{"id":8755,"date":"2021-12-30T09:00:00","date_gmt":"2021-12-30T12:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/latinoamerica21.com\/?p=8755"},"modified":"2021-12-30T10:15:34","modified_gmt":"2021-12-30T13:15:34","slug":"desafios-da-pandemia-para-o-futuro-nas-ciencias-sociais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/desafios-da-pandemia-para-o-futuro-nas-ciencias-sociais\/","title":{"rendered":"Desafios da pandemia para o futuro nas Ci\u00eancias Sociais"},"content":{"rendered":"\n<p><strong><em>Co-autora Mariana Chaguri<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m de contratempos de reorganiza\u00e7\u00e3o das intera\u00e7\u00f5es e perdas inestim\u00e1veis de vidas, a Covid-19 trouxe um rev\u00e9s particular ao interior das comunidades acad\u00eamicas: <a href=\"http:\/\/latinoamerica21.com\/br\/somos-uma-regiao-desigual-e-discriminatoria\/\">o aumento das desigualdades<\/a>. Altera\u00e7\u00f5es nos locais de trabalho, impedimentos de circula\u00e7\u00e3o, cancelamento de eventos cient\u00edficos, adiamento de concursos e editais de pesquisa, s\u00e3o alguns dos fatores que podem ser salientados na conjuntura global. Associado a isso, em pa\u00edses como o Brasil, uma pol\u00edtica de Ci\u00eancia, Tecnologia e Inova\u00e7\u00e3o (CT&amp;I) baseada no <a href=\"http:\/\/portal.sbpcnet.org.br\/noticias\/cortes-na-ciencia-brasileira-atingem-o-meio-cientifico-como-fechamento-de-torneira-em-seca-de-sete-anos\/\">desfinanciamento<\/a>, no <a href=\"https:\/\/jornal.usp.br\/artigos\/a-quem-interessa-a-paralisacao-do-sistema-de-avaliacao-da-capes\/\">ass\u00e9dio institucional<\/a> e na <a href=\"https:\/\/www.abc.org.br\/2021\/04\/01\/perseguicao-a-cientistas-exige-respostas\/\">deslegitima\u00e7\u00e3o do conhecimento cient\u00edfico<\/a> aprofundaram disparidades previamente existentes e tornaram mais incertos os futuros profissionais de gera\u00e7\u00f5es rec\u00e9m egressas do ensino superior. Abordamos aqui danos que podem prejudicar a produ\u00e7\u00e3o intelectual nas Ci\u00eancias Sociais.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>\u00c1reas de pesquisa<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Embora a maioria dos cientistas declare ter sentido impactos negativos da pandemia nas rotinas de pesquisa, h\u00e1 discrep\u00e2ncias de acordo com variadas caracter\u00edsticas sociais. A primeira a ser ressaltada diz respeito \u00e0 disciplina de atua\u00e7\u00e3o. Se tomamos as Ci\u00eancias Sociais como par\u00e2metro, artigos sinalizam que <a href=\"http:\/\/www.sociologiaeantropologia.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/2_v11n-especial_MarciaR-DanusaM-VanessaO-FlaviaB.pdf\">antrop\u00f3logos(as) perceberam mais preju\u00edzos na condu\u00e7\u00e3o de investiga\u00e7\u00f5es do que soci\u00f3logos(as) e cientistas pol\u00edticos(as)<\/a>, algo manifesto tamb\u00e9m em <a href=\"https:\/\/papers.ssrn.com\/sol3\/papers.cfm?abstract_id=3623492\">dados sobre produtividade<\/a>. Os maiores inconvenientes \u00e0 Antropologia est\u00e3o relacionados aos m\u00e9todos de pesquisa predominantes na \u00e1rea, que foram severamente embarreirados pelas medidas de quarentena, como as pesquisas de campo, as etnografias e as observa\u00e7\u00f5es participantes.<\/p>\n\n\n\n<p>Isso n\u00e3o significa que cientistas pol\u00edticos e soci\u00f3logos n\u00e3o tenham experimentado dificuldades, mas sim que elas obtiveram intensidades diferenciadas e atributos que precisam ser conhecidos a fundo para que possamos pensar em solu\u00e7\u00f5es coletivas sens\u00edveis \u00e0s especificidades. O fato de antrop\u00f3logos relatarem mais entraves no per\u00edodo recente n\u00e3o traz somente um problema de distin\u00e7\u00e3o interno \u00e0s Ci\u00eancias Sociais. Indica, ademais, uma consequ\u00eancia que \u00e9 especialmente ruim para as mulheres. Em rela\u00e7\u00e3o ao trio Ci\u00eancia Pol\u00edtica, Sociologia e Antropologia, a \u00faltima concentra a maior propor\u00e7\u00e3o do g\u00eanero feminino em cargos de doc\u00eancia e pesquisa, <a href=\"https:\/\/doi.org\/10.15448\/1984-7289.2019.3.33488\">como estat\u00edsticas relativas \u00e0s universidades brasileiras demonstram<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>As mulheres<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Se as metodologias mais tradicionais de pesquisa em cada campo do conhecimento induziram a maiores ou menores penaliza\u00e7\u00f5es \u00e0s rotinas de trabalho durante a pandemia, esse n\u00e3o \u00e9 o \u00fanico item determinante nas assimetrias que se asseveraram nos \u00faltimos anos. As mulheres comp\u00f5em um dos grupos sociais que, <a href=\"https:\/\/www.frontiersin.org\/articles\/10.3389\/fpsyg.2021.663252\/full\">independentemente da disciplina de concentra\u00e7\u00e3o<\/a>, sofreram com as imensas mudan\u00e7as nas condi\u00e7\u00f5es de exerc\u00edcio da profiss\u00e3o de pesquisador(a).