{"id":9063,"date":"2022-02-06T07:00:00","date_gmt":"2022-02-06T10:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/latinoamerica21.com\/?p=9063"},"modified":"2022-02-06T07:22:07","modified_gmt":"2022-02-06T10:22:07","slug":"relacoes-africa-america-latina-o-legado-de-desmond-tutu","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/relacoes-africa-america-latina-o-legado-de-desmond-tutu\/","title":{"rendered":"Rela\u00e7\u00f5es \u00c1frica-Am\u00e9rica Latina: o legado de Desmond Tutu"},"content":{"rendered":"\n<p>O <a href=\"https:\/\/www.dw.com\/pt-002\/arcebispo-sul-africano-desmond-tutu-morre-aos-90-anos\/a-60259309\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">falecimento do arcebispo anglicano sul-africano Desmond Tutu<\/a>, em 26 de dezembro de 2021, nos faz recordar o pouco interesse latino-americano em temas africanos. O fato mereceu um espa\u00e7o reduzido nos di\u00e1rios e notici\u00e1rios televisivos da regi\u00e3o. Noticiou-se um tanto vagamente o falecimento de um \u201cs\u00edmbolo da luta contra o apartheid ao lado de Nelson Mandela e ganhador do Pr\u00eamio Nobel da Paz\u201d. No dia seguinte, vida que segue. N\u00e3o parecia que hav\u00edamos perdido um dos maiores lutadores, pensadores e l\u00edderes religiosos de nossa \u00e9poca.<\/p>\n\n\n\n<p>Estamos longe de entender e se interessar pela \u00c1frica. Isto ocorre mesmo no Brasil, pa\u00eds de maioria negra e com o maior contingente populacional com ra\u00edzes negro-africanas fora do continente. Que dizer de outros pa\u00edses da nossa regi\u00e3o? As rela\u00e7\u00f5es entre Brasil e \u00c1frica v\u00eam se desfazendo nos \u00faltimos anos, enquanto os contatos dos outros pa\u00edses latino-americanos com aquele continente nunca se aprofundaram \u2013 com a not\u00e1vel exce\u00e7\u00e3o de Cuba.<\/p>\n\n\n\n<p>Celebrar o legado de Tutu seria um caminho simples para informar e ir al\u00e9m de temas como apartheid, guerra civil, fome, novas variantes do coronav\u00edrus e golpes militares \u2013 basicamente o que se not\u00edcia sobre o continente na imprensa latino-americana. Em particular, seria uma forma de destacar a import\u00e2ncia do pensamento africano e seu impacto global.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Fundador da Teologia Negra Africana<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>\u00a0Tutu foi muito mais que companheiro de Mandela na luta contra o apartheid. Trata-se de um dos fundadores da Teologia Negra Africana, com inspira\u00e7\u00e3o na Teologia Negra norte-americana, que teve como principal expoente o reverendo Martin Luther King Jr. Tamb\u00e9m na Teologia da Liberta\u00e7\u00e3o Latino-Americana, iniciada em 1968 na Confer\u00eancia Episcopal de Medell\u00edn e desenvolvida por Gustavo Guti\u00e9rrez e Leonardo Boff, entre outros. O arcebispo sul-africano foi mais um a demonstrar que \u00e9 poss\u00edvel construir uma igreja ombro a ombro com os oprimidos.<\/p>\n\n\n\n<p>Sobre estas filia\u00e7\u00f5es, Tutu afirmou que a igreja na \u00c1frica deve se comprometer com a causa da liberta\u00e7\u00e3o. Para ele, Deus era o grande Libertador, o Deus do \u00caxodo que conduziu uma turba de escravos para fora do cativeiro e os libertou. Da\u00ed derivava sua defesa da liberta\u00e7\u00e3o total dos \u201cfilhos de Deus\u201d, em n\u00edvel pol\u00edtico, social e econ\u00f4mico. Enfatizando sua inspira\u00e7\u00e3o em fontes latino-americanas, apontou que a teologia negra \u00e9 a teologia do oprimido, uma teologia de liberta\u00e7\u00e3o. E foi baseado em sua teologia que o arcebispo se posicionou contra o apartheid. Segundo ele, \u201ca B\u00edblia acabou sendo o livro mais subversivo