{"id":666,"date":"2018-01-11T18:23:37","date_gmt":"2018-01-11T21:23:37","guid":{"rendered":"http:\/\/latinoamerica21.com\/?p=666"},"modified":"2022-12-04T20:35:57","modified_gmt":"2022-12-04T23:35:57","slug":"a-crise-dos-refugiados-venezuelanos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/a-crise-dos-refugiados-venezuelanos\/","title":{"rendered":"A crise dos refugiados venezuelanos"},"content":{"rendered":"\n<p>Comecemos\npor imaginar uma situa\u00e7\u00e3o que para muitos irm\u00e3os latino-americanos parece ser\nestranha e aceitar que ningu\u00e9m tem nada 100% garantido. Embora v\u00e1rios leitores\nde Latinoam\u00e9rica21 n\u00e3o sejam e\/ou tenham sido migrantes, muitos s\u00e3o ou foram\nmigrantes e poder\u00e3o entender a ess\u00eancia do que vou compartilhar com voc\u00eas neste\nartigo. Ent\u00e3o, para o exerc\u00edcio abaixo, vamos fazer o esfor\u00e7o de estimular a\nimagina\u00e7\u00e3o, fechando os olhos para eliminar quaisquer distra\u00e7\u00f5es que aparecem\nno campo visual.<\/p>\n\n\n\n<p>Imagine que\numa forte crise social irrompe no pa\u00eds em que voc\u00ea vive. Para efeitos deste\nexerc\u00edcio, n\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio especificar o que est\u00e1 por detr\u00e1s desta crise. Pode\nser uma guerra, um conflito ideol\u00f3gico, uma recess\u00e3o econ\u00f3mica profunda, uma\npersegui\u00e7\u00e3o religiosa, uma epidemia&#8230;, algo que, em poucas palavras, tira n\u00e3o\ns\u00f3 o telhado, mas tamb\u00e9m o ch\u00e3o e tudo o que est\u00e1 entre eles: trabalho, uma\ncasa, at\u00e9 o seu lugar neste mundo.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o h\u00e1\nalternativa sen\u00e3o mudar radicalmente a vida de uma pessoa e, possivelmente de\num dia para o outro, tornar-se um fugitivo profissional. Voc\u00ea n\u00e3o cometeu\nnenhum crime, mas voc\u00ea alega inoc\u00eancia em algum outro lugar deste mundo onde\nvoc\u00ea agora ser\u00e1 visto como um estranho, do ponto de vista daqueles que se consideram\nestabelecidos, como voc\u00ea j\u00e1 foi h\u00e1 semanas ou meses atr\u00e1s.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>o n\u00famero de venezuelanos residentes fora do pa\u00eds aumentou de cerca de 50.000 em meados da d\u00e9cada de 1990 para 1,2 milh\u00f5es em 2013.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>O n\u00famero\nexato n\u00e3o \u00e9 claro, mas \u00e9 indiscut\u00edvel que muitos venezuelanos est\u00e3o fugindo da\nprofunda crise pol\u00edtica e econ\u00f3mica que, por sua vez, est\u00e1 se transformando em uma\ncrise humanit\u00e1ria. No entanto, a sa\u00edda dos venezuelanos da Rep\u00fablica\nBolivariana n\u00e3o \u00e9 recente nem uma consequ\u00eancia da crise atual. Durante o\ngoverno de Hugo Ch\u00e1vez (1999-2013) dezenas de milhares de venezuelanos j\u00e1\nhaviam emigrado do pa\u00eds. Os dados oficiais de imigra\u00e7\u00e3o dispon\u00edveis indicam que\no n\u00famero de venezuelanos residentes fora do pa\u00eds aumentou de cerca de 50.000 em\nmeados da d\u00e9cada de 1990 para 1,2 milh\u00f5es em 2013. Os principais destinos foram\nos Estados Unidos, Col\u00f4mbia, M\u00e9xico e Panam\u00e1, e a maior parte desta popula\u00e7\u00e3o\nmigrante eram pessoas altamente qualificadas, incluindo engenheiros de petr\u00f3leo\ne profissionais de sa\u00fade.