{"id":58447,"date":"2026-08-22T09:00:00","date_gmt":"2026-08-22T12:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/latinoamerica21.com\/?p=58447"},"modified":"2026-08-21T17:00:13","modified_gmt":"2026-08-21T20:00:13","slug":"como-a-mafia-albanesa-opera-na-america-latina","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/como-a-mafia-albanesa-opera-na-america-latina\/","title":{"rendered":"Como a m\u00e1fia albanesa opera na Am\u00e9rica Latina?"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tr\u00eas fatores foram cruciais para que a m\u00e1fia albanesa e outros cl\u00e3s balc\u00e3s transformassem o Equador em uma incubadora do crime transnacional: a fraqueza institucional e a corrup\u00e7\u00e3o latentes nos \u00f3rg\u00e3os de controle, uma economia dolarizada com incipientes controles antilavagem de dinheiro, bem como o aumento significativo da produ\u00e7\u00e3o e da demanda por coca\u00edna na Europa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No Velho Continente, o mercado da droga quadruplicou nos \u00faltimos 15 anos. Nesse per\u00edodo, quase todos os pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina se tornaram elos importantes no tr\u00e1fico de coca\u00edna, seja como produtores, processadores, transportadores da droga ou para\u00edsos para a lavagem de dinheiro. A regi\u00e3o produz agora mais do que o dobro da coca\u00edna produzida h\u00e1 uma d\u00e9cada. O cultivo de coca na Col\u00f4mbia, origem da maior parte dessa droga no mundo, triplicou, chegando a 3.000 toneladas anuais, segundo dados da ONU.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Os prim\u00f3rdios<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por volta de 2009, os primeiros albaneses chegaram ao Equador. Eles seguiam as diretrizes da m\u00e1fia italiana Ndrangheta, que buscava acesso direto \u00e0 compra de coca\u00edna da Col\u00f4mbia para comercializ\u00e1-la na Europa. Os albaneses encontraram uma s\u00e9rie de vantagens, especialmente na cidade litor\u00e2nea de Guayaquil, com uma estrutura robusta de oito portos. A maioria se dedicava \u00e0 exporta\u00e7\u00e3o de banana e outros produtos para a Europa e outros continentes. Eles perceberam que as exporta\u00e7\u00f5es, devido ao grande volume de carga em cont\u00eaineres, seriam um meio ideal para o transporte da droga.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Naquela \u00e9poca, o foco das investiga\u00e7\u00f5es policiais eram os embarques de drogas pelas praias e portos artesanais de Manab\u00ed e Esmeraldas, em lanchas r\u00e1pidas com destino \u00e0 Am\u00e9rica Central e aos Estados Unidos. O cartel de Sinaloa era hegem\u00f4nico, n\u00e3o tinha concorrentes \u00e0 altura para transportar pelo Equador, por via terrestre, mar\u00edtima e a\u00e9rea, a droga que lhe era vendida pelos narcotraficantes colombianos. Seu parceiro no Equador, respons\u00e1vel pelo transporte e pela log\u00edstica, era a gangue Los Choneros.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em 2007, <a href=\"https:\/\/dialogopolitico.org\/analisis-debates\/debates\/politica-justicia-america-latina\/\">Rafael Correa<\/a> acabara de assumir o poder e tomou uma s\u00e9rie de decis\u00f5es que marcariam irreversivelmente o rumo do Equador no que diz respeito ao enfraquecimento do controle antidrogas. A partir de 2008, rompeu formalmente as rela\u00e7\u00f5es com a Col\u00f4mbia e, de fato, com os EUA. O gatilho foi o bombardeio por avi\u00f5es colombianos ao acampamento das FARC em Agostura.