{"id":8929,"date":"2022-01-18T06:57:00","date_gmt":"2022-01-18T09:57:00","guid":{"rendered":"http:\/\/latinoamerica21.com\/?p=8929"},"modified":"2022-01-24T07:00:10","modified_gmt":"2022-01-24T10:00:10","slug":"o-brasil-emergente","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/o-brasil-emergente\/","title":{"rendered":"O Brasil emergente"},"content":{"rendered":"\n<p>H\u00e1 um Brasil que est\u00e1 se extinguindo \u00e0 medida que surge um novo, mas esta transi\u00e7\u00e3o n\u00e3o pode ser percebida simplesmente observando a esfera pol\u00edtica. Desde a transi\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica, estivemos acostumados a detectar nos altos e baixos da vida pol\u00edtica e institucional as energias sociais e culturais subjacentes, as ideias que estavam em disputa, os valores e a \u00e9tica que estavam sendo postos \u00e0 prova nos novos tempos dos anos 1980 e 1990. A vida cultural e social se incorporava como um acess\u00f3rio para a compreens\u00e3o da esfera pol\u00edtica, definindo escolhas como ouvir Caetano Veloso ou Chico Buarque. Nada escapava \u00e0 pol\u00edtica; nem mesmo a escolha da pasta de dentes.<\/p>\n\n\n\n<p>No entanto, a esfera da pol\u00edtica n\u00e3o est\u00e1 necessariamente em correspond\u00eancia com os aspectos sociais e a vida cultural de um pa\u00eds. Paradoxalmente, esta pode chegar a desvincular-se daquilo que se acredita e transformar-se na vida cotidiana das pessoas, nos seus gostos, valores e interesses, nas formas como enfrentam os seus desafios, de consumir, de amar e de ser reconhecido por aqueles que lhes s\u00e3o pr\u00f3ximos e por outros.<\/p>\n\n\n\n<p>O mundo do trabalho, a religiosidade e a est\u00e9tica desenvolveram mudan\u00e7as significativas nos \u00faltimos 30 anos, enquanto a esfera pol\u00edtica parece ainda se reproduzir em disputas ideol\u00f3gicas entre esquerda e direita que n\u00e3o cobrem grande parte da esfera social. Os \u00faltimos 20 anos de progressivismo pol\u00edtico em torno de governos de centro-esquerda, materializados num ciclo de ambiguidades sociais e econ\u00f4micas, levaram a um aparente beco sem sa\u00edda onde a esfera pol\u00edtica gagueja por falta de ar.<\/p>\n\n\n\n<p>Parece que o seu oxig\u00eanio se esgotou e o que mantinha a sua energia eventualmente criativa acabou na ant\u00edtese da pol\u00edtica, na sua nega\u00e7\u00e3o como um jogo de disputa dos livres interesses dos cidad\u00e3os numa sociedade democr\u00e1tica. Materializada em batalhas identit\u00e1rias e de &#8220;linguagens apropriadas&#8221;, de pol\u00edticas de &#8220;aux\u00edlios econ\u00f4micos&#8221; para os mais pobres e de acusa\u00e7\u00f5es pessoais, a negatividade da pol\u00edtica domina pela superficialidade e falta de criatividade e debate sobre projetos e ideias pol\u00edticas. O <em>a priori<\/em> de cada argumento \u00e9 o fim da pol\u00edtica como um exerc\u00edcio, e da esfera da pol\u00edtica como um lugar de cria\u00e7\u00e3o e transforma\u00e7\u00e3o da vida das pessoas.<\/p>\n\n\n\n<p>O Brasil que est\u00e1 gradualmente deixando de existir \u00e9 aquele em que se acreditava que as pessoas viviam em torno de cont\u00ednuas demandas, conflitos e a compreens\u00e3o de que em cada v\u00ednculo social h\u00e1 sempre, a todo o momento, uma l\u00f3gica de poder em jogo. Est\u00e1 sendo deixada de lado aquela sociedade que tinha se tornado t\u00e3o tensa devido \u00e0 prolifera\u00e7\u00e3o de situa\u00e7\u00f5es em que se acreditava que j\u00e1 n\u00e3o haveria espa\u00e7o para no\u00e7\u00f5es como di\u00e1logo, consenso, &#8216;mulato&#8217;, transi\u00e7\u00e3o, mistura, hibridiza\u00e7\u00e3o ou encontro.