{"id":5998,"date":"2021-06-11T08:45:00","date_gmt":"2021-06-11T11:45:00","guid":{"rendered":"http:\/\/latinoamerica21.com\/?p=5998"},"modified":"2021-06-11T04:34:15","modified_gmt":"2021-06-11T07:34:15","slug":"cuba-e-a-pandemia-entre-a-vacina-e-a-miseria","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/cuba-e-a-pandemia-entre-a-vacina-e-a-miseria\/","title":{"rendered":"Cuba e a pandemia: entre a vacina e a mis\u00e9ria"},"content":{"rendered":"\n<p>Cuba poderia ser o primeiro pa\u00eds latino-americano a produzir uma vacina contra a Covid-19. Tanto <em>Soberana 02<\/em> como <em>Abdala<\/em> est\u00e3o na \u00faltima fase cl\u00ednica, que dever\u00e1 ser conclu\u00edda nas pr\u00f3ximas semanas. Uma vez aprovada pela ag\u00eancia nacional de medicamentos, a campanha de vacina\u00e7\u00e3o come\u00e7aria na ilha, e posteriormente as vacinas seriam exportadas para a Am\u00e9rica Latina e o Caribe. Se tudo correr como planeado, a vacina daria um respiro a <a href=\"http:\/\/latinoamerica21.com\/br\/cuba-o-castrismo-sem-castros\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">um regime pol\u00edtico cuja legitimidade est\u00e1 em jogo ante ao fim do Castrismo<\/a>, ao aumento dos casos Covid-19 e \u00e0 profunda crise econ\u00f4mica que aflige a ilha desde o in\u00edcio da pandemia.<\/p>\n\n\n\n<p>Como a maioria dos seus vizinhos, Cuba \u00e9 um pa\u00eds de contrastes. Uma primeira contradi\u00e7\u00e3o \u00e9 a discrep\u00e2ncia entre uma constante precariedade econ\u00f4mica e a internacionaliza\u00e7\u00e3o dos servi\u00e7os m\u00e9dicos e de sa\u00fade. Longas filas para comprar alimentos e outros produtos b\u00e1sicos lembram o Per\u00edodo Especial em Tempo de Paz que Fidel Castro uma vez proclamou e que, com exce\u00e7\u00e3o da \u00e9poca de ouro da alian\u00e7a estrat\u00e9gica com a Venezuela (2003-2013), ainda n\u00e3o terminou.<\/p>\n\n\n\n<p>Em Cuba, altos n\u00edveis de subdesenvolvimento coexistem com uma ind\u00fastria farmac\u00eautica e biotecnol\u00f3gica de alto n\u00edvel e com a \u00fanica Escola Latino-Americana de Medicina do continente. <a href=\"https:\/\/datosmacro.expansion.com\/estado\/gasto\/salud\/cuba\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Cuba gastou 12% do seu PIB em sa\u00fade p\u00fablica em 2018<\/a>, uma percentagem semelhante \u00e0 da Alemanha, Canad\u00e1 ou Fran\u00e7a, mas o seu rendimento per capita n\u00e3o excede os 8.800 d\u00f3lares por ano e \u00e9 mais de cinco vezes inferior ao destes tr\u00eas pa\u00edses.<\/p>\n\n\n\n<p>A ilha vive a pandemia como um infort\u00fanio e uma oportunidade. Por um lado, a aus\u00eancia de turistas e a paralisia do pa\u00eds afundaram sua economia, que caiu em 11% em 2020 e causou uma grave crise de fornecimento. Mas, por outro lado, ofereceu a possibilidade de desenvolver uma vacina nacional cuja exporta\u00e7\u00e3o asseguraria uma renda nada desdenh\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p>Se a ilha conseguisse produzir e exportar a sua vacina para o resto da Am\u00e9rica Latina, que conta com o maior n\u00famero proporcional de mortes por Covid-19 do mundo, melhoraria a sua economia maltratada e a imagem de um regime que vive os momentos mais baixos da sua hist\u00f3ria. Tamb\u00e9m aumentaria o seu prest\u00edgio internacional e perfil na coopera\u00e7\u00e3o Sul-Sul, na qual Cuba sempre desempenhou um papel proeminente.