{"id":58637,"date":"2026-09-02T09:00:00","date_gmt":"2026-09-02T12:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/latinoamerica21.com\/?p=58637"},"modified":"2026-09-02T10:18:45","modified_gmt":"2026-09-02T13:18:45","slug":"a-mafia-balcanica-na-america-latina-o-crime-organizado-que-nao-precisa-de-territorio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/a-mafia-balcanica-na-america-latina-o-crime-organizado-que-nao-precisa-de-territorio\/","title":{"rendered":"A m\u00e1fia balc\u00e2nica na Am\u00e9rica Latina: o crime organizado que n\u00e3o precisa de territ\u00f3rio"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O que ocorre quando uma organiza\u00e7\u00e3o criminosa deixa de buscar territ\u00f3rio e passa a buscar, simplesmente, efici\u00eancia? Essa pergunta, mais do que qualquer mapa de rotas ou lista de apreens\u00f5es, \u00e9 a que melhor resume o que ocorreu com as redes albanesas na Am\u00e9rica Latina durante a \u00faltima d\u00e9cada. A rea\u00e7\u00e3o habitual, quase autom\u00e1tica, tem sido conceber o crime organizado como uma estrutura que avan\u00e7a \u00e0 for\u00e7a das armas e do controle territorial. A trajet\u00f3ria balc\u00e2nica na regi\u00e3o desmonta esse reflexo com paci\u00eancia e com n\u00fameros. Aqui n\u00e3o h\u00e1 ex\u00e9rcitos nem bandeiras. H\u00e1, em vez disso, uma governan\u00e7a criminosa constru\u00edda sobre a intermedia\u00e7\u00e3o log\u00edstica, a sofistica\u00e7\u00e3o h\u00edbrida entre economias legais e il\u00edcitas e uma capacidade de reestrutura\u00e7\u00e3o operacional que lhe permite se inserir em cadeias de valor existentes, sem a necessidade de disput\u00e1-las a tiros.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A tese desta an\u00e1lise \u00e9, no fundo, simples: a expans\u00e3o albanesa, mais do que responder a uma l\u00f3gica de conquista, responde a uma explora\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica da vulnerabilidade estrutural dos Estados receptores. E essa distin\u00e7\u00e3o, embora pare\u00e7a sutil, muda completamente o tipo de pol\u00edtica p\u00fablica necess\u00e1ria para cont\u00ea-la.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Vale a pena come\u00e7ar pela origem. De acordo com o document\u00e1rio \u201c<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=GIuCM_i7bMQ\">M\u00e1fia Albanesa \u2013 Fam\u00edlias do Narcotr\u00e1fico<\/a>\u201d (D News, 2025), a organiza\u00e7\u00e3o se consolidou ap\u00f3s a queda do regime comunista alban\u00eas na d\u00e9cada de 1990, uma ruptura hist\u00f3rica que impulsionou sua expans\u00e3o para a Europa Ocidental e, posteriormente, para a Am\u00e9rica Latina. Sua estrutura, articulada em cl\u00e3s familiares, proporcionou-lhe algo que poucas organiza\u00e7\u00f5es criminosas conseguem manter ao longo do tempo: coes\u00e3o interna sem a necessidade de exibi\u00e7\u00e3o p\u00fablica de poder. Uma reestrutura\u00e7\u00e3o silenciosa cujo \u00fanico objetivo \u00e9 fazer o neg\u00f3cio funcionar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Uma empresa transnacional disfar\u00e7ada de m\u00e1fia<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Cham\u00e1-la de \u201cm\u00e1fia\u201d talvez j\u00e1 seja insuficiente. A reportagem de Arturo Torres na revista <a href=\"https:\/\/dialogopolitico.org\/dp-enfoque\/dp-enfoque-20-redes-con-podercomo-opera-la-mafia-albanesa-en-latinoamerica\/\">Di\u00e1logo Pol\u00edtico<\/a> (2026) documenta que essas redes operam como coaliz\u00f5es de grupos d\u00edspares e independentes que priorizam a alian\u00e7a em vez do confronto. Isso redefine, de raiz, a l\u00f3gica do poder criminoso tal como a conhec\u00edamos. O caso de Dritan Gjika ilustra bem isso: sua estrutura combinava um esquema corporativo duplo, com uma fac\u00e7\u00e3o encarregada da compra, transporte e exporta\u00e7\u00e3o de coca\u00edna, e outra dedicada \u00e0 lavagem de dinheiro por meio de empresas de fachada, incluindo a infiltra\u00e7\u00e3o no com\u00e9rcio de banana equatoriano. Fruta legal por fora, alcal\u00f3ide por dentro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os