{"id":7863,"date":"2021-10-23T09:00:00","date_gmt":"2021-10-23T12:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/latinoamerica21.com\/?p=7863"},"modified":"2021-10-22T05:24:43","modified_gmt":"2021-10-22T08:24:43","slug":"ha-um-brasil-do-qual-nem-todos-os-pesquisadores-podem-ou-querem-fugir","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/ha-um-brasil-do-qual-nem-todos-os-pesquisadores-podem-ou-querem-fugir\/","title":{"rendered":"H\u00e1 um Brasil do qual nem todos os pesquisadores podem ou querem fugir"},"content":{"rendered":"\n<p>Nos \u00faltimos anos, uma s\u00e9rie de mat\u00e9rias na imprensa tem explorado uma express\u00e3o recorrente em tempos de crise socioecon\u00f4mica no Brasil: <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/opiniao\/2021\/09\/nao-se-combate-a-fuga-de-cerebros-com-migalhas.shtml\">a fuga de \u201cc\u00e9rebros\u201d<\/a>. Em linhas gerais, exprime a n\u00e3o-inser\u00e7\u00e3o de jovens pesquisadores no mercado de trabalho e que, sem alternativa, optam por emigrar para a Europa, Am\u00e9rica do Norte ou \u00c1sia.<\/p>\n\n\n\n<p>Frente a um pa\u00eds que patina numa infind\u00e1vel crise econ\u00f4mica <a href=\"http:\/\/latinoamerica21.com\/br\/a-burguesia-no-espelho-de-bolsonaro\/\">gestada pela elite agro\/mineradora, pelo humor intempestivo do mercado financeiro e pelas medidas austeras dos governantes<\/a>, essa parece ser a solu\u00e7\u00e3o imediata encontrada por parte da popula\u00e7\u00e3o universit\u00e1ria. Sobretudo diante de um governo federal suspostamente nacionalista, mas que, assumidamente, demonstra ignor\u00e2ncia e avers\u00e3o ao papel das universidades e da ci\u00eancia nacional para o desenvolvimento do Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p>Este m\u00eas, <a href=\"https:\/\/piaui.folha.uol.com.br\/materia\/a-diaspora\/\">a revista Piau\u00ed<\/a> publicou uma reportagem sobre a \u201cdi\u00e1spora\u201d de c\u00e9rebros, na qual apontava que um alto n\u00famero de pesquisadores de consolidadas universidades p\u00fablicas nacionais emigraram devido \u00e0 falta de perspectiva. Em dado momento, a mat\u00e9ria afirma que estamos pr\u00f3ximos de \u201cum \u00eaxodo dos nossos melhores cientistas\u201d, sobretudo, para Europa. Na mesma linha, encontramos mat\u00e9rias publicadas pela BBC e pelo G1.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao acompanhar esse tr\u00e1gico debate envolvendo o sucateamento acelerado de nossa pesquisa e a emigra\u00e7\u00e3o de nossos pesquisadores, a pergunta que fica \u00e9: quem s\u00e3o esses \u201cc\u00e9rebros\u201d que v\u00e3o embora? Ou melhor, quem, de fato, pode sair?<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A origem da \u201cfuga\u201d<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Recentemente o governo promoveu o <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ciencia\/2021\/10\/corte-de-r-600-mi-da-ciencia-foi-rasteira-do-governo-diz-presidente-do-cnpq.shtml\">corte de R$ 600 milh\u00f5es do Fundo Nacional de Desenvolvimento Cient\u00edfico e Tecnol\u00f3gico (FNDCT), ligado ao Minist\u00e9rio da Ci\u00eancia, Tecnologia e Inova\u00e7\u00f5es (MCTI)<\/a>, ligado ao Minist\u00e9rio da Ci\u00eancia, Tecnologia e Inova\u00e7\u00f5es (MCTI), cujo ministro respons\u00e1vel diz ter sido pego ou acordado de \u201csurpresa\u201d, enquanto, provavelmente, <a href=\"https:\/\/www.diariodocentrodomundo.com.br\/marcos-pontes-o-astronauta-que-vendia-travesseiros-da-nasa-e-virou-ministro-por-miguel-enriquez\/\">dormia em ber\u00e7o espl\u00eandido com travesseiros da NASA<\/a>. &nbsp;O corte corresponde a 92% do or\u00e7amento destinado \u00e0 ci\u00eancia e pesquisa nacional.