{"id":628,"date":"2019-08-29T20:29:33","date_gmt":"2019-08-29T23:29:33","guid":{"rendered":"http:\/\/latinoamerica21.com\/?p=628"},"modified":"2024-06-27T10:13:41","modified_gmt":"2024-06-27T13:13:41","slug":"midia-politica-e-clientelismo-uma-relacao-de-amor-e-odio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/midia-politica-e-clientelismo-uma-relacao-de-amor-e-odio\/","title":{"rendered":"M\u00eddia, pol\u00edtica e clientelismo: uma rela\u00e7\u00e3o de amor e \u00f3dio"},"content":{"rendered":"\n<p>A rela\u00e7\u00e3o entre m\u00eddia e pol\u00edtica na Am\u00e9rica Latina \u00e9 central\nna hist\u00f3ria recente do nosso continente. Grande parte dos pa\u00edses\nlatino-americanos possuem caracter\u00edsticas pol\u00edticas, sociais e midi\u00e1ticas bastante\nsemelhantes que parecem ter sido orientadas por uma cultura pol\u00edtica de matriz\nsimilar. <strong><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Pa\u00edses como Brasil, Argentina e M\u00e9xico, entre outros da regi\u00e3o,\ns\u00e3o estados federais de regime presidencialista; t\u00eam popula\u00e7\u00f5es mesti\u00e7as,\nvindas de forma for\u00e7ada ou por migra\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas e recentes; foram\ngovernados por regimes autorit\u00e1rios que duraram d\u00e9cadas; passaram por processos\nde transi\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica no final do s\u00e9culo XX; e possuem um sistema de m\u00eddia\nconcentrado. <strong><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Para compreender o cen\u00e1rio latino-americano,\ne em que medida ele vem se transformando e possibilitando progressos quanto ao\npapel do jornalismo, \u00e0 autonomia de seus profissionais e \u00e0s quest\u00f5es envolvendo\nas regulamenta\u00e7\u00f5es por parte do Estado, \u00e9 necess\u00e1rio, primeiro, levar em conta\na crescente concentra\u00e7\u00e3o do mercado de m\u00eddia nos pa\u00edses da regi\u00e3o, assim como\numa (ainda) forte depend\u00eancia do financiamento p\u00fablico de suas atividades. Longe\nde considerar a informa\u00e7\u00e3o como uma mercadoria, um sistema de m\u00eddia submetido a\nl\u00f3gicas do jogo pol\u00edtico, que usa o financiamento p\u00fablico como moeda de\nbarganha para uma cobertura midi\u00e1tica favor\u00e1vel, jamais conseguir\u00e1 dar vida a\num jornalismo de fato independente no exerc\u00edcio da profiss\u00e3o, de maior\nautonomia em rela\u00e7\u00e3o ao editor do jornal e de seus financiadores.<strong><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Observando transforma\u00e7\u00f5es do continente ao longo do s\u00e9culo XX e XXI, podemos\nafirmar que vivemos culturas pol\u00edticas baseadas no autoritarismo, baixa\nparticipa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, desigualdade social e clientelismo por parte de empresas\nde v\u00e1rios setores que, contraditoriamente, se declaram liberais na economia mas\nque n\u00e3o encontraram f\u00f3rmulas para prosperar sem recorrer ao financiamento p\u00fablico.