{"id":58569,"date":"2026-08-30T05:00:00","date_gmt":"2026-08-30T08:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/latinoamerica21.com\/?p=58569"},"modified":"2026-08-28T07:09:28","modified_gmt":"2026-08-28T10:09:28","slug":"os-tempos-do-outsider-chegar-ao-poder-e-aprender-a-sustenta-lo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/os-tempos-do-outsider-chegar-ao-poder-e-aprender-a-sustenta-lo\/","title":{"rendered":"Os tempos do outsider: chegar ao poder e aprender a sustent\u00e1-lo"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">H\u00e1 um paradoxo na pol\u00edtica dos <em>outsiders<\/em>: aquilo que os torna especialmente fortes para conquistar o poder pode se tornar, uma vez alcan\u00e7ado, uma fonte de vulnerabilidade. Eles chegam ao poder porque v\u00eam de fora, porque n\u00e3o falam como os pol\u00edticos tradicionais, porque conseguem se apresentar como uma ruptura em rela\u00e7\u00e3o a organiza\u00e7\u00f5es, procedimentos e intermedi\u00e1rios desacreditados. Mas governar exige, justamente, organiza\u00e7\u00f5es, procedimentos e intermedi\u00e1rios. O desafio, ent\u00e3o, come\u00e7a quando a principal virtude desses l\u00edderes, o fato de serem alheios ao sistema, precisa se transformar em capacidade pol\u00edtica sem se perder pelo caminho.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A Col\u00f4mbia e a Argentina nos permitem ver hoje dois momentos diferentes desse processo. Abelardo de la Espriella acaba de iniciar o primeiro. Javier Milei, por outro lado, j\u00e1 est\u00e1 passando pelo segundo. O novo presidente colombiano assumiu o cargo em 7 de agosto sem nunca ter ocupado um cargo p\u00fablico antes, ap\u00f3s construir uma candidatura a partir de uma identidade marcadamente <em>outsider<\/em>. Milei, por sua vez, j\u00e1 ultrapassou a metade de um mandato que tamb\u00e9m come\u00e7ou com uma organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica incipiente e uma presen\u00e7a parlamentar reduzida. S\u00e3o duas imagens distintas de uma mesma quest\u00e3o: uma coisa \u00e9 chegar ao poder, e outra completamente diferente \u00e9 criar as condi\u00e7\u00f5es para permanecer nele.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">De La Espriella teve, al\u00e9m disso, um in\u00edcio que nenhum estrategista poderia ter planejado. Apenas tr\u00eas dias ap\u00f3s sua posse, um terremoto de grande magnitude atingiu o oeste do pa\u00eds, obrigando o novo governo a alterar imediatamente todas as suas prioridades. Uma trag\u00e9dia de tal magnitude transcende naturalmente qualquer interpreta\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. Mas tamb\u00e9m nos lembra uma caracter\u00edstica fundamental do que \u00e9 governar: enquanto as campanhas nos permitem escolher temas, advers\u00e1rios e cen\u00e1rios, o poder nos obriga a administrar a realidade tal como ela se apresenta.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E a realidade quase sempre chega de forma indireta. Para enfrentar uma emerg\u00eancia, a lideran\u00e7a presidencial n\u00e3o \u00e9 suficiente. S\u00e3o necess\u00e1rios funcion\u00e1rios p\u00fablicos, t\u00e9cnicos, governos locais, for\u00e7as de seguran\u00e7a, hospitais, \u00f3rg\u00e3os especializados, recursos or\u00e7ament\u00e1rios, coopera\u00e7\u00e3o internacional e cadeias administrativas que funcionem mesmo quando os representantes eleitos n\u00e3o est\u00e3o presentes. O terremoto colombiano transformou, assim, as primeiras horas de um governo <em>outsider<\/em> em um teste imediato de coordena\u00e7\u00e3o institucional. Tamb\u00e9m colocou em evid\u00eancia o quanto s\u00e3o importantes quest\u00f5es pouco \u00e9picas em uma campanha, como os processos de transi\u00e7\u00e3o entre administra\u00e7\u00f5es e a capacidade de fazer funcionar as burocracias herdadas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa \u00e9, talvez, a primeira li\u00e7\u00e3o do <em>outsider<\/em> ao chegar ao poder: descobrir que governar n\u00e3o consiste necessariamente em se parecer com quem estava l\u00e1 antes, mas tamb\u00e9m n\u00e3o em prescindir de tudo o que havia antes. A pol\u00edtica institucional tem in\u00e9rcias e procedimentos porque deve resolver problemas coletivos de uma magnitude que nenhuma pessoa pode administrar sozinha. Aprend\u00ea-los n\u00e3o significa renunciar \u00e0 vontade de mud\u00e1-los. Muito pelo contr\u00e1rio: quem pretende transformar o Estado precisa, antes de tudo, fazer com que o Estado responda.