{"id":7938,"date":"2021-10-27T09:19:42","date_gmt":"2021-10-27T12:19:42","guid":{"rendered":"http:\/\/latinoamerica21.com\/?p=7938"},"modified":"2021-10-27T09:19:44","modified_gmt":"2021-10-27T12:19:44","slug":"vamos-falar-sobre-os-orfaos-da-covid-19","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/vamos-falar-sobre-os-orfaos-da-covid-19\/","title":{"rendered":"Vamos falar sobre os \u00f3rf\u00e3os da Covid-19?"},"content":{"rendered":"\n<p>Uma trag\u00e9dia coletiva que n\u00e3o pode ser silenciada: em outubro o Brasil atingiu a marca de 600 mil mortos pela Covid-19. Pelo menos 1\/3 deles tinha entre 30 e 60 anos de idade, mortos com menos de 30 anos representam cerca de 1,7% do total. A maioria homens.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 um n\u00famero dessa trag\u00e9dia desconhecido e silenciado: aquele que revela quantos (e quem) s\u00e3o seus \u00f3rf\u00e3os. Estamos falando de uma gera\u00e7\u00e3o que, em poucos dias, perdeu pai, m\u00e3e (\u00e0s vezes ambos) ou av\u00f3s. Uma gera\u00e7\u00e3o que n\u00e3o p\u00f4de se despedir, velar e enterrar seus pais. Que conviver\u00e1 com um trauma individual e coletivo que por ora somos incapazes de dimensionar.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/brasil-57923377\">Uma estimativa<\/a> \u2013 pois n\u00e3o temos dados oficiais \u2013 \u00e9 a de que temos cerca de 113 mil menores de idade que perderam pai, m\u00e3e ou ambos. Se incluirmos os av\u00f3s como cuidadores, s\u00e3o ao menos 130 mil crian\u00e7as e adolescentes. A maior parte dos \u00f3rf\u00e3os perdeu o pai, historicamente respons\u00e1vel pelo sustento financeiro da fam\u00edlia. Ou seja, precisaremos tamb\u00e9m dimensionar qual o impacto desse cen\u00e1rio sobre o aprofundamento das desigualdades e da pobreza.<\/p>\n\n\n\n<p>A Comiss\u00e3o Parlamentar de Inqu\u00e9rito (CPI) da Covid, realizada pelo Senado Federal tem colaborado para que a morte pela doen\u00e7a e o luto saiam da invisibilidade. Seu trabalho ser\u00e1 fundamental para a constru\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria coletiva do nosso trauma, para que os respons\u00e1veis por essa criminosa trag\u00e9dia sejam punidos &#8211; que seus atos n\u00e3o sejam esquecidos. Cumpriu-se, tamb\u00e9m, o importante papel de dar voz aos que sofreram e ainda sofrem com as sequelas da doen\u00e7a, de dar voz aos seus \u00f3rf\u00e3os.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 responsabilidade da sociedade e do Estado acolh\u00ea-los. \u00c9 urgente a elabora\u00e7\u00e3o de programas e pol\u00edticas p\u00fablicas que garantam aos menores de idade oportunidades para (re)constru\u00edrem suas vidas e realizarem seus sonhos. Enquanto \u00e9 fundamental acolher nossos \u00f3rf\u00e3os em seu luto.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Precisamos aprender do passado<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Olhemos para um exemplo recente e bem brasileiro: as v\u00edtimas da epidemia de Zika v\u00edrus. Crian\u00e7as com microcefalia. Mulheres, as \u201cm\u00e3es da Zika\u201d, que precisaram renunciar \u00e0s suas vidas para se dedicarem ao cuidado intensivo e integral de seus filhos.<\/p>\n\n\n\n<p>A maior parte dessas v\u00edtimas vive na regi\u00e3o Nordeste do pa\u00eds, s\u00e3o pobres, m\u00e3es que ficaram desempregadas e foram abandonadas por seus companheiros. M\u00e3es e filhos que cumprem uma exaustiva e di\u00e1ria rotina de tratamentos imprescind\u00edveis para o desenvolvimento e o bem-estar das crian\u00e7as.