\n<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>A m\u00eddia concentrada e demasiadamente dependente de investimento p\u00fablico suprimiu a forma\u00e7\u00e3o de um livre mercado no setor, orientado ao p\u00fablico e a cumprir a fun\u00e7\u00e3o social de jornalismo independente. <\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Um sistema de m\u00eddia concentrado como o do Brasil, Argentina e M\u00e9xico,\npara citar somente os l\u00edderes regionais, em um contexto de p\u00f3s-transi\u00e7\u00e3o\ndemocr\u00e1tica, onde se deu um maior grau pluralismo pol\u00edtico sem que o mesmo\ntivesse ocorrido com a m\u00eddia, gerou um desequil\u00edbrio de poder entre o sistema\npol\u00edtico e midi\u00e1tico. A m\u00eddia concentrada e demasiadamente dependente de\ninvestimento p\u00fablico suprimiu a forma\u00e7\u00e3o de um livre mercado no setor,\norientado ao p\u00fablico e a cumprir a fun\u00e7\u00e3o social de jornalismo independente. As\nnovas elites pol\u00edticas que ascenderam pela via eleitoral mantiveram algumas\npr\u00e1ticas inibidoras de um mercado de m\u00eddia plural, livre e competitivo, assim\ncomo de um jornalismo mais profissional, reproduzindo as mesmas l\u00f3gicas\nautorit\u00e1rias dos regimes que as dominaram d\u00e9cadas antes. Pode-se dizer que,\npela sua natureza empresarial clientelista, os interesses dos grandes grupos de\nm\u00eddia na Am\u00e9rica Latina n\u00e3o respondem unicamente a interesses estritamente\nmidi\u00e1ticos, tanto menos jornal\u00edsticos. A not\u00edcia \u00e9 tratada como mercadoria e o\ntrabalho do jornalista \u00e9 precarizado, obrigando-o a se comportar como um \u201cfuncion\u00e1rio\u201d\nprescind\u00edvel que precisa ser politicamente alinhado politicamente com este ou\ncom aquele para n\u00e3o perder o emprego. Em \u00f3rg\u00e3os de m\u00eddias locais a situa\u00e7\u00e3o \u00e9\nainda mais preocupante no que se refere \u00e0 independ\u00eancia do jornalismo em\nrela\u00e7\u00e3o \u00e0 pol\u00edtica, sendo muito comum a acumula\u00e7\u00e3o de cargos de assessor em\ngabinetes ao mesmo tempo em que se trabalha em uma reda\u00e7\u00e3o. <\/p>\n\n\n\n<p>Contudo, n\u00e3o \u00e9\nnecess\u00e1rio adotar de forma instant\u00e2nea um ideal de jornalismo anglo-sax\u00e3o que,\nquando aplicado no nosso contexto, tende a posicionar a Am\u00e9rica Latina em\nclassifica\u00e7\u00f5es deficit\u00e1rias no que se refere \u00e0 independ\u00eancia da m\u00eddia e \u00e0\nqualidade da democracia. Cada contexto cultural tem as suas peculiaridades e\npr\u00e1ticas consolidadas. Mas quando jornalistas demandam mais independ\u00eancia no\nexerc\u00edcio de sua profiss\u00e3o \u00e9 preciso utilizar como par\u00e2metro anal\u00edtico o ideal\nde papel da imprensa como um \u201cc\u00e3o de guarda\u201d (<em>watchdog role<\/em>), no sentido\nde considerar o jornalista como aquele que investiga e informa o p\u00fablico de\nforma cr\u00edtica sobre a pol\u00edtica, de forma livre e exercendo o seu trabalho com\nplena independ\u00eancia. Nesta linha de pensamento, as reda\u00e7\u00f5es precisam dar\nautonomia e respaldo institucional ao profissional, mesmo quando a situa\u00e7\u00e3o\nseja an\u00e1loga \u00e0 luta entre Golias e o gigante. Casos renomados da recente\nhist\u00f3ria do jornalismo global deveriam servir de exemplos sobre o papel e o <em>modus\noperandi<\/em> do jornalismo na Am\u00e9rica Latina. Um bom exemplo \u00e9 o Caso\nWatergate, esc\u00e2ndalo pol\u00edtico em 1974 nos Estados Unidos que, ao se tornar\np\u00fablico, culminou na ren\u00fancia do ent\u00e3o presidente da rep\u00fablica Richard Nixon. Outro\ncaso mais recente \u00e9 o da Vaza-Jato no Brasil, que trouxe a p\u00fablico a corrup\u00e7\u00e3o\ndo Minist\u00e9rio P\u00fablico na Opera\u00e7\u00e3o Lava-Jato, assim como os excessos do ex-juiz\nS\u00e9rgio Moro, agora Ministro do Governo Bolsonaro, extrapolando a sua\nimparcialidade e se comportando como parte de acusa\u00e7\u00e3o no processo contra o\nex-presidente Lula.