{"id":5883,"date":"2021-06-02T15:45:00","date_gmt":"2021-06-02T18:45:00","guid":{"rendered":"http:\/\/latinoamerica21.com\/?p=5883"},"modified":"2021-06-02T10:23:32","modified_gmt":"2021-06-02T13:23:32","slug":"venezuela-crise-sem-fim-e-dialogo-de-surdos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/venezuela-crise-sem-fim-e-dialogo-de-surdos\/","title":{"rendered":"Venezuela: crise sem fim e di\u00e1logo de surdos"},"content":{"rendered":"\n<p>Nunca \u00e9 tarde para que n\u00f3s, intelectuais cr\u00edticos latino-americanos, reconhe\u00e7amos o autoritarismo do governo venezuelano. J\u00e1 h\u00e1 raz\u00f5es suficientes para n\u00f3s, acad\u00eamicos \u201cprogressistas\u201d latino-americanos, assumirmos publicamente o \u201cfechamento\u201d do regime, e ter este dado em conta ao analisar as poss\u00edveis sa\u00eddas para o \u201cempate catastr\u00f3fico\u201d estabelecido na Venezuela. Manter o sil\u00eancio, ou preservar um apoio formal (por vezes acr\u00edtico) ao regime de Nicol\u00e1s Maduro n\u00e3o colabora em nada para a resolu\u00e7\u00e3o do impasse.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>As cr\u00edticas do processo venezuelano<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Compreende-se que a quest\u00e3o seja dif\u00edcil de ser enfrentada. Muito de belo e empolgante se deu na Venezuela nos primeiros anos da \u201cRevolu\u00e7\u00e3o Bolivariana\u201d de Hugo Ch\u00e1vez. Uma nova Constitui\u00e7\u00e3o ampliou direitos sociais e abriu espa\u00e7o para mecanismos de democracia direta e participa\u00e7\u00e3o popular. Investimentos sociais e campanhas de mobiliza\u00e7\u00e3o (as conhecidas \u201cMiss\u00f5es\u201d) reduziram consideravelmente a pobreza, erradicaram o analfabetismo e ampliaram o acesso \u00e0 sa\u00fade.<\/p>\n\n\n\n<p>Milhares de espa\u00e7os de democracia participativa foram constru\u00eddos: os Conselhos Comunais, que em seus primeiros anos contaram com a atua\u00e7\u00e3o da maioria da popula\u00e7\u00e3o, incluindo oposicionistas. No campo das rela\u00e7\u00f5es internacionais, buscou-se construir uma alternativa \u00e0 domina\u00e7\u00e3o estadunidense na regi\u00e3o do Caribe, a Alian\u00e7a Bolivariana para os Povos de Nossa Am\u00e9rica (Alba). &nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Adicionalmente, h\u00e1 o grande temor de, ao se criticar o chavismo, resvalar em argumentos que devem ser evitadas a todo custo (ou ser confundido com aqueles que os utilizam desde sempre). Mencionaria ao menos dois maus argumentos, que se complementam. O primeiro \u00e9 a acusa\u00e7\u00e3o de \u201cpopulismo\u201d, esgrimida sempre contra qualquer l\u00edder que busque uma rela\u00e7\u00e3o direta com as massas contornando mecanismos de representa\u00e7\u00e3o liberais.<\/p>\n\n\n\n<p>Populismo \u00e9 um conceito vazio, de combate, que se utiliza geralmente para deslegitimar o advers\u00e1rio. Mal disfar\u00e7a o medo de povo daquele que acusa algu\u00e9m de populismo, a demofobia de quem espera que a pol\u00edtica sempre seja canalizada pelas institui\u00e7\u00f5es da democracia liberal. Aqui chego ao segundo mau argumento contra o chavismo: a vis\u00e3o limitada de democracia, que para muitos se resume a regras e procedimentos para organizar a disputa pol\u00edtica entre grupos da elite. Participa\u00e7\u00e3o popular, cheiro de povo, mobiliza\u00e7\u00e3o, pol\u00edtica nas ruas. Eis o terror dessa gente.