{"id":6092,"date":"2021-06-17T08:45:00","date_gmt":"2021-06-17T11:45:00","guid":{"rendered":"http:\/\/latinoamerica21.com\/?p=6092"},"modified":"2021-06-16T09:03:01","modified_gmt":"2021-06-16T12:03:01","slug":"nicaragua-eleicoes-autoritarias-e-crise-de-regime","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/nicaragua-eleicoes-autoritarias-e-crise-de-regime\/","title":{"rendered":"Nicar\u00e1gua: Elei\u00e7\u00f5es autorit\u00e1rias e crise de regime"},"content":{"rendered":"\n<p>O que est\u00e1 acontecendo na Nicar\u00e1gua? Por que se desencadeou recentemente uma repress\u00e3o seletiva sobre diversos l\u00edderes pol\u00edticos da oposi\u00e7\u00e3o, incluindo quatro candidatos presidenciais? Como \u00e9 poss\u00edvel entender a deriva reacion\u00e1ria do regime de Ortega?\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Para dar uma resposta sensata, cabe destacar, por um lado, a surpreendente estabilidade que o governo de Ortega conseguiu de 2007 a 2018, per\u00edodo em que conseguiu articular um regime de natureza corporativa que, sob uma cosm\u00e9tica liberal-democr\u00e1tica, reuniu os interesses do grande capital nacional, das igrejas e dos setores mais empobrecidos do pa\u00eds. E por outro lado, o esgotamento desse \u201cartefato pol\u00edtico\u201d em abril de 2018, quando eclodiu uma intensa onda de protestos.<\/p>\n\n\n\n<p>A centelha para os protestos foi uma reforma do sistema previdenci\u00e1rio e gest\u00e3o deficiente dos inc\u00eandios na reserva da biosfera do \u00cdndio Ma\u00edz, mas rapidamente se somaram diversos coletivos \u2013 majoritariamente jovens urbanos de classe m\u00e9dia e l\u00edderes de movimentos sociais \u2013 que impugnaram o regime em sua totalidade, sobretudo por seu car\u00e1ter arbitr\u00e1rio, repressivo e patrimonial.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"http:\/\/latinoamerica21.com\/br\/o-dilema-nicaraguense-para-a-esquerda-latino-americana\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Desde ent\u00e3o, o regime tem experimentado uma deriva reacion\u00e1ria e repressiva<\/a>, \u00e0 qual foram acrescentadas manifesta\u00e7\u00f5es surreais, como uma convocat\u00f3ria governamental que incentivou suas bases a sa\u00edrem \u00e0s ruas para gritar \u201camor no tempo de Covid\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00f3 a partir desse marco \u2013 uma d\u00e9cada de estabilidade e um bi\u00eanio de crise \u2013 \u00e9 poss\u00edvel compreender como hoje, a apenas cinco meses para as elei\u00e7\u00f5es, foi desencadeada uma feroz campanha de repress\u00e3o governamental. Uma campanha que envolveu (enquanto este texto est\u00e1 sendo escrito) a supress\u00e3o da liberdade de quatro candidatos presidenciais \u2013 Cristiana Chamorro, Arturo Cruz, F\u00e9lix Maradiaga e Juan S. Chamorro \u2013 e o encarceramento de v\u00e1rios l\u00edderes da oposi\u00e7\u00e3o: Violeta Granera, Jos\u00e9 A. Aguerri, Jos\u00e9 Pallais, Jos\u00e9 Pallais e Jos\u00e9 Luis Aguerri. Aguerri, Jos\u00e9 Pallais, Tamara D\u00e1vila, Dora M. T\u00e9llez, Ana M. Vijil, Suyen Barahona, Hugo Torres, Walter G\u00f3mez e Marcos Fletes.<\/p>\n\n\n\n<p>Diante da <a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/internacional\/2021-04-19\/os-herdeiros-da-dinastia-ortega-murillo-e-sua-gaiola-de-ouro.html\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">ansiedade do casal Ortega-Murillo durante os meses de abril e maio de 2018<\/a>, o governo mudou sua estrat\u00e9gia. Passou da coopta\u00e7\u00e3o e do pacto, \u00e0 repress\u00e3o indiscriminada e maci\u00e7a e, desde algumas semanas atr\u00e1s, \u00e0 repress\u00e3o seletiva. Neste sentido, \u00e9 poss\u00edvel apontar que a crise sanit\u00e1ria da Covid-19 ajudou a estabilizar o regime Ortega-Murillo.