{"id":6991,"date":"2021-08-01T05:45:00","date_gmt":"2021-08-01T08:45:00","guid":{"rendered":"http:\/\/latinoamerica21.com\/?p=6991"},"modified":"2021-08-02T05:51:19","modified_gmt":"2021-08-02T08:51:19","slug":"trump-apagou-a-linha-entre-fascismo-e-populismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/trump-apagou-a-linha-entre-fascismo-e-populismo\/","title":{"rendered":"Trump apagou a linha entre fascismo e populismo"},"content":{"rendered":"\n<p>Uma diferen\u00e7a fundamental entre populismo e fascismo \u00e9 que, para os populistas, os resultados eleitorais s\u00e3o importantes. O fascismo, pelo contr\u00e1rio, implica em poder permanente, independentemente das urnas. O populismo afirma a ideia autorit\u00e1ria de que uma pessoa pode personificar plenamente o &#8220;povo&#8221; e a na\u00e7\u00e3o, mas deve ser confirmada atrav\u00e9s de procedimentos eleitorais.<\/p>\n\n\n\n<p>Enquanto o fascismo tem se deleitado na mentira,<a href=\"http:\/\/latinoamerica21.com\/es\/que-nos-dice-el-populismo\/\"> o populismo respeitou as urnas<\/a>. Isto n\u00e3o significa que ele sempre promova a democracia; de fato, muitas vezes a manipula. Mas ele ainda obt\u00e9m seu poder, e depende, da integridade do sistema eleitoral. \u00c9 por isso que os l\u00edderes populistas tendem a reconhecer o valor de respeitar os resultados eleitorais, mesmo que tenham perdido no processo democr\u00e1tico.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas esta distin\u00e7\u00e3o est\u00e1 come\u00e7ando a desaparecer e o Presidente Trump tem sido um pioneiro para os autocratas do mundo. Ao negar resultados eleitorais e promover a &#8220;grande mentira&#8221; da fraude eleitoral, Trump representa um ponto de inflex\u00e3o hist\u00f3rico na pol\u00edtica populista, possibilitando e inspirando outros, assim como os ditadores fascistas que o precederam.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Per\u00f3n e o peronismo<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Per\u00f3n foi o homem forte de uma junta militar que governou a Argentina de 1943 a 1946. Apesar de ter chegado ao poder em um regime de for\u00e7a, Per\u00f3n incentivou e participou das elei\u00e7\u00f5es de 1946.<\/p>\n\n\n\n<p>Ap\u00f3s a derrota no final da Segunda Guerra Mundial, o fascismo, assim como os golpes de Estado e as ditaduras militares, haviam se tornado t\u00f3xicos. Assim, os ex-fascistas e os militantes das ditaduras tentaram recuperar o poder por meios eleitorais democr\u00e1ticos.<\/p>\n\n\n\n<p>No in\u00edcio do p\u00f3s-guerra, pol\u00edticos como Per\u00f3n entenderam que as elei\u00e7\u00f5es eram uma fonte fundamental de legitimidade pol\u00edtica. Ele concorreu com uma candidatura populista propondo uma terceira via al\u00e9m do capitalismo e do comunismo. Ele venceu as elei\u00e7\u00f5es de 1946, tornando-se o primeiro l\u00edder populista da hist\u00f3ria a chegar ao poder.<\/p>\n\n\n\n<p>O populismo peronista emprestou elementos do fascismo. Foi profundamente iliberal e criou um culto messi\u00e2nico \u00e0 lideran\u00e7a de seu condutor. Denunciava as elites governantes, impedia o jornalismo independente e fomentava uma profunda avers\u00e3o ao pluralismo e \u00e0 toler\u00e2ncia pol\u00edtica. Mas Per\u00f3n foi eleito popularmente e, como tal, ele se diferenciava dos fascistas.<\/p>\n\n\n\n<p>Como Per\u00f3n, outros populistas latino-americanos em pa\u00edses como Brasil, Venezuela e Bol\u00edvia chegaram ao poder afirmando a legitimidade dos resultados eleitorais no final da d\u00e9cada de 1940 e in\u00edcio dos anos 50. A manuten\u00e7\u00e3o do poder dependia da vit\u00f3ria em elei\u00e7\u00f5es reais.<\/p>\n\n\n\n<p>Per\u00f3n, como seus hom\u00f3logos populistas brasileiros, venezuelanos e bolivianos, era popular. Quando foram expulsos do poder, foi atrav\u00e9s de golpes de estado, n\u00e3o de elei\u00e7\u00f5es, que seus movimentos continuaram a vencer.