<\/p>\n\n\n\n<p>Cabe frisar que, por mais brutal que sejam os cortes, tamb\u00e9m n\u00e3o s\u00e3o de hoje. Esse mesmo minist\u00e9rio j\u00e1 perdeu 52% do seu or\u00e7amento entre 2013 e 2020. O Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o (MEC), por sua vez, sofreu corte de 50% no mesmo per\u00edodo.<\/p>\n\n\n\n<p>Tal desmonte n\u00e3o apenas compromete a forma\u00e7\u00e3o de novas gera\u00e7\u00f5es de pesquisadores, mas a continuidade daqueles que estavam em processo de consolida\u00e7\u00e3o. S\u00e3o anos de financiamento em bolsas de pesquisa, instala\u00e7\u00f5es f\u00edsicas, recursos humanos, equipamentos e bibliotecas para formar profissionais t\u00e3o caros e necess\u00e1rios para o pa\u00eds e que, ao final, s\u00e3o entregues de bandeja para nossos \u201cparceiros comerciais\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A amplia\u00e7\u00e3o do ensino universit\u00e1rio<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Entre 2003 e 2014, o Brasil viveu um amplo e in\u00e9dito processo de reestrutura\u00e7\u00e3o e expans\u00e3o de seu ensino superior. Foram criadas 18 novas universidades federais e 173 campi universit\u00e1rios em grandes centros urbanos; mas, sobretudo, no interior do pa\u00eds. Soma-se a isso a implanta\u00e7\u00e3o de 360 unidades de institutos federais.<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar das in\u00fameras cr\u00edticas que essa pol\u00edtica universit\u00e1ria possa receber, ela popularizou o acesso de classes sociais menos abastadas ao ensino superior. Em conjunto com as j\u00e1 existentes universidades estaduais, houve uma descentraliza\u00e7\u00e3o e populariza\u00e7\u00e3o ao acesso universit\u00e1rio, atrav\u00e9s da amplia\u00e7\u00e3o de unidades e vagas, mas, tamb\u00e9m, programas de perman\u00eancia de estudantes e pesquisadores.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse curto per\u00edodo, saltamos de 505 mil para quase 1 milh\u00e3o de estudantes. Jovens de periferias urbanas ou de fora dos grandes centros, ind\u00edgenas, quilombolas e, mais recentemente, refugiados, passaram a produzir ci\u00eancia e a ocupar cadeiras universit\u00e1rias.<\/p>\n\n\n\n<p>Lentamente, mud\u00e1vamos o perfil do estudante universit\u00e1rio brasileiro. Para esses jovens, suas fam\u00edlias e comunidades, essa era a possibilidade de ascender socialmente atrav\u00e9s do ensino e, qui\u00e7\u00e1, dar autonomia pol\u00edtica e cient\u00edfica \u00e0s suas regi\u00f5es. Infelizmente, sem ter tido tempo suficiente de amadurecer, vemos, agora, os frutos desse programa sob s\u00e9rios riscos. Universidades p\u00fablicas e Institutos Federais com seu corpo docente e discente largados \u00e0 pr\u00f3pria sorte.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Uma \u201cfuga\u201d seletiva<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Essa amplia\u00e7\u00e3o, por\u00e9m, n\u00e3o est\u00e1 contemplada na suposta \u201cdi\u00e1spora\u201d. Infelizmente, boa parte das institui\u00e7\u00f5es citadas nas mat\u00e9rias n\u00e3o revelam a atual geografia universit\u00e1ria brasileira. Ela \u00e9 bem maior. H\u00e1 um outro universo acad\u00eamico brasileiro que sempre viveu esse drama de parcos recursos. Seja porque s\u00e3o institui\u00e7\u00f5es estaduais que n\u00e3o contam com pol\u00edticas universit\u00e1rias em seus estados; seja porque s\u00e3o jovens federais que n\u00e3o se consolidaram. T\u00eam sua exist\u00eancia mergulhada na escassez.