{"id":6326,"date":"2021-06-26T08:45:00","date_gmt":"2021-06-26T11:45:00","guid":{"rendered":"http:\/\/latinoamerica21.com\/?p=6326"},"modified":"2021-06-25T09:56:34","modified_gmt":"2021-06-25T12:56:34","slug":"dos-barcos-e-do-racismo-na-america-latina","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/dos-barcos-e-do-racismo-na-america-latina\/","title":{"rendered":"Dos barcos e do racismo na Am\u00e9rica Latina"},"content":{"rendered":"\n<p><strong><em>Co-autor Federico Finchelstein<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Em 9 de junho, em uma confer\u00eancia entre o presidente da Espanha, Pedro S\u00e1nchez, e o presidente da Argentina, Alberto Fern\u00e1ndez, este \u00faltimo afirmou que <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=VBuKulWvHcI\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">\u201cos mexicanos vieram dos \u00edndios, os brasileiros vieram da selva, mas n\u00f3s, argentinos, chegamos de barcos, e eram barcos que vieram da Europa\u201d.<\/a> A frase esconde a fantasia de que a popula\u00e7\u00e3o argentina, ao contr\u00e1rio de outras popula\u00e7\u00f5es latino-americanas, \u00e9 exclusivamente um produto da migra\u00e7\u00e3o europeia, o que supostamente lhe confere um v\u00ednculo cultural \u00fanico com o velho continente.<\/p>\n\n\n\n<p>Estas palavras provocaram um esc\u00e2ndalo a n\u00edvel continente. E embora o presidente argentino tenha se desculpado rapidamente, sua declara\u00e7\u00e3o sugere um suposto racismo e uma ignor\u00e2ncia incomoda. O mais grave, por\u00e9m, \u00e9 que <a href=\"http:\/\/latinoamerica21.com\/br\/o-que-2020-ensinou-sobre-racismo-ao-brasil\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">estas palavras refletem o sentimento em v\u00e1rios pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina<\/a>, n\u00e3o apenas na Argentina, s\u00e3o gerados, reproduzidos, refor\u00e7ados e legitimados a partir dos processos hist\u00f3ricos. Dito isto, a declara\u00e7\u00e3o de Fern\u00e1ndez, que n\u00e3o \u00e9 nativista nem fascista, deveria se diferenciar de outras realizadas por Jair Bolsonaro ou Donald Trump, j\u00e1 que nestes casos os coment\u00e1rios s\u00e3o enquadrados dentro das ideologias populistas p\u00f3s-fascistas.<\/p>\n\n\n\n<p>Para a maioria dos argentinos, a racializa\u00e7\u00e3o e as pr\u00e1ticas coloniais s\u00e3o estranhas \u00e0 sua hist\u00f3ria e n\u00e3o t\u00eam lugar na sociedade atual. Mas, ao mesmo tempo, eles acreditam que sua ascend\u00eancia europeia \u00e9 \u00fanica na Am\u00e9rica Latina, e que isso os torna superiores. Para as elites pol\u00edticas, intelectuais e culturais da Argentina, o arqu\u00e9tipo argentino \u00e9 branco e seus ancestrais podem ser rastreados at\u00e9 os barcos transatl\u00e2nticos que partiram de G\u00eanova ou Barcelona na d\u00e9cada de 1890.<\/p>\n\n\n\n<p>Alberto Fern\u00e1ndez n\u00e3o foi o primeiro presidente a fazer tal declara\u00e7\u00e3o. Em 2018, Mauricio Macri disse que \u201cna Am\u00e9rica do Sul somos todos descendentes de europeus\u201d, em 2015, Cristina Fern\u00e1ndez de Kirchner disse que os argentinos \u201cs\u00e3o filhos, netos e bisnetos de imigrantes\u201d e em 1996 Carlos Menem disse que na Argentina n\u00e3o havia negros e que este era um \u201cproblema\u201d brasileiro.