{"id":9039,"date":"2022-02-02T09:00:35","date_gmt":"2022-02-02T12:00:35","guid":{"rendered":"http:\/\/latinoamerica21.com\/?p=9039"},"modified":"2022-02-02T09:41:19","modified_gmt":"2022-02-02T12:41:19","slug":"a-melhor-defesa-da-ucrania-a-neutralidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/a-melhor-defesa-da-ucrania-a-neutralidade\/","title":{"rendered":"A melhor defesa da Ucr\u00e2nia: a neutralidade"},"content":{"rendered":"\n<p>Passam os dias e a comunidade internacional observa como cresce a incerteza e se reduz as certezas em torno da crise da Ucr\u00e2nia. No entanto, certos aspectos permanecem intocados. Por exemplo, n\u00e3o h\u00e1 d\u00favida de que a guerra fria entre o leste e o oeste \u00e9 capaz de ressurgir sob novas modalidades. H\u00e1 tamb\u00e9m a certeza de que a crise da Ucr\u00e2nia \u00e9 parte de um confronto entre Moscou e Washington que conseguiu galvanizar \u2014 e desinformar \u2014 as opini\u00f5es p\u00fablicas de seus respectivos blocos, para evitar o surgimento de uma perspectiva independente de seus relatos.<\/p>\n\n\n\n<p>O mundo permanece esperan\u00e7oso. A Am\u00e9rica Latina observa o risco de um novo confronto militar \u00e0 dist\u00e2ncia, perguntando-se sobre quais poderiam ser suas sequelas, e a China, longe de manter-se como observadora, j\u00e1 deu seu apoio diplom\u00e1tico \u00e0 R\u00fassia. Nos Estados Unidos, o presidente Biden assegurou que as tropas russas posicionadas na fronteira invadir\u00e3o a Ucr\u00e2nia em fevereiro. E na Uni\u00e3o Europeia, tampouco \u00e9 certo que os pa\u00edses manter\u00e3o uma frente unida contra a R\u00fassia, a menos que Moscou invada Kiev definitivamente. Entre outras raz\u00f5es, porque um plano B que passa pela ruptura do pa\u00eds se mant\u00e9m por muito tempo.<\/p>\n\n\n\n<p>Na realidade, foi a aceita\u00e7\u00e3o da divis\u00e3o da Ucr\u00e2nia que esteve no centro do lapso do Presidente Biden h\u00e1 alguns dias, quando ele disse que a limitada interven\u00e7\u00e3o russa na Ucr\u00e2nia teria apenas uma resposta moderada dos Estados Unidos e da OTAN. Ou seja, se Moscou se limitasse a intervir na Ucr\u00e2nia a partir do leste para reunir os territ\u00f3rios onde a popula\u00e7\u00e3o russa vive, segmentando-a do resto do pa\u00eds, isso seria um problema n\u00e3o t\u00e3o grave como se interviesse na parte ocidental do pa\u00eds. No final, Biden aponta para a solu\u00e7\u00e3o B que vem sobrevoando este conflito: a divis\u00e3o da Ucr\u00e2nia.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa op\u00e7\u00e3o evitaria os riscos para ambos os lados de uma invas\u00e3o russa completa, incluindo Kiev. Para Moscou, porque se invadisse a parte ocidental da Ucr\u00e2nia, definitivamente perderia a opini\u00e3o p\u00fablica europeia, cuja divis\u00e3o se aproveita. Para Washington, porque sabe que a OTAN n\u00e3o poderia responder militarmente em territ\u00f3rio ucraniano, porque esse pa\u00eds n\u00e3o pertence \u2013 ainda \u2013 \u00e0 Alian\u00e7a Atl\u00e2ntica. Assim, uma interven\u00e7\u00e3o limitada, dividindo o pa\u00eds, poderia ser uma solu\u00e7\u00e3o de \u00faltimo recurso.<\/p>\n\n\n\n<p>Certamente est\u00e3o surgindo na Europa algumas vozes contr\u00e1rias \u00e0 militariza\u00e7\u00e3o do conflito. V\u00e1rias agrupa\u00e7\u00f5es pol\u00edticas minorit\u00e1rias como, por exemplo, Podemos na Espanha, s\u00e3o contr\u00e1rias a enviar for\u00e7as nacionais para o entorno do conflito. Mas seu \u201cn\u00e3o \u00e0 guerra\u201d apenas oferece propostas para sua solu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Algumas d\u00e9cadas atr\u00e1s, o outrora poderoso movimento europeu de paz havia sugerido uma perspectiva que parecia poss\u00edvel: o caminho para a neutralidade. Essa op\u00e7\u00e3o recuperava bem a mem\u00f3ria europeia do s\u00e9culo XX, especialmente nos pa\u00edses que haviam sofrido a mesma circunst\u00e2ncia que a Ucr\u00e2nia agora sofre: encontrar-se em um sandu\u00edche entre as for\u00e7as do leste e do oeste. Estes foram, por exemplo, os casos da \u00c1ustria e da Finl\u00e2ndia, que, al\u00e9m da Su\u00e9cia, aproveitaram bem seu status de neutralidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Avan\u00e7ando nessa dire\u00e7\u00e3o, a Ucr\u00e2nia poderia pertencer \u00e0 Uni\u00e3o Europeia sem pertencer \u00e0 OTAN, como fizeram a \u00c1ustria e a Finl\u00e2ndia. Um status de neutralidade para a Ucr\u00e2nia, sem muitas formalidades, mas reconhecido por ambos os blocos, seria a melhor defesa de uma Ucr\u00e2nia sem divis\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>Ainda que n\u00e3o fosse inteiramente do gosto de Moscou, uma Ucr\u00e2nia neutra eliminaria os argumentos russos sobre o risco \u00e0 sua seguran\u00e7a representado pelo avan\u00e7o da OTAN em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s suas fronteiras, o que convence seus cidad\u00e3os. \u00c9 claro que, no lado ocidental, a neutralidade da Ucr\u00e2nia significaria abandonar sua propens\u00e3o ao velho atlantismo da guerra fria; algo do qual n\u00e3o parecem estar dispostos a desprender-se, especialmente Washington, que acaba de responder com um retumbante N\u00c3O ao pedido russo para concordar que a Ucr\u00e2nia nunca faria parte da OTAN.<\/p>\n\n\n\n<p>No entanto, o surgimento de uma corrente de opini\u00e3o favor\u00e1vel \u00e0 neutralidade da Ucr\u00e2nia na Europa favorece enormemente uma op\u00e7\u00e3o propriamente europeia de seguran\u00e7a, que fortaleceria a distens\u00e3o e os interesses de interc\u00e2mbio comercial com a R\u00fassia, come\u00e7ando pelos produtos energ\u00e9ticos.<\/p>\n\n\n\n<p>A pergunta \u00e9: de onde poderia surgir essa corrente de opini\u00e3o? Os antigos movimentos pacifistas deixaram de existir ou foram transformados em organiza\u00e7\u00f5es de estudo ou de assist\u00eancia humanit\u00e1ria. Grupos pol\u00edticos minorit\u00e1rios que rejeitam a amea\u00e7a de guerra n\u00e3o podem desprender-se de sua suspeita de favorecer os interesses de Moscou. Os partidos conservadores, sem d\u00favida, absorvem a narrativa atlantista renovada. E a social-democracia se mostra dividida neste tema nos principais pa\u00edses europeus.<\/p>\n\n\n\n<p>No entanto, parece evidente que o pa\u00eds que mais ganharia com essa perspectiva de neutralidade \u00e9 precisamente a Ucr\u00e2nia. N\u00e3o s\u00f3 porque recuperaria a seguran\u00e7a est\u00e1vel, mas porque poderia colocar em pr\u00e1tica um de seus maiores sonhos econ\u00f4micos: atuar como uma ponte entre os mercados da R\u00fassia e da Uni\u00e3o Europeia (hoje os produtos ucranianos t\u00eam como principal destino o mercado russo). Mas essas vantagens tamb\u00e9m devem ser claras na pr\u00f3pria Ucr\u00e2nia, cuja opini\u00e3o p\u00fablica permanece dividida.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma corrente favor\u00e1vel a essa perspectiva de neutralidade, semelhante \u00e0 da \u00c1ustria ou da Su\u00e9cia, tamb\u00e9m poderia ser promovida mediante os bons escrit\u00f3rios das Na\u00e7\u00f5es Unidas. Mas as palavras ditas por seu Secret\u00e1rio-Geral, Antonio Guterres, n\u00e3o foram muito afortunadas em afirmar que est\u00e1 \u201ccompletamente certo de que a R\u00fassia nunca invadir\u00e1 a Ucr\u00e2nia\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>A confian\u00e7a de Guterres n\u00e3o deve ser a base para a atua\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas em face desse conflito. Parece que a capacidade de iniciativa, com suficiente aud\u00e1cia e solv\u00eancia, n\u00e3o \u00e9 hoje um atributo possu\u00eddo pela organiza\u00e7\u00e3o internacional que deveria defender a paz mundial. Se ocorrer conflito armado, provar\u00e1 mais uma vez que a comunidade internacional \u2014 incluindo a Am\u00e9rica Latina \u2014 parece n\u00e3o ter aprendido muito em termos de preven\u00e7\u00e3o, mesmo ap\u00f3s uma pandemia.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Apesar da incerteza, a Guerra Fria entre Oriente e Ocidente \u00e9 capaz de reemergir sob novas formas. 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