<\/p>\n\n\n\n<p>As crian\u00e7as que nasceram vitimadas por sequelas do Zika v\u00edrus, no pior surto que o Brasil viveu entre 2015 e 2016, tiveram inicialmente direito ao Benef\u00edcio de Presta\u00e7\u00e3o Continuada (BPC). Somente em 2019 foi sancionada lei que aprovou o direito a uma pens\u00e3o vital\u00edcia de um sal\u00e1rio-m\u00ednimo mensal. Por\u00e9m, o acesso ao tratamento depende do local de moradia, das redes de pol\u00edticas p\u00fablicas e de programas dispon\u00edveis nas localidades, depende do cuidador principal dedicar-se integralmente ao cuidado e transporte das crian\u00e7as.<\/p>\n\n\n\n<p>Na pr\u00e1tica, muitas dessas mulheres e crian\u00e7as dependem da caridade de seus pr\u00f3ximos. N\u00e3o apenas para garantir o tratamento de seus filhos, mas tamb\u00e9m o sustento da fam\u00edlia. A realidade das v\u00edtimas da Zika \u00e9 exemplo de esquecimento, invisibiliza\u00e7\u00e3o e neglig\u00eancia que n\u00e3o pode ficar silenciado e nem pode se repetir.<\/p>\n\n\n\n<p>Trata-se de uma neglig\u00eancia que transcende a esfera do econ\u00f4mico, da garantia de uma \u201crenda para a sobreviv\u00eancia\u201d. Trata-se de uma neglig\u00eancia social, emocional, de responsabilidade coletiva.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma li\u00e7\u00e3o importante das epidemias \u00e9 que seus impactos s\u00e3o sempre piores dentre os mais vulner\u00e1veis. O descontrole da prolifera\u00e7\u00e3o do mosquito <em>Aedes aegypti<\/em> e a r\u00e1pida dissemina\u00e7\u00e3o dos v\u00edrus da Zika, da dengue, da Chikungunya e da febre amarela s\u00e3o velhos conhecidos da sa\u00fade p\u00fablica brasileira. Sua prolifera\u00e7\u00e3o \u00e9 maior em localidades com falhas no acesso \u00e0 \u00e1gua pot\u00e1vel e ao esgotamento. Portanto, \u00e1reas mais pobres, com popula\u00e7\u00e3o mais vulner\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p>Pandemias n\u00e3o s\u00e3o \u201cigualit\u00e1rias\u201d, e a de coronav\u00edrus tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9. Nela tamb\u00e9m os pobres e os negros foram os mais afetados, as crian\u00e7as especialmente afetadas. Tal como as v\u00edtimas da Zika, as mortes por Covid-19 no Brasil t\u00eam renda, classe e ra\u00e7a. S\u00e3o justamente essas pessoas aquelas mais afetadas pelas comorbidades identificadas como fator de risco. E agora seus filhos, milhares, est\u00e3o entregues \u00e0 pr\u00f3pria sorte.<\/p>\n\n\n\n<p>Tramitam na C\u00e2mara Federal e no Senado diferentes projetos de lei que visam garantir renda para os menores de idade \u00f3rf\u00e3os da Covid-19. Propostas elaboradas \u00e0s cegas, pois sequer sabemos quem e quantos eles s\u00e3o! Como propor a\u00e7\u00f5es, prever or\u00e7amento para a distribui\u00e7\u00e3o de benef\u00edcios e programas de acolhimento? H\u00e1 muito o que fazer e o tempo urge. Logo completamos dois anos de pandemia: o Brasil reproduzir\u00e1 a neglig\u00eancia?<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/g1.globo.com\/politica\/cpi-da-covid\/noticia\/2021\/10\/19\/leia-a-integra-da-minuta-do-relatorio-da-cpi-da-covid.ghtml\">Como demonstra o relat\u00f3rio da CPI da Covid<\/a>, h\u00e1 uma diferen\u00e7a fundamental entre a Zika e a Covid-19 que deve ser lembrada: a \u00faltima tem em sua hist\u00f3ria a indel\u00e9vel marca da atua\u00e7\u00e3o de um governo que colaborou deliberadamente com a dissemina\u00e7\u00e3o do v\u00edrus e agravamento da pandemia, o que aprofunda o trauma e aumenta a responsabilidade coletiva.<\/p>\n\n\n\n<p>Qual o comprometimento da sociedade com o futuro de toda uma gera\u00e7\u00e3o de \u00f3rf\u00e3os e v\u00edtimas da Covid?