<\/p>\n\n\n\n<p>De acordo com este mito, os argentinos sempre foram brancos, portanto, ao contr\u00e1rio do M\u00e9xico, na Argentina a mesti\u00e7agem nunca foi exaltada. Isto, entretanto, tamb\u00e9m n\u00e3o livra o M\u00e9xico da culpa, pois \u00e9 preciso lembrar que a cria\u00e7\u00e3o do que Jos\u00e9 Vasconcelos definiu como a \u201cra\u00e7a c\u00f3smica\u201d de sangue mesti\u00e7o europeu e nativo se baseou na exclus\u00e3o de linhagens puramente ind\u00edgenas e negras.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesta linha, o imagin\u00e1rio nacional argentino foi constru\u00eddo em torno dos imigrantes europeus como agentes modernizadores da na\u00e7\u00e3o, apagando com uma assinatura a exist\u00eancia, contribui\u00e7\u00f5es e identidades de afro-argentinos, mesti\u00e7os, comunidades ind\u00edgenas e imigrantes da China, Cor\u00e9ia do Sul, S\u00edria, L\u00edbano, Arm\u00eania, Angola, Guin\u00e9 e pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina. Na verdade, h\u00e1 uma cren\u00e7a generalizada de que os mesti\u00e7os e negros s\u00e3o, na realidade, migrantes de primeira ou segunda gera\u00e7\u00e3o do Brasil, Peru, Paraguai, Uruguai e Bol\u00edvia.<\/p>\n\n\n\n<p>Esta narrativa francamente racista consolidou e naturalizou ainda mais uma suposta brancura argentina onde os verdadeiros argentinos, cujos pais e av\u00f3s sa\u00edam dos barcos, eram parte da classe m\u00e9dia educada e moderna. Enquanto aqueles, produto da miscigena\u00e7\u00e3o com os povos ind\u00edgenas ou os filhos de imigrantes que \u201cacabaram de chegar\u201d dos pa\u00edses vizinhos, eram membros da classe trabalhadora, rural, ignorante e atrasada.<\/p>\n\n\n\n<p>Este discurso teve origem durante as pol\u00edticas de \u201ceuropeiza\u00e7\u00e3o\u201d dos fundadores modernos como Domingo F. Sarmiento, Bartoleme Mitre e Julio A. Roca em meados e finais do s\u00e9culo XIX, que consistiram na progressiva erradica\u00e7\u00e3o das popula\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas da Patag\u00f4nia e do Chaco argentino, e na promo\u00e7\u00e3o da imigra\u00e7\u00e3o europeia a fim de substituir os nativos por colonos brancos.<\/p>\n\n\n\n<p>Para esses pol\u00edticos e pensadores, uma na\u00e7\u00e3o moderna exigia \u201cgente civilizada\u201d e n\u00e3o \u201cselvagens\u201d. A predile\u00e7\u00e3o pelos imigrantes da Europa se constitucionalizou em 1853 e permanece at\u00e9 os dias de hoje. Deve-se dizer, entretanto, que a Argentina foi o \u00fanico pa\u00eds das Am\u00e9ricas que nunca instituiu uma proibi\u00e7\u00e3o ou quota \u00e9tnica ou racial espec\u00edfica de imigra\u00e7\u00e3o. Todos os outros proibiram em determinados momentos a entrada de chineses ou limitaram a recep\u00e7\u00e3o de judeus. Nesse sentido, a Argentina desenvolveu uma das pol\u00edticas de imigra\u00e7\u00e3o mais progressistas do mundo, ao contr\u00e1rio dos Estados Unidos que tinham m\u00faltiplas proibi\u00e7\u00f5es e cotas de exclus\u00e3o racial e legitimadas eugenicamente at\u00e9 1965 e foi copiada por pa\u00edses como Canad\u00e1, Cuba, Austr\u00e1lia, Equador e Chile.