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o h\u00e1\ndados oficiais ou estudos sobre o n\u00famero de venezuelanos que deixaram o pa\u00eds\ndesde ent\u00e3o, mas outras estimativas sugerem que a sa\u00edda de popula\u00e7\u00e3o se\nintensificou rapidamente, com at\u00e9 2 milh\u00f5es de venezuelanos vivendo no\nexterior. Esta popula\u00e7\u00e3o seria equivalente a 6% do total da popula\u00e7\u00e3o\nvenezuelana.&nbsp; Os dados do Servi\u00e7o\nde Imigra\u00e7\u00e3o dos EUA corroboram que o n\u00famero de pedidos de asilo aumentou sete\nvezes nos \u00faltimos tr\u00eas anos, e na pr\u00f3pria Venezuela a m\u00eddia local relatou um\naumento dram\u00e1tico nos pedidos de passaporte em 2016 e 2017. Algumas pesquisas\nmencionam que entre 2 e 3 milh\u00f5es de venezuelanos solicitaram novos passaportes\nem 2017, enquanto o governo emitiu apenas 300 mil documentos.<\/p>\n\n\n\n<p>A recess\u00e3o\necon\u00f4mica est\u00e1 se aprofundando e a infla\u00e7\u00e3o de tr\u00eas d\u00edgitos est\u00e1 rapidamente\ndestruindo tudo o que antes tinha valor. E n\u00e3o apenas isso, a escassez cr\u00f4nica\nde alimentos e medicamentos est\u00e1 exacerbando o desespero, fazendo com que\nmuitas pessoas deixem o pa\u00eds, mesmo sem documenta\u00e7\u00e3o oficial e pagando grandes\nsomas a intermedi\u00e1rios para tir\u00e1-las do pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p>A <a href=\"https:\/\/latinoamerica21.com\/br\/bauman-e-a-nova-politica-migratoria-argentina\/\">emigra\u00e7\u00e3o<\/a> que se originou durante a era Ch\u00e1vez consistiu principalmente de profissionais de classe m\u00e9dia com seus pr\u00f3prios meios financeiros para subsistir no exterior. Em vez de emigrar para os Estados Unidos, Europa ou outros pa\u00edses latino-americanos, eles fogem principalmente para pa\u00edses pr\u00f3ximos do Caribe, incluindo Aruba, Cura\u00e7ao e Trinidad e Tobago. Dado que muitos desses pa\u00edses caribenhos carecem da capacidade financeira e f\u00edsica para atender a um grande n\u00famero de chegadas da Venezuela, o agravamento da crise que outrora viu o petr\u00f3leo da Am\u00e9rica Latina continuar a exercer uma press\u00e3o crescente sobre os servi\u00e7os dom\u00e9sticos, o desemprego e a popula\u00e7\u00e3o em geral desses pequenos pa\u00edses.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas esta situa\u00e7\u00e3o n\u00e3o est\u00e1 apenas a pressionar os pa\u00edses do Caribe. Brasil e Col\u00f4mbia tamb\u00e9m est\u00e3o sentindo a tens\u00e3o. No Brasil, muitos venezuelanos entraram no estado de Roraima, onde o Alto Comissariado das Na\u00e7\u00f5es Unidas para os Refugiados (ACNUR) informou que os abrigos ali mantidos abrigam atualmente 6.000 <a href=\"https:\/\/www.hrw.org\/pt\/news\/2017\/04\/18\/302345\">venezuelanos<\/a> e que outros 5.000 est\u00e3o na lista de espera. Muitos destes refugiados atravessam a fronteira para Roraima, procurando desesperadamente assist\u00eancia m\u00e9dica ou hospitaliza\u00e7\u00e3o. Por sua vez, o Hospital Geral local declarou que o n\u00famero de venezuelanos tratados durante 2016 aumentou tr\u00eas vezes e que cerca de 80% dos pacientes do hospital de Pacaraima, perto da fronteira, s\u00e3o cidad\u00e3os venezuelanos.<\/p>\n\n\n\n<p>O fato de\nque a lei brasileira permite que as pessoas que apresentaram um pedido de asilo\npermane\u00e7am no pa\u00eds tem sido muito atraente para a migra\u00e7\u00e3o venezuelana. No\nentanto, as autoridades brasileiras indicaram que est\u00e3o a desenvolver um plano\nde emerg\u00eancia para fazer face a um eventual afluxo maci\u00e7o de refugiados, caso a\nsitua\u00e7\u00e3o continue a agravar-se.