{"id":9055,"date":"2022-02-05T14:33:54","date_gmt":"2022-02-05T17:33:54","guid":{"rendered":"http:\/\/latinoamerica21.com\/?p=9055"},"modified":"2022-02-05T14:56:42","modified_gmt":"2022-02-05T17:56:42","slug":"ordem-internacional-china-e-america-latina","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/ordem-internacional-china-e-america-latina\/","title":{"rendered":"Ordem Internacional, China e Am\u00e9rica Latina"},"content":{"rendered":"\n<p>Um artigo publicado recentemente no <a href=\"https:\/\/www.washingtonexaminer.com\/restoring-america\/patriotism-unity\/defense-national-security\/china-unveils-plan-to-take-over-latin-america\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><em>Washington Examiner<\/em>, \u201cChina unveils plan to \u2018take over\u2019 Latin America\u201d<\/a>, nos assegura que o partido comunista chin\u00eas revelou um plano de a\u00e7\u00e3o e coopera\u00e7\u00e3o com o objetivo de exercer maior influ\u00eancia na regi\u00e3o e, deste modo, amea\u00e7ar os interesses dos Estados Unidos na Am\u00e9rica Latina.<\/p>\n\n\n\n<p>Premunido de um tom um tanto alarmista, o autor da coluna de opini\u00e3o, Joel Gehrke, retoma as observa\u00e7\u00f5es do <a href=\"http:\/\/latinoamerica21.com\/br\/a-presenca-militar-da-china-na-america-latina\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">acad\u00eamico do U.S. Army War College, Evan Ellis<\/a>, que estabelece que \u201cos chineses n\u00e3o dizem: &#8216;Queremos apoderar-nos da Am\u00e9rica Latina\u201d, mas claramente estabelecem uma estrat\u00e9gia de compromisso multidimensional que, se exitosa, expandiria significativamente sua influ\u00eancia e geraria enormes preocupa\u00e7\u00f5es de intelig\u00eancia para os Estados Unidos\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Da mesma forma, e nesse mesmo sentido, o senador estadunidense, Marco Rubio, afirma que o Partido Comunista Chin\u00eas busca aprofundar os v\u00ednculos entre China e Am\u00e9rica Latina, particularmente com \u201celementos anti-norte-americanos\u201d. \u201cBeijing est\u00e1 tentando superar os Estados Unidos em todos os setores\u201d, afirma o senador, \u201ce devemos levar essa amea\u00e7a a s\u00e9rio\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Tal \u201cplano de a\u00e7\u00e3o\u201d teria sido revelado em 3 de dezembro do ano passado em uma c\u00fapula China-CELAC. O referido plano presumivelmente busca n\u00e3o s\u00f3 estreitar os la\u00e7os econ\u00f4micos entre Beijing e a regi\u00e3o, mas tamb\u00e9m aprofundar a coopera\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e de seguran\u00e7a. Mateo Haydar, pesquisador da Heritage Foundation, conclui: \u201cH\u00e1 ambi\u00e7\u00f5es absolutas para que a China se converta na influ\u00eancia dominante na Am\u00e9rica Latina. O desafio \u00e9 integral, e h\u00e1 absolutamente um interesse militar e de seguran\u00e7a l\u00e1. &#8230; Essa amea\u00e7a est\u00e1 crescendo, e \u00e9 um tipo de amea\u00e7a diferente do que vimos com a amea\u00e7a sovi\u00e9tica\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Logicamente, a postura chinesa neste assunto apresenta um enfoque distinto. Wang Ping, do <em>Global Times<\/em>, em seu artigo, \u201cChina-LatAm cooperation continues momentum despite changes in regional countries\u2019 politics\u201d, toma nota das mudan\u00e7as ideol\u00f3gicas registradas na Am\u00e9rica Latina nos \u00faltimos tempos. Certamente, e a prop\u00f3sito das elei\u00e7\u00f5es presidenciais chilenas em que Gabriel Boric emergiu como uma nova face da esquerda chilena em La Moneda, Ping relata uma tend\u00eancia ideol\u00f3gica, uma esp\u00e9cie de<em> pink tide<\/em>, ou \u201cmar\u00e9 rosa\u201d, que cruza a regi\u00e3o e que inclui pa\u00edses como M\u00e9xico, Argentina, Bol\u00edvia, Peru, Honduras, Cuba, Nicar\u00e1gua, Venezuela