{"id":6599,"date":"2021-07-07T08:45:00","date_gmt":"2021-07-07T11:45:00","guid":{"rendered":"http:\/\/latinoamerica21.com\/?p=6599"},"modified":"2021-07-07T07:11:53","modified_gmt":"2021-07-07T10:11:53","slug":"luciano-huck-e-a-corrida-presidencial-brasileira","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/luciano-huck-e-a-corrida-presidencial-brasileira\/","title":{"rendered":"Luciano Huck e a corrida presidencial brasileira"},"content":{"rendered":"\n<p>No dia 16 de maio, o apresentador de televis\u00e3o Luciano Huck concedeu uma entrevista ao jornalista Pedro Bial, na Rede Globo, em que afirmou que est\u00e1 oficialmente fora da corrida eleitoral de 2022. O principal motivo da desist\u00eancia seria a manuten\u00e7\u00e3o do seu contrato com a TV Globo, assumindo a partir do ano que vem o principal programa de entretenimento da emissora carioca.<\/p>\n\n\n\n<p>Curiosamente, nos dias seguintes \u00e0 entrevista foi poss\u00edvel observar uma razo\u00e1vel agita\u00e7\u00e3o entre os jornalistas que se dedicam \u00e0 cobertura da pol\u00edtica nacional. Na condi\u00e7\u00e3o de analista de pesquisas de opini\u00e3o e cen\u00e1rios eleitorais, e motivada pela interpela\u00e7\u00e3o de alguns deles sobre \u201co destino dos votos de Luciano Huck\u201d, avalio que a desist\u00eancia do apresentador \u00e9 bastante insignificante para o pleito de 2022.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O que as pesquisas de inten\u00e7\u00e3o de voto revelam?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Um erro bastante comum ao ler <a href=\"http:\/\/latinoamerica21.com\/br\/pesquisas-eleitorais-midia-e-democracia-no-brasil\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">pesquisas de inten\u00e7\u00e3o de voto <\/a>\u00e9 interpret\u00e1-las como express\u00e3o fiel e consolidada dos desejos do eleitor. O erro \u00e9 ainda maior se considerarmos as atuais sondagens, realizadas com tamanho distanciamento da pr\u00f3xima elei\u00e7\u00e3o (outubro de 2022).<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o \u00e9 raro encontrarmos an\u00e1lises, originadas a partir da divulga\u00e7\u00e3o dos percentuais de pesquisas, afirmando que a disputa \u00e0 presid\u00eancia est\u00e1 polarizada \u2013 entre o atual presidente Jair Bolsonaro (sem partido) e o ex-presidente Lula (PT) \u2013 mas que ainda h\u00e1 espa\u00e7o para uma terceira via, j\u00e1 que a soma de todos outros nomes apresentados ao entrevistado seria razo\u00e1vel, entre 25 e 30%.<\/p>\n\n\n\n<p>Antes de abordar os problemas desse argumento, vale destacar que a ideia de \u201cpolariza\u00e7\u00e3o\u201d sobre o cen\u00e1rio eleitoral brasileiro \u00e9 bastante equivocada. Ela equipara um candidato de extrema-direita que vem desafiando dia ap\u00f3s dia as institui\u00e7\u00f5es do Estado democr\u00e1tico de direito \u2013 questionando a lisura do pleito e sinalizando uma poss\u00edvel n\u00e3o aceita\u00e7\u00e3o do resultado eleitoral \u2013 a um candidato de esquerda que atua no campo da democracia e respeita as regras do jogo.<\/p>\n\n\n\n<p>Dito isso, comecemos a tratar do argumento relativo \u00e0 exist\u00eancia de \u201c25 a 30% das inten\u00e7\u00f5es de voto para um candidato da terceira via\u201d. Se n\u00e3o lembrarmos que os cen\u00e1rios estimulados (aquele em que o entrevistador dita as op\u00e7\u00f5es de nomes) s\u00e3o artificiais, acabamos nos convencendo desse argumento.<\/p>\n\n\n\n<p>Contudo, o cen\u00e1rio espont\u00e2neo, em que o entrevistado n\u00e3o recebe as op\u00e7\u00f5es de nomes pelos institutos, revela que nesse momento, de acordo com a <a href=\"https:\/\/datafolha.folha.uol.com.br\/opiniaopublica\/2021\/05\/1989297-aprovacao-a-governo-bolsonaro-cai-de-30-para-24.shtml\">\u00faltima pesquisa do Datafolha (13\/5)<\/a>, 49% das pessoas simplesmente \u201cn\u00e3o sabem&#8221; em quem votar. Lula lidera com 21%, Bolsonaro marca 17% e Ciro Gomes teria 1% das men\u00e7\u00f5es espont\u00e2neas (\u201coutros candidatos\u201d, 2%; \u201cem branco\/nulo\/nenhum\u201d, 8%).