{"id":6966,"date":"2021-07-30T08:45:00","date_gmt":"2021-07-30T11:45:00","guid":{"rendered":"http:\/\/latinoamerica21.com\/?p=6966"},"modified":"2021-07-29T19:37:06","modified_gmt":"2021-07-29T22:37:06","slug":"o-risco-de-uma-desintegracao-do-mercosul","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/o-risco-de-uma-desintegracao-do-mercosul\/","title":{"rendered":"O risco de uma desintegra\u00e7\u00e3o do MERCOSUL"},"content":{"rendered":"\n<p><strong><em>Co-autor Bernab\u00e9 Malacalza <\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Desintegrar, segundo a Real Academia da L\u00edngua Espanhola, admite v\u00e1rias acep\u00e7\u00f5es. Uma delas significa destruir por completo; outra, perder coes\u00e3o e for\u00e7a. A no\u00e7\u00e3o de desintegra\u00e7\u00e3o remete ent\u00e3o a uma perda e\/ou a uma destrui\u00e7\u00e3o. Aqui assumimos que a desintegra\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 apenas a ant\u00edtese da integra\u00e7\u00e3o, mas reflete o decl\u00ednio de um modo de conceber e aplicar pol\u00edticas comuns em uma ampla gama de assuntos entre Estados vinculados a uma comunidade pol\u00edtica. Neste sentido, <a href=\"http:\/\/latinoamerica21.com\/br\/o-mercosul-e-a-disputa-por-sua-precarizacao\/\">existe o perigo de que o MERCOSUL possa, eventualmente, se desintegrar<\/a>, e a responsabilidade maior ser\u00e1 da Argentina e do Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p>Desde o come\u00e7o dos processos de democratiza\u00e7\u00e3o nos anos 1980 e antes do fim da Guerra Fria, ambos assumiram o m\u00e9rito de uma parceria estrat\u00e9gica. Hoje, o grande produto sub-regional deste compromisso bilateral, o MERCOSUL, est\u00e1 perdendo gravitas e \u00e9 fonte de uma crescente diverg\u00eancia intra-grupo. Ano a ano aumentam, segundo a conjuntura nacional em cada pa\u00eds, os MERCO-c\u00e9ticos, MERCO-obstaculizadores e MERCO-impugnadores. Simultaneamente tem se calado as vozes dos MERCO-entusiastas, MERCO-pragm\u00e1ticos e MERCO-comprometidos.<\/p>\n\n\n\n<p>Por que, apesar dos esfor\u00e7os para criar organiza\u00e7\u00f5es internacionais e dos benef\u00edcios que elas geram, os Estados as abandonam ou as destroem? A internacionalista Mette Eilstrup-Sangiovanni realizou um estudo baseado no desempenho de 561 organiza\u00e7\u00f5es intergovernamentais criadas entre 1815 e 2006, e chegou a uma conclus\u00e3o surpreendente: o \u00edndice de mortalidade tem sido relativamente alto, j\u00e1 que aproximadamente dois quintos deixaram de existir.<\/p>\n\n\n\n<p>O que leva ao falecimento das organiza\u00e7\u00f5es intergovernamentais? Existem duas teses. Por um lado, argumenta-se que as mortes s\u00e3o causadas por mudan\u00e7as nos equil\u00edbrios de poder internacional e\/ou por choques pol\u00edticos e econ\u00f4micos externos que reduzem a utilidade dos Estados, como foi o caso da SAARC (Associa\u00e7\u00e3o de Coopera\u00e7\u00e3o Regional do Sul da \u00c1sia) fundada em 1985. Por outro lado, argumenta-se que essas organiza\u00e7\u00f5es s\u00e3o propensas a cessar devido a causas end\u00f3genas relacionadas com a fragilidade de sua institucionalidade, a redu\u00e7\u00e3o dos v\u00ednculos transnacionais entre os membros e as divis\u00f5es ideol\u00f3gicas, como no caso <a href=\"https:\/\/www.scielo.br\/j\/rsocp\/a\/xwJRs6LcSsVH9w6CwtxMqjm\/?lang=pt\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">da Comunidade Andina de Na\u00e7\u00f5es (CAN), criada em 1969 sob o nome de Pacto Andino e em estado vegetativo desde 2006.<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>A atual crise do MERCOSUL \u00e9, em parte, diferente e mais complexa. De maneira paulatina, se observa uma conflu\u00eancia de fatores ex\u00f3genos e end\u00f3genos que atuam como causas inibidoras \u2013 e eventualmente destrutivas \u2013 do processo integrador. A encruzilhada que o MERCOSUL enfrenta hoje se assemelha a uma combina\u00e7\u00e3o do que aconteceu com a SAARC e a CAN.