{"id":6434,"date":"2021-07-02T15:45:00","date_gmt":"2021-07-02T18:45:00","guid":{"rendered":"http:\/\/latinoamerica21.com\/?p=6434"},"modified":"2021-06-30T07:03:50","modified_gmt":"2021-06-30T10:03:50","slug":"coordenadas-para-acordar-do-pesadelo-brasileiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/coordenadas-para-acordar-do-pesadelo-brasileiro\/","title":{"rendered":"Coordenadas para acordar do pesadelo brasileiro"},"content":{"rendered":"\n<p><strong><em>Coautor Danilo Uz\u00eada da Cruz<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Para entender o Brasil atual e os perigos que se aproximam, \u00e9 fundamental considerar o avan\u00e7o do autoritarismo. N\u00e3o se entende este fen\u00f4meno sem considerar o golpe de 2016 e os anos de \u201clavajatismo\u201d, a desconstru\u00e7\u00e3o das institui\u00e7\u00f5es e das pol\u00edticas sociais, o esvaziamento da Constitui\u00e7\u00e3o de 1988 e o tratamento criminoso da pandemia de Covid-19.<\/p>\n\n\n\n<p>Neste contexto, a suspens\u00e3o das condena\u00e7\u00f5es do ex-presidente Luiz In\u00e1cio Lula da Silva e a suspei\u00e7\u00e3o do ex-ju\u00edz S\u00e9rgio Moro <a href=\"http:\/\/portal.stf.jus.br\/noticias\/verNoticiaDetalhe.asp?idConteudo=462854&amp;ori=1\">definidas no Supremo Tribunal Federal<\/a> serviram para come\u00e7ar a reescrever a hist\u00f3ria daqueles anos, mas principalmente para estabelecer alguma rota de fuga para sairmos deste pesadelo.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A terceira via e o falso mito da polariza\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Damos como fato consumado que n\u00e3o h\u00e1 \u201cterceira via\u201d. Por uma raz\u00e3o muito simples: n\u00e3o existe a polariza\u00e7\u00e3o que o chamado \u201ccentro\u201d e a grande m\u00eddia procuram fomentar entre uma \u201cextrema-esquerda\u201d e uma \u201cextrema-direita\u201d. Isto porque se o presidente Jair Bolsonaro \u00e9 efetivamente de extrema-direita (pr\u00f3ximo do fascismo), Lula est\u00e1 bem longe de qualquer extremo. Est\u00e1 de fato mais pr\u00f3ximo do centro, e enquanto escrevemos estas linhas o j\u00e1 candidato segue em sua agenda de encontros com partidos conservadores, l\u00edderes neopentecostais e ex-presidentes.<\/p>\n\n\n\n<p>Nunca houve o que temer de Lula, e toda a mistifica\u00e7\u00e3o em torno do tema s\u00f3 demonstra a incapacidade das elites brasileiras em ceder uma migalha que seja de seus privil\u00e9gios.<\/p>\n\n\n\n<p>Se um candidato j\u00e1 \u00e9 de centro-esquerda e ruma decididamente para o centro, n\u00e3o h\u00e1 \u201cterceira via\u201d poss\u00edvel. S\u00f3 h\u00e1 dois candidatos vi\u00e1veis e em condi\u00e7\u00f5es normais Lula ganharia com facilidade.<\/p>\n\n\n\n<p>A quest\u00e3o \u00e9 que estamos muito longe de condi\u00e7\u00f5es normais: estamos num pa\u00eds colapsado, no qual n\u00e3o sobrou muito das institui\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas. E no qual Bolsonaro j\u00e1 anuncia que se perder ser\u00e1 devido a fraudes.<\/p>\n\n\n\n<p>Neste contexto, o ideal \u00e9 que o governo n\u00e3o termine, o que evitaria mais desconstru\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica e mortes. <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/poder\/2021\/02\/veja-quais-sao-os-68-pedidos-de-impeachment-contra-bolsonaro.shtml\">H\u00e1 raz\u00f5es para dezenas de impeachments<\/a>. No entanto, sabemos que Bolsonaro mant\u00e9m parte de sua popularidade, o apoio dos setores armados legais e ilegais, uma base parlamentar devidamente alugada e um Procurador Geral da Rep\u00fablica aliado e silencioso. Apesar dos protestos crescentes, dificilmente haver\u00e1 impeachment. Ent\u00e3o, por ora, tratemos de 2022.