{"id":60223,"date":"2026-10-29T09:00:00","date_gmt":"2026-10-29T12:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/latinoamerica21.com\/?p=60223"},"modified":"2026-10-29T12:31:06","modified_gmt":"2026-10-29T15:31:06","slug":"dia-dos-cuidados-o-valor-invisivel-de-um-trabalho-mal-remunerado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/dia-dos-cuidados-o-valor-invisivel-de-um-trabalho-mal-remunerado\/","title":{"rendered":"Dia dos Cuidados: o valor invis\u00edvel de um trabalho mal remunerado"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O Dia Internacional dos Cuidadores oferece uma oportunidade inigual\u00e1vel para colocar o debate sobre essa tarefa no centro das aten\u00e7\u00f5es. A data n\u00e3o deve se limitar a celebrar quem cuida, mas deve servir para perguntar quanto os Estados, as empresas privadas, as fam\u00edlias e as sociedades investem para garantir que esse trabalho seja realizado com direitos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quando analisamos a realidade de quem trabalha nesse setor, os n\u00fameros revelam uma forte falta de prote\u00e7\u00e3o. Segundo o relat\u00f3rio \u201cQuem cuida? Como apoiar e reconhecer quem cuida de idosos na Am\u00e9rica Latina e no Caribe\u201d, elaborado pelo <a href=\"https:\/\/publications.iadb.org\/publications\/spanish\/document\/Quien-cuida-Como-apoyar-y-reconocer-a-quienes-cuidan-de-personas-mayores-en-America-Latina-y-el-Caribe.pdf\">Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID, 2025)<\/a>, na regi\u00e3o, cuidar de um idoso \u00e9 um trabalho essencial, mas quem o realiza recebe, em m\u00e9dia, uma renda equivalente a 90% do sal\u00e1rio m\u00ednimo. Enquanto isso, a popula\u00e7\u00e3o que trabalha em geral ganha 1,9 vez esse valor. A compara\u00e7\u00e3o revela um paradoxo: uma tarefa indispens\u00e1vel para sustentar a vida e o bem-estar de milh\u00f5es de pessoas \u00e9 realizada, com frequ\u00eancia, em condi\u00e7\u00f5es prec\u00e1rias.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A m\u00e9dia regional resume a desigualdade: quem trabalha com cuidados recebe menos do que o piso legal de renda, enquanto o restante da popula\u00e7\u00e3o trabalhadora se situa amplamente acima disso. N\u00e3o se trata s\u00f3 de uma diferen\u00e7a salarial. As cuidadoras remuneradas costumam trabalhar em tempo parcial e enfrentam a falta de contratos, de prote\u00e7\u00e3o social e de oportunidades de capacita\u00e7\u00e3o (BID, 2025).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para entender a origem dessa precariedade, \u00e9 preciso lembrar que grande parte do trabalho de cuidados nem sequer \u00e9 remunerado. Embora n\u00e3o sejam a mesma coisa, o trabalho de cuidados n\u00e3o remunerado e o remunerado fazem parte de um mesmo sistema, e a escassa valoriza\u00e7\u00e3o do primeiro explica, em grande medida, a desvaloriza\u00e7\u00e3o do segundo. Uma atividade historicamente considerada uma responsabilidade \u201cnatural\u201d das mulheres transforma-se facilmente em um emprego mal remunerado quando entra no mercado de trabalho.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Cozinhar, limpar, acompanhar um idoso, ajud\u00e1-lo a se vestir ou agendar uma consulta m\u00e9dica s\u00e3o atividades indispens\u00e1veis para o funcionamento dos lares e de toda a economia. No entanto, quando realizadas dentro da fam\u00edlia, costumam ficar de fora das contas do trabalho e recaem desproporcionalmente sobre as mulheres.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Esse trabalho funciona como um enorme subs\u00eddio invis\u00edvel. Na Am\u00e9rica Latina e no Caribe, o trabalho dom\u00e9stico e de cuidados n\u00e3o remunerado equivale a aproximadamente 21% do produto interno bruto, e as mulheres geram cerca de tr\u00eas quartos desse valor, segundo o PNUD. Em outras palavras, os lares \u2014 e especialmente as mulheres \u2014 absorvem gratuitamente custos que, de outra forma, deveriam ser assumidos pelo Estado, pelo mercado ou pelas fam\u00edlias por meio de servi\u00e7os remunerados.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O termo \u201csubs\u00eddio\u201d de g\u00eanero \u00e9 pertinente porque esse trabalho n\u00e3o remunerado permite que outras pessoas estudem, tenham empregos remunerados e participem da economia. Ele tamb\u00e9m reduz a demanda por servi\u00e7os p\u00fablicos e privados. Mas quem dedica esse tempo paga um pre\u00e7o: menos oportunidades de trabalho, renda menor, mais dificuldades para ter acesso \u00e0 previd\u00eancia social e maior exposi\u00e7\u00e3o \u00e0 pobreza na velhice.