<\/p>\n\n\n\n<p>A mistura de repress\u00e3o e medo de cont\u00e1gio (em um contexto em que o governo foi negligente) acabou rompendo uma coaliz\u00e3o negativa que era ampla, mas pouco coesa. Todo mundo sabe que uma coisa \u00e9 o protesto de rua e outra muito diferente \u00e9 a competi\u00e7\u00e3o na arena eleitoral.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando as mobiliza\u00e7\u00f5es desapareceram (por cansa\u00e7o, medo e preven\u00e7\u00e3o de cont\u00e1gio), emergiram l\u00edderes pol\u00edticos com vontade de negociar f\u00f3rmulas eleitorais e cotas de poder no \u00e2mbito de uma administra\u00e7\u00e3o eleitoral que a FSLN controla totalmente.<\/p>\n\n\n\n<p>A incapacidade da oposi\u00e7\u00e3o de fazer uma \u201cfrente comum\u201d durante o \u00faltimo ano deu asas ao governo Ortega para impulsionar uma severa legisla\u00e7\u00e3o repressiva que a Assembleia Nacional (tamb\u00e9m controlada pela FSLN) aprovou no final de 2020. Hoje, essa legisla\u00e7\u00e3o est\u00e1 sendo usada para eliminar qualquer amea\u00e7a de oposi\u00e7\u00e3o ao governo.<\/p>\n\n\n\n<p>Neste sentido, est\u00e1 claro que a elei\u00e7\u00e3o de novembro n\u00e3o ser\u00e1 nem livre nem competitiva, mas uma \u201celei\u00e7\u00e3o autorit\u00e1ria\u201d de manual. Uma elei\u00e7\u00e3o sem observa\u00e7\u00e3o internacional e sem nenhuma garantia de nada.<\/p>\n\n\n\n<p>Se as coisas continuarem como est\u00e3o, em 7 de novembro de 2021, ser\u00e3o realizadas elei\u00e7\u00f5es nas quais haver\u00e1 apenas uma candidatura para votar (a da FSLN, que foi fagocitada por um cl\u00e3 familiar) e, portanto, Ortega ganhar\u00e1 sua quarta elei\u00e7\u00e3o presidencial consecutiva. Com isso, o tandem Ortega-Murillo se consolidaram no poder, embora com um apoio internacional m\u00ednimo e quase nenhuma legitimidade nacional.<\/p>\n\n\n\n<p>Neste contexto, a grande pergunta \u00e9 qual poder\u00e1 ser o futuro do regime uma vez que ele tenha vencido as elei\u00e7\u00f5es autorit\u00e1rias de 2021. Ningu\u00e9m sabe se Ortega ser\u00e1 capaz de reconstruir a antiga alian\u00e7a que tinha com o grande capital, ou se as condi\u00e7\u00f5es para uma nova explos\u00e3o social ir\u00e3o se intensificar.<\/p>\n\n\n\n<p>Em qualquer caso, a vit\u00f3ria do tandem Ortega-Murillo certamente significar\u00e1 a continua\u00e7\u00e3o de um regime din\u00e1stico e personalista. Um tipo de regime, por certo, que sempre tem problemas quando o dilema do revezamento aparece no horizonte.<\/p>\n\n\n\n<p>Como est\u00e1, a deriva autorit\u00e1ria e a mentalidade fechada que apresenta o casal presidencial revela um processo de isolamento e aliena\u00e7\u00e3o internacional t\u00edpico de uma rep\u00fablica ex-sovi\u00e9tica. Tudo isso em uma regi\u00e3o onde a Nicar\u00e1gua n\u00e3o tem aliados pr\u00f3ximos (ou ricos) a quem recorrer, nem um discurso legitimador a que apelar.<\/p>\n\n\n\n<p>Manter a presid\u00eancia pela for\u00e7a \u00e9 a ru\u00edna de qualquer regime. Assim exp\u00f4s Dora Mar\u00eda T\u00e9llez \u2013 que foi comandante sandinista e ministra da sa\u00fade durante a revolu\u00e7\u00e3o \u2013 em um tweet imediatamente antes de ser presa. O tweet dizia: \u201cEliminar toda candidatura, toda oposi\u00e7\u00e3o, \u00e9 o objetivo de uma ditadura em agonia. Por isso que recorre a uma repress\u00e3o maci\u00e7a. Nada tem funcionado. Nada vai funcionar.<\/p>\n\n\n\n<p><em><sub>\u00a0* Tradu\u00e7\u00e3o do espanhol por Maria Isabel Santos Lima<\/sub><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Manter a presid\u00eancia pela for\u00e7a \u00e9 a ru\u00edna de qualquer regime. 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