{"id":8056,"date":"2021-11-06T09:00:00","date_gmt":"2021-11-06T12:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/latinoamerica21.com\/?p=8056"},"modified":"2021-11-05T20:06:26","modified_gmt":"2021-11-05T23:06:26","slug":"latino-americanizar-a-cuba","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/latino-americanizar-a-cuba\/","title":{"rendered":"Latino-americanizar a Cuba"},"content":{"rendered":"\n<p><strong><em>Coautor Armando Chaguaceda Noriega<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O universo de an\u00e1lises e opini\u00f5es sobre Cuba na Am\u00e9rica Latina oscila entre a incompreens\u00e3o, a aus\u00eancia e a romantiza\u00e7\u00e3o. Para alguns, os cubanos s\u00e3o &#8220;muito raros&#8221; e n\u00e3o podem ser compreendidos em nenhuma das categorias habituais das ci\u00eancias sociais. Segundo outros, se trata de &#8220;uma pequena ilha insignificante&#8221; que n\u00e3o vale a pena analisar. N\u00e3o falta quem idealiza o &#8220;modelo cubano&#8221; como &#8220;uma democracia diferente, superior e popular&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas o caso cubano \u00e9 perfeitamente compreens\u00edvel, analis\u00e1vel e compar\u00e1vel em rela\u00e7\u00e3o ao contexto regional. A maioria das democracias latino-americanas est\u00e1 limitada pela viol\u00eancia criminal, pela desigualdade social e pela corrup\u00e7\u00e3o pol\u00edtica de suas elites, mas na regi\u00e3o o povo muda periodicamente seus governantes, se organiza, se expressa e protesta para influenciar a pol\u00edtica governamental. Desde o fim das ditaduras militares de direita, os cidad\u00e3os mudaram a composi\u00e7\u00e3o de seus governos e a orienta\u00e7\u00e3o de suas pol\u00edticas. A altern\u00e2ncia de governos (e as ondas) neoliberais e progressistas demonstram isso.<\/p>\n\n\n\n<p>Cuba, por sua vez, vive h\u00e1 61 anos sob um regime pol\u00edtico de estilo sovi\u00e9tico &#8211; hoje em uma fase p\u00f3s-totalit\u00e1ria &#8211; que consagra o governo de partido \u00fanico, a ideologia estatal, o controle estatal da economia, da educa\u00e7\u00e3o e dos meios de comunica\u00e7\u00e3o de massa, <a href=\"http:\/\/latinoamerica21.com\/es\/cuba-y-la-eterna-primavera-negra\/\">bem como a a\u00e7\u00e3o generalizada de uma poderosa pol\u00edcia pol\u00edtica como elementos de controle social<\/a>. Tal regime n\u00e3o tem admitido nem uma transi\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica nem importantes mudan\u00e7as intrassist\u00eamicas.<\/p>\n\n\n\n<p>Na Am\u00e9rica Latina, as elites est\u00e3o ideologicamente divididas entre setores conservadores, reformistas e radicais, assim como entre segmentos empresariais e pol\u00edticos. Elas se confrontam na arena pol\u00edtica, com disputas e alian\u00e7as com os setores m\u00e9dios e populares. Em Cuba, &#8220;a elite&#8221; \u00e9 fundida dentro de um grupo social e de um aparelho estatal que \u00e9, por sua onipresen\u00e7a, o principal respons\u00e1vel pela viol\u00eancia, desigualdade e corrup\u00e7\u00e3o. Nem mesmo as diferen\u00e7as de agenda que podem existir dentro dela podem ser expressas, impedindo a cidadania de escolher at\u00e9 mesmo entre diferentes modos de governan\u00e7a autorit\u00e1ria. O sujeito popular, t\u00e3o invocado pelo socialismo, est\u00e1 mais desprovido de poder em Cuba &#8211; no direito de reivindicar seus direitos sociais, econ\u00f4micos, culturais, civis e pol\u00edticos &#8211; do que na maioria das na\u00e7\u00f5es vizinhas.