<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo o internacionalista Stephen Walt, o fracasso ou colapso dessas sociedades se deve a aspectos estrat\u00e9gicos, de poder material e simb\u00f3lico, pol\u00edticos e socioecon\u00f4micos. A SAARC n\u00e3o tem sido capaz de organizar uma c\u00fapula desde 2014. A \u00faltima foi a do Paquist\u00e3o, mas com o aumento das tens\u00f5es ap\u00f3s os ataques terroristas em Mumbai em 2016, a \u00cdndia boicotou as tentativas de realizar tal conclave. Est\u00e3o h\u00e1 sete anos sem reuni\u00f5es e, nesse per\u00edodo, o Paquist\u00e3o consolidou uma rela\u00e7\u00e3o muito estreita com a China, enquanto a \u00cdndia fortaleceu sua aproxima\u00e7\u00e3o com os Estados Unidos.<\/p>\n\n\n\n<p>Algo semelhante poderia acontecer se, por exemplo, no cen\u00e1rio de uma disputa acirrada entre os Estados Unidos e a China, a Argentina e\/ou o Brasil decidissem se curvar a uma ou outra das pot\u00eancias. Assim, as respectivas aquiesc\u00eancias enterrariam o esp\u00edrito de converg\u00eancia estrat\u00e9gica da Declara\u00e7\u00e3o de Foz de Igua\u00e7u de 1985 que selou a amizade entre a Argentina e o Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p>O MERCOSUL atravessa, ademais, o per\u00edodo de menor densidade de v\u00ednculos transnacionais econ\u00f4micos-comerciais de sua hist\u00f3ria. Este decl\u00ednio no interc\u00e2mbio intra-zona come\u00e7ou a se consolidar a partir de 2011, e foi se acentuando, de maneira abrupta, a partir do avan\u00e7o da demanda de produtos prim\u00e1rios da China que, ao mesmo tempo, contribuiu para a acelera\u00e7\u00e3o de um processo de primariza\u00e7\u00e3o do bloco.<\/p>\n\n\n\n<p>Diante disso, os pa\u00edses do MERCOSUL n\u00e3o geraram novas condi\u00e7\u00f5es para um re-desdobramento produtivo baseado em cadeias de valor agro-industriais ou projetos conjuntos de diversifica\u00e7\u00e3o produtiva. Pelo contr\u00e1rio, a din\u00e2mica unilateral e as cren\u00e7as dogm\u00e1ticas aumentaram lentamente, desencorajando os la\u00e7os produtivos.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Estamos <em>ad portas<\/em> da desintegra\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Uma primeira li\u00e7\u00e3o \u00e9 que as organiza\u00e7\u00f5es internacionais podem sucumbir ao estresse ambiental de um choque externo se n\u00e3o gerarem anticorpos suficientes e seus membros se inclinarem a responder afirmativamente aos pedidos de aquiesc\u00eancia de grandes pot\u00eancias, como no caso mencionado da SAARC. Uma segunda li\u00e7\u00e3o \u00e9 o risco representado pela menor densidade de v\u00ednculos transnacionais, as insufici\u00eancias da infraestrutura f\u00edsica, a escassa disposi\u00e7\u00e3o ou capacidade inovadora e de inser\u00e7\u00e3o nas cadeias regionais de valor das empresas e a fragilidade social derivada da escassa participa\u00e7\u00e3o cidad\u00e3 em projetos conjuntos.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 poss\u00edvel, como sustenta o internacionalista Andrew Moravcsik com respeito \u00e0 Uni\u00e3o Europeia, que mesmo um colapso do euro n\u00e3o ponha em risco a integra\u00e7\u00e3o. Entretanto, as repercuss\u00f5es de tal evento sem d\u00favida dariam um enorme impulso aos movimentos anti-europeus. Finalmente, uma terceira li\u00e7\u00e3o a ser destacada \u00e9 que as vacila\u00e7\u00f5es pol\u00edticas que cada governo atribui \u00e0 integra\u00e7\u00e3o podem corroer a coes\u00e3o e, com isso, assentar o terreno para uma desintegra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo o soci\u00f3logo e polit\u00f3logo Karl