e talvez o Brasil se Lula da Silva emergir como vencedor nas elei\u00e7\u00f5es do pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p>Seja como for, desde a \u00e9poca do p\u00f3s-guerra, assegura Ping, tem havido um padr\u00e3o hist\u00f3rico de um movimento, ou \u201cp\u00eandulo\u201d pol\u00edtico, entre governos de esquerda e direita, marcado por uma luta pol\u00edtica constante entre ambas as tend\u00eancias ideol\u00f3gicas no interior dos governos da regi\u00e3o. Quando h\u00e1 um quadro regional no qual predominam os governos de direita, surgem preocupa\u00e7\u00f5es de um decl\u00ednio nas rela\u00e7\u00f5es entre a China e a Am\u00e9rica Latina. E quando o quadro oposto ocorre, \u201ca m\u00eddia ocidental [especula] sobre inc\u00eandios no \u201cquintal\u201d dos EUA ou [afirma] que a China [est\u00e1] aproveitando a oportunidade para aumentar sua influ\u00eancia na Am\u00e9rica Latina\u201d. Isto \u00e9 precisamente o que os argumentos de Gehrke dizem.<\/p>\n\n\n\n<p>No entanto, Ping estabelece que o fator ideol\u00f3gico, em \u00faltimo caso, n\u00e3o \u00e9 decisivo quando se trata de rela\u00e7\u00f5es entre a Am\u00e9rica Latina e a China. Tanto os governos de direita, assim como tamb\u00e9m os de esquerda, t\u00eam sistematicamente fortalecido seus la\u00e7os com a China. Desfrutando de um crescimento econ\u00f4mico acelerado e j\u00e1 estabelecido como a segunda economia de maior import\u00e2ncia no plano mundial, muitos pa\u00edses latino-americanos t\u00eam conseguido se beneficiar de uma economia que ainda se encontra em pleno desenvolvimento.<\/p>\n\n\n\n<p>A China se constituiu, assim, como o segundo maior parceiro comercial da Am\u00e9rica Latina e, para alguns pa\u00edses da regi\u00e3o, como o maior parceiro comercial. Al\u00e9m disso, a China se apresenta como fonte destacada de investimentos particularmente para aqueles pa\u00edses que buscam fortalecer suas economias. \u201cTanto para os governos de esquerda como para os de direita na Am\u00e9rica Latina\u201d, estabelece Ping, \u201cse querem consolidar suas bases governantes, necessitam fazer um bom trabalho em termos econ\u00f4micos, e se querem rejuvenescer a economia, \u00e9 imposs\u00edvel para eles ignorar a China.\u201d Finalmente, independentemente da cor pol\u00edtica dos governos da Am\u00e9rica Latina, a coopera\u00e7\u00e3o entre ambas as partes na busca do desenvolvimento constitui, na opini\u00e3o dos chineses, um projeto de longo prazo.<\/p>\n\n\n\n<p>Em suma, somos testemunhas de duas posturas fundamentais. A primeira argumenta que a China \u00e9 uma amea\u00e7a \u00e0 seguran\u00e7a na regi\u00e3o. A segunda afirma que a China s\u00f3 busca fomentar a coopera\u00e7\u00e3o, independentemente da cor pol\u00edtica dos governos da regi\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Uma Perspectiva Realista da Ordem Internacional<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Nosso prop\u00f3sito n\u00e3o \u00e9 avaliar a veracidade dos recentes acontecimentos hist\u00f3ricos descritos anteriormente. Mas buscamos explorar a natureza das posi\u00e7\u00f5es detalhadas no artigo de Gehrke como um ex\u00edmio exemplo de como operam as grandes pot\u00eancias na defesa de seus interesses nacionais e do que s\u00e3o classicamente estabelecidos como suas \u201czonas de influ\u00eancia\u201d. Em outras palavras, a postura estadunidense guarda rela\u00e7\u00e3o com a natureza b\u00e1sica da rivalidade entre grandes pot\u00eancias e, al\u00e9m disso, com as atitudes doutrin\u00e1rias desenvolvidas especificamente pelos EUA ao longo do tempo.