{"id":8947,"date":"2022-01-25T09:00:00","date_gmt":"2022-01-25T12:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/latinoamerica21.com\/?p=8947"},"modified":"2022-01-25T07:30:33","modified_gmt":"2022-01-25T10:30:33","slug":"a-pandemia-da-hegemonia-a-retracao-do-estado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/a-pandemia-da-hegemonia-a-retracao-do-estado\/","title":{"rendered":"A pandemia: da hegemonia \u00e0 retra\u00e7\u00e3o do Estado"},"content":{"rendered":"\n<p>H\u00e1 quase dois anos, aparecia um novo v\u00edrus, <a href=\"http:\/\/latinoamerica21.com\/br\/o-mundo-pos-covid-19-um-novo-paradigma-mundial\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">mais tarde batizado de Covid-19, que mergulhou o mundo em uma pandemia<\/a>. O medo inicial, quase terror, levou milhares de milh\u00f5es de pessoas em todo o mundo a fecharem-se nas suas casas &#8211; quer por escolha pr\u00f3pria ou por aceita\u00e7\u00e3o sem maiores questionamentos dos regulamentos governamentais &#8211; de forma atenta ao desenrolar da situa\u00e7\u00e3o. Mas dois anos ap\u00f3s a pandemia, o que mudou? Basicamente, o controle da situa\u00e7\u00e3o j\u00e1 n\u00e3o est\u00e1 mais nas m\u00e3os dos governos, tal como estava no in\u00edcio, e sim deslocou-se de maneira contundente para a sociedade.<\/p>\n\n\n\n<p>Nestes \u00faltimos dois anos, no que diz respeito ao Covid-19, uma sucess\u00e3o de muta\u00e7\u00f5es foram desenvolvidas, o que sugere que o v\u00edrus, ao contr\u00e1rio do que se pensava no in\u00edcio, permanecer\u00e1 conosco durante muito tempo. A variante atual, Omicron, representa um novo desenvolvimento do v\u00edrus que \u00e9 interpretado pela ci\u00eancia &#8211; e pelo senso comum &#8211; como uma esp\u00e9cie mais contagiosa mas menos letal.<\/p>\n\n\n\n<p>Um senso comum que parece querer dizer algo como &#8220;uma vez que n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o letal e que estamos em grande parte vacinados, vamos todos ser infectados de uma s\u00f3 vez e fazer o maldito v\u00edrus definhar e morrer&#8221;. Em outras palavras, em dois anos, naturalizamos a pandemia e perdemos o nosso medo da mesma.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Primeiro Momento: os governos decidem, dizem e mandam<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O s\u00fabito aparecimento do Covid-19, a subsequente pandemia, a falta de precedentes e a inexist\u00eancia de uma cura, seja ela vacinas, interna\u00e7\u00f5es ou tratamentos, mergulharam a humanidade no caos. Esta situa\u00e7\u00e3o levou, \u00e0 maneira hobesiana, ao consenso absoluto de que as decis\u00f5es deveriam ser tomadas pelos governos para tratar de enfrentar o monstro.<\/p>\n\n\n\n<p>De forma geral, os governos reagiram muito rapidamente e ordenaram, at\u00e9 conseguir entender o que estava acontecendo e as suas poss\u00edveis consequ\u00eancias, que as pessoas fossem isoladas nas suas casas por um per\u00edodo de tempo indeterminado. Ningu\u00e9m devia sair e apenas o abastecimento das casas e a prepara\u00e7\u00e3o dos sistemas de sa\u00fade tinham de ser geridos. O mundo foi despovoado.<\/p>\n\n\n\n<p>As decis\u00f5es governamentais de confinamento obrigat\u00f3rio foram obedecidas urbi et orbi. Os espa\u00e7os p\u00fablicos foram esvaziados. Foram reservados apenas hor\u00e1rios muito restritos para o fornecimento m\u00ednimo necess\u00e1rio de alimentos para as fam\u00edlias. Entretanto, o n\u00famero de pessoas internadas e mortas aumentava dramaticamente.<\/p>\n\n\n\n<p>O terror se alastrava e com ele o acatamento absoluto das decis\u00f5es pol\u00edticas. Nunca, desde os antigos imp\u00e9rios, os mandatos governamentais gozaram de tanta legitimidade. Nunca, desde as monarquias, houve tanta aceita\u00e7\u00e3o da ideia de que um governo \u00e9 um governo desde que proteja o seu povo.<\/p>\n\n\n\n<p>A adapta\u00e7\u00e3o dos sistemas de sa\u00fade e a procura de solu\u00e7\u00f5es como as vacinas que foram sendo desenvolvidas contribu\u00edram definitivamente para esta gl\u00f3ria governamental. Os governantes quase encarnaram o ideal grego de bom governo. Decis\u00e3o, democracia e consenso.