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O fim da democracia<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Entende-se ent\u00e3o por que temos tanto temor a criticar o chavismo. A maioria de seus cr\u00edticos se constitui h\u00e1 mais de duas d\u00e9cadas de elitistas e autorit\u00e1rios, e lan\u00e7a contra ele argumentos a partir destas perspectivas. Com isso, relevamos ou criticamos em voz baixa por longo tempo problemas graves como o aprofundamento da depend\u00eancia do petr\u00f3leo (o \u201crentismo\u201d do Estado venezuelano), ou a crescente militariza\u00e7\u00e3o dos quadros governamentais.<\/p>\n\n\n\n<p>De todo modo, se realizavam elei\u00e7\u00f5es confi\u00e1veis verificadas por organismos internacionais, se preservavam espa\u00e7os de oposi\u00e7\u00e3o (quase todos os grandes di\u00e1rios e canais de televis\u00e3o venezuelanos \u00e0quela \u00e9poca), e o chavismo efetivamente se legitimava pelo voto majorit\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/brasilescola.uol.com.br\/historia-da-america\/crise-na-venezuela.htm\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">At\u00e9 2015, quando se iniciou com mais evid\u00eancia uma deriva autorit\u00e1ria. <\/a>Na sequ\u00eancia do desaparecimento do l\u00edder Ch\u00e1vez em 2013 e do recrudescimento da crise econ\u00f4mica derivada da queda do pre\u00e7o do barril de petr\u00f3leo e de graves problemas de gest\u00e3o do Estado, as oposi\u00e7\u00f5es conquistaram maioria qualificada nas elei\u00e7\u00f5es parlamentares (dois ter\u00e7os da Assembleia). Com isto, poderiam reformar a Constitui\u00e7\u00e3o e bloquear o governo, apontando para o come\u00e7o do fim do processo bolivariano.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"alignright size-large is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/latinoamerica21.com\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/227-D-2-1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-5884\" width=\"414\" height=\"527\" srcset=\"https:\/\/latinoamerica21.com\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/227-D-2-1.jpg 677w, https:\/\/latinoamerica21.com\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/227-D-2-1-236x300.jpg 236w\" sizes=\"auto, (max-width: 414px) 100vw, 414px\" \/><figcaption><em><sub>Foto de andresAzp en Foter.com<\/sub><\/em><\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>A op\u00e7\u00e3o do governo ent\u00e3o foi de reagir e aplicar sucessivos \u201cgolpes\u201d por meio das institui\u00e7\u00f5es para sobreviver, manobrar por meio das brechas institucionais que tinha e dos apoios no aparato estatal que ainda possu\u00eda no Executivo, no Judici\u00e1rio e nas For\u00e7as Armadas. Foram sendo adotadas sucessivas interpreta\u00e7\u00f5es distorcidas da Constitui\u00e7\u00e3o, de forma a manter o chavismo no poder.<\/p>\n\n\n\n<p>Entre outras, anulou-se a elei\u00e7\u00e3o de deputados oposicionistas de modo a evitar que as oposi\u00e7\u00f5es mantivessem a maioria qualificada no Legislativo; realizaram-se todos os subterf\u00fagios para atrasar e por fim evitar a convoca\u00e7\u00e3o de um referendo revogat\u00f3rio, para o qual havia suficientes assinaturas colhidas; e convocou-se uma \u201cAssembleia Constituinte\u201d (que ao final n\u00e3o chegou a lugar algum) apenas para sobrepassar o Legislativo de maioria oposicionista.