n\u00fameros, neste caso, deixam de ser um mero adorno estat\u00edstico e passam a contar uma hist\u00f3ria por si s\u00f3. Entre 2019 e 2025, o Equador passou de 80 para 226 toneladas de coca\u00edna apreendidas, acumulando 835 toneladas nesse per\u00edodo, enquanto diversos analistas estimam que mais de 4.000 toneladas teriam sa\u00eddo do pa\u00eds rumo aos mercados internacionais no mesmo intervalo. Como se sustenta um fluxo dessa magnitude sem uma rede log\u00edstica verdadeiramente sofisticada? Um dado ajuda a responder: cerca de 70% da coca\u00edna colombiana sairia hoje por portos equatorianos, o que confirma seu papel de n\u00f3 log\u00edstico global e n\u00e3o de mero corredor de passagem.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por tr\u00e1s dessa magnitude, h\u00e1, al\u00e9m disso, uma economia elementar que explica a velocidade da expans\u00e3o. O pre\u00e7o do quilograma cresce de forma quase vertical ao longo da cadeia: entre 500 e 2.500 d\u00f3lares nas regi\u00f5es produtoras, cerca de 35.000 na Europa e mais de 150.000 em mercados como a Austr\u00e1lia. Com essa margem, n\u00e3o \u00e9 surpresa que redes da It\u00e1lia, Turquia e R\u00fassia tenham come\u00e7ado a disputar rotas que antes eram territ\u00f3rio quase exclusivo dos cl\u00e3s balc\u00e2nicos. A mudan\u00e7a na demanda mundial tamb\u00e9m aponta na mesma dire\u00e7\u00e3o: desde 2020, a Europa ultrapassou os Estados Unidos como principal mercado consumidor de coca\u00edna, e esse mercado teria quadruplicado entre 2010 e 2025.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 a\u00ed que surge uma figura que, sem ser a mais vis\u00edvel, acaba sendo decisiva: o emiss\u00e1rio. Gavin Voss, em sua an\u00e1lise para a <a href=\"https:\/\/insightcrime.org\/es\/noticias\/distintas-caras-crimen-organizado-balcanico-america-latina\/\">InSight Crime<\/a>, descreve esses operadores como negociadores que viajam diretamente para o Equador, a Col\u00f4mbia e o Brasil, eliminando intermedi\u00e1rios e ficando com uma margem de lucro maior. O caso de Dritan Rexhepi, que teria continuado coordenando remessas da pris\u00e3o at\u00e9 2021, revela algo inc\u00f4modo: a continuidade dessas redes n\u00e3o depende da liberdade de um indiv\u00edduo, pois contam com la\u00e7os j\u00e1 consolidados, capazes de sobreviver \u00e0 pris\u00e3o de seu pr\u00f3prio l\u00edder. Capturar um chef\u00e3o, portanto, deixa de ser uma garantia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O componente financeiro completa o quadro. A san\u00e7\u00e3o imposta em 2025 pelo Departamento do Tesouro dos Estados Unidos contra uma rede ligada \u00e0 fam\u00edlia Hysa, que operava em conjunto com o Cartel de Sinaloa, confirma que a lavagem de dinheiro j\u00e1 deixou de ser um ap\u00eandice do neg\u00f3cio para se tornar sua continua\u00e7\u00e3o natural. Por sua vez, a reportagem de Dar\u00edo Brooks para a <a href=\"https:\/\/www.bbc.com\/mundo\/noticias-america-latina-63579332\">BBC Mundo<\/a> (2022, atualizada em 2024) traz um detalhe que n\u00e3o devemos perder de vista: os cidad\u00e3os albaneses, como os identificados no Peru, concentram-se justamente nas tarefas financeiras e log\u00edsticas, e n\u00e3o no controle armado do territ\u00f3rio. A apreens\u00e3o de duas toneladas de coca\u00edna l\u00edquida escondida em espargos, avaliadas em 77 milh\u00f5es de d\u00f3lares, \u00e9 apenas um exemplo de at\u00e9 onde chega essa especializa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A presen\u00e7a balc\u00e2nica na regi\u00e3o, de fato, n\u00e3o \u00e9 nova: remonta ao in\u00edcio dos anos 2000, com liga\u00e7\u00f5es posteriores \u00e0 &#8216;Ndrangheta italiana e a portos como Roterd\u00e3 e Antu\u00e9rpia, segundo registros da Europol. Tudo aponta, em \u00faltima inst\u00e2ncia, para uma rela\u00e7\u00e3o de coopera\u00e7\u00e3o com atores latino-americanos \u2014 incluindo o c\u00edrculo de Ismael Zambada \u2014, mais do que para uma disputa pelo controle do territ\u00f3rio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Desafios e propostas de pol\u00edtica de Estado<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E, diante de tudo isso, o que faz um Estado diante de um advers\u00e1rio que n\u00e3o quer lutar nas ruas, mas sim se infiltrar na contabilidade? A resposta exige abandonar o reflexo militar e construir uma estrat\u00e9gia baseada em tr\u00eas pilares.