{"id":6150,"date":"2021-06-20T09:39:16","date_gmt":"2021-06-20T12:39:16","guid":{"rendered":"http:\/\/latinoamerica21.com\/?p=6150"},"modified":"2021-06-20T09:39:19","modified_gmt":"2021-06-20T12:39:19","slug":"esquerda-e-direita-entre-a-esperanca-e-o-mal-menor","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/esquerda-e-direita-entre-a-esperanca-e-o-mal-menor\/","title":{"rendered":"Esquerda e direita: entre a esperan\u00e7a e o mal menor?"},"content":{"rendered":"\n<p>O mundo passa por retrocessos democr\u00e1ticos, seja pelo fechamento expl\u00edcito de regimes e golpes militares, seja por manobras amparadas na institucionalidade, mas que ignoram a vontade das urnas. Ou ainda por aumento das prerrogativas burocr\u00e1ticas e jur\u00eddicas em detrimento dos governos eleitos. A Am\u00e9rica Latina em particular vivencia um retrocesso desde o esgotamento da chamada onda rosa, quando v\u00e1rios governos de esquerda foram eleitos.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O fim da era das democracias na Am\u00e9rica?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Em 2017, escrevi um texto que tratava disso, intitulado \u201cO fim da era das democracias na Am\u00e9rica\u201d, \u00f3bvio trocadilho com a obra de Alexis de Tocqueville. Argumentei \u00e0quela altura que o continente enfrentava tanto a a\u00e7\u00e3o conspirat\u00f3ria de setores neoliberais alinhados aos Estados Unidos, quanto o fechamento de regimes em pa\u00edses governados pela esquerda, onde a oposi\u00e7\u00e3o era composta majoritariamente por aqueles grupos, como a Nicar\u00e1gua e a Venezuela.<\/p>\n\n\n\n<p>Hoje a Am\u00e9rica Latina est\u00e1 um passo adiante nesse processo. Em onda equipar\u00e1vel \u00e0quela dos anos 1930, crescem no mundo movimentos fascistas e fundamentalistas religiosos, tratados frequentemente pelo eufemismo \u201cpopulismo de direita\u201d. O mesmo ocorre no continente americano.<\/p>\n\n\n\n<p>Jair Bolsonaro \u00e9 a cara mais \u00f3bvia desse processo, sendo equiparado a cong\u00eaneres como Viktor Orb\u00e1n (Hungria), Recep Erdo\u011fan (Turquia), Rodrigo Duterte (Filipinas) e Narendra Modi (\u00cdndia). At\u00e9 no Uruguai, onde a democracia \u00e9 vista como mais est\u00e1vel e de qualidade, apareceu de forma competitiva algu\u00e9m como Guido Manini R\u00edos, com seu Cabildo Abierto bagun\u00e7ando a composi\u00e7\u00e3o partid\u00e1ria do parlamento.<\/p>\n\n\n\n<p>Paralelamente, persegui\u00e7\u00f5es jur\u00eddico-pol\u00edticas (o chamado <em>lawfare<\/em>) a ex-presidentes ocorreram no Equador, onde Len\u00edn Moreno deu uma guinada \u00e0 direita e Rafael Correa precisou se exilar na B\u00e9lgica; na Argentina, contra Cristina Fern\u00e1ndez de Kirchner; e no Brasil, contra Lula, que chegou a ficar 580 dias preso.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Fim de um ciclo e in\u00edcio de tensos equil\u00edbrios<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O interessante \u00e9 que, depois de uma aparente virada \u00e0 direita na mesma propor\u00e7\u00e3o que ocorrera \u00e0 esquerda na mar\u00e9 rosa, o que parece acontecer hoje \u00e9 um tenso equil\u00edbrio entre dois blocos.<\/p>\n\n\n\n<p>O triunfo de Alberto Fern\u00e1ndez, com Cristina como sua vice, contra Mauricio Macri no primeiro turno da elei\u00e7\u00e3o argentina em 2019 n\u00e3o foi mero suspiro de esperan\u00e7a em meio \u00e0 asfixia generalizada da esquerda.<\/p>\n\n\n\n<p>O panorama da pol\u00edtica mexicana tamb\u00e9m mudou com a vit\u00f3ria de L\u00f3pez Obrador ainda em 2018 na disputa pela presid\u00eancia: seu partido Movimento Regenera\u00e7\u00e3o Nacional (Morena) tem hoje a maioria do Congresso e dos governos estaduais. Os principais partidos de oposi\u00e7\u00e3o, o PRI, o PAN e mesmo o PRD (que era de esquerda) formaram uma \u00fanica coaliz\u00e3o eleitoral em 2021, \u201cV\u00e1 por M\u00e9xico\u201d, para disputar as elei\u00e7\u00f5es para a C\u00e2mara de Deputados, fracassando em superar a maioria governista.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Passado o golpe militar na Bol\u00edvia, que colocou Jeanine \u00c1\u00f1ez na presid\u00eancia, o MAS voltou ao poder, mesmo sem Evo Morales, com a vit\u00f3ria de Luis Arce em 2020. V\u00e1rios setores da esquerda chilena tiveram uma vit\u00f3ria esmagadora na Constituinte eleita em mar\u00e7o de 2021.<\/p>\n\n\n\n<p>A impressionante mobiliza\u00e7\u00e3o contra as reformas neoliberais que Iv\u00e1n Duque tentou realizar na Col\u00f4mbia, e a repress\u00e3o policial a ela, mostram que o uribismo n\u00e3o tem mais o conforto de que desfrutava na d\u00e9cada passada. Por sua vez, a volta de Lula \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de elegibilidade e seu favoritismo contra Bolsonaro nas pesquisas reembaralham as cartas do tabuleiro pol\u00edtico brasileiro.