{"id":7197,"date":"2021-08-23T08:45:00","date_gmt":"2021-08-23T11:45:00","guid":{"rendered":"http:\/\/latinoamerica21.com\/?p=7197"},"modified":"2021-08-22T21:39:53","modified_gmt":"2021-08-23T00:39:53","slug":"brasil-e-mexico-distancia-e-desencontros","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/brasil-e-mexico-distancia-e-desencontros\/","title":{"rendered":"Brasil e M\u00e9xico: dist\u00e2ncia e desencontros"},"content":{"rendered":"\n<p><strong><em>Co-autor \u00c1lvaro Costa Silva<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Os dois pa\u00edses com as economias mais avan\u00e7adas da Am\u00e9rica Latina e com maior capacidade de implementar iniciativas regionais, Brasil e M\u00e9xico, pouco interagem desde a ascens\u00e3o de Jair Bolsonaro ao governo. No passado, Brasil e M\u00e9xico, embora geograficamente longe, interagiram em iniciativas regionais relevantes: foram parceiros na cria\u00e7\u00e3o da ALALC, em 1960; da ALADI, em 1980 e do Grupo do Rio, em 1986. Mas o distanciamento come\u00e7ou antes e os desencontros se seguiram. Por qu\u00ea?<\/p>\n\n\n\n<p>Em 1990, o M\u00e9xico formou o Grupo dos Tr\u00eas com Col\u00f4mbia e Venezuela, e assinou acordo com o Chile; ambos baseados no regionalismo aberto. O Brasil, em 1991, formou o MERCOSUL, tamb\u00e9m orientado pelo regionalismo aberto, por\u00e9m com restri\u00e7\u00f5es. O MERCOSUL seria um ensaio geral para uma abertura futura para o exterior.<\/p>\n\n\n\n<p>1994 foi um ano marcante. O M\u00e9xico ingressou no NAFTA, diminuindo sua autonomia frente aos Estados Unidos. A diplomacia brasileira, por sua vez, acenava para a Am\u00e9rica do Sul com a cria\u00e7\u00e3o de uma \u00e1rea de livre com\u00e9rcio sul-americana. Com esse reenquadramento regional o Brasil adaptou sua pol\u00edtica externa em discursos e a\u00e7\u00f5es para a Am\u00e9rica do Sul. Foi o ano de lan\u00e7amento das negocia\u00e7\u00f5es para forma\u00e7\u00e3o da ALCA da qual o M\u00e9xico seria parte integrante e o Brasil apresentou resist\u00eancias ao avan\u00e7o das negocia\u00e7\u00f5es. Embora a \u00e1rea de livre com\u00e9rcio sul-americana n\u00e3o tenha tido \u00eaxito, a ideia de Am\u00e9rica do Sul se fortaleceu progressivamente no comportamento diplom\u00e1tico brasileiro levando at\u00e9 \u00e0s iniciativas de Lula, com vistas a estruturar uma governan\u00e7a sul-americana sob a lideran\u00e7a brasileira. Am\u00e9rica Central e Caribe, por sua vez, foram vistos como pa\u00edses na \u00f3rbita dos Estados Unidos.<\/p>\n\n\n\n<p>Diversos motivos contribu\u00edram para esse quadro. No regional, nos anos 2000 a onda rosa marcou os mapas cognitivos predominantes na Am\u00e9rica do Sul e incentivou um projeto de coes\u00e3o regional. Na dimens\u00e3o dom\u00e9stica brasileira, a aproxima\u00e7\u00e3o com Am\u00e9rica do Sul apoiou-se em articula\u00e7\u00e3o entre desenvolvimentistas, diplomatas autonomistas e uma comunidade epist\u00eamica pr\u00f3-integra\u00e7\u00e3o que incluiu atores pol\u00edticos e acad\u00eamicos. Essa iniciativa tomou forma com o regionalismo p\u00f3s-liberal e sua principal organiza\u00e7\u00e3o, a UNASUL. Na pol\u00edtica externa brasileira a UNASUL e os pa\u00edses sul-americanos alavancariam os esfor\u00e7os do pa\u00eds de se projetar fortemente na arena internacional, al\u00e9m de serem receptores do desenvolvimento brasileiro. Nesse per\u00edodo, M\u00e9xico chegou a solicitar a entrada no MERCOSUL como membro associado, o que lhe foi negado.