<\/p>\n\n\n\n<p>Isto n\u00e3o quer dizer que n\u00e3o tenha havido tentativas similares ao longo da hist\u00f3ria argentina. Santiago Peralta, que estudou antropologia na Alemanha nos anos 1930, foi o chefe do Instituto Nacional de Imigra\u00e7\u00e3o e diretor do Instituto Nacional \u00c9tnico, que foi modelado com base no Escrit\u00f3rio Nazista de Ilumina\u00e7\u00e3o em Pol\u00edticas Populacionais e de Bem-Estar Racial durante a primeira administra\u00e7\u00e3o do Per\u00f3n, bloqueou administrativamente e secretamente parte da imigra\u00e7\u00e3o judaica e desenvolveu uma s\u00e9rie de pol\u00edticas de inspira\u00e7\u00e3o eug\u00eanica para limitar a entrada dos chamados indesej\u00e1veis.<\/p>\n\n\n\n<p>O Instituto Nacional \u00c9tnico considerou que o \u201ctipo \u00e9tnico nacional\u201d era o \u201ctipo racial mediterr\u00e2neo da ra\u00e7a branca\u201d e promoveu uma s\u00e9rie de pol\u00edticas de hibridiza\u00e7\u00e3o dirigidas ao branqueamento racial das comunidades ind\u00edgenas mediante a aplica\u00e7\u00e3o de miscigena\u00e7\u00e3o, remo\u00e7\u00e3o de crian\u00e7as e vigil\u00e2ncia eug\u00eanica programada. Foi desenvolvida uma taxonomia de grupos ind\u00edgenas, classificando-os de acordo com n\u00edveis de indigeneidade estrangeira ou n\u00e3o aut\u00f3ctone.<\/p>\n\n\n\n<p>O Instituto concluiu que a original e \u00fanica comunidade ind\u00edgena na Argentina eram os Tehuelches, que foram extinguidos por aniquila\u00e7\u00e3o por parte de \u201ctribos estrangeiras\u201d, como os Mapuches (do Chile) ou os Guaranis (do Paraguai), ou por miscigena\u00e7\u00e3o definida por eles como araucaniza\u00e7\u00e3o. Supostamente, n\u00e3o existiam mais povos ind\u00edgenas na Argentina. Se sobrou algum, eles haviam se misturado com colonos brancos ou hibridizados com nativos n\u00e3o argentinos.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 esta ideia de tribos estrangeiras que legitimou o assassinato em massa de entre 2.000 e 3.000 pessoas pilaga em Ricon Bomba, na prov\u00edncia de Formosa, no nordeste do pa\u00eds, por ordem de Per\u00f3n em 1947. Segundo as For\u00e7as Armadas, as planta\u00e7\u00f5es de cana de a\u00e7\u00facar haviam sido ocupadas por comunidades ind\u00edgenas do Paraguai, apesar de serem trabalhadores rurais que protestavam pelos direitos trabalhistas b\u00e1sicos. Mas este evento, e muitos outros, foram apagados da mem\u00f3ria e s\u00f3 agora est\u00e3o sendo revisitados depois que um juiz argentino o declarou um crime contra a humanidade.<\/p>\n\n\n\n<p>A remitifica\u00e7\u00e3o da Argentina como um pa\u00eds exclusivamente branco e o apagamento das comunidades ind\u00edgenas, mesti\u00e7as, negras e n\u00e3o europeias por parte de Alberto Fern\u00e1ndez mostra como \u00e9 importante ter um debate s\u00e9rio sobre a racializa\u00e7\u00e3o na Argentina e tamb\u00e9m em outros pa\u00edses latino-americanos.<\/p>\n\n\n\n<p><em><sub>* Tradu\u00e7\u00e3o do espanhol por Maria Isabel Santos Lima<\/sub><\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><sub>Federico Finchelstein \u00e9 professor de Hist\u00f3ria na New School for Social Research (New York). Ele foi professor na Universidade de Brown. D. de Cornell Univ. Autor de v\u00e1rios livros sobre fascismo, populismo, ditaduras e o Holocausto. Seu \u00faltimo livro \u00e9 Brief History of Fascist Lies (2020).<\/sub><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Co-autor Federico Finchelstein<br \/>\nEmbora o presidente argentino tenha se desculpado pelas palavras, sua declara\u00e7\u00e3o sugere um suposto racismo e uma desconfort\u00e1vel ignor\u00e2ncia. 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