{"id":5915,"date":"2021-06-05T08:45:00","date_gmt":"2021-06-05T11:45:00","guid":{"rendered":"http:\/\/latinoamerica21.com\/?p=5915"},"modified":"2021-06-03T06:19:44","modified_gmt":"2021-06-03T09:19:44","slug":"a-miopia-politica-do-bolsonaro-na-america-do-sul","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/a-miopia-politica-do-bolsonaro-na-america-do-sul\/","title":{"rendered":"A miopia pol\u00edtica do Bolsonaro na Am\u00e9rica do Sul"},"content":{"rendered":"\n<p>At\u00e9 o in\u00edcio da d\u00e9cada passada, o Brasil afirmava-se como o grande catalisador de mecanismos de concerta\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e coopera\u00e7\u00e3o multissetorial na Am\u00e9rica do Sul, atuando ainda como articulador de consensos e mediador de tens\u00f5es e instabilidades entre vizinhos. Nos \u00faltimos anos, contudo, parece faltar ao pa\u00eds uma estrat\u00e9gia mais clara para a regi\u00e3o, sendo marcantes os desencontros ideol\u00f3gicos com parceiros fundamentais, bem como a ado\u00e7\u00e3o de posi\u00e7\u00f5es a\u00e7odadas e voluntaristas que contrariam d\u00e9cadas de pragmatismo e prud\u00eancia no trato com os vizinhos.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Fim do pragmatismo na pol\u00edtica exterior<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>No caso da Venezuela, o precipitado reconhecimento de Juan Guaid\u00f3 como presidente do pa\u00eds e a tentativa de envio for\u00e7ado de suposta ajuda humanit\u00e1ria prejudicaram qualquer possibilidade de contribui\u00e7\u00e3o genu\u00edna para a supera\u00e7\u00e3o da crise em vizinho de grande import\u00e2ncia. O mero apoio a san\u00e7\u00f5es contra ao governo Maduro em foros como o Mercosul, a OEA ou o Grupo de Lima \u00e9 muito pouco para um pa\u00eds habituado a agir assertivamente em favor da estabilidade sub-regional. Queimar pontes de di\u00e1logo com o mundo tornou-se pr\u00e1tica recorrente da diplomacia de Bolsonaro.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A pol\u00edtica externa atual mostra-se perdida e permeada por posi\u00e7\u00f5es err\u00e1ticas e incongruentes n\u00e3o s\u00f3 nas grandes quest\u00f5es da pol\u00edtica internacional, mas tamb\u00e9m no pr\u00f3prio entorno regional brasileiro. A busca por uma lideran\u00e7a regional que caracterizou o pa\u00eds nos anos 2000 deu lugar a um papel coadjuvante incompat\u00edvel com o peso e representatividade do Brasil na regi\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>O pa\u00eds tem se limitado a embarcar em iniciativas lan\u00e7adas e idealizadas por vizinhos, que aproveitando-se do v\u00e1cuo deixado por Bras\u00edlia, acabam por ganhar centralidade e proje\u00e7\u00e3o. O PROSUL, por exemplo, foi pensado e formatado longe dos gabinetes do Planalto e do Itamaraty.<\/p>\n\n\n\n<p>A presen\u00e7a de Bolsonaro na posse de Guillermo Lasso h\u00e1 algumas semanas apenas serviu para refor\u00e7ar a sua percep\u00e7\u00e3o limitada e manique\u00edsta sobre o futuro da Am\u00e9rica do Sul. A defesa da \u201cuni\u00e3o pela liberdade da regi\u00e3o\u201d parece refletir um antagonismo irreconcili\u00e1vel com os governos de centro-esquerda ou esquerda, tal qual nos momentos mais cr\u00edticos de uma Guerra Fria encerrada h\u00e1 mais de trinta anos.<\/p>\n\n\n\n<p>Em um passado n\u00e3o muito distante, o Brasil sabia dialogar de forma prof\u00edcua com governos de variados matizes pol\u00edticos, como a Col\u00f4mbia de \u00c1lvaro Uribe e a Venezuela de Hugo Ch\u00e1vez. Assim foi poss\u00edvel criar, por exemplo, o Conselho Sul-americano de Defesa no seio da UNASUL.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Crise nas rela\u00e7\u00f5es bilaterais com a Argentina<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A in\u00e9dita inger\u00eancia no pleito eleitoral argentino em 2019, com explicito apoio \u00e0 reelei\u00e7\u00e3o de Maur\u00edcio Macri, n\u00e3o apenas rompeu com pr\u00e1ticas consolidadas ao longo da hist\u00f3ria de pol\u00edtica exterior do pa\u00eds, mas acabou por conduzir a uma incompatibilidade ideol\u00f3gica tacanha com o&nbsp;&nbsp; presidente Alberto Fern\u00e1ndez.