<\/p>\n\n\n\n<p>O M\u00e9xico, na contram\u00e3o da onda rosa, foi governado na d\u00e9cada pelo Partido de A\u00e7\u00e3o Nacional, conservador e liberal na economia. Trilhou outro caminho para ascender como ator global, aproximando-se dos Estados Unidos e partilhando votos com pa\u00edses europeus nos foros multilaterais. E sempre buscando neutralizar uma proje\u00e7\u00e3o brasileira que incomodava o governo mexicano. A oposi\u00e7\u00e3o mexicana \u00e0 candidatura brasileira a assento permanente no Conselho de Seguran\u00e7a da ONU foi um exemplo. Outro desencontro foi a suspens\u00e3o, em 2005, do Acordo de Isen\u00e7\u00e3o de Vistos de curta dura\u00e7\u00e3o por parte do M\u00e9xico (restabelecido posteriormente em 2013), tentando coibir a entrada de brasileiros que passavam pelo pa\u00eds para entrar nos Estados Unidos. &nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Houve tamb\u00e9m iniciativas de aproxima\u00e7\u00e3o, mas t\u00eanues. Foi criada uma Comiss\u00e3o Binacional para facilitar negocia\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas entre ambos. No apagar das luzes da gest\u00e3o de Lula, ambos pa\u00edses colaboraram para a cria\u00e7\u00e3o da CELAC, como parte do esfor\u00e7o do governo de Felipe Calder\u00f3n de reaproximar-se da Am\u00e9rica Latina.<\/p>\n\n\n\n<p>No campo econ\u00f4mico, a assinatura por ambos os pa\u00edses de acordo de complementa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica (ECA 55), no quadro da ALADI, visava liberalizar o com\u00e9rcio e integrar o setor automobil\u00edstico. Proposto pelo presidente mexicano, em 2009, ambos iniciaram conversas sobre futuro comercial abrangente. De todo modo, o com\u00e9rcio entre ambos n\u00e3o era (e segue n\u00e3o sendo) relevante para nenhum dos dois: dist\u00e2ncia geogr\u00e1fica; pouca complementariedade entre suas economias; prefer\u00eancias comerciais condicionadas por MERCOSUL, NAFTA e China.<\/p>\n\n\n\n<p>No in\u00edcio da d\u00e9cada de 2010 houve mudan\u00e7as nos dois governos: Dilma Rousseff, no Brasil, e o retorno do PRI ao poder, com Pe\u00f1a Nieto. Por\u00e9m, o governo de Rousseff n\u00e3o foi contemplado com as circunst\u00e2ncias favor\u00e1veis da d\u00e9cada anterior. A crise econ\u00f4mica internacional interrompeu o per\u00edodo de bonan\u00e7a. No \u00e2mbito regional, foram eleitos diversos governos liberais e\/ou conservadores e o regionalismo p\u00f3s-liberal declinou. Internamente, crise econ\u00f4mica, crise pol\u00edtica e uma pol\u00edtica externa pouco ativa foram marcas da gest\u00e3o de Rousseff. O papel do Brasil de estruturador da agenda sul-americana perdeu consist\u00eancia, dando lugar a um comportamento de perfil baixo. No mesmo per\u00edodo, o M\u00e9xico ingressou na Alian\u00e7a do Pac\u00edfico, inspirado nos preceitos do regionalismo aberto, se rearticulando com pa\u00edses sul-americanos.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 2012 o governo brasileiro decide renunciar ao ECA 55, por conta do d\u00e9ficit brasileiro no com\u00e9rcio automotivo. Para evitar o colapso, os governos assinaram um protocolo que estabelecia cotas anuais de importa\u00e7\u00e3o, mas negocia\u00e7\u00f5es do acordo binacional foram interrompidas. Dilma Rousseff realizou uma visita de estado ao M\u00e9xico em 2015, mas com parcos resultados.<\/p>\n\n\n\n<p>Depois de duro processo de <em>impeachment<\/em>, o governo Temer adotou uma pol\u00edtica externa avessa a tudo que lembrasse a onda rosa. E uma de suas principais bandeiras foi a revitaliza\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica comercial. Um acordo MERCOSUL-Alian\u00e7a do Pac\u00edfico passou a ser visto com bons olhos. No final de seu governo, ocorreu uma c\u00fapula de governantes dos dois arranjos integracionistas, sendo concebido o Plano de A\u00e7\u00e3o de Puerto Vallarta, para a facilita\u00e7\u00e3o do com\u00e9rcio entre pa\u00edses dos dois blocos. A quest\u00e3o venezuelana foi outro ponto de converg\u00eancia entre Temer e Pe\u00f1a Nieto: ambos os governos integraram o Grupo de Lima, e condenaram o regime de Nicol\u00e1s Maduro.