<\/p>\n\n\n\n<p>Constata-se que entre\no s\u00e9culo XX e XXI, transitamos de um modelo midi\u00e1tico inibido no seu trabalho\ninformativo por regimes pol\u00edticos autorit\u00e1rios, a outro no qual, de formas\ndistintas, grupos pol\u00edticos, econ\u00f4micos e o crime organizado, exercem fortes\npress\u00f5es sobre a independ\u00eancia de uma imprensa mais profissionalizada, por\u00e9m\nainda clientelista na sua rela\u00e7\u00e3o com o Estado.<\/p>\n\n\n\n<p>Se por um lado alguns\navan\u00e7os podem ser observados, por outro, ainda h\u00e1 elementos preocupantes sobre\no futuro da rela\u00e7\u00e3o entre m\u00eddia e pol\u00edtica na regi\u00e3o. H\u00e1 fatores interessantes surgidos na \u00faltima d\u00e9cada, que est\u00e3o\nconfigurando uma nova ecologia midi\u00e1tica, na qual a facilidade de acesso aos\nmeios de produ\u00e7\u00e3o e difus\u00e3o de conhecimento por parte dos jornalistas e\ncidad\u00e3os contribuiu ao nascimento de modelos alternativos e independentes de\nm\u00eddia, mais pr\u00f3ximo ao ideal dojornalista investigativo. Paradoxalmente,\npor outro lado, a falta de sistemas de controle social, baseados na\ncredibilidade consolidada do profissional da grande m\u00eddia, deu origem a\naberra\u00e7\u00f5es como o neg\u00f3cio e a pr\u00e1tica pol\u00edtica da difus\u00e3o de \u201cinforma\u00e7\u00f5es de\ncredibilidade duvidosa\u201d, chamadas mais popularmente de <em>fake news<\/em>. N\u00e3o\nobstante as numerosas cr\u00edticas feitas aos grandes ve\u00edculos de m\u00eddia ao longo\ndas \u00faltimas d\u00e9cadas, de fato, os mesmos foram os principais muros de conten\u00e7\u00e3o\nao fen\u00f4meno das not\u00edcias falsas pela legitimidade e credibilidade que ainda\nconservam apesar de sua cont\u00ednua queda. <\/p>\n\n\n\n<p>Novos ve\u00edculos de m\u00eddia sugiram nos\n\u00faltimos anos; alguns com uma verdadeira voca\u00e7\u00e3o investigativa, o que \u00e9 raro no\ncontinente e bom para o sistema de m\u00eddia de forma geral. Ao mesmo tempo, outros\nnovos ve\u00edculos m\u00eddia alternativa, se alinharam a interesses de governos e\npartidos, produzindo not\u00edcias que, ao inv\u00e9s de informar, emburrecem o leitor-cidad\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Muitas incertezas inda pairam sobre o\nfuturo do jornalismo na Am\u00e9rica Latina, principalmente sobre a sua capacidade\nde (auto)financiamento, modelos organizacionais e rela\u00e7\u00e3o com os p\u00fablicos. N\u00e3o\nse sabe ao certo como o uso massivo das m\u00eddias sociais, por exemplo, afetar\u00e1 a\nforma de disponibilizar material jornal\u00edstico no futuro. O que n\u00e3o se pode\nperder de vista \u00e9 a necessidade de debater sobre qual jornalismo queremos e ter\na vontade de (re)constru\u00ed-lo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A rela\u00e7\u00e3o entre m\u00eddia e pol\u00edtica na Am\u00e9rica Latina \u00e9 central na hist\u00f3ria recente do nosso continente. 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