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Isso implicou na suspens\u00e3o abrupta do interc\u00e2mbio de informa\u00e7\u00f5es, da coopera\u00e7\u00e3o e das opera\u00e7\u00f5es conjuntas contra grupos de narcotraficantes na fronteira. Correa desmantelou os sistemas de intelig\u00eancia que coordenavam a\u00e7\u00f5es com a Col\u00f4mbia e os EUA. Retirou da Marinha as compet\u00eancias de controle portu\u00e1rio, transferindo-as para o Minist\u00e9rio dos Transportes. Desde ent\u00e3o, a vigil\u00e2ncia mar\u00edtima ficou sem lideran\u00e7a. A cereja do bolo foi a aprova\u00e7\u00e3o, na nova Constitui\u00e7\u00e3o (2009), do conceito de Cidadania Universal, que permite a entrada de qualquer estrangeiro sem a necessidade de visto nem de antecedentes criminais. Poucos meses ap\u00f3s o in\u00edcio dessas entradas, redes do crime organizado da R\u00fassia, do Oriente M\u00e9dio e da China abriram novas rotas para o tr\u00e1fico de pessoas com destino aos EUA.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Modus operandi<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Embora inicialmente o plano dos albaneses fosse se estabelecer na Col\u00f4mbia, eles preferiram testar sua f\u00f3rmula criminosa no Equador: Guayaquil foi seu principal laborat\u00f3rio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Naqueles primeiros anos, o alban\u00eas Arber \u00c7ekaj chegou \u00e0quela cidade portu\u00e1ria. Ele fundou uma empresa de exporta\u00e7\u00e3o de banana, que usou para esconder narc\u00f3ticos em navios cargueiros, atuando como representante da \u2018Ndrangheta italiana. Na mesma \u00e9poca, Dritan Gjika \u2014 figura de destaque da m\u00e1fia albanesa \u2014 chegou ao Equador com um visto de visitante tempor\u00e1rio. Em 2012, chegou Dritan Rexhepi, considerado o chef\u00e3o pioneiro do cartel transnacional alban\u00eas \u201cCompa\u00f1\u00eda Bello\u201d no Equador.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Inicialmente, eles ficavam de um a dois meses; depois, passaram a ficar permanentemente. Eles obtinham documentos de identidade falsos no Registro Civil ou pagavam por vistos de resid\u00eancia permanente ou de investidores. Al\u00e9m disso, casavam-se com equatorianas, pagando-lhes para que se prestassem \u00e0 simula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por meio de colaboradores locais, identificaram brechas no sistema societ\u00e1rio e banc\u00e1rio. Come\u00e7aram a comprar e constituir dezenas de empresas exportadoras de frutas e frutos do mar. Eles adotaram a fachada de jovens empres\u00e1rios. Isso os impulsionou a se infiltrar com relativa facilidade na alta sociedade de Guayaquil (conhecida por seu esp\u00edrito ousado nos neg\u00f3cios). Aprenderam espanhol rapidamente, al\u00e9m de outros idiomas. Com essa estrat\u00e9gia, teceram contatos e tornaram-se bons amigos de empres\u00e1rios, pol\u00edticos, altos oficiais da Pol\u00edcia e da Marinha, ju\u00edzes e promotores. Era o in\u00edcio do cont\u00e1gio<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>O cont\u00e1gio institucional<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Discretamente, essas estruturas dos Balc\u00e3s se infiltraram nas institui\u00e7\u00f5es da sociedade equatoriana. Seu objetivo era assumir o controle de partes-chave da cadeia de abastecimento de coca\u00edna e desencadear uma enxurrada de drogas na Europa: um mercado anual de coca\u00edna de mais de 12 bilh\u00f5es de d\u00f3lares. Foram justamente esses lucros que lhes permitiram diversificar seu portf\u00f3lio de receitas, n\u00e3o se limitando apenas ao tr\u00e1fico de drogas, cujas receitas foram investidas em outras atividades, como a minera\u00e7\u00e3o ilegal de ouro. Segundo estimativas oficiais, endossadas pelo presidente Daniel Noboa, atualmente as economias criminosas, lideradas por m\u00e1fias dos Balc\u00e3s, t\u00eam receitas de cerca de 26 bilh\u00f5es de d\u00f3lares, o equivalente a 20% do PIB.