{"id":6786,"date":"2021-07-20T15:45:00","date_gmt":"2021-07-20T18:45:00","guid":{"rendered":"http:\/\/latinoamerica21.com\/?p=6786"},"modified":"2021-07-18T19:53:27","modified_gmt":"2021-07-18T22:53:27","slug":"o-descobrimento-de-machu-picchu-e-o-duelo-de-narrativas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/o-descobrimento-de-machu-picchu-e-o-duelo-de-narrativas\/","title":{"rendered":"O \u201cdescobrimento\u201d de Machu Picchu e o duelo de narrativas"},"content":{"rendered":"\n<p><em>Machu Picchu<\/em> (originalmente conhecida como <em>Patallaqta<\/em>) era um antigo vilarejo inca localizado na jurisdi\u00e7\u00e3o peruana da Cordilheira dos Andes, a oitenta quil\u00f4metros de Cusco e a 2.430 metros acima do n\u00edvel do mar. Documentos indicam que o vilarejo teria sido constru\u00eddo no s\u00e9culo XV, n\u00e3o havendo consenso sobre as raz\u00f5es que motivaram sua constru\u00e7\u00e3o. H\u00e1 quem sustente ter sido um ref\u00fagio campestre para o imperador Pachac\u00fatec (1408-1471), em um contexto de expansionismo do Imp\u00e9rio Inca. Outros sugerem que a cidadela foi constru\u00edda como base para gerenciar o plantio de alimentos na regi\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Durante a coloniza\u00e7\u00e3o espanhola (1532-1824), <em>Machu Picchu <\/em>foi gradativamente abandonada pelos locais, o que lhe rendeu a fama de \u201ccidade perdida dos Incas\u201d. Embora n\u00e3o tenha sido oficialmente ocupada, h\u00e1 ind\u00edcios de que fosse conhecida pelos espanhois. Contudo, a montanha ficou isolada dos circuitos econ\u00f4micos e sociais, condi\u00e7\u00e3o mantida mesmo ap\u00f3s a independ\u00eancia do Peru no decorrer do s\u00e9culo XIX.<\/p>\n\n\n\n<p>A historiografia norte-americana sustenta que <em>Machu Picchu<\/em> foi \u201cdescoberta\u201d em 24 de julho de 1911 pelo professor e explorador norte-americano Hiram Bingham (1875-1956) em viagem explorat\u00f3ria acompanhado por alguns colegas da Universidade de Yale. Por recomenda\u00e7\u00e3o do professor Albert Giesecke (1883-1968), reitor da Universidade Nacional de Santo Antonio Abade, em Cusco, Hiram Bingham foi apresentado a Melchor Arteaga, campon\u00eas peruano encarregado de guiar Hiram Bingham at\u00e9 <em>Machu Picchu<\/em>, que j\u00e1 era conhecida por um n\u00famero desconhecido de camponeses locais.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Bingham n\u00e3o foi o primeiro a ter visitado as ru\u00ednas. O agricultor peruano Agust\u00edn Liz\u00e1rraga (-1912), na busca de terras para agricultura, teria desbravado <em>Machu Picchu<\/em> e registrado seu pr\u00f3prio nome em uma pedra do <em>Templo de las Tres Ventanas<\/em>, em 14 de julho de 1902, aproximados dez anos antes da chegada dos exploradores de Yale ao local. Quando Bingham chegou a <em>Machu Picchu<\/em>, em 1911, ele encontrou a pedra em que estava escrito, com carv\u00e3o, \u201c<em>A, Liz\u00e1rraga 1902<\/em>\u201d, o que anotou em seu di\u00e1rio. Contudo, Bingham omitiu essa informa\u00e7\u00e3o nos relatos oficiais da expedi\u00e7\u00e3o que viriam a ser publicados.<\/p>\n\n\n\n<p>Munido de uma c\u00e2mera Kodak, <a href=\"https:\/\/historia.nationalgeographic.com.es\/a\/mejores-imagenes-descubrimiento-machu-picchu_4036\">Bingham registrou centenas de fotos na primeira visita \u00e0s ru\u00ednas, em 24 de julho de 1911<\/a>. Ap\u00f3s retornar aos EUA, conseguiu patroc\u00ednio para outra expedi\u00e7\u00e3o em 1912, acompanhado de um grupo mais estruturado composto de ge\u00f3logos, arque\u00f3logos, engenheiros e top\u00f3grafos. Com a divulga\u00e7\u00e3o das suas pesquisas e dos seus relatos, Bingham tornou-se conhecido como o \u201cdescobridor\u201d de <em>Machu Picchu<\/em>, fama que ainda se mant\u00e9m viva, inclusive no Peru, onde a hist\u00f3ria costuma ser divulgada aos turistas interessados.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao longo das expedi\u00e7\u00f5es, milhares de pe\u00e7as arqueol\u00f3gicas e rel\u00edquias incas foram trasladadas aos EUA para estudos e pesquisas na Universidade de Yale, com autoriza\u00e7\u00e3o tempor\u00e1ria do governo peruano. Aproximadas cinquenta mil pe\u00e7as arqueol\u00f3gicas incas foram apropriadas por Bingham e sua equipe para pesquisas nos EUA, incluindo artefatos de ouro, prata, madeira, osso, pedra e cer\u00e2mica, o que suscitou sucessivos protestos do governo peruano no s\u00e9culo XX. Parte desse material veio a ser repatriado ao Peru somente em 2012, um s\u00e9culo ap\u00f3s a \u201cdescoberta\u201d de Bingham, fruto de acordo celebrado entre o governo peruano e a Universidade de Yale. Estima-se que ainda h\u00e1 um extenso acervo de rel\u00edquias incas em museus norte-americanos e europeus.