{"id":8105,"date":"2021-11-08T09:00:00","date_gmt":"2021-11-08T12:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/latinoamerica21.com\/?p=8105"},"modified":"2021-11-07T19:00:43","modified_gmt":"2021-11-07T22:00:43","slug":"maioria-imaginaria-crise-e-tentativas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/maioria-imaginaria-crise-e-tentativas\/","title":{"rendered":"Maioria imagin\u00e1ria, crise e tentativas autorit\u00e1rias no Equador"},"content":{"rendered":"\n<p>Guillermo Lasso est\u00e1 vivendo um momento de turbul\u00eancia pol\u00edtica cuja intensidade poderia mergulhar o Equador em uma incerteza extrema. Se seus problemas de governabilidade podiam ser previstos a partir da vota\u00e7\u00e3o obtida pelo seu partido em fevereiro de 2021 (CREO tem 12 dos 137 assentos), os outros aspectos da situa\u00e7\u00e3o eram menos previs\u00edveis e se referem a suas pr\u00f3prias limita\u00e7\u00f5es governamentais. A forma como ele processe este impasse vai determinar se a direita continua no caminho da radicaliza\u00e7\u00e3o e do fechamento democr\u00e1tico, verificado no mandato de quatro anos de Lenin Moreno (2017-2021), ou se cumpre a promessa de respeitar a Rep\u00fablica que o ex-banqueiro fez em sua recente posse.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Crise ampliada<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Diante dos <a href=\"https:\/\/www.bbc.com\/mundo\/noticias-america-latina-58748756\">massacres carcer\u00e1rios que est\u00e3o sacudindo o pa\u00eds<\/a>, o Executivo nem mesmo conseguiu identificar os respons\u00e1veis pelo horror. A ideia de um <em>gabinete pouco eficiente<\/em> est\u00e1 se espalhando. Ap\u00f3s um r\u00e1pido aumento &#8211; <a href=\"http:\/\/latinoamerica21.com\/es\/la-vacunacion-amaina-la-tormenta-en-ecuador\/\">devido ao progresso acelerado da campanha de vacina\u00e7\u00e3o contra a COVID-19<\/a> &#8211; o presidente sofreu uma queda dr\u00e1stica de popularidade apenas cinco meses depois de seu mandato. O r\u00e1pido empobrecimento, a queda do poder aquisitivo, o superendividamento das fam\u00edlias, a crise migrat\u00f3ria e a crescente inseguran\u00e7a, s\u00e3o problemas prementes que o governo s\u00f3 parece encarar com a refer\u00eancia ao passado (culpando o ex-presidente Rafael Correa).<\/p>\n\n\n\n<p>Mais do que o decl\u00ednio na avalia\u00e7\u00e3o social do poder, por\u00e9m, estamos testemunhando uma quebra das expectativas sobre o futuro e as possibilidades de mudan\u00e7a. A profundidade da crise social impede associar esse ceticismo cidad\u00e3o apenas \u00e0 desilus\u00e3o pol\u00edtica, mas sua r\u00e1pida implementa\u00e7\u00e3o no novo ciclo pol\u00edtico revela um <em>d\u00e9ficit de consenso social<\/em> diante de um governo no qual o projeto das classes dirigentes assume pretens\u00f5es refundadoras.<\/p>\n\n\n\n<p>Suas primeiras iniciativas de reforma estrutural provocaram uma imediata contesta\u00e7\u00e3o popular e v\u00e1rios dias de protesto, antes das <a href=\"http:\/\/latinoamerica21.com\/es\/los-pandora-papers-no-es-lo-mismo-ser-reina-que-peon\/\">revela\u00e7\u00f5es dos Pandora Papers<\/a>. Embora as suspeitas sobre Lasso como um evasor hist\u00f3rico de impostos n\u00e3o sejam novas, o esc\u00e2ndalo revelou um presidente intolerante e err\u00e1tico: ele confrontou a imprensa local que publicou a not\u00edcia, aludiu a uma conspira\u00e7\u00e3o de Soros &#8211; uma figura infal\u00edvel na narrativa global da extrema direita &#8211; e se recusou a prestar contas ao Parlamento depois de dizer que ele apareceria onde fosse necess\u00e1rio. O <em>descr\u00e9dito da palavra do presidente<\/em> ilumina um problema mais amplo de perda de legitimidade governamental.