{"id":60182,"date":"2026-10-28T09:00:00","date_gmt":"2026-10-28T12:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/latinoamerica21.com\/?p=60182"},"modified":"2026-10-27T19:26:40","modified_gmt":"2026-10-27T22:26:40","slug":"de-excecao-a-regra-como-o-segundo-turno-esta-mudando-a-democracia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/de-excecao-a-regra-como-o-segundo-turno-esta-mudando-a-democracia\/","title":{"rendered":"De exce\u00e7\u00e3o \u00e0 regra: como o segundo turno est\u00e1 mudando a democracia"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No domingo, 25 de outubro, o Brasil resumiu em uma \u00fanica elei\u00e7\u00e3o para onde caminham as democracias latino-americanas. Lula da Silva venceu o segundo turno com 51,76% dos votos, contra 48,24% de Fl\u00e1vio Bolsonaro, uma diferen\u00e7a de 3,52 pontos. Esta \u00e9 a primeira vez, desde o retorno das elei\u00e7\u00f5es diretas, que um candidato consegue a virada em um segundo turno no Brasil. Nas sete segundas voltas anteriores, desde 1989, sempre havia vencido quem liderou o primeiro turno. Desta vez, o primeiro turno j\u00e1 havia registrado uma participa\u00e7\u00e3o recorde. Apenas 1,87 pontos separaram os dois candidatos mais votados, que, juntos, concentraram 92,2% dos votos. Horas ap\u00f3s o segundo turno, Fl\u00e1vio Bolsonaro afirmou que n\u00e3o reconhecia o resultado e anunciou que pediria a anula\u00e7\u00e3o da elei\u00e7\u00e3o, sem apresentar provas. No fim das contas, ele n\u00e3o o fez.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O sistema de segundo turno foi concebido para que os presidentes assumissem com maioria e legitimidade. Hoje, cumpre outras tr\u00eas fun\u00e7\u00f5es: deixou de ser uma exce\u00e7\u00e3o para ser a regra, cria maiorias e recompensa a rejei\u00e7\u00e3o, e muda a disputa para o dia seguinte \u00e0 elei\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>O segundo turno tornou-se a norma<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nos pa\u00edses que adotam o segundo turno, ele deixou de ser uma exce\u00e7\u00e3o. Na d\u00e9cada de 1990, 52% das elei\u00e7\u00f5es eram decididas no segundo turno; na d\u00e9cada de 2000, 54%; na d\u00e9cada de 2010, 71%; e, no que vai desta d\u00e9cada, 80% (16 de 20). Em v\u00e1rios pa\u00edses, isso j\u00e1 \u00e9 a regra: a Guatemala teve segundo turno em todas as suas elei\u00e7\u00f5es desde 1995, o Peru em todas desde 2000 e o Chile desde 1999. O Brasil soma sete consecutivos desde 2002, a Col\u00f4mbia cinco desde 2010 e o Equador quatro desde 2017.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O fator determinante \u00e9 a fragmenta\u00e7\u00e3o. Nas elei\u00e7\u00f5es que foram para o segundo turno, as duas candidaturas mais votadas somavam 71,3% dos votos no primeiro turno realizado na d\u00e9cada de 1990 e, na d\u00e9cada de 2020, apenas 57,1%. Quem vence o primeiro turno, nessas elei\u00e7\u00f5es, obt\u00e9m hoje uma mediana de apenas 32,7% dos votos. Por tr\u00e1s dessa fragmenta\u00e7\u00e3o est\u00e1 a crise de representa\u00e7\u00e3o. Segundo o <a href=\"https:\/\/www.latinobarometro.org\/noticias\/informe-latinobarometro-2026\">Latinobar\u00f4metro 2026<\/a>, apenas 15% dos cidad\u00e3os confiam nos partidos pol\u00edticos e 76% n\u00e3o se sentem representados pelo Congresso. Quando os partidos n\u00e3o conseguem agregar prefer\u00eancias, o segundo turno acaba fazendo o trabalho que eles deixaram de fazer: construir uma maioria onde ela n\u00e3o existe.