{"id":60371,"date":"2026-11-03T15:00:00","date_gmt":"2026-11-03T18:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/latinoamerica21.com\/?p=60371"},"modified":"2026-11-03T10:23:03","modified_gmt":"2026-11-03T13:23:03","slug":"a-desrevolucao-digital","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/a-desrevolucao-digital\/","title":{"rendered":"A (des)revolu\u00e7\u00e3o digital"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nas \u00faltimas duas d\u00e9cadas, digitalizar era praticamente sin\u00f4nimo de modernizar. Era preciso conectar mais pessoas, instalar computadores nas escolas, substituir tr\u00e2mites presenciais por aplicativos e fazer com que praticamente qualquer atividade pudesse ser realizada a partir de uma tela. Quanto mais espa\u00e7os incorporavam tecnologia, maior parecia ser o progresso. Essa dire\u00e7\u00e3o, que durante anos foi dada como certa, come\u00e7a a ser revista em pa\u00edses muito distintos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A Austr\u00e1lia estabeleceu, em dezembro de 2025, uma idade m\u00ednima de 16 anos para manter contas em determinadas redes sociais. A responsabilidade recai sobre as plataformas, que devem adotar medidas razo\u00e1veis para impedir que menores de 16 anos criem ou mantenham contas. O Brasil seguiu outro caminho: desde mar\u00e7o de 2026 est\u00e1 em vigor o Estatuto Digital da Crian\u00e7a e do Adolescente, que regula os servi\u00e7os digitais acess\u00edveis a menores e estabelece obriga\u00e7\u00f5es para as empresas que os oferecem. Em vez de se concentrar apenas em quando um menor pode acessar esses servi\u00e7os, o estatuto atribui parte da responsabilidade a quem constr\u00f3i o espa\u00e7o ao qual ele acessa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A Su\u00e9cia, ap\u00f3s anos de incorpora\u00e7\u00e3o de telas \u00e0 educa\u00e7\u00e3o, recuperou espa\u00e7o para os livros e outras pr\u00e1ticas n\u00e3o digitais, enquanto o M\u00e9xico restringir\u00e1, a partir de 3 de novembro, o uso de celulares durante o hor\u00e1rio escolar no ensino fundamental, com determinadas exce\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Esses casos n\u00e3o respondem a uma pol\u00edtica coordenada, e tamb\u00e9m n\u00e3o h\u00e1 consenso cient\u00edfico sobre a efic\u00e1cia de todas essas medidas. Eles compartilham, no entanto, uma quest\u00e3o que, h\u00e1 alguns anos, era muito menos frequente: j\u00e1 n\u00e3o se discute apenas onde incorporar a tecnologia, mas tamb\u00e9m onde conv\u00e9m limit\u00e1-la.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A essa desacelera\u00e7\u00e3o, acompanhada de novos controles, podemos chamar de (des)revolu\u00e7\u00e3o digital. Isso n\u00e3o significa reverter a transforma\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica nem retornar ao mundo anal\u00f3gico, mas sim deixar de incorporar tecnologia por in\u00e9rcia e come\u00e7ar a decidir onde, quando e sob quais condi\u00e7\u00f5es conv\u00e9m utiliz\u00e1-la. O que est\u00e1 sendo revisto \u00e9 uma premissa que acompanhou a primeira etapa da transforma\u00e7\u00e3o digital: que incorporar mais tecnologia era, por defini\u00e7\u00e3o, avan\u00e7ar. Transformar agora a restri\u00e7\u00e3o em uma nova receita universal cometeria o mesmo erro, mas na dire\u00e7\u00e3o oposta.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As evid\u00eancias sobre os efeitos das redes sociais em crian\u00e7as e adolescentes mostram a complexidade do problema. Uma revis\u00e3o publicada este ano na revista <em>Frontiers in Developmental Psychology<\/em> aponta que as proibi\u00e7\u00f5es direcionadas aos jovens continuam sendo uma interven\u00e7\u00e3o n\u00e3o comprovada. Os estudos experimentais dispon\u00edveis sobre restri\u00e7\u00f5es \u00e0s redes sociais n\u00e3o analisaram precisamente a popula\u00e7\u00e3o juvenil \u00e0 qual essas pol\u00edticas se dirigem atualmente, e seus resultados t\u00eam sido inconsistentes. A escolha, portanto, n\u00e3o consiste simplesmente em incorporar ou retirar a tecnologia, mas em decidir onde, como e para quem ela \u00e9 \u00fatil.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Durante a primeira revolu\u00e7\u00e3o digital, a adapta\u00e7\u00e3o reca\u00eda principalmente sobre n\u00f3s. Aprendemos a usar computadores, abrir contas, baixar aplicativos, criar senhas e transferir atividades cotidianas para o mundo digital. A nova etapa come\u00e7a a inverter parcialmente essa rela\u00e7\u00e3o: tamb\u00e9m exigimos que a tecnologia se adapte \u00e0s necessidades das pessoas que a utilizam.