imagin\u00e1vel numa situa\u00e7\u00e3o de injusti\u00e7a e opress\u00e3o\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Inspirador da moderna identidade sul-africana<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Para o bem e para o mal, Tutu foi um dos fundadores da identidade da \u00c1frica do Sul p\u00f3s-apartheid, com a Comiss\u00e3o da Verdade e Reconcilia\u00e7\u00e3o que ele presidiu e com sua ideia de uma \u201cNa\u00e7\u00e3o Arco-\u00edris\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>O que ele chamou de \u201cjusti\u00e7a restaurativa\u201d foi a base da comiss\u00e3o da verdade sul-africana, pensada como elemento central da pacifica\u00e7\u00e3o, reconstru\u00e7\u00e3o e unifica\u00e7\u00e3o do pa\u00eds. Funcionando de 1995 a 1998, ela constituiu-se numa das principais experi\u00eancias mundiais de comiss\u00f5es da verdade, ao condicionar a anistia a um depoimento p\u00fablico do requerente, no qual a principal exig\u00eancia deveria ser \u201ccontar a verdade\u201d sobre os crimes para os quais solicitava anistia.<\/p>\n\n\n\n<p>O elemento mais elogiado naquele processo foi sua condicionalidade, evitando a oferta indiscriminada de anistia (e esquecimento) caracter\u00edstica de casos como o brasileiro. O ponto mais contestado foi a limitada repara\u00e7\u00e3o dos crimes (ao contr\u00e1rio do que ocorreu em casos como o argentino), na medida em que enfatizou a exposi\u00e7\u00e3o p\u00fablica dos violadores de direitos humanos e o registro e constru\u00e7\u00e3o de uma mem\u00f3ria coletiva.<\/p>\n\n\n\n<p>Neste contexto, Tutu insistiu na necessidade de \u201cperd\u00e3o, mas n\u00e3o de esquecimento\u201d. Para justific\u00e1-lo, lan\u00e7ou m\u00e3o de dois argumentos. Um se baseou em sua j\u00e1 mencionada leitura de esquerda do cristianismo: a necessidade de liberta\u00e7\u00e3o tanto do opressor quanto do oprimido. Outro argumento foi apresentar a justi\u00e7a restaurativa como uma \u201cjurisprud\u00eancia tradicional africana\u201d. Sua preocupa\u00e7\u00e3o n\u00e3o passaria por retribui\u00e7\u00e3o ou puni\u00e7\u00e3o, mas por curar viola\u00e7\u00f5es, corrigir desequil\u00edbrios, restaurar rela\u00e7\u00f5es rompidas. Ela buscaria reabilitar tanto a v\u00edtima quanto o perpetrador, a quem deve ser dada a oportunidade de ser reintegrado \u00e0 comunidade que ele feriu com sua ofensa.<\/p>\n\n\n\n<p>A esta necessidade de reconcilia\u00e7\u00e3o, Tutu conectou sua ideia da \u00c1frica do Sul como a \u201cNa\u00e7\u00e3o Arco-\u00cdris\u201d, proposta associada ao multiculturalismo t\u00e3o em voga naquele momento. Esta ideia de uma na\u00e7\u00e3o que englobaria todas as cores sem necessidade de que elas se dilu\u00edssem assumiu um papel importante na nova identidade nacional, penetrando fundo na autoimagem da \u00c1frica do Sul dos primeiros anos p\u00f3s-apartheid. O pluralismo social e \u00e9tnico herdado pelo pa\u00eds n\u00e3o seria um entrave para seu desenvolvimento, mas sua maior riqueza. Tutu defendia que aquele Estado podia se viabilizar como na\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Formulador do ubuntu<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Outra proposta defendida por Tutu era o ubuntu, do qual se tornou o principal divulgador global \u2013 conectando-o a outros valores que defendeu nas \u00faltimas d\u00e9cadas ao lado de personalidades como o Dalai Lama, como o ecumenismo e a cultura de paz. Ubuntu seria uma forma de garantir a coes\u00e3o de uma sociedade profundamente dividida e desigual, marcada pela viol\u00eancia e pela opress\u00e3o, constituindo-se na possibilidade de conviv\u00eancia dos antigos opressores e oprimidos.