<\/p>\n\n\n\n<p>Entretanto, com a ascens\u00e3o de Jair Bolsonaro no Brasil e de Andr\u00e9s L\u00f3pez Obrador no M\u00e9xico um novo afastamento ocorreu. Embora tenham <a href=\"https:\/\/oglobo.globo.com\/mundo\/apos-comparacoes-com-bolsonaro-lopez-obrador-do-mexico-volta-atras-decreta-isolamento-parcial-24328207\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">coincid\u00eancias quanto \u00e0 forma de abordar a quest\u00e3o da pandemia<\/a> \u2013 um negacionismo de partida \u2013 suas posi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas expressaram grande desencontro. Enquanto Bolsonaro adotou uma ret\u00f3rica cr\u00edtica \u00e0 Venezuela; L\u00f3pez Obrador adotou a defesa de uma sa\u00edda negociada para a crise. O Brasil reconheceu a Juan Guaid\u00f3 atrav\u00e9s de Declara\u00e7\u00e3o do Grupo de Lima, e o M\u00e9xico n\u00e3o subscreveu a declara\u00e7\u00e3o. Ao contr\u00e1rio, comp\u00f4s com a Argentina o Grupo de Puebla. Enquanto Bolsonaro apoiou o governo de Jeanine \u00c1\u00f1ez na Bol\u00edvia, o M\u00e9xico deu asilo ao ex-presidente Evo Morales. O Brasil suspendeu sua participa\u00e7\u00e3o na CELAC quando o M\u00e9xico estava na presid\u00eancia da organiza\u00e7\u00e3o \u2013 ex-chanceler Ernesto Ara\u00fajo acusou-a, via <em>Twitter<\/em>, de dar \u201cpalco a regimes n\u00e3o-democr\u00e1ticos\u201d. E est\u00e1 no PROSUL, que n\u00e3o inclui o M\u00e9xico.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim, distanciamento e desencontros, <a href=\"http:\/\/latinoamerica21.com\/br\/a-politica-externa-brasileira-no-diva\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">n\u00e3o se devem somente \u00e0 geografia<\/a>. As diverg\u00eancias pol\u00edtico-ideol\u00f3gicas de turno, as diferentes prioridades e interesses de pol\u00edtica externa e os desencontros em mat\u00e9ria comercial limitaram o potencial de uma rela\u00e7\u00e3o bilateral. Uma articula\u00e7\u00e3o harmoniosa entre os dois maiores estados de uma regi\u00e3o nem sempre \u00e9 f\u00e1cil.<\/p>\n\n\n\n<p><sub><em>\u00c1lvaro Costa Silva<\/em><\/sub><em><sub> \u00e9 bacharel em Rela\u00e7\u00f5es Internacionais pela Universidade Federal Rural do Rio de&nbsp;Janeiro (2016), Mestre em Rela\u00e7\u00f5es Internacionais pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (2019), e doutorando em Rela\u00e7\u00f5es Internacionais na mesma institui\u00e7\u00e3o. \u00c9 pesquisador do Laborat\u00f3rio de Estudos sobre Regionalismo e Pol\u00edtica Externa (Lerpe-UERJ).<\/sub><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Co-autor \u00c1lvaro Costa Silva<br \/>\nAs diferen\u00e7as pol\u00edtico-ideol\u00f3gicas, as diferentes prioridades e interesses de pol\u00edtica externa e os desequil\u00edbrios comerciais t\u00eam limitado o potencial de uma rela\u00e7\u00e3o bilateral. <\/p>\n","protected":false},"author":149,"featured_media":7195,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"episode_type":"","audio_file":"","cover_image":"","cover_image_id":"","duration":"","filesize":"","filesize_raw":"","date_recorded":"","explicit":"","block":"","itunes_episode_number":"","itunes_title":"","itunes_season_number":"","itunes_episode_type":"","footnotes":""},"categories":[16706,16728,544],"tags":[],"gps":[],"class_list":{"0":"post-7197","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-mexico-pt-br","8":"category-brasil-pt-br","9":"category-politica-br"},"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7197","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/149"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7197"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7197\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/7195"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7197"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7197"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7197"},{"taxonomy":"gps","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/gps?post=7197"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}