<\/p>\n\n\n\n<p>Desse modo, a democracia venezuelana se degenerou, em qualquer sentido em que se utilize o conceito. Mesmo sendo defensor da tese de que democracia pode assumir muitas formas, de que ela \u00e9 muito mais do que institui\u00e7\u00f5es (e do que certas institui\u00e7\u00f5es com as quais ela tem sido confundida), n\u00e3o posso conceder que democracia signifique \u201cgoverno da minoria\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>E \u00e9 isto que o chavismo \u00e9 hoje: um regime que se mant\u00e9m no poder representando a minoria do povo venezuelano, atrav\u00e9s de elei\u00e7\u00f5es sem verifica\u00e7\u00e3o independente que n\u00e3o mais o legitimam, elei\u00e7\u00f5es das quais a maioria n\u00e3o aceita participar. Se na democracia uma nova maioria se constitui, a nova minoria deve conceder a derrota. Desde 2015, Maduro n\u00e3o d\u00e1 mostras de que considere esta possibilidade.<\/p>\n\n\n\n<p>A quest\u00e3o \u00e9 que de nenhum modo as oposi\u00e7\u00f5es conseguem constituir-se numa alternativa confi\u00e1vel, depois de diversas tentativas de golpe e epis\u00f3dios de n\u00e3o reconhecimento das regras do jogo tamb\u00e9m de sua parte. N\u00e3o ajuda parte da oposi\u00e7\u00e3o estar associada ao trumpismo e ao bolsonarismo, defender a invas\u00e3o militar de seu pr\u00f3prio pa\u00eds, e ser liderada por um \u201cpresidente\u201d autoproclamado. N\u00e3o se vislumbra por outra parte qualquer sa\u00edda a partir de alguma oposi\u00e7\u00e3o de esquerda ou efetivamente popular.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O di\u00e1logo como chave para superar a crise sem fim<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Num baile macabro entre um chavismo que j\u00e1 demonstrou que far\u00e1 de tudo para se manter no poder (e que mant\u00e9m o apoio militar) e diversas oposi\u00e7\u00f5es que se debatem entre golpismo, abstencionismo e eventualmente o di\u00e1logo, a Venezuela vive um \u201cempate catastr\u00f3fico\u201d. Nesta situa\u00e7\u00e3o em que for\u00e7as diametralmente opostas se bloqueiam, <a href=\"http:\/\/latinoamerica21.com\/br\/caminhantes-baleeiros-migracao-venezuelana\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">avan\u00e7am uma crise humanit\u00e1ria regada a fome, fugas pelas fronteiras da Col\u00f4mbia e do Brasil e travessias em barcos prec\u00e1rios para Trinidad e Tobago.<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Se os empates catastr\u00f3ficos se resolvem relativamente r\u00e1pido, o venezuelano parece estar se convertendo numa crise sem fim. Configura-se dif\u00edcil encontrar uma sa\u00edda, dadas a estendida crise econ\u00f4mica, a crise sanit\u00e1ria, a profunda polariza\u00e7\u00e3o, as sabotagens, e o papel sedicioso de atores externos desestabilizadores como o trumpismo, a Organiza\u00e7\u00e3o dos Estados Americanos e os governos de Iv\u00e1n Duque e de Jair Bolsonaro.<\/p>\n\n\n\n<p>Se h\u00e1 alguma solu\u00e7\u00e3o poss\u00edvel, ser\u00e1 de longo prazo: di\u00e1logos, di\u00e1logos e mais di\u00e1logos, mediados por atores internacionais minimamente equilibrados. Espera-se que, em algum ponto desta hist\u00f3ria, se retome todo aquele potencial de participa\u00e7\u00e3o popular bloqueado, se expresse toda aquela aprendizagem participativa acumulada, se reencontre em algum lugar deste belo pa\u00eds aquela chama de esperan\u00e7a revolucion\u00e1ria dormente.<\/p>\n\n\n\n<p><em><sub>Foto de MARQUINAM en Foter.com<\/sub><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nunca \u00e9 tarde demais para os intelectuais cr\u00edticos latino-americanos reconhecerem o autoritarismo do governo venezuelano. 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