<\/p>\n\n\n\n<p>Como dito, se um dos pilares de Tutu era o cristianismo de liberta\u00e7\u00e3o, o outro era a heran\u00e7a africana na qual o ubuntu se insere. Para o arcebispo, ubuntu \u00e9 um elemento central da vis\u00e3o de mundo africana. Nesta concep\u00e7\u00e3o, a vida de todas as pessoas \u00e9 interligada, bem como a humanidade se integra \u00e0 natureza e cada gera\u00e7\u00e3o se integra \u00e0s anteriores e \u00e0s que vir\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Tutu definia o conceito atrav\u00e9s do prov\u00e9rbio \u201cuma pessoa \u00e9 uma pessoa atrav\u00e9s de outras pessoas\u201d. Para ele, \u201cuma pessoa com ubuntu se afirma pelos outros, n\u00e3o se sente amea\u00e7ada se os outros s\u00e3o capazes e bons; ela tem uma garantia que vem de saber que ela pertence a um todo maior e \u00e9 diminu\u00edda quando outros s\u00e3o humilhados ou diminu\u00eddos, quando outros s\u00e3o torturados ou oprimidos, ou tratados como se fossem menos do que s\u00e3o. O que desumaniza voc\u00ea inexoravelmente me desumaniza\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Tutu entendia ubuntu tamb\u00e9m como express\u00e3o de uma nostalgia universal por um para\u00edso perdido, originada na nossa expuls\u00e3o do Jardim do \u00c9den. Se a humanidade vivencia um processo centr\u00edfugo de aliena\u00e7\u00e3o, haveria em contrapartida uma divina for\u00e7a centr\u00edpeta que impele \u00e0 comunidade, \u00e0 reconcilia\u00e7\u00e3o, \u00e0 justi\u00e7a, que viria desde o \u201cprinc\u00edpio dos tempos\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Tutu levou o ubuntu para o mundo, contribuindo para sua transforma\u00e7\u00e3o num conceito da moda. Ubuntu inspirou sistema computacional, literatura de autoajuda, pr\u00e1tica de coaching e li\u00e7\u00f5es de empreendedorismo. Ali\u00e1s, nisto se aproxima de outro conceito original do Sul Global, o \u201cbem viver\u201d latino-americano. Mas, para al\u00e9m de estranhas reapropria\u00e7\u00f5es, o sucesso global do ubuntu \u00e9 mais um indicativo da import\u00e2ncia do pensamento de Tutu para a contemporaneidade.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Apesar das ra\u00edzes africanas de muitos latino-americanos, o interesse pela \u00c1frica \u00e9 m\u00ednimo, mesmo no Brasil, que tem a maior popula\u00e7\u00e3o com ra\u00edzes negras-africanas fora do continente. <\/p>\n","protected":false},"author":142,"featured_media":9060,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"episode_type":"","audio_file":"","cover_image":"","cover_image_id":"","duration":"","filesize":"","filesize_raw":"","date_recorded":"","explicit":"","block":"","itunes_episode_number":"","itunes_title":"","itunes_season_number":"","itunes_episode_type":"","footnotes":""},"categories":[16934,16934,16762,16762,16957,16957,546],"tags":[],"gps":[],"class_list":{"0":"post-9063","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-africa-pt-br","9":"category-relaiciones-internacionales-pt-br","11":"category-sur-global-pt-br","13":"category-sociedad-br"},"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9063","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/142"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=9063"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9063\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/9060"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=9063"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=9063"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=9063"},{"taxonomy":"gps","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/gps?post=9063"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}