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O lulismo num contexto pior<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 importante reconhecer os erros e limites do per\u00edodo lulista e, principalmente, alertar para as dificuldades que dever\u00e1 enfrentar uma nova etapa lulista se esta for marcada pelo \u201cpassadismo\u201d. Vivemos em outro Brasil comparado \u00e0quele de vinte anos atr\u00e1s. Em diversos aspectos, um Brasil bem pior: precarizado, individualista, c\u00ednico, endurecido, convulsionado.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Se procurar reeditar o passado glorioso de um Brasil que n\u00e3o existe mais, o lulismo poder\u00e1 no m\u00e1ximo bloquear o bolsonarismo, o desmonte do Estado e da democracia, enquanto luta para concluir o mandato. Isto j\u00e1 n\u00e3o seria pouco.<\/p>\n\n\n\n<p>Frear a degrada\u00e7\u00e3o, a necropol\u00edtica e o genoc\u00eddio \u00e9 o primeiro passo fundamental. Mas dificilmente haver\u00e1 condi\u00e7\u00f5es estruturais de relan\u00e7ar algum projeto de futuro. Isto s\u00f3 seria poss\u00edvel com renova\u00e7\u00e3o pelas bases, novas pol\u00edticas p\u00fablicas, uma pol\u00edtica de \u201cfrente ampla\u201d de partidos e movimentos sociais, um relan\u00e7amento da participa\u00e7\u00e3o social. <a href=\"http:\/\/latinoamerica21.com\/br\/marcha-de-19j-bolsonaro-perde-tambem-nas-midias-sociais\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">E o principal: com muito povo nas ruas.<\/a> Ainda h\u00e1 tempo?\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Algumas quest\u00f5es ainda pesam nos ombros e est\u00e3o no card\u00e1pio pol\u00edtico das esquerdas, particularmente do lulismo como pr\u00e1tica. As alian\u00e7as com oligarquias regionais, conservadoras e fracionadas; um contradit\u00f3rio modelo de desenvolvimento, baseado numa confusa (e invi\u00e1vel) ideia de consenso entre setores historicamente desiguais; e pr\u00e1ticas internas autorit\u00e1rias, que foram causas de um decl\u00ednio gradativo da esquerda como op\u00e7\u00e3o pol\u00edtica para as massas.<\/p>\n\n\n\n<p>A quest\u00e3o central \u00e9 que esta dificuldade de dialogar com outras matrizes pol\u00edticas do campo da esquerda n\u00e3o apenas isolou a esquerda partid\u00e1ria do restante da sociedade, como tamb\u00e9m abriu espa\u00e7o para que o pensamento e pr\u00e1tica conservadores ganhassem terra plana para avan\u00e7ar.<\/p>\n\n\n\n<p>Cresceram no vazio de projeto deixado pela esquerda, preocupada demais com o pacto da governabilidade ou com o governo de coaliz\u00e3o, que ao fim mostrou-se esvaziado de sentido diante do golpe. \u00c9 aqui que estamos presos, imersos em um pesadelo coletivo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Dois problemas: os militares e Washington<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Para al\u00e9m das necess\u00e1rias revis\u00f5es de projetos, devemos considerar os bloqueios que poder\u00e3o vir. Antes de tudo o fator militar, e este especificamente implicar\u00e1 em dificuldades para a esquerda se eleger, tomar posse e governar. Estamos num governo militar \u2013 das For\u00e7as Armadas, das pol\u00edcias e das mil\u00edcias. Estes setores armados n\u00e3o aceitar\u00e3o deixar o governo facilmente. Podem-se esperar den\u00fancias de fraude, motins e viol\u00eancia policial contra manifestantes que sa\u00edrem \u00e0s ruas para garantir o respeito ao resultado eleitoral.