{"id":58641,"date":"2026-09-03T09:00:00","date_gmt":"2026-09-03T12:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/latinoamerica21.com\/?p=58641"},"modified":"2026-09-02T10:22:13","modified_gmt":"2026-09-02T13:22:13","slug":"o-sul-global-ou-uma-nova-geografia-do-poder","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/o-sul-global-ou-uma-nova-geografia-do-poder\/","title":{"rendered":"O sul global ou uma nova geografia do poder"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nunca se falou tanto do Sul Global. A China reivindica seu pertencimento, apesar de ser a segunda maior economia do mundo; a \u00cdndia aspira se tornar uma de suas vozes; o Brasil incorporou-o ao seu discurso internacional e os BRICS fazem dessa identidade uma parte cada vez mais importante de sua narrativa. No entanto, ningu\u00e9m consegue definir com precis\u00e3o onde ele come\u00e7a e onde termina.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Estamos diante de um novo ator internacional ou de uma categoria que catalisa transforma\u00e7\u00f5es reais no poder mundial? O especialista Juan Agull\u00f3, coordenador do Diploma Superior em Geopol\u00edtica da CLACSO, prop\u00f5e uma reafirma\u00e7\u00e3o do conceito: nem mesmo o \u201cOcidente\u201d possui fronteiras est\u00e1veis, e isso n\u00e3o impede que seja utilizado como categoria geopol\u00edtica. O Sul Global, argumenta ele, \u00e9 uma categoria \u201cdefinitivamente evolutiva\u201d, com uma genealogia que passa pelos N\u00e3o Alinhados, pelo G77 e pelos debates sobre centro e periferia. A imprecis\u00e3o, portanto, n\u00e3o tornaria o conceito in\u00fatil.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O fato de o Sul Global poder funcionar como categoria anal\u00edtica n\u00e3o o transforma em um ator pol\u00edtico monol\u00edtico. Os pa\u00edses abrangidos por essa denomina\u00e7\u00e3o t\u00eam regimes diferentes, n\u00edveis de desenvolvimento extraordinariamente desiguais e interesses econ\u00f4micos e estrat\u00e9gicos que muitas vezes entram em conflito entre si. No entanto, v\u00e1rios de seus principais integrantes disputam a representa\u00e7\u00e3o dessa identidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O conceito do Sul Global antecede em muito a ascens\u00e3o da China, mas Pequim tem um interesse evidente em consolid\u00e1-lo como identidade pol\u00edtica e se define como parte dele. A \u00cdndia, por sua vez, organizou sucessivas c\u00fapulas sob o nome <em>Voice of Global South<\/em>, enquanto o Brasil de Lula tamb\u00e9m incorpora essa identidade \u00e0 sua proje\u00e7\u00e3o internacional como uma pot\u00eancia intermedi\u00e1ria, representante do Sul Global a partir do Ocidente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O paradoxo \u00e9 evidente: aqueles que pretendem representar o Sul Global tamb\u00e9m competem entre si por mercados, investimentos, tecnologia e influ\u00eancia. Al\u00e9m das dificuldades inerentes \u00e0 categoria, h\u00e1 transforma\u00e7\u00f5es materiais que ajudam a explicar por que ela adquiriu tanta relev\u00e2ncia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>O retorno da materialidade<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Durante as d\u00e9cadas de globaliza\u00e7\u00e3o, instalou-se uma certa ilus\u00e3o de que a dist\u00e2ncia, as fronteiras e a localiza\u00e7\u00e3o dos recursos haviam perdido import\u00e2ncia relativa. As recentes guerras abertas, as san\u00e7\u00f5es, a competi\u00e7\u00e3o entre os Estados Unidos e a China e a vulnerabilidade das cadeias de abastecimento nos obrigaram a olhar novamente para o mapa: Suez, Malaca, Panam\u00e1, o Mar Vermelho ou o Mar Negro voltam a fazer parte da discuss\u00e3o. A globaliza\u00e7\u00e3o n\u00e3o eliminou a geografia; ao contr\u00e1rio, construiu uma enorme infraestrutura que depende dela.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As mat\u00e9rias-primas tamb\u00e9m voltaram \u00e0s planilhas do Excel das empresas e ao planejamento das contas p\u00fablicas. O petr\u00f3leo e o g\u00e1s continuam sendo estrat\u00e9gicos, mas a eletrifica\u00e7\u00e3o e a digitaliza\u00e7\u00e3o aumentaram a import\u00e2ncia do l\u00edtio, do cobre, do n\u00edquel, do cobalto, do grafite e das terras raras.