<\/p>\n\n\n\n<p>A transfer\u00eancia do regime presencial para o trabalho remoto ocasionou \u00e0s mulheres maior exaust\u00e3o e dificuldade de manter a produtividade frente \u00e0 sobrecarga com as atividades dom\u00e9sticas e de cuidado. A disparidade de divis\u00e3o de tempo entre os g\u00eaneros \u00e9 um fen\u00f4meno conhecido de longa data por pesquisadores(as) de desigualdades. Com a crise da Covid-19, por sua vez, a repercuss\u00e3o de tais din\u00e2micas assim\u00e9tricas provocou mais obstru\u00e7\u00f5es \u00e0 constru\u00e7\u00e3o de igualdade na produ\u00e7\u00e3o cient\u00edfica.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Nas Ci\u00eancias Sociais, \u00e9 poss\u00edvel apontar que as mulheres foram duplamente castigadas na Antropologia, seja por serem maioria na&nbsp;\u00e1rea e terem tido que enfrentar mais obst\u00e1culos \u00e0 condu\u00e7\u00e3o de seus m\u00e9todos de pesquisa, seja por estarem abarrotadas pelo trabalho de cuidado. Isto implicar\u00e1 um regresso na condi\u00e7\u00e3o de maior igualdade que a disciplina sustentava. Na Sociologia, \u00e9 poss\u00edvel conjecturar sobre a perda de certo equil\u00edbrio que existia entre homens e mulheres. E, por fim, na Ci\u00eancia Pol\u00edtica, que j\u00e1 obtinha maioria do g\u00eanero masculino, \u00e9 poss\u00edvel que encaremos ainda mais desigualdades.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A popula\u00e7\u00e3o negra<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A \u00e1rea de trabalho e o g\u00eanero de seus pesquisadores revelam adversidades espec\u00edficas. O mesmo ocorre com a vari\u00e1vel \u201cra\u00e7a\u201d. Em diversas partes do mundo, as pessoas brancas s\u00e3o as que mais lideram pesquisas e ocupam posi\u00e7\u00f5es institucionais de poder, assumindo preval\u00eancia nos variados campos cient\u00edficos. Os negros, por outro lado, costumam ser minoria na produ\u00e7\u00e3o de conhecimento e terem empecilhos singulares para a inser\u00e7\u00e3o na carreira de cientista.<\/p>\n\n\n\n<p>Vale pontuar que \u201cra\u00e7a\u201d \u00e9 uma dimens\u00e3o t\u00e3o relevante quanto \u201cg\u00eanero\u201d para estimar desigualdades. Mas as complica\u00e7\u00f5es para lidar com essa esfera de assimetrias da vida social s\u00e3o muitas. H\u00e1 diferen\u00e7as consistentes em como aferir tal vari\u00e1vel em distintas localidades do globo. E, muitas vezes, h\u00e1 tamb\u00e9m a pr\u00f3pria desconsidera\u00e7\u00e3o de sua import\u00e2ncia. No Brasil, por exemplo, a tentativa de levantar a discuss\u00e3o das desigualdades raciais entre os cientistas sociais esbarra na falta de obrigatoriedade de coleta de informa\u00e7\u00f5es sobre autodeclara\u00e7\u00e3o nos sistemas de avalia\u00e7\u00e3o de pesquisas, assim como na aus\u00eancia de transpar\u00eancia dos \u00f3rg\u00e3os p\u00fablicos.<\/p>\n\n\n\n<p>No contexto de pandemia, minorias em desvantagem v\u00eam acumulando mais infort\u00fanios e limita\u00e7\u00f5es para persistir na consolida\u00e7\u00e3o de trajet\u00f3rias na academia. Esse \u00e2mbito de trabalho exige dedica\u00e7\u00e3o de longo prazo e \u00e9, portanto, mais dif\u00edcil \u00e0queles que n\u00e3o prov\u00eam de classes sociais abastadas ou privilegiadas simbolicamente na sociedade.