<\/p>\n\n\n\n<p>Os l\u00edderes populistas mais recentes, como Silvio Berlusconi na It\u00e1lia ou Hugo Ch\u00e1vez na Venezuela, mostraram o mesmo padr\u00e3o. Eles evitaram reivindica\u00e7\u00f5es infundadas de fraude porque apostaram suas grandiosas pretens\u00f5es de encarnar a vontade popular na ideia democr\u00e1tica de que as elei\u00e7\u00f5es representavam a vontade do povo. Berlusconi perdeu as elei\u00e7\u00f5es em 1996 e 2006, enquanto Ch\u00e1vez perdeu o referendo constitucional venezuelano de 2007 sobre a aboli\u00e7\u00e3o dos limites do mandato presidencial. Ambos aceitaram esses resultados apesar de perderem por margens extremamente pequenas. A situa\u00e7\u00e3o \u00e9 diferente atualmente com Nicol\u00e1s Maduro na Venezuela e Daniel Ortega na Nicar\u00e1gua, porque n\u00e3o se trata mais de populismo, mas de regimes ditatoriais nos quais as elei\u00e7\u00f5es n\u00e3o s\u00e3o reais e, portanto, nunca podem ser perdidas. A situa\u00e7\u00e3o \u00e9 diferente com os novos populistas de extrema-direita que perdem elei\u00e7\u00f5es reais e mentem sobre os resultados.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Os fascistas da d\u00e9cada de 30<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Muitos perdedores autocr\u00e1ticos mentem para escapar de uma derrota eleitoral real ou potencial. Por exemplo, os fascistas dos anos 30, como os nazistas alem\u00e3es, n\u00e3o viram nenhum valor no sistema eleitoral e s\u00f3 o usaram para reivindicar legitimidade e lideran\u00e7a quando isso os beneficiava. Eles ent\u00e3o trabalharam para destruir a democracia a partir de dentro.<\/p>\n\n\n\n<p>De fato, os fascistas acreditavam que as elei\u00e7\u00f5es e o patriotismo eram essencialmente opostos porque o verdadeiro l\u00edder n\u00e3o era necessariamente aquele que recebia o maior n\u00famero de votos. Como Benito Mussolini escreveu em &#8220;Doutrina do Fascismo&#8221; em 1932, &#8220;o fascismo se op\u00f5e, portanto, \u00e0quela forma de democracia que iguala uma na\u00e7\u00e3o \u00e0 maioria, reduzindo-a para o n\u00edvel do maior n\u00famero; mas \u00e9 a forma mais pura de democracia se se considerar a na\u00e7\u00e3o como deve ser do ponto de vista da qualidade e n\u00e3o da quantidade, como uma ideia, a mais poderosa porque a mais \u00e9tica, a mais coerente, a mais verdadeira, que se expressa num povo como a consci\u00eancia e a vontade de uns poucos, se n\u00e3o, na realidade, de um s\u00f3&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Adolf Hitler concordava com esta l\u00f3gica, pois ele considerava a pr\u00f3pria democracia como uma &#8220;fraude&#8221; porque os pol\u00edticos eleitos n\u00e3o podiam representar a verdadeira vontade do povo, que s\u00f3 o nazismo, e o pr\u00f3prio Hitler, encarnavam. Hitler declarou no &#8220;Mein Kampf&#8221; que os nazistas tinham &#8220;o direito, mas tamb\u00e9m o dever, de enfatizar com a maior rigidez que qualquer tentativa de representar a ideia popular fora do Partido Nacional Socialista Trabalhista Alem\u00e3o \u00e9 f\u00fatil e, na maioria dos casos, fraudulenta&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando os regimes fascistas na It\u00e1lia e na Alemanha se tornaram ditaduras plenas, as elei\u00e7\u00f5es n\u00e3o eram mais necess\u00e1rias como fonte de legitimidade porque a vontade do l\u00edder estava agora perpetuamente incorporada ao povo.<\/p>\n\n\n\n<p>Esta situa\u00e7\u00e3o n\u00e3o era apenas europeia. Em 1923, o fascista argentino Leopoldo Lugones equiparou os procedimentos eleitorais \u00e0 demagogia e alegou que a ditadura era a resposta ao &#8220;eleitoralismo&#8221;. A queda da democracia argentina veio alguns anos depois, em 1930, quando o general Jos\u00e9 F. Uriburu encenou um golpe militar. Uriburu pediu a Lugones que escrevesse a proclama\u00e7\u00e3o de funda\u00e7\u00e3o de seu regime. Cr\u00edticas similares aos procedimentos eleitorais democr\u00e1ticos e \u00e0 necessidade de derrub\u00e1-los foram feitas por fascistas em todo o mundo, desde o Brasil e a China, at\u00e9 a Espanha e o M\u00e9xico.