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por sua vez, quando o cuidado \u00e9 prestado de forma remunerada, a precariedade no trabalho tamb\u00e9m n\u00e3o se distribui aleatoriamente. A for\u00e7a de trabalho remunerada \u00e9 composta majoritariamente por mulheres de meia-idade. Al\u00e9m disso, o setor \u00e9 fortemente marcado pela desigualdade racial e \u00e9tnica: mais da metade das trabalhadoras s\u00e3o afrodescendentes e cerca de 3% pertencem a povos ind\u00edgenas. Mulheres migrantes e de setores de baixa renda tamb\u00e9m est\u00e3o super-representadas. Aquelas que enfrentam maiores barreiras no mercado de trabalho acabam assumindo os empregos menos protegidos e menos bem remunerados.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A situa\u00e7\u00e3o \u00e9 ainda mais complexa se considerarmos que as fam\u00edlias de menor renda dedicam uma propor\u00e7\u00e3o muito maior de seu tempo ao trabalho dom\u00e9stico e aos cuidados n\u00e3o remunerados, o que refor\u00e7a o ciclo da pobreza, conforme revela o relat\u00f3rio \u201c<a href=\"https:\/\/www.cepal.org\/es\/publicaciones\/48363-la-sociedad-cuidado-horizonte-recuperacion-sostenible-igualdad-genero\">A sociedade do cuidado: horizonte para uma recupera\u00e7\u00e3o sustent\u00e1vel com igualdade de g\u00eanero<\/a>\u201d, da CEPAL.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O trabalho de cuidados \u00e9 indispens\u00e1vel, mas tanto quem precisa dele quanto quem o presta n\u00e3o est\u00e1 recebendo o apoio adequado. Diante dessa realidade, surge um consenso crescente: \u00e9 urgente reconhecer, reduzir e redistribuir os cuidados. Isso implica, por um lado, ampliar a oferta de servi\u00e7os p\u00fablicos e promover a corresponsabilidade entre homens e mulheres. Por outro lado, significa transformar radicalmente as condi\u00e7\u00f5es daqueles que trabalham no setor.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O envelhecimento da popula\u00e7\u00e3o tornar\u00e1 essa agenda inevit\u00e1vel. Nas pr\u00f3ximas d\u00e9cadas, a demanda por cuidados de longa dura\u00e7\u00e3o crescer\u00e1 rapidamente. No entanto, n\u00e3o haver\u00e1 como satisfaz\u00ea-la se n\u00e3o forem oferecidos sal\u00e1rios dignos, empregos formais e condi\u00e7\u00f5es atraentes para construir uma for\u00e7a de trabalho est\u00e1vel na \u00e1rea de cuidados de longa dura\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Reconhecer o valor do cuidado exige superar uma ideia persistente: a de que cuidar \u00e9 uma disposi\u00e7\u00e3o natural das mulheres e, por essa raz\u00e3o, um trabalho que pode ser mal remunerado ou realizado sem remunera\u00e7\u00e3o. Cuidar \u00e9 uma atividade socialmente necess\u00e1ria, com responsabilidades concretas e efeitos diretos sobre a qualidade de vida das pessoas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Uma sociedade que precisa de cuidados deve reconhecer quem os presta. Enquanto os cuidadores continuarem ganhando menos do que o sal\u00e1rio m\u00ednimo, a regi\u00e3o manter\u00e1 uma contradi\u00e7\u00e3o dif\u00edcil de ignorar. O trabalho que permite sustentar a vida continuar\u00e1 sendo indispens\u00e1vel para todos, mas insuficiente para sustentar dignamente quem o realiza.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O trabalho de cuidados sustenta a vida e a economia, mas, na Am\u00e9rica Latina, continua marcado pela precariedade no trabalho e por uma desigualdade de g\u00eanero que mant\u00e9m invis\u00edvel seu verdadeiro valor social.<\/p>\n","protected":false},"author":100,"featured_media":60191,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"episode_type":"","audio_file":"","podmotor_file_id":"","podmotor_episode_id":"","cover_image":"","cover_image_id":"","duration":"","filesize":"","filesize_raw":"","date_recorded":"","explicit":"","block":"","itunes_episode_number":"","itunes_title":"","itunes_season_number":"","itunes_episode_type":"","footnotes":""},"categories":[16782],"tags":[17187],"gps":[],"class_list":["post-60223","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","category-genero-pt-br","tag-debates-2"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/60223","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/100"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=60223"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/60223\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":60225,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/60223\/revisions\/60225"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/60191"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=60223"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=60223"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=60223"},{"taxonomy":"gps","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/gps?post=60223"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}