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Maiorias fabricadas, elei\u00e7\u00f5es de rejei\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O segundo turno produz uma maioria presidencial, mas n\u00e3o uma maioria legislativa. Quem venceu um segundo turno nesta d\u00e9cada obteve, em m\u00e9dia, 25,8% dos votos no primeiro turno: metade chegou \u00e0 presid\u00eancia com o apoio inicial de um em cada quatro eleitores ou menos. Os casos mais extremos s\u00e3o o de Alejandro Giammattei, que passou para o segundo turno com 13,96%; o de Bernardo Ar\u00e9valo, com 15,51%; Rodrigo Chaves, com 16,78%; e Keiko Fujimori, com 17,19%.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Al\u00e9m disso, o segundo turno j\u00e1 n\u00e3o confirma o resultado do primeiro. As reviravoltas voltaram a aumentar: depois de duas em 13 segundos turnos na d\u00e9cada de 2000, foram seis em 20 na d\u00e9cada de 2010 e, na d\u00e9cada de 2020, incluindo o Brasil, metade (oito de 16). Quanto mais acirrado e fragmentado for o primeiro turno, mais prov\u00e1vel \u00e9 a reviravolta. Com primos turnos fragmentados e eleitorados polarizados, muitas pessoas votam no segundo turno no candidato que menos rejeitam, e n\u00e3o naquele que preferem.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Isso tem duas consequ\u00eancias. A primeira \u00e9 que a legitimidade do vencedor \u00e9, em parte, emprestada: boa parte de seus votos n\u00e3o vem de sua pr\u00f3pria base. A segunda \u00e9 que o segundo turno penaliza quem est\u00e1 no poder: a coaliz\u00e3o governista vence 58% das elei\u00e7\u00f5es decididas no primeiro turno, mas apenas 30% das que v\u00e3o para o segundo. Nesta d\u00e9cada, essa desvantagem se acentuou e o velho argumento de que o segundo turno modera a disputa tamb\u00e9m n\u00e3o se sustenta diante dos dados: Bolsonaro, Castillo, Milei, Kast e De la Espriella venceram segundos turnos polarizados.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A disputa se estende para o dia seguinte<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os segundos turnos est\u00e3o cada vez mais acirrados. Nesta d\u00e9cada, antes do Brasil, a diferen\u00e7a entre os dois finalistas foi, em m\u00e9dia, de 4,8 pontos, contra 8,1 em toda a s\u00e9rie, e os sete segundos turnos mais disputados da regi\u00e3o ocorreram a partir de 2014. Com margens como essas, qualquer incidente pode se tornar um argumento para contestar o resultado. A\u00ed surge um paradoxo. Segundo o <a href=\"https:\/\/www.latinobarometro.org\/noticias\/informe-latinobarometro-2026\">Latinobar\u00f4metro 2026<\/a>, 74% dos cidad\u00e3os acreditam que sem elei\u00e7\u00f5es n\u00e3o h\u00e1 democracia, mas apenas 34% confiam na autoridade eleitoral. Acreditamos nas elei\u00e7\u00f5es, mas n\u00e3o naqueles que as organizam.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O Brasil deixa uma li\u00e7\u00e3o importante. O conflito teve origem no \u00e1rbitro eleitoral e, embora ainda n\u00e3o tenhamos compreendido o que exatamente aconteceu, essa tens\u00e3o afeta a legitimidade do processo. Um juiz do Supremo Tribunal Federal prorrogou em duas horas o hor\u00e1rio de vota\u00e7\u00e3o, apenas nas se\u00e7\u00f5es que ainda estavam abertas, quando milhares de urnas j\u00e1 haviam sido fechadas. O presidente do TSE, Kassio Nunes Marques, afirmou que milhares de urnas j\u00e1 estavam fechadas quando a decis\u00e3o foi proferida, e o tribunal suspendeu temporariamente o recebimento dos resultados at\u00e9 depois das 19h. Embora n\u00e3o esteja claro por que e sob quais premissas se permitiu que algo assim fosse divulgado, nem tenhamos clareza sobre onde, como e quando algumas se\u00e7\u00f5es foram prorrogadas, essa decis\u00e3o \u2014 por si s\u00f3 \u2014 deu ao perdedor o argumento que ele buscava. Isso nos d\u00e1 uma li\u00e7\u00e3o contundente. Um bom \u00e1rbitro n\u00e3o basta: a integridade eleitoral depende do comportamento do \u00e1rbitro e de todo o ecossistema.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Para onde estamos indo?