{"id":6910,"date":"2021-07-28T15:45:00","date_gmt":"2021-07-28T18:45:00","guid":{"rendered":"http:\/\/latinoamerica21.com\/?p=6910"},"modified":"2021-07-29T04:49:39","modified_gmt":"2021-07-29T07:49:39","slug":"uma-cosmopolitizacao-das-margens","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/uma-cosmopolitizacao-das-margens\/","title":{"rendered":"O Cosmopolitismo est\u00e1 nas margens?"},"content":{"rendered":"\n<p>Em tempos pand\u00eamicos, em que a circula\u00e7\u00e3o pelas cidades passa a ser limitada, duas produ\u00e7\u00f5es de plataformas de streaming d\u00e3o materialidade a uma viv\u00eancia etnogr\u00e1fica: a sensa\u00e7\u00e3o de estar no mundo em que o encontro com a diferen\u00e7a proporciona e se evidencia pelos lugares marginais das cidades. Os lugares desprezados pelos capitais financeiros e suas gentrifica\u00e7\u00f5es, que misturam est\u00e9ticas duvidosas, s\u00e3o os locais que transbordam vida e novas solidariedades.<\/p>\n\n\n\n<p>No filme \u201cCidade P\u00e1ssaro\u201d, da Netflix, dois irm\u00e3os nigerianos tentam resolver suas quest\u00f5es pessoais e familiares em meio a bicos tempor\u00e1rios, comunidades de migrantes e locais e moradias improvisadas na cidade de S\u00e3o Paulo. J\u00e1 na miniss\u00e9rie \u201cManh\u00e3s de setembro\u201d, da Amazon Prime, uma mulher negra e trans faz entregas por meio de aplicativos e descobre ser pai de um garoto que vive com a m\u00e3e em um carro e vende o que consegue nos sem\u00e1foros. Al\u00e9m de contar com a ajuda da vizinha migrante e o namorado que veio da regi\u00e3o Nordeste do Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p>Os dois produtos desenvolvem suas hist\u00f3rias a partir de protagonistas das margens. E o que essas duas produ\u00e7\u00f5es podem nos ensinar sobre cosmopolitismo?<\/p>\n\n\n\n<p>Primeiro \u00e9 importante entender o termo. Cosmopolitismo significa cultivar a boa vontade de popula\u00e7\u00f5es locais e nacionais para serem emp\u00e1ticas a estrangeiros, em especial aqueles em vulnerabilidade, a despeito de seu grupo identit\u00e1rio ou distin\u00e7\u00e3o social.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse caso, para a fil\u00f3sofa norte-americana Martha C. Nussbaum, o estrangeiro, migrante ou refugiado, passa a ser bem-vindo, n\u00e3o como um estranho, mas como um professor cosmopolita a ensinar como ser cidad\u00e3os do mundo, que se refaz como um cidad\u00e3o cosmopolita.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Com isso, na era da conectividade global, o ethos cosmopolita deveria se tornar uma necessidade moral. Com a m\u00eddia globalizada, corpora\u00e7\u00f5es e governos n\u00e3o podem mais manter atrocidades em segredo, a ignor\u00e2ncia n\u00e3o \u00e9 mais um \u00e1libi.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>As migra\u00e7\u00f5es e o cosmopolitismo comum<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A partir da <a href=\"http:\/\/latinoamerica21.com\/br\/america-do-sul-um-espaco-migratorio-quase-perfeito\/\">ascens\u00e3o das migra\u00e7\u00f5es transnacionais<\/a> e da chamada <a href=\"https:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/noticias\/2015\/09\/150904_graficos_imigracao_europa_rm\">crise dos refugiados de 2015<\/a>, o antrop\u00f3logo franc\u00eas Michel Agier desenvolveu a ideia de cosmopolitismo comum para pensar a experi\u00eancia global do encontro cotidiano com o outro, ou aqueles que experimentam \u201csitua\u00e7\u00f5es de fronteira\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>O autor argumenta que lentamente est\u00e1 se formando no mundo uma condi\u00e7\u00e3o a partir do encontro daquelas chamadas de \u201cvidas marginais\u201d. Para Agier, o mundo \u00e9 globalizado e h\u00edbrido, e nele, a experi\u00eancia com o n\u00e3o familiar e incerto \u00e9 partilhada cotidianamente, e esta condi\u00e7\u00e3o nasce na fronteira.<\/p>\n\n\n\n<p>O relat\u00f3rio <a href=\"https:\/\/www.acnur.org\/portugues\/2021\/06\/18\/acnur-lideres-mundiais-devem-agir-para-rever-a-tendencia-crescente-de-deslocamento\/\">\u201cTend\u00eancias Globais\u201d, divulgado em 2021 pela ACNUR<\/a>, atesta que um total de 82.4 milh\u00f5es de pessoas foram deslocadas por guerras e conflitos. No Brasil, o n\u00famero oficial de refugiados \u00e9 de 57.099 pessoas segundo o \u00faltimo relat\u00f3rio \u201cRef\u00fagio em n\u00fameros\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Esta realidade conduz a uma diversidade maior de pessoas compartilhando experi\u00eancias entre locais e estrangeiros. Desde o ambiente de trabalho \u00e0s esquinas das cidades, nos mercados, nas vizinhan\u00e7as, nas escolas, no transporte p\u00fablico.