<\/p>\n\n\n\n<p>A Col\u00f4mbia\ntamb\u00e9m sente a tens\u00e3o. O Servi\u00e7o Nacional de Imigra\u00e7\u00e3o do pa\u00eds publicou que\ncerca de 140 mil venezuelanos vivem atualmente na Col\u00f4mbia. No entanto, com o\nn\u00famero de venezuelanos que atravessam a fronteira para a Col\u00f4mbia superando em\nmuito o n\u00famero dos que retornam ao pa\u00eds, a popula\u00e7\u00e3o venezuelana no pa\u00eds\nvizinho est\u00e1 crescendo rapidamente. A cidade fronteiri\u00e7a de Cucut\u00e1 est\u00e1 sendo a\nmais atingida e a corda est\u00e1 apertada nos servi\u00e7os de sa\u00fade e habita\u00e7\u00e3o, o que\nlevou as autoridades colombianas a planejar planos de conting\u00eancia para lidar\ncom a poss\u00edvel chegada de mais refugiados.<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar da\ncrescente tens\u00e3o gerada pela crise venezuelana dentro e fora de suas\nfronteiras, \u00e9 muito prov\u00e1vel que todas as esperan\u00e7as de que esta situa\u00e7\u00e3o possa\nlevar a regi\u00e3o a adotar uma linha mais firme e unificada em rela\u00e7\u00e3o ao regime\nde Nicol\u00e1s Maduro sejam frustradas. \u00c9 tamb\u00e9m muito poss\u00edvel que a resposta\npol\u00edtica da Am\u00e9rica Latina continue a ser reativa e n\u00e3o proativa, e que seja\nimplementada pa\u00eds a pa\u00eds, prolongando assim a agonia dos venezuelanos que,\ntanto dentro como fora das fronteiras do seu pa\u00eds, perderam as suas casas e o\nseu ch\u00e3o, tornando-se fugitivos sem o terem desejado.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Foto por Ag\u00eancia Amaz\u00f4nia Real on Trend Hype \/ CC BY<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Comecemos por imaginar uma situa\u00e7\u00e3o que para muitos parece ser estranha e aceitar que ningu\u00e9m tem nada 100% garantido. Embora v\u00e1rios leitores de Latinoam\u00e9rica21 n\u00e3o sejam e\/ou tenham sido migrantes, muitos s\u00e3o ou foram migrantes e poder\u00e3o entender a ess\u00eancia do que vou compartilhar com voc\u00eas neste artigo.<\/p>\n","protected":false},"author":11,"featured_media":664,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"episode_type":"","audio_file":"","cover_image":"","cover_image_id":"","duration":"","filesize":"","filesize_raw":"","date_recorded":"","explicit":"","block":"","itunes_episode_number":"","itunes_title":"","itunes_season_number":"","itunes_episode_type":"","footnotes":""},"categories":[16721,16723,16755,16763,16764,14405,14376,14465,546],"tags":[],"gps":[],"class_list":{"0":"post-666","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-venezuela-pt-br","8":"category-nicolas-maduro-2-pt-br","9":"category-crisis-politica-pt-br","10":"category-refugiados-es-pt-br","11":"category-migracion-pt-br","12":"category-emigracao","13":"category-crise-politica","14":"category-migracao","15":"category-sociedad-br"},"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/666","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/11"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=666"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/666\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/664"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=666"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=666"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=666"},{"taxonomy":"gps","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/gps?post=666"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}