<\/p>\n\n\n\n<p>Como princ\u00edpio essencial, toda grande pot\u00eancia busca ao menos consolidar sua posi\u00e7\u00e3o no sistema internacional e, assim, preservar os interesses e recursos pol\u00edticos e materiais dentro dos \u00e2mbitos em que j\u00e1 exercem influ\u00eancia historicamente. Isso se d\u00e1 em fun\u00e7\u00e3o do princ\u00edpio b\u00e1sico realista de que a sobreviv\u00eancia do Estado \u00e9 a principal meta de toda pot\u00eancia. Uma vez alcan\u00e7ado isso, a cl\u00e1ssica opera\u00e7\u00e3o do equil\u00edbrio de poder entre estados, se encarrega logo de estabelecer uma ordem m\u00ednima de paz no sistema internacional.<\/p>\n\n\n\n<p>As atitudes detalhadas no artigo de Gehrke encapsulam uma atitude doutrin\u00e1ria de longa data. Podemos citar brevemente, assim, a Doutrina Monroe (1823) que procurou repudiar a interfer\u00eancia europeia nos assuntos da regi\u00e3o. Ou a doutrina Olney (1895) que foi delineada em uma nota diplom\u00e1tica enviada a Londres e que estabelecia: 1) O direito de repelir a presen\u00e7a de qualquer poder n\u00e3o hemisf\u00e9rico na regi\u00e3o; e 2) O direito de exercer uma presen\u00e7a hegem\u00f4nica na pr\u00f3pria regi\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Da mesma forma, mais tarde, George F. Kennan, embaixador dos EUA na Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, em uma carta de 1950, publicada na <em>Foreign Relations<\/em>, e dirigida ao Secret\u00e1rio de Estado descreveu a import\u00e2ncia do fortalecimento das rela\u00e7\u00f5es EUA e Am\u00e9rica Latina como resposta ao \u201cdesafio russo ao nosso direito de existir como uma pot\u00eancia mundial\u201d. O contexto \u00e9 a Guerra Fria e Kennan resume o temor a um poss\u00edvel efeito domin\u00f3 ideol\u00f3gico que poderia ocorrer na Am\u00e9rica Latina e que debilitaria os interesses nacionais estadunidenses.<\/p>\n\n\n\n<p>Significativamente, Zbigniew Brzezinski, em <em>Strategic Vision <\/em>(2012), atribui o decl\u00ednio dos EUA a um \u201cgiro din\u00e2mico do centro de gravidade mundial do oeste ao leste\u201d. Dito isto, o escrito de Gehrke, e muitos outros, de natureza alarmista, e que circulam na imprensa internacional, n\u00e3o deve ser tomada como um aviso de uma amea\u00e7a iminente literal, mas como uma rea\u00e7\u00e3o natural \u00e0 emerg\u00eancia de uma pot\u00eancia rival frente a outra cuja preponder\u00e2ncia se v\u00ea debilitada no interior do grande tabuleiro de xadrez que \u00e9 o sistema internacional.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Toda grande pot\u00eancia busca, no m\u00ednimo, consolidar sua posi\u00e7\u00e3o no sistema internacional e, \u00e9 claro, preservar tanto os interesses e recursos pol\u00edticos e materiais dentro das \u00e1reas em que j\u00e1 exerce influ\u00eancia hist\u00f3rica.<\/p>\n","protected":false},"author":258,"featured_media":9053,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"episode_type":"","audio_file":"","cover_image":"","cover_image_id":"","duration":"","filesize":"","filesize_raw":"","date_recorded":"","explicit":"","block":"","itunes_episode_number":"","itunes_title":"","itunes_season_number":"","itunes_episode_type":"","footnotes":""},"categories":[16761,544],"tags":[],"gps":[],"class_list":{"0":"post-9055","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-china-es-pt-br","8":"category-politica-br"},"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9055","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/258"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=9055"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9055\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/9053"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=9055"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=9055"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=9055"},{"taxonomy":"gps","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/gps?post=9055"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}