<\/p>\n\n\n\n<p>Fato \u00e9 que cada vez mais autores defendem a ideia de um cosmopolitismo do dia-dia, do ordin\u00e1rio, que inclua aqueles cujas experi\u00eancias cotidianas se situam na fronteira, tanto geogr\u00e1fica como cultural, tanto no Norte como no Sul global.<\/p>\n\n\n\n<p>A diversidade n\u00e3o \u00e9 mais uma abstra\u00e7\u00e3o de um discurso convidativo a uma \u00fanica experi\u00eancia, mas o cotidiano de cidades latino-americanas. N\u00e3o apenas de suas megal\u00f3poles, como S\u00e3o Paulo, Cidade do M\u00e9xico, Buenos Aires, mas tamb\u00e9m de cidades grandes e m\u00e9dias como Recife, Porto Alegre, Bras\u00edlia, citando apenas as brasileiras.<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00e3o os centros das cidades, com seu emaranhado de lojas, escrit\u00f3rios, moradias, ambulantes e improvisa\u00e7\u00f5es de todo tipo. Que ampliam os usos de cal\u00e7adas, pr\u00e9dios abandonados, pra\u00e7as, misturando sotaques, idiomas, comidas e produtos, emaranhando o fluxo de pessoas aos das mercadorias, evidenciando um sistema de gambiarras que tecem novas regras \u00e0 margem do sistema. S\u00e3o arranjos que sustentam pessoas e suas vidas prec\u00e1rias, cada vez mais dependentes de trabalhos de plataformas de entrega e empreendedorismos mambembes.<\/p>\n\n\n\n<p>Dessa forma, a experi\u00eancia contempor\u00e2nea se realiza a partir de um cosmopolitismo de fronteira, marginal, perif\u00e9rico e interseccionado por m\u00faltiplas negocia\u00e7\u00f5es de pertencimentos identit\u00e1rios diversos, de origem \u00e9tnica e racial, de nacionalidade, de idiomas, de g\u00eaneros, de classes, mas com um panorama comum: a luta cotidiana contra as precariedades de quem est\u00e1 na margem.<\/p>\n\n\n\n<p>O pensamento do ge\u00f3grafo brasileiro Milton Santos e a no\u00e7\u00e3o de \u201cespa\u00e7o banal, espa\u00e7o de todas as pessoas\u201d ressurge como ideia fundamental, j\u00e1 que o espa\u00e7o do acontecimento banal e marcante para os seus atores locais possui o que Santos denomina de \u2018for\u00e7as centr\u00edpetas\u2019, causadoras de agrega\u00e7\u00e3o e coes\u00e3o s\u00e3o tamb\u00e9m os lugares onde escrevemos as nossas hist\u00f3rias de comunh\u00e3o di\u00e1rias.<\/p>\n\n\n\n<p>Para Milton Santos, a reinven\u00e7\u00e3o se d\u00e1 pelos pobres que de fato atuam e ressignificam o espa\u00e7o da cidade, criando novos sentidos entre o global e o local, pelo caminho da hibridiza\u00e7\u00e3o dos signos. Poderia aqui apontar a Pra\u00e7a da Rep\u00fablica, em S\u00e3o Paulo, como um desses lugares. Ou a regi\u00e3o da Avenida Conde da Boa Vista, no Recife, ou a Feria de la Salada na periferia de Buenos Aires.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Cosmopolitismo a partir de baixo<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Voltando \u00e0s duas produ\u00e7\u00f5es que abrem o texto, a no\u00e7\u00e3o de cosmopolitismo ali assume diferentes interpreta\u00e7\u00f5es. N\u00e3o se desconecta da sua raiz grega, a partir dos est\u00f3icos, que apontam para Odisseu, o her\u00f3i viajante e interessado pela humanidade. Nem da sua liga\u00e7\u00e3o com h\u00e1bitos de consumo de uma elite globalizada. Mas, no S\u00e9culo XXI, passa tamb\u00e9m a incorporar a no\u00e7\u00e3o de um cosmopolitismo dos de baixo, realizado por aqueles \u00e0 margem da sociedade elitizada.<\/p>\n\n\n\n<p>Celebremos o cosmopolita das margens. Da interseccionalidade das periferias-mundo. Da melange cotidiana dos fluxos transnacionais. Como um <em>ethos<\/em> de cidadania mundial, o cosmopolitismo pode ser descrito como uma tentativa intelectual de entender o denominador comum \u2013 humanidade \u2013 disperso em um mundo de caos e diversidade cultural. Fica ent\u00e3o a pergunta: Estariam esses sujeitos partilhando uma consci\u00eancia cosmopolita?<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As interconex\u00f5es multiculturais est\u00e3o come\u00e7ando a ocorrer nas periferias das cidades latino-americanas. 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