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Uma propor\u00e7\u00e3o consider\u00e1vel das reservas e da produ\u00e7\u00e3o de minerais cr\u00edticos concentra-se em pa\u00edses em desenvolvimento. Existe, no entanto, uma diferen\u00e7a qualitativa entre possuir esses recursos e controlar as cadeias de valor. A China ocupa posi\u00e7\u00f5es dominantes e de grande escala no refino e no processamento de numerosos minerais estrat\u00e9gicos, e \u00e9 precisamente a\u00ed que o recurso se transforma em capacidade industrial e tecnol\u00f3gica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Segundo M\u00f3nica Bruckmann, co-coordenadora do Diploma Superior em Geopol\u00edtica da CLACSO, \u201ch\u00e1 elementos subjetivos abstratos que est\u00e3o mudando: a cartografia tamb\u00e9m \u00e9 uma express\u00e3o de poder. Os mapas que, durante s\u00e9culos, colocaram o Atl\u00e2ntico Norte no centro come\u00e7am a coexistir com representa\u00e7\u00f5es nas quais o \u00cdndico e o Pac\u00edfico ocupam uma posi\u00e7\u00e3o central\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">J\u00e1 Agull\u00f3 traz uma precis\u00e3o importante sobre a geografia: recuper\u00e1-la n\u00e3o significa retornar ao determinismo da velha geopol\u00edtica: \u201cA materialidade do s\u00e9culo XXI \u00e9 constitu\u00edda tamb\u00e9m por portos de \u00e1guas profundas, rodovias, redes el\u00e9tricas, internet e cadeias globais de valor\u201d. O territ\u00f3rio importa, mas tamb\u00e9m aquilo que permite conect\u00e1-lo, explor\u00e1-lo, process\u00e1-lo e transform\u00e1-lo em capacidade econ\u00f4mica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Alguns territ\u00f3rios come\u00e7am at\u00e9 mesmo a adquirir valor, n\u00e3o apenas pelo que produzem hoje, mas pelo que preservam para um futuro mais incerto: \u00e1gua, biodiversidade, capacidade alimentar, minerais ou energia. Uma esp\u00e9cie de \u201cArca de No\u00e9\u201d geopol\u00edtica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>O paradoxo latino-americano<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A Am\u00e9rica Latina possui uma dota\u00e7\u00e3o extraordin\u00e1ria de recursos necess\u00e1rios para a transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica e a economia digital; no entanto, em geral, fica estagnada nos primeiros elos de muitas cadeias produtivas. Ter algo que o mundo demanda n\u00e3o significa necessariamente fazer parte do c\u00edrculo decis\u00f3rio das regras do jogo internacional. Bruckmann apresenta isso como um paradoxo: \u201cA China representa uma grande oportunidade que estamos deixando passar, porque, em grande medida, continuamos pensando na l\u00f3gica da exporta\u00e7\u00e3o de mat\u00e9rias-primas, que foi a l\u00f3gica que se imp\u00f4s desde o in\u00edcio da coloniza\u00e7\u00e3o e da qual ainda n\u00e3o nos libertamos\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A quest\u00e3o, portanto, n\u00e3o \u00e9 apenas quem possui o l\u00edtio, o cobre ou as terras raras, mas tamb\u00e9m quem tem capacidade para transform\u00e1-los e gerar maior valor. \u201c\u00c9 indispens\u00e1vel ter planos estrat\u00e9gicos e pol\u00edticas concretas para levar adiante esses planos\u201d, afirma Bruckmann, e cita o caso da Indon\u00e9sia, que restringiu a exporta\u00e7\u00e3o de min\u00e9rio de n\u00edquel n\u00e3o processado como parte de uma estrat\u00e9gia de <em>downstreaming<\/em> destinada a impulsionar o refino e a manufatura para gerar maior valor localmente. A pol\u00edtica gerou um conflito comercial com a Uni\u00e3o Europeia e foi questionada perante a Organiza\u00e7\u00e3o Mundial do Com\u00e9rcio, mas mostra algo fundamental: possuir um recurso e utiliz\u00e1-lo como instrumento de pol\u00edtica industrial s\u00e3o duas coisas diferentes.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Mais op\u00e7\u00f5es, maior autonomia?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A ascens\u00e3o da China (e o dinamismo da \u00cdndia) trouxe outra transforma\u00e7\u00e3o. Para muitos pa\u00edses que, durante d\u00e9cadas, dependeram de um n\u00famero reduzido de mercados, fornecedores de tecnologia e fontes de financiamento, o leque de alternativas est\u00e1 se ampliando. Aos la\u00e7os tradicionais com os Estados Unidos e a Europa somam-se hoje a China e outros atores asi\u00e1ticos, novos mecanismos de financiamento e diversos espa\u00e7os de coopera\u00e7\u00e3o. O resultado \u00e9 um sistema com mais interlocutores e possibilidades de escolha potencialmente maiores.