<\/p>\n\n\n\n<p>As dores, as sequelas e as consequ\u00eancias da doen\u00e7a na hist\u00f3ria de vida de cada v\u00edtima precisam ser entendidas como coletivas, jamais individualizadas. Cada morte precisa ser lembrada. Os \u00f3rf\u00e3os ser\u00e3o sempre os \u00f3rf\u00e3os da Covid. Uma pandemia \u00e9 um trauma coletivo, que precisa ser elaborado pelo coletivo. Desde o in\u00edcio falamos \u00e1vidos e apontamos apressados para o \u201cnovo normal\u201d. Como voltar ao normal diante de tamanho trauma?<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m da urgente implementa\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas p\u00fablicas, \u00e9 preciso que a sociedade brasileira fa\u00e7a o trabalho do luto. \u00c9 preciso contar e recontar nossas experi\u00eancias individuais com a Covid-19, e elaborar coletivamente seus sentidos pol\u00edticos e sociais, e as marcas da pandemia na nossa hist\u00f3ria: construir a mem\u00f3ria do trauma. S\u00f3 assim \u00e9 poss\u00edvel reelaborar e recriar &#8211; n\u00e3o h\u00e1 volta ao velho normal, e um novo no futuro s\u00f3 ser\u00e1 possibilidade se nos comprometermos com ele.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Esse comprometimento passa pelo resgate da pol\u00edtica, pelo entendimento de que <a href=\"http:\/\/latinoamerica21.com\/br\/o-isolamento-do-brasil-na-luta-contra-a-covid-19\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">pol\u00edticas p\u00fablicas, discursos e decis\u00f5es pol\u00edticas importam<\/a>. A constru\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria ou o esquecimento \u00e9 uma decis\u00e3o pol\u00edtica e coletiva, que ficar\u00e1 tatuada no corpo social.<\/p>\n\n\n\n<p>Que o Brasil n\u00e3o esque\u00e7a. Nossas v\u00edtimas e \u00f3rf\u00e3os precisar\u00e3o de mais do que acesso a um aux\u00edlio pecuni\u00e1rio para reconstru\u00edrem suas vidas. Muitas crian\u00e7as brasileiras neste momento est\u00e3o enlutadas, ainda mais vulnerabilizadas, vivendo em incerteza quanto ao futuro em decorr\u00eancia da pandemia. Quem cuidar\u00e1 delas? Como far\u00e3o o trabalho do luto? Quantas precisar\u00e3o passar por processos de ado\u00e7\u00e3o? Quantas sequer ter\u00e3o a chance da ado\u00e7\u00e3o? O que ser\u00e1 do nosso futuro enquanto sociedade se as suas (nossas) dores forem silenciadas?<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 um n\u00famero desconhecido e silenciado nesta trag\u00e9dia do Coronav\u00edrus: os \u00f3rf\u00e3os. Cerca de 113.000 crian\u00e7as perderam seu pai, sua m\u00e3e ou ambos. \u00c9 responsabilidade da sociedade e do Estado acolh\u00ea-las. <\/p>\n","protected":false},"author":166,"featured_media":7936,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"episode_type":"","audio_file":"","cover_image":"","cover_image_id":"","duration":"","filesize":"","filesize_raw":"","date_recorded":"","explicit":"","block":"","itunes_episode_number":"","itunes_title":"","itunes_season_number":"","itunes_episode_type":"","footnotes":""},"categories":[16785,546],"tags":[],"gps":[],"class_list":{"0":"post-7938","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-covid-19-es-pt-br","8":"category-sociedad-br"},"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7938","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/166"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7938"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7938\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/7936"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7938"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7938"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7938"},{"taxonomy":"gps","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/gps?post=7938"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}