Deutsch, um sistema \u00e9 integrado se, em virtude da coes\u00e3o entre seus membros, puder lidar com tens\u00f5es e press\u00f5es, suportar desequil\u00edbrios e resistir a divis\u00f5es. Um exemplo \u00e9 o fracasso da Liga das Na\u00e7\u00f5es, que teve um apogeu promissor entre 1924-1929. Por raz\u00f5es particulares de cada pa\u00eds, os governos e a opini\u00e3o p\u00fablica dos pa\u00edses ocidentais hesitaram em dar-lhe relev\u00e2ncia durante o per\u00edodo de 1934-1938. O Presidente Franklin D. Roosevelt, em um famoso discurso em 1937, pediu a \u201cquarentena dos impugnadores\u201d, mas nem as elites nem as sociedades o apoiaram.<\/p>\n\n\n\n<p>Existe consci\u00eancia nos pa\u00edses membros \u2013 especialmente na Argentina e no Brasil \u2013 do que poderia significar o fim do MERCOSUL?<\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 n\u00e3o se trata de se adaptar \u00e0s circunst\u00e2ncias para permitir a sobreviv\u00eancia do MERCOSUL, mas da necessidade de um esfor\u00e7o, principalmente da Argentina e do Brasil, para resgatar e reativar o sentido estrat\u00e9gico deste acordo que completa seus 30 anos de exist\u00eancia. Neste contexto, \u00e9 urgente, como complemento natural ao que fazem os governos no poder, estimular e desenvolver a diplomacia cidad\u00e3 para que ela possa assumir um papel complementar ao do Estado.<\/p>\n\n\n\n<p>Em resumo, \u00e9 indispens\u00e1vel um amplo envolvimento dos cidad\u00e3os \u2013 pol\u00edticos, empres\u00e1rios, trabalhadores, ONGs, sindicalistas, acad\u00eamicos, cientistas, comunicadores, artistas, mulheres, jovens, etc. \u2013 numa efetiva recupera\u00e7\u00e3o do ideal integracionista argentino-brasileiro e num franco relan\u00e7amento do MERCOSUL.<\/p>\n\n\n\n<p><em><sub>*Tradu\u00e7\u00e3o do espanhol por Maria Isabel Santos Lima<\/sub><\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><sub>Bernab\u00e9 Malacalza \u00e9 professor da Universidade Nacional de Quilmes e da Universidade Torcuato Di Tella. Ele \u00e9 PhD em Ci\u00eancias Sociais. Pesquisador em Quest\u00f5es Estrat\u00e9gicas no Conselho Nacional de Pesquisa Cient\u00edfica e T\u00e9cnica (CONICET).<\/sub><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Co-autor Bernab\u00e9 Malacalza<br \/>\nO MERCOSUL est\u00e1 perdendo gravitas em face da crescente diverg\u00eancia intragrupo. Ano ap\u00f3s ano, dependendo da situa\u00e7\u00e3o nacional de cada pa\u00eds, os c\u00e9ticos do MERCO ou os obstrucionistas do MERCO est\u00e3o aumentando, enquanto que as vozes dos entusiastas do MERCO e dos comprometidos do MERCO t\u00eam sido silenciadas.<\/p>\n","protected":false},"author":253,"featured_media":6945,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"episode_type":"","audio_file":"","cover_image":"","cover_image_id":"","duration":"","filesize":"","filesize_raw":"","date_recorded":"","explicit":"","block":"","itunes_episode_number":"","itunes_title":"","itunes_season_number":"","itunes_episode_type":"","footnotes":""},"categories":[16798,544],"tags":[],"gps":[],"class_list":{"0":"post-6966","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-mercosur-pt-br","8":"category-politica-br"},"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6966","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/253"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6966"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6966\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/6945"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6966"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6966"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6966"},{"taxonomy":"gps","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/gps?post=6966"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}