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa ordem autorit\u00e1ria foi abalada no dia <a href=\"http:\/\/latinoamerica21.com\/es\/el-despertar-cubano-manifestaciones-versus-discursos\/\">11 de julho (11J) durante os maiores protestos da hist\u00f3ria de Cuba<\/a>. O pano de fundo destes protestos foi uma grave crise, que combinou o colapso do modelo econ\u00f4mico estatal, o impacto brutal da pandemia e as san\u00e7\u00f5es dos EUA. A tudo isso se somou a tarefa de <em>Ordenamento<\/em> econ\u00f4mico, uma esp\u00e9cie de pol\u00edtica de ajuste estrutural que exacerbou as condi\u00e7\u00f5es de pobreza, desigualdade e escassez, enquanto que o governo favoreceu a acumula\u00e7\u00e3o de moeda estrangeira &#8211; abrindo lojas que vendem bens de primeira necessidade em d\u00f3lares &#8211; <a href=\"https:\/\/www.dw.com\/es\/protestas-en-cuba-por-culpa-del-bloqueo-estadounidense\/a-58262398\">e realizando uma expans\u00e3o dos investimentos imobili\u00e1rios<\/a> que foi 50 vezes &#8211; segundo fontes oficiais &#8211; maior que os gastos sociais.<\/p>\n\n\n\n<p>Embora ap\u00f3s os protestos o Estado mantenha o controle do pa\u00eds, a crise e os danos sociais continuam. As demonstra\u00e7\u00f5es de descontentamento, no espa\u00e7o p\u00fablico f\u00edsico e virtual, continuam ininterruptas. Existe uma diversidade de grupos organizados para acompanhar os detentos e suas fam\u00edlias; para defender agendas espec\u00edficas (incluindo direitos LGBT, diante da discuss\u00e3o e consulta do novo C\u00f3digo de Fam\u00edlia); para exigir o di\u00e1logo com as autoridades e defender direitos utilizando inst\u00e2ncias formais. Os protestos abalaram a ideia de um povo geneticamente incapaz de reclamar com seus governantes. <a href=\"http:\/\/latinoamerica21.com\/es\/el-fin-del-excepcionalismo-cubano\/\">Tamb\u00e9m o mito de uma <em>Revolu\u00e7\u00e3o<\/em> pura e eterna<\/a>, que dissolve as responsabilidades do Estado autorit\u00e1rio na falsa identifica\u00e7\u00e3o de povo\/governo\/partido \u00fanico.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A verdadeira Cuba versus a ilha ideal ou imaginada<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Nesta Cuba cada vez mais latino-americana existe tamb\u00e9m uma sociedade fragmentada e empobrecida. Dentro dela, surgiu a promessa de cidadania ativa. Artistas protestantes, jornalistas independentes, cat\u00f3licos leigos, trabalhadores, trabalhadores aut\u00f4nomos, camponeses, pessoas comuns e diversas. Diversidade que acompanha as fam\u00edlias dos presos, coleta ajuda humanit\u00e1ria, organiza vig\u00edlias em parques e igrejas, assina cartas e organiza protestos em ruas e delegacias de pol\u00edcia.<\/p>\n\n\n\n<p>A atitude do Estado cubano p\u00f3s-11J est\u00e1 em conson\u00e2ncia com a de outros governos autorit\u00e1rios &#8211; Nicar\u00e1gua, Birm\u00e2nia, Venezuela ou Belarus &#8211; que criminalizam as exig\u00eancias de seus cidad\u00e3os. Mais de 1.100 cidad\u00e3os est\u00e3o sendo processados atualmente por causa dos protestos. Destes, <a href=\"https:\/\/docs.google.com\/spreadsheets\/d\/1-38omFpJdDiKTSBoUOg19tv2nJxtNRS3-2HfVUUwtSw\/edit#gid=1670367981\">mais de 500 ainda est\u00e3o na pris\u00e3o, incluindo mulheres e afrodescendentes, a maioria deles de origem pobre<\/a>. <a href=\"https:\/\/docs.google.com\/spreadsheets\/d\/1-38omFpJdDiKTSBoUOg19tv2nJxtNRS3-2HfVUUwtSw\/edit#gid=1670367981\">Alguns s\u00e3o menores de idade<\/a>. O crime de sedi\u00e7\u00e3o tem sido usado para atribuir senten\u00e7as de at\u00e9 15, 18 e 25 anos a pessoas que, atrav\u00e9s de protestos pac\u00edficos, exigiam direitos b\u00e1sicos. A <a href=\"https:\/\/www.amnesty.org\/es\/latest\/press-release\/2021\/10\/cuba-rejection-request-protest-another-example-intolerance-freedom-expression\/\">Anistia Internacional<\/a>, entre outras organiza\u00e7\u00f5es, monitora e documenta a repress\u00e3o em curso. Em resposta ao an\u00fancio de uma nova manifesta\u00e7\u00e3o em 15 de novembro, um protesto pac\u00edfico pela liberta\u00e7\u00e3o dos presos pol\u00edticos e o fim da viol\u00eancia pol\u00edtica, o governo cubano respondeu com mais repress\u00e3o, ass\u00e9dio e desqualifica\u00e7\u00e3o de seus cr\u00edticos.