{"id":59357,"date":"2026-09-27T04:00:00","date_gmt":"2026-09-27T07:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/latinoamerica21.com\/?p=59357"},"modified":"2026-09-26T18:57:12","modified_gmt":"2026-09-26T21:57:12","slug":"quem-desenha-hoje-o-mapa-da-america-latina","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/quem-desenha-hoje-o-mapa-da-america-latina\/","title":{"rendered":"Quem desenha hoje o mapa da Am\u00e9rica Latina?"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Donald Trump publicou um mapa sem escrever uma s\u00f3 palavra. N\u00e3o precisava: a bandeira dos Estados Unidos cobria o M\u00e9xico, o Canad\u00e1, a Groenl\u00e2ndia, a Isl\u00e2ndia e boa parte do Caribe. Sobre aquela extens\u00e3o aparecia um \u00fanico nome: Estados Unidos da Am\u00e9rica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A origem da imagem n\u00e3o est\u00e1 clara. Trump costuma compartilhar na rede Truth Social memes e conte\u00fados criados por seus seguidores ou por meio de intelig\u00eancia artificial. Mas foi ele quem decidiu exibir aquele mapa para milh\u00f5es de pessoas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A publica\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m n\u00e3o surgiu de forma isolada. Em 2025, Trump ordenou que o governo federal estadunidense chamasse o Golfo do M\u00e9xico de \u201cGolfo da Am\u00e9rica\u201d. Em agosto de 2026, ele rebatizou o Lago Ont\u00e1rio como \u201cLago Am\u00e9rica\u201d. Pouco depois, sugeriu mudar o nome do estado do Novo M\u00e9xico para \u201cNova Am\u00e9rica\u201d. O mapa marcou o fim dessa sequ\u00eancia e estendeu a bandeira de seu pa\u00eds sobre boa parte de seus vizinhos. Primeiro, ele mudou os nomes. Depois, apresentou os territ\u00f3rios como se fossem seus.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para a Am\u00e9rica Latina, essa imagem n\u00e3o \u00e9 uma provoca\u00e7\u00e3o distante. O M\u00e9xico, a Am\u00e9rica Central e o Caribe aparecem absorvidos sob uma bandeira alheia. N\u00e3o h\u00e1 argumentos, tratados nem reivindica\u00e7\u00f5es jur\u00eddicas. O mapa simplesmente os apresenta como se suas soberanias tivessem desaparecido. Sem se referir expressamente \u00e0 publica\u00e7\u00e3o de Trump, a presidente mexicana, Claudia Sheinbaum, afirmou naquele mesmo dia que o M\u00e9xico \u201cn\u00e3o \u00e9 nem ser\u00e1 col\u00f4nia ou protetorado de nenhum pa\u00eds estrangeiro\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os novos nomes n\u00e3o alteram o direito internacional nem obrigam outros pa\u00edses a reconhec\u00ea-los. No entanto, sua divulga\u00e7\u00e3o n\u00e3o se limita aos documentos do governo dos Estados Unidos. O Google Maps exibe \u201cGolfo da Am\u00e9rica\u201d e \u201cLago da Am\u00e9rica\u201d para quem usa a plataforma nos Estados Unidos. O M\u00e9xico mant\u00e9m \u201cGolfo do M\u00e9xico\u201d; o Canad\u00e1, \u201cLago Ont\u00e1rio\u201d. Em outros pa\u00edses, ambas as denomina\u00e7\u00f5es podem aparecer. O resultado \u00e9 que usu\u00e1rios localizados nos Estados Unidos, no Canad\u00e1 e em outros pa\u00edses podem consultar um mesmo local e encontrar nomes diferentes.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O Google explica que segue as fontes oficiais reconhecidas em cada pa\u00eds. Trata-se de uma pol\u00edtica concebida para lidar com denomina\u00e7\u00f5es que variam entre jurisdi\u00e7\u00f5es, mas que tem consequ\u00eancias mais amplas. Quando o nome decretado por um governo aparece na tela de milh\u00f5es de pessoas, ele se incorpora ao cotidiano. Assim, a decis\u00e3o pol\u00edtica assume a apar\u00eancia de informa\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica. O mapa que sup\u00fanhamos ser comum se fragmenta em vers\u00f5es nacionais do mundo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Enquanto Trump divulgava essa imagem, a Assembleia Geral das Na\u00e7\u00f5es Unidas (ONU) acabara de aprovar uma resolu\u00e7\u00e3o sobre outra forma de alterar os mapas. Com 164 votos a favor, um contra e seis absten\u00e7\u00f5es, a ONU promoveu o uso de proje\u00e7\u00f5es de \u00e1reas equivalentes, capazes de representar com maior fidelidade o tamanho relativo dos territ\u00f3rios. Os Estados Unidos deram o \u00fanico voto contra.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A resolu\u00e7\u00e3o favorece alternativas como a Equal Earth, uma proje\u00e7\u00e3o criada em 2018 que preserva as propor\u00e7\u00f5es entre as superf\u00edcies e procura manter formas continentais reconhec\u00edveis. Com o tempo, a proje\u00e7\u00e3o cl\u00e1ssica de Mercator tornou-se uma das imagens mais conhecidas do mundo. Concebida em 1569 para facilitar a navega\u00e7\u00e3o, ela permitia tra\u00e7ar rotas sobre uma superf\u00edcie plana. Em contrapartida, ela aumentava progressivamente os territ\u00f3rios \u00e0 medida que se afastavam do equador. A Groenl\u00e2ndia acabou parecendo quase t\u00e3o grande quanto a \u00c1frica, embora a \u00c1frica seja cerca de quatorze vezes maior.