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O Peru como campo de batalha<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O empate entre esses dois blocos se materializa na elei\u00e7\u00e3o presidencial peruana. Keiko Fujimori, filha do ex-ditador Alberto Fujimori, termina pela terceira vez consecutiva na segunda posi\u00e7\u00e3o, sempre com apoio muito pr\u00f3ximo \u00e0 metade dos votos v\u00e1lidos no segundo turno.<\/p>\n\n\n\n<p>Mesmo com o ex-autocrata condenado por viola\u00e7\u00e3o de direitos humanos e por corrup\u00e7\u00e3o, o fujimorismo permaneceu como uma for\u00e7a pol\u00edtica competitiva. Uma pesquisa do instituto Ipsos Apoyo de maio de 2013, mostrava Fujimori como o melhor presidente dos \u00faltimos 50 anos para 30% dos entrevistados. Mas tamb\u00e9m como o segundo pior, com a maior rejei\u00e7\u00e3o entre 18% dos entrevistados.<\/p>\n\n\n\n<p>Em sua primeira tentativa de chegar \u00e0 presid\u00eancia, em 2011, Keiko obteve 48,5% contra Ollanta Humala. Ela perdeu novamente em 2016, para Pedro Pablo Kuczynski (PPK), um neoliberal, por\u00e9m por uma margem mais apertada: 49,9%.<\/p>\n\n\n\n<p>Passadas a ren\u00fancia de PPK e a destitui\u00e7\u00e3o via <em>impeachment <\/em>de seu sucessor, Mart\u00edn Vizcarra, a elei\u00e7\u00e3o de 2021 voltou a terminar em um quase empate. Desta vez, no entanto, com 49,8% dos votos, ela perdeu para o professor e sindicalista Pedro Castillo.<\/p>\n\n\n\n<p>Keiko acusou o processo eleitoral de fraude, a exemplo do que fizeram antes dela os tamb\u00e9m derrotados Henrique Capriles na Venezuela em 2013, A\u00e9cio Neves no Brasil em 2014, Guillermo Lasso no Equador em 2017 e Carlos Mesa na Bol\u00edvia em 2019.<\/p>\n\n\n\n<p>Bolsonaro j\u00e1 se antecipa a poss\u00edvel derrota em 2022 e acusa as urnas eletr\u00f4nicas utilizadas no Brasil de serem fraudadas, defendendo a ado\u00e7\u00e3o de votos impressos, medida que poderia facilitar a coer\u00e7\u00e3o pol\u00edtica em \u00e1reas dominadas pelo crime organizado.<\/p>\n\n\n\n<p>A preocupa\u00e7\u00e3o presente em <em>best-sellers<\/em> sobre a morte das democracias em geral n\u00e3o \u00e9 realmente a de haver rupturas democr\u00e1ticas. \u00c9, sim, a ang\u00fastia com o fato de os representantes tradicionais do mercado estarem crescentemente sem espa\u00e7o. As vit\u00f3rias de Lacalle Pou no Uruguai em 2019 e de Guillermo Lasso este ano no Equador n\u00e3o s\u00e3o suficientes para esconder que a velha f\u00f3rmula tem funcionado menos.<\/p>\n\n\n\n<p>Apelam \u00e0 falsa equival\u00eancia, classificando qualquer postura minimamente cr\u00edtica ao capitalismo ou ao imperialismo como \u201cpopulismo de esquerda\u201d e a extrema direita como \u201cpopulismo de direita\u201d. Apontam a polariza\u00e7\u00e3o como equivalente a risco de ruptura democr\u00e1tica, enquanto recorrentemente veem <em>impeachments<\/em> e golpes como rea\u00e7\u00f5es compreens\u00edveis e n\u00e3o antidemocr\u00e1ticas, apesar de extremas, por parte da oposi\u00e7\u00e3o contra grupos pol\u00edticos de fora do <em>establishment<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa direita neoliberal, que protagonizava a fase inicial do \u201cfim da era das democracias na Am\u00e9rica\u201d que mencionei anteriormente, hoje \u00e9 coadjuvante. S\u00e3o outros os atores que lideram as disputas, com ou sem ataques \u00e0 democracia, pelo lado direito.<\/p>\n\n\n\n<p>Desdenhada pelo eleitorado e preferida pelo mercado, essa direita <em>mainstream<\/em> busca viabilizar uma \u201cterceira via\u201d. Quando n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel, no entanto, a velha clivagem direita-esquerda, que sempre tenta convencer que est\u00e1 ultrapassada, volta a falar mais alto.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi assim quando votaram para presidente no defensor de tortura Jair Bolsonaro contra o professor Fernando Haddad, o candidato do Partido dos Trabalhadores em 2018. Foi assim que o escritor Mario Vargas Llosa decidiu flexibilizar sua velha rivalidade com os Fujimori e declarou apoio a Keiko, que, segundo ele, era um \u201cmal menor\u201d que o professor Pedro Castillo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O mundo passa por retrocessos democr\u00e1ticos, seja pelo fechamento expl\u00edcito de regimes e golpes militares, seja por manobras amparadas na institucionalidade, mas que ignoram a vontade das urnas. 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