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>As gera\u00e7\u00f5es<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Comunidades cient\u00edficas s\u00e3o multigeracionais e o aprendizado entre pesquisadores em distintos est\u00e1gios de carreira \u00e9 marca fundamental da produ\u00e7\u00e3o e do avan\u00e7o do conhecimento especializado. Enquanto as desigualdades de g\u00eanero e ra\u00e7a j\u00e1 eram conhecidas nos meios acad\u00eamicos, as gera\u00e7\u00f5es em forma\u00e7\u00e3o ou tituladas em per\u00edodos pr\u00f3ximos ou em meio \u00e0 pandemia se defrontaram com aspectos at\u00e9 ent\u00e3o inimagin\u00e1veis, como a falta de conviv\u00eancia presencial em aulas e eventos, que facilitava a cria\u00e7\u00e3o de redes, ou a perda de espa\u00e7os usuais de estudo e desenvolvimento profissional. Os efeitos da pandemia associados a uma pol\u00edtica de CT&amp;I indutora de desigualdades abrem um horizonte dif\u00edcil para grupos geracionais especialmente atingidos por cortes no financiamento de pesquisas e pela inser\u00e7\u00e3o precarizada em atividades profissionais, sejam ligadas \u00e0 carreira cient\u00edfica ou n\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>As Ci\u00eancias Sociais e a import\u00e2ncia da diversidade<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A igualdade na ci\u00eancia perdura sendo um ideal normativo distante, mas foi a partir dele que discuss\u00f5es antes pouco prov\u00e1veis passaram a tomar os espa\u00e7os p\u00fablicos. Foi a chegada de mulheres que trouxe o feminismo e as an\u00e1lises de g\u00eanero \u00e0 academia. Foi a presen\u00e7a de mais negros nas universidades que tencionou a primazia da branquitude como \u00fanica amostra da intelectualidade nas humanidades. E foi sempre a partir da juventude que o \u201cnovo\u201d pode surgir e dar continuidade transformada \u00e0s tradi\u00e7\u00f5es. As Ci\u00eancias Sociais precisam da diversidade para contribuir \u00e0s pessoas com todas as suas potencialidades.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c1rea de pesquisa, g\u00eanero, ra\u00e7a e gera\u00e7\u00e3o s\u00e3o marcadores sociais que orientam desafios generaliz\u00e1veis \u00e0 produ\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, particularmente vis\u00edveis e potencializados durante a pandemia. Em cada um desses modos de distin\u00e7\u00e3o na sociedade, h\u00e1 impactos vari\u00e1veis, com alguns grupos sendo mais afetados que outros. Num cen\u00e1rio de aprofundamento das desigualdades e da consequente limita\u00e7\u00e3o da diversidade, cabe aos cientistas sociais ponderar os caminhos tortuosos de futuro que se avistam para a comunidade se a pluralidade de seus atores vier a regredir.<\/p>\n\n\n\n<p><em><br><br>Mariana Chaguri&nbsp;\u00e9 Professora do Departamento de Sociologia e do Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Sociologia da Unicamp. Atualmente \u00e9 secret\u00e1ria-executiva da Associa\u00e7\u00e3o Nacional de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o e Pesquisa em Ci\u00eancias Sociais (ANPOCS) onde desenvolve, entre outros, a pesquisa \u201cFuturos do Trabalho nas Ci\u00eancias Sociais\u201d. <\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Co-autora Mariana Chaguri<br \/>\nAl\u00e9m da inestim\u00e1vel perda de vidas e das dificuldades em reorganizar as intera\u00e7\u00f5es, a Covid-19 provocou um retrocesso particular nas comunidades acad\u00eamicas: o aumento das desigualdades. <\/p>\n","protected":false},"author":298,"featured_media":8747,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"episode_type":"","audio_file":"","cover_image":"","cover_image_id":"","duration":"","filesize":"","filesize_raw":"","date_recorded":"","explicit":"","block":"","itunes_episode_number":"","itunes_title":"","itunes_season_number":"","itunes_episode_type":"","footnotes":""},"categories":[16947,546],"tags":[],"gps":[],"class_list":{"0":"post-8755","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-internet-es-pt-br","8":"category-sociedad-br"},"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8755","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/298"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=8755"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8755\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/8747"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=8755"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=8755"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=8755"},{"taxonomy":"gps","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/gps?post=8755"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}