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A popula\u00e7\u00e3o mant\u00e9m uma confian\u00e7a na democracia, mas com fissuras. Segundo o <a href=\"https:\/\/www.latinobarometro.org\/noticias\/informe-latinobarometro-2026\">Latinobar\u00f4metro (2026)<\/a>, o apoio \u00e0 democracia se mant\u00e9m em 52%, mas apenas 30% est\u00e3o satisfeitos com seu funcionamento e, de fato, 63% aceitam \u201cum pouco de m\u00e3o pesada\u201d. O Brasil, com 41% de apoio \u00e0 democracia, apresenta o segundo n\u00edvel mais baixo da regi\u00e3o, ficando apenas acima da Guatemala.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A proposta n\u00e3o tem necessariamente a ver com a elimina\u00e7\u00e3o do segundo turno, que resolve bem o problema da legitimidade de origem. Trata-se de cuidar do que a rodeia, o ecossistema de integridade eleitoral, como insiste a <a href=\"https:\/\/www.idea.int\/publications\/catalogue\/entre-la-resiliencia-y-la-fragilidad-los-ecosistemas-de-integridad-electoral?lang=es\">IDEA Internacional em seus relat\u00f3rios<\/a> recentes. Por isso, as propostas s\u00e3o: em primeiro lugar, reformar o contexto do segundo turno e das elei\u00e7\u00f5es legislativas realizadas simultaneamente a ele; para que o presidente ou a presidente n\u00e3o assuma o cargo sem apoio no Congresso; em segundo lugar, proteger os \u00f3rg\u00e3os eleitorais e respeitar sua compet\u00eancia exclusiva sobre a gest\u00e3o do processo, inclusive perante os tribunais; e, em terceiro lugar, comprometer os partidos a se obrigarem, publicamente e por escrito, antes da vota\u00e7\u00e3o, a reconhecer os resultados.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O segundo turno foi concebido para eleger presidentes por maioria. Hoje, o desafio \u00e9 outro: que perder por tr\u00eas pontos tamb\u00e9m seja aceit\u00e1vel. O reconhecimento dos resultados em contextos excessivamente competitivos e polarizados passa a ser o centro das aten\u00e7\u00f5es.&nbsp; E isso n\u00e3o \u00e9 decidido apenas pelo \u00e1rbitro, mas por todos n\u00f3s que participamos do jogo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O segundo turno tornou-se a regra na Am\u00e9rica Latina, onde a fragmenta\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e a polariza\u00e7\u00e3o colocam \u00e0 prova a legitimidade eleitoral.<\/p>\n","protected":false},"author":850,"featured_media":60179,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"episode_type":"","audio_file":"","podmotor_file_id":"","podmotor_episode_id":"","cover_image":"","cover_image_id":"","duration":"","filesize":"","filesize_raw":"","date_recorded":"","explicit":"","block":"","itunes_episode_number":"","itunes_title":"","itunes_season_number":"","itunes_episode_type":"","footnotes":""},"categories":[16711,16728],"tags":[17187],"gps":[],"class_list":["post-60182","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","category-elecciones-pt-br","category-brasil-pt-br","tag-debates-2"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/60182","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/850"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=60182"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/60182\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":60184,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/60182\/revisions\/60184"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/60179"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=60182"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=60182"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=60182"},{"taxonomy":"gps","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/gps?post=60182"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}