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O primeiro \u00e9 a rastreabilidade financeira: unidades especializadas, com capacidade t\u00e9cnica real, para detectar empresas de fachada em setores de exporta\u00e7\u00e3o sens\u00edveis, como o bananeiro ou o agroindustrial.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O segundo \u00e9 a reestrutura\u00e7\u00e3o dos sistemas migrat\u00f3rios e portu\u00e1rios, fechando as brechas que hoje facilitam a infiltra\u00e7\u00e3o silenciosa das economias legais. O terceiro, talvez o mais urgente, \u00e9 a constru\u00e7\u00e3o de uma intelig\u00eancia regional compartilhada entre Equador, Col\u00f4mbia, Peru e Brasil, capaz de antecipar padr\u00f5es de opera\u00e7\u00e3o em vez de reagir, mais uma vez, \u00e0 pr\u00f3xima apreens\u00e3o isolada.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nenhum desses pilares \u00e9 chamativo. Nenhum rende manchetes f\u00e1ceis. Mas s\u00e3o, em \u00faltima an\u00e1lise, os que poderiam determinar se um Estado consegue recuperar o controle civil leg\u00edtimo sobre os espa\u00e7os econ\u00f4micos que hoje est\u00e3o sendo capturados por dentro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A expans\u00e3o das redes albanesas na Am\u00e9rica Latina confirma uma muta\u00e7\u00e3o relevante do crime organizado contempor\u00e2neo: menos vis\u00edvel, mas notavelmente eficiente. Cont\u00ea-la exige, acima de tudo, uma decis\u00e3o pol\u00edtica sustentada ao longo do tempo, al\u00e9m do ciclo de um \u00fanico governo. Sob essa premissa, qualquer roteiro s\u00e9rio deve colocar no centro a dignidade humana das comunidades que hoje convivem, muitas vezes sem saber, com essas estruturas; o fortalecimento institucional dos Estados da regi\u00e3o; e a transpar\u00eancia na gest\u00e3o das economias que, sem querer, acabam sustentando-as.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Porque, no fim das contas, a quest\u00e3o hoje n\u00e3o \u00e9 como perseguir uma m\u00e1fia, mas como deixar de oferecer a ela as condi\u00e7\u00f5es para prosperar.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As redes criminosas dos Balc\u00e3s est\u00e3o transformando o crime organizado na Am\u00e9rica Latina: menos territ\u00f3rio e viol\u00eancia vis\u00edvel, e mais log\u00edstica, alian\u00e7as transnacionais e infiltra\u00e7\u00e3o nas economias legais.<\/p>\n","protected":false},"author":485,"featured_media":58622,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"episode_type":"","audio_file":"","podmotor_file_id":"","podmotor_episode_id":"","cover_image":"","cover_image_id":"","duration":"","filesize":"","filesize_raw":"","date_recorded":"","explicit":"","block":"","itunes_episode_number":"","itunes_title":"","itunes_season_number":"","itunes_episode_type":"","footnotes":""},"categories":[16736],"tags":[17187],"gps":[],"class_list":["post-58637","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","category-crimen-organizado-pt-br","tag-debates-2"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/58637","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/485"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=58637"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/58637\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":58639,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/58637\/revisions\/58639"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/58622"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=58637"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=58637"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=58637"},{"taxonomy":"gps","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/gps?post=58637"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}