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Assim, uma ferramenta concebida para orienta\u00e7\u00e3o no mar tornou-se o mapa com o qual gera\u00e7\u00f5es inteiras aprenderam a imaginar o planeta. A Europa, o Canad\u00e1 e a Groenl\u00e2ndia adquiriram dimens\u00f5es desproporcionais. A \u00c1frica, boa parte da Am\u00e9rica Latina e o sul da \u00c1sia ficaram visualmente minimizados em compara\u00e7\u00e3o com os territ\u00f3rios de latitudes mais altas. A distor\u00e7\u00e3o, por si s\u00f3, n\u00e3o criou as hierarquias internacionais, mas lhes conferiu uma imagem. Os territ\u00f3rios mais poderosos tamb\u00e9m pareciam ser naturalmente maiores.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A cr\u00edtica a Mercator j\u00e1 vem de v\u00e1rias d\u00e9cadas. No final do s\u00e9culo XX, difundiu-se o mapa de Peters, outra proje\u00e7\u00e3o de \u00e1reas equivalentes. O contraste revelava uma \u00c1frica e uma Am\u00e9rica do Sul muito maiores do que sugeriam os mapas tradicionais. Peters preservava as superf\u00edcies, embora deformasse consideravelmente as formas. O Equal Earth retoma esse princ\u00edpio com um design mais equilibrado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Se chegar \u00e0s escolas, a nova proje\u00e7\u00e3o poder\u00e1 mudar algumas no\u00e7\u00f5es aprendidas desde a inf\u00e2ncia. Ela mostrar\u00e1, entre outras coisas, que os Estados Unidos caberiam cerca de tr\u00eas vezes dentro da \u00c1frica, que o Brasil se aproxima muito mais do tamanho do Canad\u00e1 do que sugeriam os mapas tradicionais e que a Am\u00e9rica do Sul \u00e9 consideravelmente maior que a Europa. Os territ\u00f3rios continuar\u00e3o tendo a mesma extens\u00e3o, mas mudar\u00e1 a intui\u00e7\u00e3o aprendida desde a inf\u00e2ncia sobre quais pa\u00edses s\u00e3o grandes, onde fica o centro e quais regi\u00f5es aparecem nas margens.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O soci\u00f3logo peruano An\u00edbal Quijano utilizou o conceito de \u201ccolonialidade do poder\u201d para explicar a perman\u00eancia de hierarquias surgidas durante o colonialismo, mesmo ap\u00f3s o desaparecimento formal dos imp\u00e9rios. Essa hierarquia tamb\u00e9m ordenou a produ\u00e7\u00e3o de conhecimento: as perspectivas originadas no Norte acabaram se apresentando como a maneira universal de interpretar a realidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Embora n\u00e3o repare s\u00e9culos de desigualdade nem aumente a influ\u00eancia econ\u00f4mica ou pol\u00edtica da Am\u00e9rica Latina, a corre\u00e7\u00e3o do mapa pode ser entendida como uma forma de justi\u00e7a cognitiva. Ela pode modificar a posi\u00e7\u00e3o a partir da qual n\u00f3s, latino-americanos, aprendemos a nos olhar dentro dele e evita que confundamos o tamanho do poder com o tamanho do territ\u00f3rio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Toda proje\u00e7\u00e3o obriga a escolher qual qualidade \u00e9 preservada e qual \u00e9 distorcida. Mercator sacrificou as superf\u00edcies para preservar as dire\u00e7\u00f5es. O Equal Earth preserva as \u00e1reas \u00e0 custa de distorcer, em diferentes graus, formas, dist\u00e2ncias e dire\u00e7\u00f5es. O mapa de Trump distorce algo que n\u00e3o depende da matem\u00e1tica: a soberania.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No s\u00e9culo XVI, uma proje\u00e7\u00e3o podia condicionar, por gera\u00e7\u00f5es, a percep\u00e7\u00e3o do tamanho dos continentes. No s\u00e9culo XXI, um governo pode mudar um nome e uma plataforma global pode exibi-lo em poucos dias para milh\u00f5es de pessoas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por isso, a quest\u00e3o j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 apenas quem possui um territ\u00f3rio, mas quem tem a capacidade de nome\u00e1-lo, desenh\u00e1-lo e fazer com que os outros se acostumem a v\u00ea-lo de determinada maneira. Pois, antes de mover as fronteiras, o poder geralmente come\u00e7a pelos nomes.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os mapas n\u00e3o representam apenas o mundo: eles tamb\u00e9m refletem rela\u00e7\u00f5es de poder, e hoje a Am\u00e9rica Latina volta a ser palco dessa disputa para tra\u00e7ar e definir o territ\u00f3rio.<\/p>\n","protected":false},"author":897,"featured_media":59365,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"episode_type":"","audio_file":"","podmotor_file_id":"","podmotor_episode_id":"","cover_image":"","cover_image_id":"","duration":"","filesize":"","filesize_raw":"","date_recorded":"","explicit":"","block":"","itunes_episode_number":"","itunes_title":"","itunes_season_number":"","itunes_episode_type":"","footnotes":""},"categories":[16762],"tags":[17187],"gps":[],"class_list":["post-59357","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","category-relaiciones-internacionales-pt-br","tag-debates-2"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/59357","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/897"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=59357"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/59357\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":59359,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/59357\/revisions\/59359"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/59365"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=59357"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=59357"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=59357"},{"taxonomy":"gps","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/gps?post=59357"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}