u00e9 que ao contr\u00e1rio dos exemplos acima citados, o portunhol se origina em dois idiomas \u201cirm\u00e3os\u201d, oriundos do mesmo ramo lingu\u00edstico e que compartilham um longo passado comum. Ali\u00e1s, se o spanglish pode ser considerado como um idioma in\u00e9dito e original, a forma lingu\u00edstica do portunhol existe, na verdade, desde h\u00e1 muito tempo e ainda pode ser conferida na atualidade e vivacidade do galego.<\/p>\n\n\n\n<p>Ou seja, ao mesmo tempo que expressa a realidade presente de nossa regi\u00e3o e aponta para seu futuro social, cultural e econ\u00f4mico, o portunhol n\u00e3o deixa de reiterar as ra\u00edzes lingu\u00edsticas comuns das popula\u00e7\u00f5es sul-americanas. Assim, <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=cE53uZtrOaM\">o portunhol<\/a> n\u00e3o apenas aproxima os povos da regi\u00e3o, mas tamb\u00e9m os reaproxima -de novo- em torno de um arqu\u00e9tipo lingu\u00edstico que surpreende por sua capacidade de se reinventar.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 de esperar que \u00e0 medida que a integra\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, social e cultural de nossa regi\u00e3o avance, o portunhol ir\u00e1 se refor\u00e7ar. E vice-versa.<\/p>\n\n\n\n<p><em><sub>Foto de Paolostefano1412<\/sub><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c9 tanto um meio de hibridiza\u00e7\u00e3o de culturas e identidades quanto um meio de integra\u00e7\u00e3o social e econ\u00f4mica. Sua heran\u00e7a milenar e seu potencial vanguardista fazem de Portu\u00f1ol um reflexo fiel de nosso lugar no mundo. 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