<\/p>\n\n\n\n<p>O Brasil da imposi\u00e7\u00e3o de perspectivas, onde se determinava &#8211; como se fosse pr\u00e9-determinado &#8211; aquilo que poderia ser dito, desaparece. H\u00e1 um certo desgaste com o Brasil polarizado, onde tudo \u00e9 discutido e onde s\u00e3o tomadas posi\u00e7\u00f5es sobre tudo como se isso implicasse o exerc\u00edcio da cidadania. Cansa\u00e7o para o populismo <em>hard<\/em>.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Enquanto este Brasil dilu\u00ed-se, uma grande parte da popula\u00e7\u00e3o assiste \u00e0 emerg\u00eancia de valores, gostos e estilos de vida que influenciam o mundo do trabalho e a auto-percep\u00e7\u00e3o das pessoas. A m\u00fasica, a est\u00e9tica, a pr\u00f3pria esfera da cultura, indicam como este Brasil emergente est\u00e1 associado aos chamados &#8220;batalhadores&#8221; brasileiros, milh\u00f5es de pessoas que t\u00eam vindo a construir subjetividades e desejos.<\/p>\n\n\n\n<p>Trata-se daqueles que j\u00e1 passaram pelas chamadas &#8220;pol\u00edticas compensat\u00f3rias&#8221;, das quais, paradoxalmente, tentam n\u00e3o depender. Estes incorporaram uma certa \u00e9tica de &#8220;auto-constru\u00e7\u00e3o&#8221; que n\u00e3o \u00e9 necessariamente o produto de terem visto v\u00eddeos de &#8220;auto-ajuda&#8221; nas redes sociais, nem de terem internalizado alguma l\u00f3gica neoliberal para o bem do capital, como alguns intelectuais acreditam.<\/p>\n\n\n\n<p>Talvez esta corrente possa ser entendida como um produto direto e indireto das igrejas evang\u00e9licas e das suas m\u00faltiplas facetas. N\u00e3o se deve esquecer que se no Brasil de 2010 havia pouco mais de 15% de evang\u00e9licos (Pentecostais, Neo-Pentecostais, etc.), no de 2020 s\u00e3o 31%, mais de 65 milh\u00f5es de brasileiros. De acordo com estimativas, dentro de 15 anos, os evang\u00e9licos ser\u00e3o a maioria entre a popula\u00e7\u00e3o brasileira.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas para al\u00e9m deste dado, o Brasil emergente n\u00e3o se limita ao Brasil evang\u00e9lico. Est\u00e1 constitu\u00eddo por pessoas que incorporaram a &#8220;cultura de iniciativa&#8221; e que uma parte da sua identidade est\u00e1 integrada no &#8220;ecossistema do empreendedor individual ou coletivo&#8221;, caracter\u00edstica comprovada na sua enorme resili\u00eancia e na sua capacidade de construir redes de rela\u00e7\u00f5es e solidariedade, interc\u00e2mbios de bens e servi\u00e7os.<\/p>\n\n\n\n<p>Neste ambiente, estes &#8220;batalhadores&#8221; constru\u00edram a si pr\u00f3prios em torno de um discurso em que n\u00e3o aceitam tutela nem intromiss\u00e3o, principalmente devido a uma desconfian\u00e7a absoluta em rela\u00e7\u00e3o a qualquer coisa que n\u00e3o venha dos seus pr\u00f3prios esfor\u00e7os e a\u00e7\u00f5es. O Estado \u00e9 uma figura distante e pr\u00f3xima na medida que desempenha um papel pouco relevante no desenvolvimento das suas vidas pessoais.<\/p>\n\n\n\n<p>O Brasil emergente n\u00e3o est\u00e1 contemplado na atual esfera pol\u00edtica disfuncional. Muito mudou social e culturalmente no pa\u00eds nos \u00faltimos 20 anos. Nem alienado nem intelectualizado, o Brasil emergente sabe o que n\u00e3o quer: uma repeti\u00e7\u00e3o de trag\u00e9dias. A quest\u00e3o que permanece \u00e9: para as elei\u00e7\u00f5es de Outubro de 2022, a esfera pol\u00edtica olhar\u00e1 para os milh\u00f5es de pessoas deste Brasil emergente?<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A esfera da pol\u00edtica n\u00e3o corresponde necessariamente aos aspectos sociais e \u00e0 vida cultural de um pa\u00eds. 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