<\/p>\n\n\n\n<p>Governan\u00e7a prec\u00e1ria, gest\u00e3o ineficiente, eros\u00e3o do consenso e deslegitima\u00e7\u00e3o acelerada condensam, por enquanto, a crise pol\u00edtica precoce de um governo que, apoiado pelo estabelecimento e pelo poder da m\u00eddia, n\u00e3o imaginava nada al\u00e9m da aclama\u00e7\u00e3o imediata do reformismo empresarial que representa.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Motivos da desilus\u00e3o<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"http:\/\/latinoamerica21.com\/es\/la-eleccion-de-ecuador-y-los-corsi-y-recorsi-de-la-politica-latinoamericana\/\">Entre o primeiro e o segundo turno das elei\u00e7\u00f5es presidenciais<\/a>,&nbsp; Lasso aumentou 32 pontos. Seu oponente, a metade. A Revolu\u00e7\u00e3o Cidad\u00e3 (RC) perdeu suas primeiras elei\u00e7\u00f5es presidenciais em 15 anos. O \u00e9pico retorno elevou o novo presidente ao p\u00f3dio dos her\u00f3is anti-populistas. Os mercados financeiros celebravam (o risco-pa\u00eds caiu 345 pontos). A grande imprensa estava euf\u00f3rica: finalmente, o pa\u00eds era &#8220;vi\u00e1vel&#8221;, um &#8220;Equador melhor&#8221;. A aclama\u00e7\u00e3o inabal\u00e1vel da Lasso pela opini\u00e3o dominante, e sua clara vit\u00f3ria no segundo turno, parecia implantar a ideia de que, com o fim das elei\u00e7\u00f5es, o conflito pol\u00edtico tamb\u00e9m estava encerrado. Tudo o que restava era que o presidente eleito realizasse o projeto hist\u00f3rico das elites, finalmente desbloqueado pelo voto dos cidad\u00e3os.<\/p>\n\n\n\n<p>A constru\u00e7\u00e3o quase imperial de seu mandato explicaria por que Lasso esqueceu sua promessa de forjar um &#8220;governo do encontro&#8221;. Esta tese surgiu ap\u00f3s sua escassa vota\u00e7\u00e3o (20%) no primeiro turno. Ele aludiu ao imperativo de despolarizar o pa\u00eds e gerar conflu\u00eancias governamentais. Isto o obrigou, antes da vota\u00e7\u00e3o, a mostrar que estava se movendo da extrema direita para o centro pol\u00edtico, onde as prefer\u00eancias estavam concentradas. Apesar de ser membro do Opus Dei, ele at\u00e9 adotou algumas teses do movimento de mulheres. A reformula\u00e7\u00e3o virtual de sua identidade pol\u00edtica persuadiu os indecisos e impulsionou sua vit\u00f3ria. A promessa de mudan\u00e7a que Lasso carregava veio a conter a promessa de modificar sua pr\u00f3pria for\u00e7a. O abandono de tal op\u00e7\u00e3o multiplicou as decep\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>Logo que Lasso tomou posse, ele come\u00e7ou a operar como se o \u00fanico n\u00famero que condensa a representa\u00e7\u00e3o nacional fosse os 52,5% que o elegeram. A partir desta <em>maioria imagin\u00e1ria<\/em>, o governo se retira em seu pr\u00f3prio espa\u00e7o, reafirma seus extremos e se sente satisfeito com os fatores do poder real. Entre a superestima\u00e7\u00e3o da for\u00e7a popular e a avalia\u00e7\u00e3o &#8211; realista &#8211; de que os poderes factuais (grupos econ\u00f4micos, militares, m\u00eddia, embaixadas) apoiam seu governo, o presidente est\u00e1 agora brincando de contornar as institui\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas.<\/p>\n\n\n\n<p>A cria\u00e7\u00e3o do gabinete marcou um primeiro ponto de inflex\u00e3o. Lasso rodeou-se dos profissionais libert\u00e1rios que est\u00e3o com ele h\u00e1 muito tempo desde sua <a href=\"https:\/\/www.ecuadorlibre.org\/\">Fundaci\u00f3n Ecuador Libre<\/a> e do antigo partido democrata-crist\u00e3o com o qual coabitava como funcion\u00e1rio do ex-presidente Jamil Mahuad (1998-2000). Nenhum espa\u00e7o de decis\u00e3o relevante foi confiado a poss\u00edveis aliados. Ele tamb\u00e9m quebrou com seu parceiro eleitoral, o Partido Social Crist\u00e3o (PSC) de Jaime Nebot, o poderoso ex-prefeito de Guayaquil. Ao fazer isso, ele fragmentou a j\u00e1 heterog\u00eanea fam\u00edlia da direita crioula e se alienou de sua express\u00e3o mais realista e experiente na administra\u00e7\u00e3o do Estado.