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Segundo Momento: os governos j\u00e1 n\u00e3o decidem, n\u00e3o dizem, nem mandam<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Com a mesma velocidade que o v\u00edrus, a situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica foi sofrendo uma muta\u00e7\u00e3o. Sob diferentes formas, mas em todas as regi\u00f5es, come\u00e7ou a surgir uma resist\u00eancia cada vez mais forte \u00e0s decis\u00f5es governamentais. No in\u00edcio, era principalmente contra o confinamento obrigat\u00f3rio, e logo depois contra a vacina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 desde o final de 2020, mas claramente ao longo de 2021, <a href=\"https:\/\/www.cnnbrasil.com.br\/internacional\/enfrentando-resistencia-antivacina-eua-nao-atingem-meta-de-70-de-imunizados\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">diferentes formas de resist\u00eancia \u00e0s decis\u00f5es governamentais foram se espalhando por todo o mundo<\/a>. Para al\u00e9m dos argumentos &#8211; fechamentos, isolamentos, vacinas, restri\u00e7\u00f5es de viagem, diagn\u00f3sticos da situa\u00e7\u00e3o &#8211; o denominador comum destas resist\u00eancias foi a crescente rejei\u00e7\u00e3o ao &#8220;absolutismo pol\u00edtico governamental&#8221;, ou seja, o poder pol\u00edtico de decidir sobre a vida pessoal e social das popula\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>Na medida em que as popula\u00e7\u00f5es foram aceitando a persist\u00eancia da pandemia ao longo do tempo, foram se sentindo mais seguras atrav\u00e9s das defesas corporais, advindas de vacinas ou cont\u00e1gio, e come\u00e7ou-se a discutir o sentido, a legalidade e legitimidade da centraliza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica do controle da pandemia. Reitero, as formas de resist\u00eancia e rejei\u00e7\u00e3o s\u00e3o variadas, a ponto de deverem ser interpretadas em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 cultura das popula\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>As sociedades come\u00e7aram a fechar-se nos governos e a decidir como se proteger, movimentar-se, circular, interagir, viajar, isolar-se, desisolar-se. Os governos tiveram de se retirar, desistir das suas pretens\u00f5es hegem\u00f4nicas, observar constantemente o humor social e, a partir da\u00ed, tentar gerir a evolu\u00e7\u00e3o da pandemia.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Terceiro Momento: Omicron devolve (n\u00e3o tanto) a iniciativa aos governos<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O aumento vertiginoso das infecc\u00e7\u00f5es causadas pela variante Omicron est\u00e1 agora devolvendo a iniciativa e o comando da situa\u00e7\u00e3o aos Estados, que em alguns casos implementaram novas restri\u00e7\u00f5es \u00e0 circula\u00e7\u00e3o, aprova\u00e7\u00e3o de passaportes de vacina\u00e7\u00e3o e outras medidas. O aumento das infec\u00e7\u00f5es tamb\u00e9m incidiou numa preocupa\u00e7\u00e3o crescente em amplos setores do p\u00fablico, que optaram por se retrair novamente.<\/p>\n\n\n\n<p>No entanto, salvo um aumento alarmante de mortes devido \u00e0 pandemia, os Estados, particularmente em regimes democr\u00e1ticos, j\u00e1 n\u00e3o ter\u00e3o o mesmo grau de liberdade de a\u00e7\u00e3o na gest\u00e3o sanit\u00e1ria. A pandemia est\u00e1 agora muito mais dependente das decis\u00f5es dos cidad\u00e3os, mesmo que estes por vezes se equivoquem&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p><em><sub>*Tradu\u00e7\u00e3o do espanhol por Giulia Gaspar<\/sub><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na mesma velocidade que o v\u00edrus, a situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica mudou e come\u00e7ou a haver uma crescente resist\u00eancia \u00e0s decis\u00f5es governamentais. No in\u00edcio, principalmente contra o confinamento compuls\u00f3rio e depois contra a vacina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"author":176,"featured_media":8926,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"episode_type":"","audio_file":"","cover_image":"","cover_image_id":"","duration":"","filesize":"","filesize_raw":"","date_recorded":"","explicit":"","block":"","itunes_episode_number":"","itunes_title":"","itunes_season_number":"","itunes_episode_type":"","footnotes":""},"categories":[16707,16789,546],"tags":[],"gps":[],"class_list":{"0":"post-8947","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-estado-pt-br","8":"category-pandemia-pt-br","9":"category-sociedad-br"},"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8947","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/176"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=8947"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8947\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/8926"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=8947"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=8947"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=8947"},{"taxonomy":"gps","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/gps?post=8947"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}