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Agull\u00f3 v\u00ea nos BRICS uma manifesta\u00e7\u00e3o particularmente interessante dessa nova configura\u00e7\u00e3o, que resume com uma afirma\u00e7\u00e3o provocativa: \u201cos BRICS n\u00e3o s\u00e3o a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica\u201d, j\u00e1 que seus membros mant\u00eam interesses distintos e, \u00e0s vezes, conflitantes. \u00cdndia e China competem entre si; produtores e consumidores de energia buscam objetivos diferentes, e suas rela\u00e7\u00f5es com os Estados Unidos tamb\u00e9m n\u00e3o s\u00e3o equivalentes. No entanto, essas diverg\u00eancias n\u00e3o impedem acordos pontuais: a \u00cdndia coopera com a China no \u00e2mbito dos BRICS enquanto, ao mesmo tempo, integra o Quad junto com os Estados Unidos, o Jap\u00e3o e a Austr\u00e1lia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Talvez haja a\u00ed uma transforma\u00e7\u00e3o importante em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 l\u00f3gica da Guerra Fria. A autonomia n\u00e3o teria mais necessariamente que significar n\u00e3o se alinhar com ningu\u00e9m. Pode consistir em se alinhar seletivamente com diferentes atores, de acordo com interesses concretos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas mesmo o alinhamento m\u00faltiplo tem limites: \u00e0 medida que uma decis\u00e3o se aproxima do cerne dos interesses estrat\u00e9gicos de uma grande pot\u00eancia, a margem de autonomia pode se estreitar rapidamente. A recente controv\u00e9rsia entre os Estados Unidos e a CALF, a maior distribuidora de energia el\u00e9trica da Patag\u00f4nia argentina, oferece um pequeno exemplo. A cooperativa denunciou press\u00f5es dos Estados Unidos diante da possibilidade de contratar tecnologia da Huawei para a infraestrutura tecnol\u00f3gica em uma regi\u00e3o particularmente sens\u00edvel devido \u00e0 sua proximidade com Vaca Muerta. Washington considera a empresa chinesa uma amea\u00e7a \u00e0 sua seguran\u00e7a nacional.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As disputas entre a China e os Estados Unidos tra\u00e7am linhas vermelhas que, por enquanto, t\u00eam um alto custo caso sejam ultrapassadas. O epis\u00f3dio exige cautela: contar com mais fornecedores, investidores e parceiros amplia as alternativas, mas n\u00e3o elimina necessariamente as hierarquias.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Sul Global surge como uma nova geografia do poder mundial, onde os recursos e as alian\u00e7as estrat\u00e9gicas est\u00e3o redefinindo os limites da autonomia dos pa\u00edses em desenvolvimento.<\/p>\n","protected":false},"author":487,"featured_media":58635,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"episode_type":"","audio_file":"","podmotor_file_id":"","podmotor_episode_id":"","cover_image":"","cover_image_id":"","duration":"","filesize":"","filesize_raw":"","date_recorded":"","explicit":"","block":"","itunes_episode_number":"","itunes_title":"","itunes_season_number":"","itunes_episode_type":"","footnotes":""},"categories":[16957],"tags":[17187],"gps":[],"class_list":["post-58641","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","category-sur-global-pt-br","tag-debates-2"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/58641","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/487"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=58641"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/58641\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":58643,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/58641\/revisions\/58643"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/58635"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=58641"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=58641"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=58641"},{"taxonomy":"gps","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/gps?post=58641"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}