<\/p>\n\n\n\n<p>Chama a aten\u00e7\u00e3o a absoluta falta de disposi\u00e7\u00e3o em superar as diferen\u00e7as, apesar de um encontro virtual sem resultados pr\u00e1ticos ocorrido em dezembro de 2020. Deixar-se levar por paix\u00f5es pol\u00edtico-partid\u00e1rias excludentes \u00e9 postura incompat\u00edvel com a de presidente de um pa\u00eds cujas reconhecidas tradi\u00e7\u00f5es diplom\u00e1ticas assentam-se no universalismo e na diversifica\u00e7\u00e3o de parcerias.<\/p>\n\n\n\n<p>Em um momento t\u00e3o delicado para toda a regi\u00e3o em fun\u00e7\u00e3o <a href=\"http:\/\/latinoamerica21.com\/br\/o-isolamento-do-brasil-na-luta-contra-a-covid-19\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">da grave crise sanit\u00e1ria e de suas devastadoras consequ\u00eancias econ\u00f4micas<\/a>, caberia ao Planalto promover urgente entendimento com a Casa Rosada. O decl\u00ednio comercial dos \u00faltimos anos e a perda de espa\u00e7o das exporta\u00e7\u00f5es brasileiras no mercado vizinho, por exemplo, exigem do pa\u00eds atitudes pragm\u00e1ticas e conciliat\u00f3rias. A corrente de com\u00e9rcio bilateral em 2020 foi de pouco mais de US$ 16 bilh\u00f5es, tendo ficado abaixo da metade dos US$ 39 bilh\u00f5es de 2011.<\/p>\n\n\n\n<p>Em termos relativos, <a href=\"https:\/\/www.bbc.com\/mundo\/noticias-america-latina-53920060\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">o Brasil tem perdido espa\u00e7o para as exporta\u00e7\u00f5es chinesas para o mercado argentino<\/a>, j\u00e1 tendo o gigante asi\u00e1tico ficado \u00e0 frente do Brasil em alguns momentos de 2020 como o maior parceiro comercial da Argentina. Considerando a import\u00e2ncia desse mercado para as vendas de manufaturas brasileiras com maior valor agregado, percebe-se que a agenda bilateral est\u00e1 recheada de temas urgentes e que deveriam sobrepor-se a rixas pessoais.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Reconstruir a pol\u00edtica externa<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O delicado momento da rela\u00e7\u00e3o com a Argentina ofuscou a celebra\u00e7\u00e3o pelos trinta anos do MERCOSUL. Importantes decis\u00f5es relativas \u00e0 Tarifa Externa Comum e ao modelo de negocia\u00e7\u00f5es externas precisam ser tomadas, mas o distanciamento entre os dois principais s\u00f3cios constitui obst\u00e1culo adicional. O futuro do bloco passa necessariamente por uma melhor coordena\u00e7\u00e3o entre seus membros, sendo inadmiss\u00edvel qualquer tentativa de isolar ideologicamente um membro por conta de diverg\u00eancias moment\u00e2neas dos governos de plant\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Faria muito bem ao governo brasileiro tamb\u00e9m conhecer e respeitar melhor a hist\u00f3ria dos vizinhos, especialmente no tocante \u00e0s ditaduras militares, cuja mem\u00f3ria \u00e9 muito viva e presente nos pa\u00edses do Cone Sul. Elogiar ditadores ou minimizar os abusos praticados em um per\u00edodo t\u00e3o traum\u00e1tico para a regi\u00e3o j\u00e1 provocou celeuma e constrangimentos at\u00e9 mesmo junto a governos com quem h\u00e1 supostamente maior afinidade ideol\u00f3gica como o do chileno Sebasti\u00e1n Pi\u00f1era.<\/p>\n\n\n\n<p>Na esteira de tantos desmandos na condu\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica externa do pa\u00eds, urge n\u00e3o s\u00f3 resgatar a imagem do Brasil no mundo, mas tamb\u00e9m restaurar um posi\u00e7\u00e3o mais sensata, plural e pragm\u00e1tica em sua pr\u00f3pria regi\u00e3o. Di\u00e1logo, toler\u00e2ncia e prud\u00eancia s\u00e3o os melhores imunizantes contra o v\u00edrus da miopia pol\u00edtica que tem caracterizado a rela\u00e7\u00e3o do governo brasileiro com os vizinhos.<\/p>\n\n\n\n<p><em><sub>Foto de Pal\u00e1cio do Planalto en Photer.com<\/sub><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Hasta principios de la \u00faltima d\u00e9cada, Brasil se consolid\u00f3 como el gran catalizador de los mecanismos de consenso pol\u00edtico y cooperaci\u00f3n multisectorial en Sudam\u00e9rica. 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