<\/p>\n\n\n\n<p>Assim, parece que o principal recado das atuais pesquisas \u00e9 a inexist\u00eancia de uma \u201cterceira via\u201d na cabe\u00e7a do eleitor. O apresentador Luciano Huck, por exemplo, sequer marca 1%.<\/p>\n\n\n\n<p>Ainda que ignoremos esse elemento e passemos a olhar para os cen\u00e1rios artificiais, ou seja, os estimulados, a situa\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m n\u00e3o melhora. \u00c9 certo que existe uma expressiva parcela do eleitorado que n\u00e3o gostaria de votar nem em Lula nem em Bolsonaro, por\u00e9m, o que precisa ser levado em considera\u00e7\u00e3o \u00e9 a variedade de perfis dentro dessa fatia.<\/p>\n\n\n\n<p>An\u00e1lises com microdados das atuais sondagens revelam que esse eleitor seria tendencialmente de centro-direita. Por\u00e9m, existe ampla grada\u00e7\u00e3o na escala de prefer\u00eancias pol\u00edticas ligadas a agenda de costumes e econ\u00f4mica desse segmento. Potencialmente nessa mesma fatia existe ainda um eleitor que estaria ideologicamente mais \u00e0 esquerda de Lula e dificilmente votaria em um candidato de centro-direita. Assim, a ilus\u00e3o dos \u201c25 a 30% do candidato da terceira via\u201d come\u00e7a pouco a pouco a derreter.<\/p>\n\n\n\n<p>A simplicidade das interpreta\u00e7\u00f5es que creditam \u00e0 classe pol\u00edtica a mera decis\u00e3o da escolha de um nome para representar a \u201cterceira via\u201d abstrai a complexidade desse desafio. Esquece que o outro lado da equa\u00e7\u00e3o, ou seja, que o eleitorado que n\u00e3o deseja votar nem em Lula nem em Bolsonaro comp\u00f5e um imenso mosaico de pretens\u00f5es e expectativas sobre o pr\u00f3ximo presidente e seu projeto de pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p>Dificilmente haver\u00e1 um \u00fanico nome capaz de aglutinar tantos interesses em torno de si. A consequ\u00eancia disso ser\u00e1 novamente um cen\u00e1rio eleitoral em 2022 com variadas candidaturas, cada uma disputando um pedacinho dessa faixa.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Reconfigura\u00e7\u00f5es e poss\u00edveis cen\u00e1rios futuros<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Agora, podemos voltar ao ponto inicial em que afirmo a insignific\u00e2ncia da desist\u00eancia de Huck. O apresentador da Globo n\u00e3o altera o atual cen\u00e1rio eleitoral porque n\u00e3o deixa \u201cheran\u00e7a\u201d para nenhum outro advers\u00e1rio. Tendo em vista a heterogeneidade de prefer\u00eancias que essa fatia do eleitorado engendra. Al\u00e9m do mais, o suposto percentual do voto em Huck (4% de acordo com o Datafolha) era artificial, visto que ele sequer pontuava nas sondagens espont\u00e2neas.<\/p>\n\n\n\n<p>Dados de pesquisas de inten\u00e7\u00e3o de voto s\u00e3o importantes para orientar candidatos e partidos. Ajudam tamb\u00e9m a identificar rejei\u00e7\u00f5es, a formar alian\u00e7as e a definir as tem\u00e1ticas das campanhas. Por\u00e9m, nunca \u00e9 demais lembrar que existem reconfigura\u00e7\u00f5es nesses cen\u00e1rios quando as candidaturas s\u00e3o oficialmente lan\u00e7adas e o eleitor precisar\u00e1 decidir entre nomes reais e n\u00e3o em especula\u00e7\u00f5es partid\u00e1rias ou mesmo oriundas do mercado e da m\u00eddia.<\/p>\n\n\n\n<p>A pandemia da Covid-19 ainda domina as preocupa\u00e7\u00f5es dos brasileiros, e com raz\u00e3o. Nessa altura do jogo, creditar alguma import\u00e2ncia \u00e0 fracassada candidatura de Luciano Huck \u00e9 uma quimera.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um erro comum ao ler as pesquisas \u00e9 interpret\u00e1-las como uma express\u00e3o fiel e consolidada dos desejos dos eleitores. 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