{"id":8490,"date":"2021-12-10T09:00:00","date_gmt":"2021-12-10T12:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/latinoamerica21.com\/?p=8490"},"modified":"2021-12-09T10:43:36","modified_gmt":"2021-12-09T13:43:36","slug":"guillermo-lasso-e-seus-demonios","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/guillermo-lasso-e-seus-demonios\/","title":{"rendered":"Guillermo Lasso e seus dem\u00f4nios"},"content":{"rendered":"\n<p>Antes de iniciar seu mandato como presidente do Equador, Guillermo Lasso j\u00e1 era politicamente fraco. Ele <a href=\"http:\/\/latinoamerica21.com\/es\/lasso-rompe-tendencia-de-14-anos-en-ecuador\/\">chegou com um voto emprestado, venceu no primeiro turno com uma margem t\u00e3o pequena que foi por si s\u00f3 suspeita<\/a>, fez um acordo ideol\u00f3gico com um aliado natural, o Partido Social Crist\u00e3o, que nunca confiou nele e n\u00e3o tinha partido, mesmo que tivesse dinheiro sobrando para a campanha. Duas raz\u00f5es mais profundas conspiraram contra seu programa econ\u00f4mico e social conservador. Nas pesquisas e no parlamento, prevaleceram movimentos pol\u00edticos que mantiveram uma ret\u00f3rica distante das pol\u00edticas de ajuste neoliberal, tanto entre os partid\u00e1rios do ex-presidente Rafael Correa quanto no poderoso movimento ind\u00edgena Pachakutik, que historicamente tem mantido uma agenda pol\u00edtica radical.<\/p>\n\n\n\n<p>Nas ruas, a <a href=\"http:\/\/latinoamerica21.com\/es\/el-paro-de-octubre-y-la-violencia-en-ecuador\/\">vigorosa revolta de outubro de 2019<\/a> contra as medidas draconianas de ajuste econ\u00f4mico acordadas por Lenin Moreno com o Fundo Monet\u00e1rio Internacional havia mostrado que a margem de manobra para reduzir o d\u00e9ficit fiscal com medidas tipicamente impopulares, tais como o aumento do pre\u00e7o dos servi\u00e7os b\u00e1sicos, era bastante estreita.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Um presidente em apuros<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O problema subjacente \u00e9 que a <a href=\"https:\/\/americasquarterly.org\/article\/the-ups-and-downs-of-guillermo-lasso\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">agenda econ\u00f4mica neoliberal<\/a> \u00e9 dificilmente aceit\u00e1vel. Ela assume que as empresas precisam pagar menos impostos e sofrer menos regulamenta\u00e7\u00e3o para crescer; enquanto, ao mesmo tempo, as classes trabalhadoras devem ter menos seguran\u00e7a e estabilidade para trabalhar com efici\u00eancia. Para que os ricos trabalhem, pague-lhes mais; para que os pobres trabalhem, pague-lhes menos. N\u00e3o \u00e9 uma p\u00edlula f\u00e1cil de engolir. N\u00e3o apenas no Equador.<\/p>\n\n\n\n<p>Muitas vezes, as mais rigorosas agendas neoliberais foram implementadas pela for\u00e7a, sem delibera\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica, ou foram o resultado de um giro pragm\u00e1tico dos governantes que venceram elei\u00e7\u00f5es com um discurso muito diferente. O neoliberalismo exacerbou as desigualdades econ\u00f4micas, porque essa \u00e9 precisamente sua suposi\u00e7\u00e3o. Os mais bem-sucedidos sobrevivem e prosperam, e recebem a recompensa que merecem. Os demais pagam o pre\u00e7o da inefici\u00eancia e v\u00e3o \u00e0 fal\u00eancia. Tamb\u00e9m merecidamente. Medidas compensat\u00f3rias tempor\u00e1rias, tais como transfer\u00eancias condicionadas e direcionadas, procuram evitar resultados demasiado extremos entre aqueles que falham; enquanto a educa\u00e7\u00e3o deve servir para melhorar gradualmente a competitividade das novas gera\u00e7\u00f5es de trabalhadores menos capazes.<\/p>\n\n\n\n<p>Em certas circunst\u00e2ncias mais ou menos excepcionais, este tipo de racioc\u00ednio e l\u00f3gica pol\u00edtica ganha mais seguidores do que o habitual, variando de 20 a 30% do eleitorado na Am\u00e9rica Latina. No Equador, tais circunst\u00e2ncias excepcionais n\u00e3o se verificaram. Guillermo Lasso, portanto, de m\u00e3os e p\u00e9s atados, foi for\u00e7ado a adiar ou moderar suas aspira\u00e7\u00f5es de impor tal agenda.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele apresentou \u00e0 Assembleia uma reforma trabalhista flexibilizadora, rejeitada pela esquerda, juntamente com uma reforma fiscal muito t\u00edmida e redistributiva, contestada por seus aliados da direita. Ele decidiu ent\u00e3o apresentar apenas a reforma tribut\u00e1ria, esperando que uma maioria parlamentar hostil aceitasse aumentos de impostos em tempos de crise. No momento de escrever, esta segunda tentativa parece ter recebido o apoio velado do Corre\u00edsmo para que pudesse entrar em vigor sem ser negada ou aceita pelo Parlamento. Uma vit\u00f3ria relativa.