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Esse lucrativo neg\u00f3cio criminoso traz graves consequ\u00eancias. Desde 2021, a inseguran\u00e7a se alastrou em Guayaquil e, com o passar dos anos, se espalhou para as principais cidades do pa\u00eds, incluindo Quito. Cerca de 50 gangues operam atualmente no Equador. Grande parte desses grupos presta servi\u00e7os, indistintamente, para transportar e armazenar a coca no Equador para os cart\u00e9is, n\u00e3o apenas dos Balc\u00e3s, mas tamb\u00e9m de Sinaloa e Jalisco Nova Gera\u00e7\u00e3o. As disputas para dominar mais territ\u00f3rios para a pr\u00e1tica de crimes desencadearam a viol\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em janeiro de 2024, o governo declarou estado de guerra contra os grupos criminosos, mas sem um rumo claro para reverter esse fen\u00f4meno. A taxa de homic\u00eddios passou de 6 para 50,9 mortes violentas por cada 100 mil habitantes entre 2019 e 2025. O Equador se tornou o pa\u00eds mais violento e inseguro da Am\u00e9rica Latina em apenas quatro anos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em meio a essa crise, os EUA e a Uni\u00e3o Europeia aumentaram significativamente sua coopera\u00e7\u00e3o a partir de perspectivas distintas, mas complementares. A abordagem europeia \u00e9 mais abrangente. Ela busca combater as causas estruturais da criminalidade por meio de capacita\u00e7\u00e3o, apoio a programas sociais e interc\u00e2mbio de intelig\u00eancia. Os EUA mant\u00eam uma linha de fornecimento de equipamentos e infraestrutura para as for\u00e7as de seguran\u00e7a, bem como de intelig\u00eancia. Apesar de todos os seus esfor\u00e7os, com \u00eanfase em a\u00e7\u00f5es punitivas, com mais militares e policiais nas ruas e pris\u00f5es constantes de membros das gangues, o Estado n\u00e3o consegue sair da fase de rea\u00e7\u00e3o e conten\u00e7\u00e3o. Perdeu sua capacidade preventiva e de recupera\u00e7\u00e3o efetiva dos territ\u00f3rios, cada vez mais extensos, onde impera a governan\u00e7a criminosa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">At\u00e9 o momento, o governo carece de uma estrat\u00e9gia eficaz e multidimensional para superar a crise de inseguran\u00e7a, que \u00e9 o principal problema que assola o Equador e amea\u00e7a sua sobreviv\u00eancia democr\u00e1tica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em><sub>*Texto publicado originalmente no Di\u00e1logo Pol\u00edtico<\/sub><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os cl\u00e3s albaneses foram os primeiros a impulsionar o tr\u00e1fico de coca\u00edna da Am\u00e9rica Latina para a Europa. Na nova edi\u00e7\u00e3o do DP Enfoque 20, Arturo Torres investiga o modus operandi do grupo criminoso.<\/p>\n","protected":false},"author":938,"featured_media":58440,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"episode_type":"","audio_file":"","podmotor_file_id":"","podmotor_episode_id":"","cover_image":"","cover_image_id":"","duration":"","filesize":"","filesize_raw":"","date_recorded":"","explicit":"","block":"","itunes_episode_number":"","itunes_title":"","itunes_season_number":"","itunes_episode_type":"","footnotes":""},"categories":[16736],"tags":[17187],"gps":[],"class_list":["post-58447","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","category-crimen-organizado-pt-br","tag-debates-2"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/58447","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/938"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=58447"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/58447\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":58449,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/58447\/revisions\/58449"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/58440"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=58447"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=58447"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=58447"},{"taxonomy":"gps","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/gps?post=58447"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}