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Milei encontra-se em uma fase diferente. Ele assumiu a presid\u00eancia da Argentina em 2023 com uma for\u00e7a pol\u00edtica rec\u00e9m-formada e enormes dificuldades territoriais. Durante seus primeiros anos, o partido <em>La Libertad Avanza<\/em> avan\u00e7ou justamente na cria\u00e7\u00e3o do que lhe faltava: partido, l\u00edderes, blocos legislativos e presen\u00e7a nas prov\u00edncias. Nas elei\u00e7\u00f5es legislativas de 2025, obteve mais de 40% dos votos e melhorou sua posi\u00e7\u00e3o no Congresso. Essa maior for\u00e7a permitiu que ele iniciasse 2026 com um cen\u00e1rio legislativo muito mais favor\u00e1vel do que aquele que tinha ao assumir a presid\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas essa consolida\u00e7\u00e3o traz uma nova dificuldade. Milei j\u00e1 n\u00e3o precisa demonstrar que \u00e9 capaz de causar impacto, mas sim mostrar que seu projeto pode perdurar. E a durabilidade traz de volta aquilo que todo discurso de ruptura tende inicialmente a encarar com desconfian\u00e7a: acordos, aliados e intermedi\u00e1rios. De olho em 2027, o governo argentino intensificou as conversas com governadores e reabriu canais de di\u00e1logo com o PRO, de Mauricio Macri, enquanto continua fortalecendo sua pr\u00f3pria estrutura territorial. Isso n\u00e3o \u00e9 necessariamente uma contradi\u00e7\u00e3o, mas pode ser uma evolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A intermedia\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 sin\u00f4nimo da velha pol\u00edtica, mas sim uma <em>tecnologia<\/em> da democracia. Os partidos pol\u00edticos agregam interesses, os legisladores constroem maiorias, os governadores e l\u00edderes locais articulam territ\u00f3rios, e os funcion\u00e1rios transformam decis\u00f5es pol\u00edticas em pol\u00edticas p\u00fablicas. O problema surge quando essas institui\u00e7\u00f5es se fecham em si mesmas e deixam de representar aqueles a quem deveriam servir. \u00c9 dessa deteriora\u00e7\u00e3o que os <em>outsiders<\/em> obt\u00eam grande parte de sua for\u00e7a. Mas uma coisa \u00e9 combater uma intermedia\u00e7\u00e3o esgotada e outra \u00e9 imaginar que sociedades complexas possam ser governadas sem qualquer intermedia\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 a\u00ed, portanto, que reside o teste de maturidade dessas lideran\u00e7as. O <em>outsider<\/em> bem-sucedido n\u00e3o \u00e9 necessariamente aquele que permanece sempre fora do sistema depois de t\u00ea-lo conquistado, nem aquele que se adapta instantaneamente a ele, mas sim aquele que consegue preservar aquilo que justificou sua chegada. Uma certa credibilidade, um olhar diferente e uma promessa de transforma\u00e7\u00e3o, ao mesmo tempo em que aprende as diversas compet\u00eancias que o exerc\u00edcio do poder exige, s\u00e3o os requisitos b\u00e1sicos para sustentar essas lideran\u00e7as. O desafio para elas \u00e9 institucionalizar uma novidade sem burocratiz\u00e1-la a ponto de torn\u00e1-la irreconhec\u00edvel.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por isso, a discuss\u00e3o sobre os <em>outsiders<\/em> costuma se equivocar quando se limita a perguntar se eles s\u00e3o bons ou ruins para a democracia. Eles s\u00e3o, antes de tudo, uma forma cada vez mais frequente de acesso ao poder em sociedades nas quais as estruturas tradicionais perderam sua capacidade de representa\u00e7\u00e3o. A pergunta interessante come\u00e7a no dia seguinte \u00e0 vit\u00f3ria nas elei\u00e7\u00f5es: o que eles fazem com aquilo que os levou at\u00e9 ali.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">De La Espriella precisa transformar rapidamente a energia da ruptura em capacidade de governar, em circunst\u00e2ncias infinitamente mais dif\u00edceis do que se previa. Milei ter\u00e1 que verificar se a organiza\u00e7\u00e3o e os acordos de que precisa podem ampliar seu projeto, sem que ele perca, por causa disso, sua identidade nem sua competitividade. S\u00e3o momentos distintos, mas fazem parte do mesmo aprendizado. Governar exige aprender por dentro. E perdurar consiste, provavelmente, em alcan\u00e7ar ambas as coisas sem esquecer por que se chegou at\u00e9 ali.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>De La Espriella e Milei representam duas etapas do mesmo desafio dos outsiders: chegar ao poder rompendo com o sistema e, depois, aprender a govern\u00e1-lo sem perder a identidade que os levou at\u00e9 l\u00e1.<\/p>\n","protected":false},"author":710,"featured_media":58581,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"episode_type":"","audio_file":"","podmotor_file_id":"","podmotor_episode_id":"","cover_image":"","cover_image_id":"","duration":"","filesize":"","filesize_raw":"","date_recorded":"","explicit":"","block":"","itunes_episode_number":"","itunes_title":"","itunes_season_number":"","itunes_episode_type":"","footnotes":""},"categories":[17010,16708],"tags":[15839],"gps":[],"class_list":["post-58569","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","category-outsiders-es-pt-br","category-politica-pt-br","tag-ideias-pt-br"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/58569","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/710"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=58569"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/58569\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":58571,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/58569\/revisions\/58571"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/58581"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=58569"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=58569"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=58569"},{"taxonomy":"gps","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/gps?post=58569"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}