<\/p>\n\n\n\n<p>O primeiro megaprojeto do regime revelou seu dogmatismo. Entre outras quest\u00f5es, a <a href=\"https:\/\/www.elcomercio.com\/actualidad\/negocios\/puntos-claves-reforma-laboral-gobierno.html\">norma procura desvincular trabalho e direitos<\/a>. A reforma prop\u00f5e que duas pessoas que realizam trabalhos semelhantes sejam contratadas de maneiras diferentes &#8211; cria-se um regime de trabalho paralelo que ignora direitos; permite que a jornada de trabalho seja aumentada para 12 horas; reconhece estabilidade somente ap\u00f3s o quarto ano de emprego; introduz a figura da &#8220;demiss\u00e3o justa&#8221; e at\u00e9 sugere que o trabalhador deve compensar o empregador em certos casos.<\/p>\n\n\n\n<p>A re-centraliza\u00e7\u00e3o do governo foi uma opera\u00e7\u00e3o de campanha. Nem mesmo os entendimentos com Pachakutik (partido ligado ao movimento ind\u00edgena) e Izquierda Democr\u00e1tica (com ra\u00edzes social-democratas, hoje uma &#8220;manta de retalhos&#8221;), para controlar a Assembleia, n\u00e3o suavizaram a postura do partido no poder. Em meio a pedidos de di\u00e1logo com partidos e organiza\u00e7\u00f5es populares, o Executivo apresentou um <a href=\"https:\/\/www.finanzas.gob.ec\/proforma-enviada-2022-30-de-octubre-de-2021\/\">or\u00e7amento proforma (2022)<\/a> que amplia os cortes na previd\u00eancia social, sa\u00fade e educa\u00e7\u00e3o; antecipa demiss\u00f5es de funcion\u00e1rios p\u00fablicos e privatiza\u00e7\u00e3o de bens p\u00fablicos; e prioriza o pagamento de d\u00edvidas. Sem considerar a cat\u00e1strofe sanit\u00e1ria e a precariedade da vida vivida desde 2020, Lasso persiste com a agenda que as provocou. O impulso radical da direita \u00e9 insepar\u00e1vel do uso pol\u00edtico da crise para aprofundar a desigualdade.<\/p>\n\n\n\n<p>A recusa da Assembleia em lidar com o megaprojeto do Executivo, devido a falhas formais, e o an\u00fancio de mobiliza\u00e7\u00f5es explodiram a bolha. Aplaudir o presidente n\u00e3o \u00e9 mais a \u00fanica m\u00fasica de fundo. Incomodado, Lasso acusou Nebot, Correa e Leonidas Iza (presidente da Confedera\u00e7\u00e3o de Nacionalidades Ind\u00edgenas do Equador-CONAIE) de conspira\u00e7\u00e3o. Anteriormente, ele associou os protestos \u00e0 desestabiliza\u00e7\u00e3o. Com uma Procuradoria fiel, tudo isso assume um car\u00e1ter extorsionista. Esta institui\u00e7\u00e3o, de fato, convocou a Iza para comparecer exatamente quando a Greve Nacional estava come\u00e7ando (no final de outubro). Pouco antes disso, abriu um inqu\u00e9rito a Andr\u00e9s Arauz (ex-candidato presidencial da RC), um cr\u00edtico ativo das contas presidenciais offshore.<\/p>\n\n\n\n<p>A insist\u00eancia da narrativa pr\u00f3-governamental em descrever qualquer a\u00e7\u00e3o de oposi\u00e7\u00e3o como um bloqueio est\u00e1 come\u00e7ando a estabelecer um duplo padr\u00e3o de avalia\u00e7\u00e3o nas institui\u00e7\u00f5es de controle. Seu sil\u00eancio sobre Lasso e os Pandora Papers revelaria at\u00e9 que ponto a direita equatoriana enfrenta a situa\u00e7\u00e3o atual aceitando os poderes reais e com um m\u00ednimo de aten\u00e7\u00e3o \u00e0 reconstru\u00e7\u00e3o de verdadeiras maiorias democr\u00e1ticas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O presidente est\u00e1 passando por um per\u00edodo de turbul\u00eancia pol\u00edtica cuja intensidade pode mergulhar o Equador em extrema incerteza. 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