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Durante anos, modernizar um servi\u00e7o significou, muitas vezes, substituir o mecanismo anterior por um digital: o balc\u00e3o por um aplicativo, o card\u00e1pio por um c\u00f3digo QR ou a conversa com uma pessoa por um sistema automatizado. Um estudo publicado recentemente na revista <em>Psychology &amp; Marketing<\/em> prop\u00f5e o conceito de <em>digital technology captivity<\/em> para descrever a vulnerabilidade que pode surgir quando a tecnologia digital se torna o \u00fanico meio obrigat\u00f3rio para acessar um servi\u00e7o e as alternativas s\u00e3o limitadas. O Reino Unido vem aplicando h\u00e1 anos pol\u00edticas de <em>assisted digital<\/em> que prev\u00eaem atendimento presencial, por telefone ou por outros meios n\u00e3o digitais para quem precisa de apoio no uso de servi\u00e7os p\u00fablicos digitalizados.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Am\u00e9rica Latina entre duas etapas<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na Am\u00e9rica Latina, o Brasil n\u00e3o \u00e9 um caso isolado. A Col\u00f4mbia discute projetos que incorporam idades m\u00ednimas, verifica\u00e7\u00e3o de idade e obriga\u00e7\u00f5es de seguran\u00e7a e design para as plataformas. O M\u00e9xico e o Chile tamb\u00e9m debatem iniciativas relacionadas ao acesso de menores e \u00e0s responsabilidades das empresas digitais. N\u00e3o existe um modelo regional, mas a discuss\u00e3o ocorre enquanto persiste outro desafio: ampliar o acesso \u00e0 internet.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As diferen\u00e7as em termos de conectividade, qualidade do servi\u00e7o, disponibilidade de dispositivos e compet\u00eancias digitais persistem, especialmente entre \u00e1reas urbanas e rurais e entre diferentes n\u00edveis de renda. Nesse contexto, segundo o Banco Interamericano de Desenvolvimento, um tr\u00e2mite totalmente digital leva, em m\u00e9dia, cerca de 40 minutos, contra cerca de seis horas quando realizado presencialmente. Ao mesmo tempo, idosos, moradores de \u00e1reas rurais e pessoas de baixa renda t\u00eam menor probabilidade de utilizar os servi\u00e7os p\u00fablicos digitais. A mesma ferramenta que elimina uma barreira para uns pode cri\u00e1-la para outros.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A Am\u00e9rica Latina precisa incorporar aqueles que permanecem de fora enquanto come\u00e7a a estabelecer condi\u00e7\u00f5es para aqueles que j\u00e1 est\u00e3o inclu\u00eddos. Essa realidade obriga a analisar com cuidado as solu\u00e7\u00f5es importadas. O celular que distrai um aluno durante uma aula pode ser tamb\u00e9m o \u00fanico dispositivo conectado dispon\u00edvel em sua casa; uma plataforma que o exp\u00f5e a certos riscos pode lhe dar acesso a informa\u00e7\u00f5es e oportunidades que ele dificilmente encontraria em seu ambiente imediato; um aplicativo pode economizar horas para uma pessoa e se tornar um obst\u00e1culo para outra.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A primeira revolu\u00e7\u00e3o digital discutia o direito de entrar. A (des)revolu\u00e7\u00e3o discute as condi\u00e7\u00f5es para permanecer dentro e o direito de que continue existindo alguma porta alternativa. A maturidade digital deixa, assim, de ser medida pelo quanto incorporamos ou eliminamos e passa a depender de nossa capacidade de distinguir entre usos, pessoas, espa\u00e7os e necessidades.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Medir o progresso pela quantidade de tecnologia incorporada \u00e9 t\u00e3o insuficiente quanto medir a educa\u00e7\u00e3o pelo n\u00famero de computadores instalados em uma sala de aula.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A revolu\u00e7\u00e3o digital come\u00e7a a dar lugar a uma fase de revis\u00e3o, na qual o desafio j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 incorporar mais tecnologia, mas decidir quando, como e para quem ela \u00e9 realmente \u00fatil.<\/p>\n","protected":false},"author":897,"featured_media":60361,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"episode_type":"","audio_file":"","podmotor_file_id":"","podmotor_episode_id":"","cover_image":"","cover_image_id":"","duration":"","filesize":"","filesize_raw":"","date_recorded":"","explicit":"","block":"","itunes_episode_number":"","itunes_title":"","itunes_season_number":"","itunes_episode_type":"","footnotes":""},"categories":[16890],"tags":[15839],"gps":[],"class_list":["post-60371","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","category-tecnologia-es-pt-br","tag-ideias-pt-br"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/60371","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/897"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=60371"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/60371\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":60373,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/60371\/revisions\/60373"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/60361"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=60371"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=60371"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=60371"},{"taxonomy":"gps","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/gps?post=60371"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}