<\/p>\n\n\n\n<p>Essas universidades n\u00e3o est\u00e3o nas grandes capitais. Elas est\u00e3o no que a grande m\u00eddia e muitos doutores adoram classificar como o \u201cBrasil profundo\u201d. Um lugar fict\u00edcio, quase imut\u00e1vel e distante de um mundo globalizado. O rinc\u00e3o onde muitos pesquisadores de grandes centros, em geral, v\u00e3o para fazer pesquisa. Assim \u00e9 o sert\u00e3o mineiro, a fronteira com a Venezuela, ou o semi\u00e1rido nordestino.<\/p>\n\n\n\n<p>Com isso, precisamos estar cientes de que muitos desses estudantes situados nessas universidades e que ambicionavam seguir a carreira de pesquisa em suas \u00e1reas de forma\u00e7\u00e3o, n\u00e3o conseguir\u00e3o fugir.<\/p>\n\n\n\n<p>Sim. A dita \u201cfuga de c\u00e9rebros\u201d \u00e9 cruel por tamb\u00e9m ser seletiva. Ela exige uma s\u00e9rie de capitais e redes de apoio. O que as mat\u00e9rias, em geral, n\u00e3o revelam, \u00e9 que, para fugir, o pesquisador precisa ter o dom\u00ednio de outro idioma, portar um visto, contar com redes universit\u00e1rias e, sobretudo, ter recursos financeiros m\u00ednimos e, em muitos casos, apoio familiar para iniciar essa incerta jornada. Esquecem de frisar que migrar \u00e9 um ato coletivo. Em suma, s\u00e3o poucos os \u201cc\u00e9rebros\u201d dotados desses capitais, que conseguem fugir ou at\u00e9 promover o autoex\u00edlio no Hemisf\u00e9rio Norte.<\/p>\n\n\n\n<p>Nas universidades brasileiras, n\u00e3o temos apenas estudantes que vivem esse drama. Temos, tamb\u00e9m, professores\/pesquisadores sem holofote midi\u00e1tico. Por\u00e9m, ainda assim, seguem fazendo ci\u00eancia e resist\u00eancia ao desmonte. N\u00e3o apenas a esse em particular, mas ao desmonte cont\u00ednuo que seus centros vivem, nessa rep\u00fablica agropredat\u00f3ria.<\/p>\n\n\n\n<p>Pesquisam com pouco ou nenhum recurso, fazem trabalhos de extens\u00e3o, desafiam a\u00e7\u00f5es xen\u00f3fobas em zonas de fronteira, denunciam a disputa de \u00e1gua de popula\u00e7\u00f5es tradicionais com mineradoras, trabalham ao lado de quilombolas na demarca\u00e7\u00e3o de terras ou acesso \u00e0 vacina contra a COVID-19. Longe de romantizar esse invis\u00edvel grupo, desenvolveram t\u00e9cnicas e formas de pesquisa com poucos recursos e seguem na labuta.<\/p>\n\n\n\n<p>Por isso, sou inclinado a dizer que n\u00e3o h\u00e1 \u00eaxodo ou di\u00e1spora de pesquisadores brasileiros. Isso soa como um discurso de classe, de uma pretensa elite intelectual, que assume o lugar de fala de toda uma comunidade universit\u00e1ria que cresceu sensivelmente, mas a desconhece por completo. O que h\u00e1 \u00e9 um acentuado desmonte da educa\u00e7\u00e3o e da ci\u00eancia brasileira. Para alguns lugares, ele chegou agora com maior for\u00e7a. Para outros, ele sempre esteve ali.<\/p>\n\n\n\n<p>A academia brasileira precisa superar esse discurso de classe e de representatividade de um conjunto muito maior do que ela queira ver. H\u00e1 muito mais desmontes e dramas. H\u00e1 outros tantos jovens universit\u00e1rios que perdemos e que sequer foram contabilizados, pois n\u00e3o puderam fugir. E h\u00e1, tamb\u00e9m, pesquisadores que seguem entrincheirados e longe do fict\u00edcio debate nacional. Talvez, nenhum dos dois sejam contabilizados, pois n\u00e3o s\u00e3o entendidos como \u201cos melhores c\u00e9rebros do pa\u00eds\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nos \u00faltimos anos tem-se falado muito sobre a &#8220;fuga de c\u00e9rebros&#8221;, os jovens pesquisadores que, sem alternativa, escolhem emigrar para a Europa, Am\u00e9rica do Norte ou \u00c1sia. Mas quem s\u00e3o esses &#8220;c\u00e9rebros&#8221; que partem? 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