<\/p>\n\n\n\n<p>Desacreditado pelas revela\u00e7\u00f5es dos <a href=\"http:\/\/latinoamerica21.com\/es\/los-pandora-papers-no-es-lo-mismo-ser-reina-que-peon\/\"><em>Pandora Papers<\/em><\/a> que mostraram que ele mant\u00e9m parte de sua fortuna no exterior, embora a quantia de dinheiro que levou para o exterior ainda n\u00e3o tenha sido revelada &#8211; seu programa econ\u00f4mico exige investimento estrangeiro e nacional &#8211; <a href=\"http:\/\/latinoamerica21.com\/es\/mayoria-imaginaria-crisis-y-tentativas-autoritarias-en-ecuador\/\">Lasso reagiu acusando seus detratores de fazer parte de uma conspira\u00e7\u00e3o internacional<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo ele, seu antigo aliado de direita Jaime Nebot, assim como seus advers\u00e1rios Rafael Correa e o presidente da Confedera\u00e7\u00e3o de Nacionalidades Ind\u00edgenas do Equador (CONAIE), Leonidas Iza, fizeram parte do acordo para desacredit\u00e1-lo. A verdade \u00e9 que n\u00e3o importa o perfil do governo; as teorias da conspira\u00e7\u00e3o est\u00e3o presentes nos mandatos de todos os governantes assombrados pelos desastres criados por sua pr\u00f3pria incompet\u00eancia: de Nicol\u00e1s Maduro a Jair Bolsonaro e Guillermo Lasso.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o deve ser surpresa se ele logo acusa de conspira\u00e7\u00e3o pol\u00edtica aqueles que perpetraram os recentes massacres nas pris\u00f5es, que pela primeira vez na hist\u00f3ria do Equador significaram a morte de quase 300 prisioneiros em um ano.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Rumo \u00e0 recupera\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica e de um projeto nacional<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Existe alguma alternativa? O governo parece estar em um impasse. Ele perdeu aliados \u00e0 direita e s\u00f3 semeia desconfian\u00e7a \u00e0 esquerda. N\u00e3o pode esperar convocar um referendo: sobre que assunto? um aumento de impostos? sobre a gasolina? uma reforma trabalhista que facilite demiss\u00f5es e contrata\u00e7\u00f5es por hora? Algu\u00e9m acha que tem alguma chance de vencer?<\/p>\n\n\n\n<p>Tamb\u00e9m n\u00e3o parece vi\u00e1vel recorrer \u00e0 chamada disposi\u00e7\u00e3o constitucional de &#8220;morte cruzada&#8221;, pela qual o parlamento \u00e9 dissolvido e novas elei\u00e7\u00f5es s\u00e3o convocadas. Todas as previs\u00f5es sugerem uma derrota esmagadora na eventualidade de se recorrer a tal op\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>A \u00fanica alternativa politicamente vi\u00e1vel \u00e9 uma mudan\u00e7a radical em sua agenda econ\u00f4mica e social. Aproveitando o aumento dos pre\u00e7os do petr\u00f3leo, certos empr\u00e9stimos internacionais cujos custos est\u00e3o caindo precisamente devido ao aumento dos pre\u00e7os, e outras medidas talvez mais pr\u00f3ximas de sua agenda neoliberal (por exemplo, a venda de propriedades p\u00fablicas lucrativas destinadas a favorecer os compradores), ele poderia fazer uma poderosa inje\u00e7\u00e3o de fundos p\u00fablicos na economia para reativ\u00e1-la.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele poderia apelar para uma medida contrac\u00edclica t\u00edpica em tempos de recess\u00e3o, facilitando a circula\u00e7\u00e3o do dinheiro para reativar o consumo e aumentar a taxa de investimento. Obras p\u00fablicas, transporte, setor imobili\u00e1rio e turismo interno (at\u00e9 que o turismo internacional recomece).<\/p>\n\n\n\n<p>A atual desvaloriza\u00e7\u00e3o do d\u00f3lar na economia internacional oferece outro espa\u00e7o para respirar. Em uma economia dolarizada, a produ\u00e7\u00e3o interna fica mais barata, as exporta\u00e7\u00f5es se tornam mais competitivas, o pre\u00e7o das mat\u00e9rias primas que o pa\u00eds exporta tende a subir e a drenagem de d\u00f3lares de importa\u00e7\u00f5es baratas nos pa\u00edses vizinhos perde intensidade.<\/p>\n\n\n\n<p>O contexto internacional oferece uma oportunidade para empreender uma pol\u00edtica agressiva de reativa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica e reconstruir sua credibilidade interna prejudicada. Mas isso significa abandonar os dogmas da austeridade e da m\u00ednima interven\u00e7\u00e3o p\u00fablica na economia.<\/p>\n\n\n\n<p>Tem sido muito mais comum ver candidatos heterodoxos sofrerem uma convers\u00e3o para a ortodoxia econ\u00f4mica neoliberal (Menem, Fujimori, Cardoso, Alan Garc\u00eda, Paz Estenssoro). Poderia Guillermo Lasso ser o primeiro candidato neoliberal a se converter ao keynesianismo numa \u00e9poca em que pacotes de est\u00edmulo ao consumo interno, gastos p\u00fablicos e produ\u00e7\u00e3o nacional est\u00e3o na ordem do dia em todo o mundo? Custa pouco para sonhar.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O contexto internacional oferece uma oportunidade para empreender uma pol\u00edtica agressiva de reativa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica e reconstruir sua credibilidade interna prejudicada. 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