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o poderemos contar com nossas institui\u00e7\u00f5es em frangalhos como defesa. Ser\u00e1 essencial produzir uma situa\u00e7\u00e3o que desmonte antecipadamente a tentativa de golpe que vir\u00e1. Antes disso, que garanta a pr\u00f3pria realiza\u00e7\u00e3o de elei\u00e7\u00f5es \u2013 e a elegibilidade e a pr\u00f3pria vida do candidato das esquerdas.<\/p>\n\n\n\n<p>Para chegar l\u00e1 e conseguir governar, n\u00e3o basta apenas negociar com todos. Isto Lula j\u00e1 est\u00e1 fazendo e, como um magistral encantador de serpentes, seguir\u00e1 fazendo. Mas ser\u00e1 fundamental haver press\u00e3o popular desde baixo e continuamente.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 de se considerar tamb\u00e9m como Washington se comportar\u00e1. Mesmo com Joe Biden no comando, depois de tanto lavajatismo e <em>lawfare<\/em> apoiado desde fora (e isto ainda nos tempos de Barack Obama) cabe esperar para ver como encarariam o delicado regresso do Partido dos Trabalhadores, ou mais precisamente do lulismo que paira acima de qualquer partido.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A necessidade de uma nova esquerda<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>No curto prazo, \u00e9 necess\u00e1rio parar os crimes de Bolsonaro. No m\u00e9dio e longo prazo, precisamos de uma nova esquerda. Para voltar a falar a l\u00edngua do povo, deve-se disputar com as direitas temas como religiosidade, solidariedade, fam\u00edlia, viol\u00eancia. Como Lula pessoalmente sabe fazer.<\/p>\n\n\n\n<p>Em meio \u00e0 aparente contradi\u00e7\u00e3o que cruza o debate latino-americano entre uma esquerda desenvolvimentista e outra ambientalista e identit\u00e1ria, \u00e9 necess\u00e1rio construir pontes.<\/p>\n\n\n\n<p>De todo modo, n\u00e3o \u00e9 mais poss\u00edvel se manter nos limites do desenvolvimento econ\u00f4mico \u201ccl\u00e1ssico\u201d, que est\u00e1 levando a humanidade a um beco sem sa\u00edda, \u00e0s portas do \u201cfim do mundo\u201d. Se deve evitar insistir em estrat\u00e9gias desenvolvimentistas depredadoras da natureza, que foram reeditadas inclusive pelo lulismo.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas qual ser\u00e1 a alternativa? Ser\u00e1 que um novo governo Lula tentar\u00e1 promover mais uma vez grandes obras, grandes eventos, extrativismo, agroneg\u00f3cio e crescimento pelo consumo? Ou haver\u00e1 energias renovadoras emanando de novos movimentos, das juventudes, das novas universidades, das periferias, que poder\u00e3o empurrar o pa\u00eds (e o lulismo) para um novo momento? Teremos uma reedi\u00e7\u00e3o rebaixada e prec\u00e1ria da Era Lula, ou uma nova etapa? Primeiro, temos que sobreviver at\u00e9 2022.<\/p>\n\n\n\n<p><em><sub><em>Danilo Uz\u00eada da Cruz<\/em><\/sub><\/em> <em><sub>Doutor em Ci\u00eancias Sociais (UFBA), Historiador (UEFS). Pesquisador do DEPARE (UFBA) e do Perif\u00e9ricas (UFBA).<\/sub><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Co-autor Danilo Uz\u00eada da Cruz<br \/>\nA curto prazo, temos de deter os crimes de Bolsonaro. 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