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A vacina decidir\u00e1 o futuro da ilha<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Neste sentido, a vacina decidir\u00e1 o futuro econ\u00f4mico, pol\u00edtico e social da ilha. \u00c9 uma aposta arriscada. Por promover uma vacina pr\u00f3pria \u2014 atualmente existem cinco na fase final \u2014 e por ter um \u201calto n\u00edvel de desenvolvimento\u201d (o quarto melhor da regi\u00e3o) segundo o \u00cdndice de Desenvolvimento Humano de 2020, Cuba renunciou a fazer parte da iniciativa internacional Covax respaldada pela ONU e a OMS para distribuir vacinas aos pa\u00edses em desenvolvimento.<\/p>\n\n\n\n<p>Tamb\u00e9m n\u00e3o comprou nenhuma vacina do exterior como fizeram outros pa\u00edses latino-americanos. O governo de Miguel D\u00edaz-Canel mant\u00e9m a promessa de vacinar durante o ver\u00e3o de 2021 at\u00e9 70% dos cubanos com <em>Soberana 02<\/em> e\/ou <em>Abdala<\/em>, um spray nasal que seria o primeiro contra a Covid-19 a ser aprovado no mundo. Uma vez cobertas as necessidades nacionais, a meta seria fabricar 100 milh\u00f5es de doses em laborat\u00f3rios nacionais como o BioCubaFarma. Os aliados ideol\u00f3gicos de Cuba, Bol\u00edvia e Venezuela, j\u00e1 confirmaram que ir\u00e3o comprar a vacina, tal como a Jamaica e o Suriname.<\/p>\n\n\n\n<p>Em compara\u00e7\u00e3o com os seus vizinhos, Cuba destaca-se sobretudo pelos servi\u00e7os p\u00fablicos universais dignos desse nome, apesar da constante e longa deteriora\u00e7\u00e3o dos servi\u00e7os desde o fim dos subs\u00eddios da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica. Isto marca uma diferen\u00e7a importante com o seu aliado Venezuela, que continua a fornecer petr\u00f3leo \u00e0 ilha a pre\u00e7os subsidiados em troca de m\u00e9dicos e assessores cubanos que apoiaram ativamente a Revolu\u00e7\u00e3o Bolivariana, cujo fracasso retumbante \u00e9 tamb\u00e9m a co-responsabilidade de Cuba, que tentou exportar parte do seu modelo para o pa\u00eds vizinho.<\/p>\n\n\n\n<p>A grande diferen\u00e7a entre Cuba e a Venezuela \u00e9 o Estado, protetor no primeiro caso e fr\u00e1gil ou disfuncional no segundo. Apesar das consequ\u00eancias econ\u00f4micas do embargo dos EUA que a ilha sofre desde os anos 1960, Cuba tem sido capaz de construir servi\u00e7os p\u00fablicos e benef\u00edcios sociais universais, incluindo <em>a cartilha<\/em> que continua fornecendo alguns produtos, apesar de h\u00e1 muito ter deixado de cobrir a cesta b\u00e1sica.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O Estado Protetor<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O Estado protetor tamb\u00e9m funcionou durante a pandemia. Em 2020, Cuba s\u00f3 registrou 12.225 casos de Covid-19 e 146 mortes, o n\u00edvel de cont\u00e1gio e mortalidade mais baixo do continente. No entanto, como na China ou outros pa\u00edses com governos autorit\u00e1rios, estes resultados foram alcan\u00e7ados \u00e0 custa de muitas restri\u00e7\u00f5es \u00e0 liberdade. Os infectados foram obrigados a entrar em instala\u00e7\u00f5es p\u00fablicas em condi\u00e7\u00f5es desconhecidas e todos os cubanos sofreram um duro confinamento que isolou Cuba do mundo por quase oito meses.