<\/p>\n\n\n\n<p>Em resumo, o fascismo negou a pr\u00f3pria natureza da democracia. Seus defensores alegaram que os votos s\u00f3 eram leg\u00edtimos quando confirmavam a vontade autocr\u00e1tica de seu l\u00edder por meio de referendo. Os populistas, ao contr\u00e1rio, usaram as elei\u00e7\u00f5es para sublinhar sua pr\u00f3pria natureza democr\u00e1tica, mesmo quando avan\u00e7avam outras tend\u00eancias autorit\u00e1rias.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A linha entre o fascismo e o populismo se confunde<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Essas diferen\u00e7as importam hoje em dia quando Trump, e outros, negam a legitimidade eleitoral de seus oponentes. Bolsonaro no Brasil, Netanyahu em Israel e Keiko Fujimori no Peru usam <a href=\"https:\/\/www.revista-uno.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/03\/UNO_27_BR_baja.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">falsidades para criar uma realidade alternativa<\/a> na qual eles possam governar, sem procedimentos democr\u00e1ticos. Fujimori e Netanyahu j\u00e1 falharam em suas tentativas, mas Bolsonaro disse recentemente que n\u00e3o aceitaria os resultados das elei\u00e7\u00f5es de 2022 a menos que o sistema de vota\u00e7\u00e3o fosse alterado e depois repetiu, sem provas, que as elei\u00e7\u00f5es poderiam n\u00e3o ser &#8220;limpas&#8221; e at\u00e9 amea\u00e7ou n\u00e3o realiz\u00e1-las.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Quanto mais soubermos sobre as tentativas fascistas do passado, mais estaremos cientes das formas p\u00f3s-fascistas e populistas do presente. Os apelos de Trump por &#8220;reintegra\u00e7\u00e3o&#8221; baseados na suposta legitimidade de um falso passado, ou seja, um mundo bizarro no qual ele &#8220;ganhou&#8221; a elei\u00e7\u00e3o, s\u00e3o formas flagrantes de fascismo que n\u00e3o podem ser permitidas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Uma diferen\u00e7a chave entre populismo e fascismo \u00e9 que para os populistas, enquanto uma pessoa pode personificar o &#8220;povo&#8221; e a na\u00e7\u00e3o, os resultados eleitorais s\u00e3o importantes. O fascismo, por outro lado, implica em poder permanente, al\u00e9m das urnas de voto. <\/p>\n","protected":false},"author":77,"featured_media":6971,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"episode_type":"","audio_file":"","cover_image":"","cover_image_id":"","duration":"","filesize":"","filesize_raw":"","date_recorded":"","explicit":"","block":"","itunes_episode_number":"","itunes_title":"","itunes_season_number":"","itunes_episode_type":"","footnotes":""},"categories":[16758,16758,16748,16748,16796,16796,544],"tags":[],"gps":[],"class_list":{"0":"post-6991","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-donald-trump-pt-br","9":"category-populismo-pt-br","11":"category-fascismo-es-pt-br","13":"category-politica-br"},"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6991","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/77"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6991"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6991\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/6971"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6991"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6991"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6991"},{"taxonomy":"gps","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/gps?post=6991"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}