<\/p>\n\n\n\n<p>As elites cubanas falharam em sua promessa <em>revolucion\u00e1ria<\/em>. Elas tamb\u00e9m falharam em sua gest\u00e3o <em>reformista<\/em> da crise nacional. Articuladas em um <a href=\"https:\/\/ethic.es\/2016\/04\/por-que-fracasan-los-paises\/\">modelo extrativo de domina\u00e7\u00e3o, explora\u00e7\u00e3o e acumula\u00e7\u00e3o<\/a>, a meio caminho entre o socialismo burocr\u00e1tico e o capitalismo de Estado, seu car\u00e1ter se tornou reacion\u00e1rio. <a href=\"http:\/\/latinoamerica21.com\/es\/la-libreta-de-racionamiento-cubana-no-garantiza-el-derecho-a-laalimentacion\/\">Hoje elas n\u00e3o t\u00eam mais nada a oferecer ao seu pr\u00f3prio povo<\/a>, nem s\u00e3o um exemplo a ser seguido pelas sociedades latino-americanas. O regime cubano deve ser avaliado com o mesmo rigor anal\u00edtico e c\u00edvico com o qual revisamos o desempenho &#8211; em termos de desenvolvimento, inclus\u00e3o e liberdades &#8211; de outros pa\u00edses da regi\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Em contraste com o mantra do velho modelo sovi\u00e9tico &#8211; que defendia a crescente prosperidade e homogeneiza\u00e7\u00e3o da sociedade socialista desenvolvida &#8211; Cuba \u00e9 hoje uma na\u00e7\u00e3o cada vez mais pobre, desigual e conflitiva. Os cubanos demonstraram que n\u00e3o s\u00e3o antropologicamente diferentes de outros latino-americanos: eles tamb\u00e9m t\u00eam reivindica\u00e7\u00f5es e direitos, que afirmam como e quando podem, apesar da criminaliza\u00e7\u00e3o permanente de seu estado policial.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 importante, portanto, deixar de ver a ilha como uma incompreens\u00edvel excepcionalidade ou, pior ainda, <a href=\"https:\/\/www.programacuba.com\/entrevista-a-claudia-hilb\">como uma utopia luminosa<\/a>. O povo e a sociedade cubanos n\u00e3o s\u00e3o intraduz\u00edveis aos l\u00e9xicos da pol\u00edtica e das ci\u00eancias sociais latino-americanas. A \u00fanica anomalia no caso cubano, <a href=\"https:\/\/www.teseopress.com\/contrapuntos\/chapter\/20-america-latina-entre-la-democracia-la-autocracia-y-el-fin-del-consenso-democratico\/\">neste (ainda) continente formalmente democr\u00e1tico<\/a>, \u00e9 a natureza autocr\u00e1tica do regime atual.<\/p>\n\n\n\n<p><em><sub>Cientista pol\u00edtico e historiador. Especializado no estudo dos processos de democratiza\u00e7\u00e3o e autocratiza\u00e7\u00e3o, bem como das rela\u00e7\u00f5es entre o Estado e a sociedade civil, com especial aten\u00e7\u00e3o aos casos de Cuba, M\u00e9xico, Nicar\u00e1gua e Venezuela. Tem estudado processos pol\u00edticos na R\u00fassia p\u00f3s-sovi\u00e9tica, bem como seus v\u00ednculos geopol\u00edticos com a Am\u00e9rica Latina.<\/sub><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Co-autor Armando Chaguaceda<br \/>\nDevemos deixar de ver a ilha como uma incompreens\u00edvel excepcionalidade ou, pior ainda, como uma utopia luminosa. A sociedade cubana n\u00e3o \u00e9 intraduz\u00edvel para os l\u00e9xicos da pol\u00edtica latino-americana. 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