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Por que ser\u00e1 que Hiram Bingham ficou conhecido como \u201cdescobridor\u201d de <em>Machu Picchu<\/em>?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A resposta reside na capacidade de divulga\u00e7\u00e3o dos fatos de que dispunha o norte-americano naquela \u00e9poca. Os registros de Bingham foram objeto de uma edi\u00e7\u00e3o completa da <em>National Geographic<\/em>, em abril de 1913, fato que o tornou conhecido na comunidade acad\u00eamica internacional e, principalmente, nos EUA. Na perspectiva de Bingham, sua viagem tinha prop\u00f3sitos explorat\u00f3rios e cient\u00edficos, uma vez que a regi\u00e3o era considerada territ\u00f3rio virgem para aventuras, pesquisas e explora\u00e7\u00f5es, o que contrasta com a vis\u00e3o de Liz\u00e1rraga, para quem <em>Machu Picchu <\/em>era uma \u00e1rea para plantio, n\u00e3o havendo motivos para sua divulga\u00e7\u00e3o internacional.<\/p>\n\n\n\n<p>Seria injusto desmerecer o \u00eaxito de Hiram Bingham, que estudou profundamente a regi\u00e3o e que, de fato, se aventurou pelas cordilheiras andinas em busca de Vitcos, regi\u00e3o em que os \u00faltimos incas se refugiaram ap\u00f3s a invas\u00e3o espanhola, al\u00e9m de Nusta Isppana. Como consequ\u00eancia dessa miss\u00e3o, chegou a <em>Machu Picchu<\/em>. Foi ele um dos respons\u00e1veis por tornar <em>Machu Picchu<\/em> vis\u00edvel para o mundo, no in\u00edcio do s\u00e9culo XX. No entanto, ele definitivamente n\u00e3o foi o pioneiro descobridor da regi\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Seria igualmente injusto ignorar que o \u201cdescobrimento\u201d de <em>Machu Picchu<\/em> foi um feito transnacional do qual participaram norte-americanos, peruanos e pesquisadores de outros pa\u00edses que sabiam da exist\u00eancia das ru\u00ednas, e que registraram relatos e testemunhos muito antes da chegada de Bingham, em 1911. S\u00e3o exemplos os alem\u00e3es Rudolph Berns e Hermann G\u00f6ring, o franco-austr\u00edaco Charles Wienner e o italiano Antonio Dell&#8217;Acqua, entre outros. Tal como registrado na p\u00e1gina oficial do Parque Nacional de Machu Picchu, \u201ca cidade nunca esteve perdida j\u00e1 que foi visitada e habitada ocasionalmente\u201d, o que contrasta com a narrativa de Bingham sobre o seu declarado \u201cdescobrimento\u201d da regi\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Segundo o site oficial do Parque Nacional Machu Picchu, &#8220;a cidade nunca se perdeu, pois foi visitada e habitada ocasionalmente&#8221;, o que contrasta com o relato de Bingham de sua declarada &#8220;descoberta&#8221; da regi\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"author":198,"featured_media":6775,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"episode_type":"","audio_file":"","cover_image":"","cover_image_id":"","duration":"","filesize":"","filesize_raw":"","date_recorded":"","explicit":"","block":"","itunes_episode_number":"","itunes_title":"","itunes_season_number":"","itunes_episode_type":"","footnotes":""},"categories":[16738,16738,16724,16724,16956,16956,546],"tags":[],"gps":[],"class_list":{"0":"post-6786","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-peru-pt-br","9":"category-historia-pt-br","11":"category-machu-pichu-pt-br","13":"category-sociedad-br"},"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6786","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/198"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6786"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6786\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/6775"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6786"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6786"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6786"},{"taxonomy":"gps","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/gps?post=6786"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}