<\/p>\n\n\n\n<p>Desta forma, salvaram vidas, mas \u00e0 custa da liberdade, algo muito mais complicado de impor numa democracia. Quando Cuba finalmente abriu os seus voos nacionais e internacionais, em novembro de 2020, o cont\u00e1gio disparou, porque no in\u00edcio n\u00e3o foi solicitado aos viajantes um teste PCR negativo.<\/p>\n\n\n\n<p>No meio do auge da pandemia, o Governo decidiu, em 1 de Janeiro de 2021, p\u00f4r fim \u00e0 dualidade entre o CUC (Peso Cubano Convert\u00edvel) e o peso cubano e colocar em pr\u00e1tica a reforma monet\u00e1ria h\u00e1 muito anunciada, finalmente gerida pelo P\u00f3s-Castrismo, o duo entre o Presidente Miguel Diaz-Canel e o Primeiro-Ministro Manuel Marrero.<\/p>\n\n\n\n<p>O regime se beneficiaria com a vacina porque o descontentamento cresce na ilha devido a uma situa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica dif\u00edcil, sen\u00e3o imposs\u00edvel, e novas medidas de repress\u00e3o, incluindo \u2014 e isto \u00e9 novo \u2014 o mundo da cultura, que sempre teve uma maior margem de liberdade do que outros setores.<\/p>\n\n\n\n<p>As vacinas e o internacionalismo m\u00e9dico t\u00eam estado intimamente ligados \u00e0 Revolu\u00e7\u00e3o e \u00e0 sua voca\u00e7\u00e3o social. De um ponto de vista hist\u00f3rico, \u00e9 tamb\u00e9m uma homenagem a Che Guevara, que era m\u00e9dico de profiss\u00e3o. Para a c\u00fapula pol\u00edtica, pesquisar, curar e erradicar doen\u00e7as tropicais ou doen\u00e7as de origem desconhecida como o vitiligo tem sido uma importante fonte de legitimidade, prest\u00edgio e moeda. Desde a vit\u00f3ria contra a ditadura Batista, converter a ilha num pa\u00eds de elevado desenvolvimento humano, com servi\u00e7os p\u00fablicos universais e de qualidade, tem feito parte da agenda do Socialismo sui generis dos irm\u00e3os Castro.<\/p>\n\n\n\n<p>Desde os anos sessenta, Cuba tem enviado m\u00e9dicos a todas as regi\u00f5es do mundo, particularmente a \u00c1frica e a Am\u00e9rica Latina. Mas a presen\u00e7a de m\u00e9dicos cubanos no in\u00edcio da pandemia da Covid-19 na It\u00e1lia ou outros pa\u00edses europeus demonstrou a sua voca\u00e7\u00e3o internacional \u2014 por vezes for\u00e7ada pelo regime e por vezes volunt\u00e1ria \u2014 e a qualidade dos seus profissionais de sa\u00fade.<\/p>\n\n\n\n<p>Produzir e exportar uma vacina cubana contra a Covid-19 teria vantagens e desvantagens. Por um lado, daria um al\u00edvio \u00e0 maltratada economia cubana. Mas tamb\u00e9m prolongaria um processo agonizante de mudan\u00e7a e a vida de um regime que mant\u00e9m um modelo de conviv\u00eancia que se esgotou h\u00e1 algum tempo e j\u00e1 n\u00e3o corresponde \u00e0 realidade de uma ilha que se adaptou ao capitalismo sem gozar de direitos democr\u00e1ticos.<\/p>\n\n\n\n<p><em><sub>* Tradu\u00e7\u00e3o do espanhol por Maria Isabel Santos Lima<\/sub><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cuba poderia ser o primeiro pa\u00eds latino-americano a produzir uma vacina contra a Covid-19. 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